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Atualmente, mais do que nunca, museus são espaços para todos os públicos, independentemente de suas habilidades. Assim, a partir da perspectiva da filosofia da linguagem, as exposições são concebidas como eventos comunicativos complexos que disseminam um tipo de conhecimento especializado por meio de diferentes canais e modos semióticos (Soler 2012). As exposições são geralmente criadas com objetos visuais, ou seja, objetos cuja percepção requer o sentido da visão; o que significa que uma parcela significativa de indivíduos não consegue acessar os objetos exibidos. A audiodescrição museológica (ADM) surge como resposta à crescente demanda por inclusão social frente à desigualdade. A Nova Museologia e a Museologia Crítica (Marstine 2006; Hooper-Greenhill 2007) refletiram essa tendência ao centrar seus interesses na captação de públicos diversos. A ADM é hoje um trabalho conjunto de arte-educadores, museólogos e museógrafos, divulgadores, tradutores e intérpretes.
Para além dessa função de disseminação, a ADM é o resultado de um processo de tradução intersemiótica no qual imagens são traduzidas em palavras. O resultado pode ser um audioguia (AG) ou uma visita guiada com audiodescrição, dependendo se a ADM é pré-gravada ou ao vivo. Os AGs (ADMs pré-gravadas) são disponibilizados aos usuários em aparelhos portáteis, nos sites dos museus ou em aplicativos que podem ser baixados pelos visitantes em seus aparelhos eletrônicos. Nas visitas guiadas com audiodescrição, por sua vez, as quais são agendadas regularmente pelo departamento de educação ou de acessibilidade, arte-educadores ou tradutores audiodescrevem uma seleção de objetos, escolhidos em conjunto com a equipe do museu em função de sua representatividade ou interesse (Hutchinson & Eardley 2019: 46).
A ADM é mais comumente encontrada em museus de arte, embora esteja se disseminando para outros tipos de museus, como os de ciência, história e arqueologia. Os roteiros combinam a audiodescrição (AD) dos elementos visuais do museu com a do contexto físico geral (o edifício), o microcontexto físico (a sala e a disposição do espaço expositivo onde a peça descrita é exibida), bem como outros componentes da exposição (gráficos, diagramas, fotografias etc.). Todos esses elementos fazem parte do cerne da ADM: a descrição de um objeto, geralmente artístico.
Desde a década de 1990, uma série de diretrizes foram elaboradas para guiar o trabalho de audiodescrição em museus. Na Espanha, a norma UNE 153020:2005 estabelece os requisitos que devem ser seguidos por AGs em sua seção “Audioguías adaptadas” (10-12). Esses requisitos apresentam as informações adicionais que devem ser incluídas (sinalização, serviços do museu etc.), mas abordam de forma muito sucinta o conteúdo estritamente audiodescritivo, sem se aprofundar em detalhes sobre como uma ADM deve ser estruturada. Além disso, quase não há especificação de recursos linguísticos ou estratégias discursivas eficazes a serem usadas para audiodescrever os diversos tipos de objetos museológicos, os elementos visuais que compõem as peças etc. Essa abordagem contrasta com as recomendações da organização estadunidense Art Beyond Sight (Salzhauer, Hooper, Kardoulias et al. 1996), baseadas na experiência de arte-educadores. Nesse caso, as recomendações fornecem um quadro de referência mais abrangente e ilustram as diretrizes com exemplos de trechos de audioguias. No entanto, elas compartilham com a norma UNE a limitação de omitir as particularidades da ADM que é feita ao vivo.
As estratégias de uma ADM pré-gravada e de uma ao vivo diferem em suas macro e microestruturas retóricas. As ADMs pré-gravadas descrevem diretamente o objeto artístico e o contextualizam. Visitas guiadas, por outro lado, costumam enriquecer a ADM com outras estratégias discursivas. Embora ambos os tipos combinem descrição com argumentação e até narração, a ADM ao vivo introduz estruturas fáticas ou atos de fala como ferramenta para estimular a participação dos visitantes e, em algumas ocasiões, para orientar a exploração tátil do próprio objeto audiodescrito ou de uma réplica. Essas estratégias contribuem para uma lembrança mais vívida, favorecem a criação de imagens mentais e estimulam os visitantes a vincular o objeto audiodescrito a suas próprias experiências. O objetivo é criar uma experiência museológica memorável que transcenda a mera transmissão de conhecimentos.
A criação de uma ADM segue o caminho prototípico do processo tradutório. A análise do objeto é de fundamental importância e requer um processo exaustivo de documentação, no qual se costuma trabalhar lado a lado com especialistas (curadores, chefes dos departamentos de educação ou de acessibilidade) que fornecem o material. Os objetos audiodescritos podem ser representações bidimensionais (por exemplo telas, gravuras ou desenhos) ou tridimensionais (instalações, esculturas ou elementos arquitetônicos).
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| Link 1. Audiodescrição e exploração tátil no Museo Sorolla. |
O objeto se caracteriza como “un discurso visual motivado por una intención comunicativa concreta y creado a partir de unos elementos visuales básicos” [um discurso visual motivado por uma intenção comunicativa concreta e criado a partir de elementos visuais básicos] (Soler 2013: 68). De acordo com Dondis (2006) e Fichnner Rathus (2011), esses elementos visuais ou atributos básicos são ponto, linha, forma, direção, tom, cor, textura, dimensão, escala e movimento; aos quais alguns autores acrescentam valor, espaço e tempo. Partindo de uma perspectiva neurocientífica, os atributos de cor, forma, profundidade e movimento são os primeiros a serem percebidos pelo cérebro (Chica 2013). Em obras pictóricas, arquitetônicas ou escultóricas, o audiodescritor deve agregar o conhecimento desses componentes básicos ao conhecimento das técnicas da corrente artística na qual o objeto museológico está inscrito.
Em sua tradução, o audiodescritor reflete a natureza, a estrutura semiótica e a função do objeto. Normalmente, recomenda-se que a audiodescrição não exceda três minutos de duração para que a atenção do ouvinte não seja perdida (Fryer in Hutchinson & Eardley 2019: 45). Por esse motivo, audiodescrever implica a seleção de elementos (morfológicos, semânticos ou discursivos) que possibilitem aos usuários criar uma imagem, representação ou simulação mental adequada, isto é, o mais próxima possível do objeto audiodescrito em uma construção de significado dinâmica e corporificada (Martín 2017: 121).
O audiodescritor deve adotar princípios de organização e percepção textual, isto é, apresentar elementos espaciais e temporais de forma organizada, guiado por padrões que variam de acordo com as características do objeto, como a bi ou tridimensionalidade, o maior ou menor grau de abstração etc. Além disso, ele deve considerar se a ADM virá acompanhada de exploração tátil do objeto museológico. Se esse for o caso, a ADM deve incluir as indicações necessárias para que pessoas cegas ou com baixa visão possam seguir o percurso tátil com sucesso. Por exemplo, o percurso deve ser estruturado de forma que a informação háptica da peça possa ser assimilada progressivamente, indicando ao usuário a que corresponde cada uma das texturas ou formas etc.
Em outros contextos, a ADM intercala música e outros sons, como no caso do soundpainting (Neves 2012), que brinca com a musicalidade da voz combinada à música e aos efeitos sonoros para criar uma ADM evocativa (ver Link 2). Além disso, os museus estão cada vez mais incluindo outros materiais multissensoriais em suas visitas guiadas, como cheiros e sabores, para completar a experiência artística.
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| Link 2. AD por Claire Bartoli, poetisa francesa. |
A partir da perspectiva da análise do discurso, a ADM tem uma estrutura retórica que reflete a situação comunicativa, ou seja, uma visita guiada a uma exposição. A informação contextual inicial geralmente inclui o ato de fala de dar boas-vindas ao visitante, oferecendo informações gerais sobre o museu e descrevendo a exposição, a localização da sala, a rota até os objetos audiodescritos e os elementos que os rodeiam. Em linhas gerais, estas são as fases:
- Boas-vindas e introdução à visitação e ao museu;
- AD do edifício;
- AD da sala;
- Introdução ao contexto sociocultural;
- AD do objeto;
- Comentários dos visitantes (se a ADM for ao vivo);
- Exploração de materiais táteis com instruções verbais, se houver;
- Feedback dos visitantes (se a ADM for ao vivo);
- Despedida
A descrição detalha a estrutura visual dos objetos descritos. Por exemplo, a AD da obra “Condessa de Colomera”, de Julio Romero de Torres, enfatiza a descrição de elementos morfológicos, como linhas, pontos, cores, fundos (vestido cinza-prateado); elementos semânticos, como tipos de objetos, personagens, paisagens (decote redondo e alças largas); e elementos narrativos, como ações, perspectivas e relações entre objetos (das alças, uma longa e majestosa capa de rainha em tons de roxo emerge). Trata-se de um mergulho profundo no processo de tradução intersemiótica [tradução nossa]:
Em sua cabeça, ela usa uma magnífica coroa prata que cobre toda a sua testa. Ela traja um elegante vestido cinza-prateado sem mangas, com decote redondo e alças largas, meias brancas transparentes e sapatos de baile. Das alças, uma longa e majestosa capa de rainha em tons de roxo emerge, dobrada e estendida no chão à sua frente.
Além disso, como podemos observar no exemplo a seguir (Antenna Audio & Snyder [s. d.]), elementos como o material (mármore), as dimensões (tamanho real) e a composição geral da obra, que engloba a técnica (esculturas autônomas) e a disposição no espaço (na extrema esquerda), são descritos.
Um conjunto de esculturas autônomas em mármore em tamanho real de três deusas mitológicas criadas por um único escultor.
JUNO (na extrema esquerda)
Joseph Nollekens. 1776. Mármore, 1,39m.
A deusa está de pé, ereta, sobre um pedestal na altura da cintura. Tem uma coroa na cabeça, que está ligeiramente inclinada para trás, com um ar de nobreza. Olhando em direção a seu ombro esquerdo, ela segura, com as duas mãos, logo abaixo da cintura, as dobras de suas vestes grossas e estende seus braços para a direita, enquanto desamarra o vestido. Embora ainda vestida, seu seio direito está exposto [tradução nossa].
Na ADM, a descrição pode incluir elementos subjetivos e interpretativos (Praxedes & Magalhães 2013; Soler & Luque 2018; Luque & Soler 2020). Isso pode ser alcançado, por exemplo, por meio de linguagem figurada ou de adjetivos que denotem a interpretação do audiodescritor.
Metáforas podem ser usadas para transmitir elementos de diversos tipos, como forma, tamanho e aparência geral, como nesta AD da obra “Toro” de Pablo Picasso (Luque 2020):
Na cabeça, uma sobreposição do olho esquerdo, alongado e com ares gregos ou egípcios; o nariz, uma mera linha reta vertical; e o olho direito, representado em nosso plano de forma impossível como um sinal de “menor que”, como um bico aberto, evoca prontamente as máscaras africanas ou ibéricas que tanto impressionavam Picasso e que ele utilizou tão profusamente em suas figuras humanas e de animais. A orelha direita é uma cavidade arredonda dividida por uma linha. Os chifres, como meias-luas siamesas onduladas, erguem-se altos e brancos sobre a cabeça [tradução nossa].
Por meio de uma série de comparações com elementos familiares, a cabeça do touro pode ser interpretada e descrita de uma forma singular que aproxima o discurso da inspiração cubista da obra.
A ADM é concebida como uma modalidade de tradução intersemiótica. Além disso, ela fomenta a inclusão não só de pessoas cegas ou com baixa visão, mas também de qualquer visitante, em especial quando complementada com recursos multissensoriais (Eardley, Fryer, Hutchinson et al. 2017).
A pesquisa em ADM, sua composição léxico-semântica, sintática e pragmática, se concentra em práticas audiodescritivas no domínio anglo-saxão, com estudos de corpus sobre suas características macro e microtextuais (i.e., Soler & Jiménez 2013; Perego 2019) e a presença de linguagem figurada (Luque & Soler 2018; Spinzi 2019). Diferentes tipos de ADM coexistem em termos de estrutura retórica (maior ou menor preponderância da função descritiva em oposição à contextualização sociocultural), de montante de informação (mais longa ou mais curta), de dificuldade sintática e terminológica do texto ou de nível de subjetividade (mais interpretativa ou mais objetiva).
Estudos de recepção com participantes cegos ou com baixa visão também foram realizados para descobrir qual seria a extensão ideal (Szarkowska, Jankowska, Krejtz et al. 2016) ou o nível de detalhamento (Barnés-Castaño & Jiménez, 2020) na AD de obras de arte, bem como quais seriam as melhores estratégias discursivas para guiar a exploração tátil de diagramas e réplicas (Cabezas 2017). Contudo, a possibilidade de generalização desses resultados é limitada, dada a dificuldade de obter um número mais significativo de participantes com deficiência visual.
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| Link 3. CITRA (Cultura Inclusiva Através da Tradução) Projeto de vídeo. |
A maioria dos estudos de corpus e de recepção tem focado em audioguias de museu de arte. Ainda é preciso analisar, por exemplo, como o conhecimento especializado é apresentado em audioguias de museus de ciência e de antropologia. Além disso, as estratégias discursivas de visitas guiadas com audiodescrição e sua efetividade merecem mais estudos.
A incorporação progressiva da AD nos currículos de graduação e pós-graduação em Tradução e Interpretação também aumentou o interesse nos desafios do ensino da tradução intersemiótica (Mendoza & Matamala 2019). Na ADM, tem-se explorado como a abordagem construtivista pode fomentar as competências necessárias para enfrentar o processo de criação de um roteiro de audiodescrição bem sucedido (ver Link 3).
Ainda que a ADM esteja em crescimento, ela requer maiores esforços de pesquisa sob variados prismas e metodologias. Futuros estudos de corpus ajudarão a obter uma imagem mais clara de sua macro e microestrutura em diferentes línguas e contextos museológicos, enquanto estudos de recepção contribuirão para elucidar até que ponto a ADM oferece a possibilidade de que todos os cidadãos conheçam e desfrutem do patrimônio abrigado em nossos museus de maneira igualitária.


