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Introdução | amanhecer da tradução no Canadá (1534-1759) | tradução após a conquista (1760-1867) | Confederação e o nascimento de uma nação (de 1867 até hoje) | Para além do bilinguismo: a diversidade linguística no Canadá | A população nativa do Canadá | A tradução literária |  tradução automática | O  nascimento de uma disciplina | Potencial de pesquisa

 

Introduction  Introdução

A história da tradução no Canadá tem uma origem distante e já foi objeto de estudos no passado. Colonizado primeiramente pela França, depois pela Inglaterra, o país se tornou oficialmente bilíngue, situação que engendrou um campo linguístico robusto — que conta com um número significativo de tradutores, intérpretes, terminólogos e outros profissionais da linguagem —, assim como associações profissionais, programas de formação em tradução e um vasto conjunto de saberes em Estudos da Tradução. Todos os progressos alcançados e as conquistas reconhecidas mundialmente nessa área fizeram com que o Canadá fosse considerado por alguns como o “paraíso” e a “terra prometida” dos tradutores (Delisle 1998: 360-361).

Map of Canada
Canadá, um território imenso [Fonte]

Nas últimas décadas, o mundo passou por grandes mudanças. Diversos incidentes planetários provocaram ondas migratórias para o Canadá, que ultrapassou seu status estritamente bilíngue para se transformar em uma sociedade plural. Além disso, o reconhecimento crescente dos povos autóctones, cujas culturas e línguas foram historicamente reprimidas de forma impudente, ensejou um processo de reconciliação e revitalização das línguas autóctones. Nesse contexto de mudança, a prática e a teoria da tradução também continuam a evoluir. Este verbete destaca os diferentes eventos, tanto em escala local como mundial, que tiveram influência nas relações entre as comunidades linguísticas em nosso país. Ele trata, em especial, da emergência e do desenvolvimento da prática da tradução, assim como da contribuição do Canadá para uma melhor compreensão das múltiplas facetas da tradução em todas as suas formas

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[heading title] O amanhecer da tradução no Canadá (1534-1759)

As pesquisas acadêmicas realizadas até o momento geralmente associam o surgimento da tradução no Canadá ao início da colonização francesa e inglesa. Segundo Jean Delisle, a história da tradução teria começado com um sequestro por ocasião do primeiro encontro entre os europeus e os povos autóctones (1998: 35).

No entanto, hoje sabemos que os povos originários, poliglotas e aptos a se comunicarem entre si, já constituíam uma civilização rica antes da chegada dos europeus. De fato, os povos autóctones do leste do Canadá eram nômades que se reuniam, sobretudo no verão, próximo aos cursos d’água, da costa do Atlântico até os Grandes Lagos, para caçar, pescar e compartilhar refeições, trocando ao mesmo tempo saberes e bens. Para facilitar esses intercâmbios durante essas reuniões, os diferentes grupos entravam em acordo mútuo para adotar membros de outras nações, a fim de que servissem de intérpretes e de intermediários culturais. Os missionários europeus que chegaram no território a partir do século XVII registraram as práticas nômades dos primeiros povos da América do Norte, principalmente nos relatos que enviaram ao Velho Continente. Alguns desses testemunhos puderam ser corroborados graças a pesquisas arqueológicas, como as escavações do rio Saint-Laurent em Côte-Nord, que levaram à descoberta de artefatos fabricados a partir de mais de vinte tipos de pedras provenientes de diferentes regiões. Ninguém tem dúvida de que as relações interculturais e, consequentemente, a tradução e a interpretação, remontam a muito antes da chegada dos colonizadores ao Canadá (Bouchard e Lévesque 2017: 126-129). A história da tradução e da interpretação anterior à colonização precisa ser estudada de maneira mais aprofundada, assim como o papel da tradução na colonização, que deve ser reexaminado à luz das pesquisas em curso.

Cartier
Um encontro entre Jacques Cartier e os povos originários em 1535, ilustrado por Napoléon Sarony [Fonte]

Nos registros que chegaram até nós, os europeus conservam as evidências dos primeiros casos de tradução e de interpretação. O sequestro ao qual Jean Delisle faz referência ocorreu em 1534, quando o explorador francês Jacques Cartier se encontrou com povos originários e voltou para a França com os dois filhos de um líder iroquês, Dom Agaya e Taignoagny. Após esse evento, que é coerente com os incidentes violentos que caracterizam a colonização em toda a América, os dois jovens iroqueses foram apresentados ao rei da França e receberam aulas de francês, a fim de se tornarem intérpretes e servirem de guias para Cartier em suas próximas viagens. Contudo, foi um outro explorador francês, Samuel de Champlain, que fundou em 1608 a primeira colônia permanente no Canadá, a qual viria a se tornar a cidade do Quebec. Com a intenção de ajudar a França a realizar suas ambições ligadas à exploração e ao comércio, Champlain teve a ideia de enviar jovens franceses para viver entre os povos originários para que eles aprendessem suas línguas e costumes, e se tornassem, assim, “intérpretes-residentes”. Os tradutores e intérpretes trabalharam a serviço da França e, mais tarde, da Inglaterra, em três frentes: a colonização, o comércio e a evangelização.

As rivalidades entre França e Inglaterra levaram à Guerra dos Sete Anos, durante a qual os dois impérios disputaram o título de pátria-mãe do Canadá. O destino desse conflito foi decidido no Quebec, em 1759, quando as tropas do general britânico James Wolfe venceram a Batalha das Planícies de Abraão, também conhecida como Batalha do Quebec, contra as guarnições francesas do Marquês de Montcalm e os povos originários a ele aliados. A guerra tem fim em 1763 com o Tratado de Paris, que cede as colônias da América do Norte à Inglaterra.

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[heading title] A tradução após a conquista (1760-1867)

Antes de tudo, é preciso dizer que a dominação britânica do território não significa o apagamento da língua e da cultura francesas na América do Norte. Ainda que encontrem alguns obstáculos, os canadenses franceses podem conservar sua língua, religião (católica) e sistema jurídico (o Código Civil, mais tarde denominado Código Napoleão), o que não ocorre na Irlanda, no País de Gales e na Escócia, que formarão mais tarde o Reino Unido.

Desde o início do regime britânico, os tradutores têm como missão tornar os documentos acessíveis aos dois grupos linguísticos. Durante o regime militar (1760-1764), secretários-tradutores são encarregados de traduzir para o francês as normas publicadas em inglês (Delisle 1998: 363). Nos anos seguintes, as leis adotadas sob o regime francês são, por sua vez, traduzidas para o inglês. Essas práticas estabelecem um modelo de bilinguismo que é reproduzido no regime parlamentar quando da sua implementação em 1791: as atividades do Parlamento ocorrem em inglês, mas o francês é tolerado como “língua de tradução” (Delisle 1998: 364).

Alguns incidentes rebaixaram evidentemente o status do francês no Canadá, em especial a chegada de Lord Durham pouco depois das rebeliões de 1837 e 1838, as quais surgiram de um desejo por reforma política. Em seu célebre relatório publicado em 1839, Durham constata a presença de “duas nações em guerra dentro de um mesmo Estado”. Esse relatório, enviesado pela opinião profundamente desfavorável de Durham sobre os francófonos, recomenda a unificação do Alto-Canadá e do Baixo-Canadá, assim como a assimilação da população francófona, o que não a deixa indiferente (Mills 2006). Um pouco depois, Étienne Parent, tradutor legislativo e deputado francófono da Assembleia Legislativa da recém-formada província do Canadá, propõe um projeto de lei para a tradução das leis para o francês, que se torna “o primeiro e único projeto de lei da história do Quebec a tratar essencialmente sobre a tradução” (McKenzie 2009: 38). Essa iniciativa estabelece as bases de uma tradição de tradução em escala nacional.

Missionários e "o homem que faz a casca da bétula falar"

Enquanto, no leste do Canadá, os esforços são direcionados para a criação de um governo e outras instituições, nas regiões menos desenvolvidas — onde os tradutores e intérpretes ainda trabalham como intermediários culturais —, o comércio, a colonização e evangelização continuam sendo os principais objetivos da tradução.

Da costa do Atlântico ao oeste canadense, todos os missionários presentes no território — tanto católicos como protestantes, francófonos como anglófonos — têm um papel crucial no processo de colonização. Sua “missão”, para retomar uma terminologia obsoleta que evidencia a mentalidade da época, é “salvar as almas” dos autóctones, que eles consideram como “selvagens”.

Ainda assim, muitos missionários tentaram aprender línguas autóctones, criando glossários e gramáticas, traduzindo textos, na maioria das vezes de natureza religiosa, para as línguas faladas no território. Alguns foram mais longe, como o linguista e pastor Silas Rand (1810-1889) que, com a ajuda da nação micmaque do leste do Canadá, documentou por escrito e traduziu para o inglês lendas locais que circulavam oralmente.

Um outro missionário influente foi James Evans (1801-1846), que passou metade de sua vida junto às Primeiras Nações do Canadá. Sua história foi submetida a diversas reinterpretações, o que torna seu caso ainda mais interessante.

Evans' script
James Evans James Evans ensinando seus caracteres silábicos e um exemplo de alfabeto inspirado em seus silabários [Fonte 1 & Fonte 2]

Nascido na Inglaterra, Evans emigra para o Canadá em 1822 e se dedica à carreira de professor antes de se tornar missionário. Ele consegue aprender o ojibwe, língua que, como tantas outras línguas autóctones à época, era transmitida apenas por via oral. Em seguida, Evans se muda para Norway House, no norte de Manitoba, acompanhado de Peter Jacobs (OJ Pahtahsega) e Henry Bird Steinhauer (Sowengisik), dois linguistas ojibwes que serão mais tarde ordenados padres (Strong 2020: n.p.). O objetivo de Evans é traduzir textos religiosos para o cri, a fim de ensinar os cris dessa região do Manitoba a ler sua própria língua e, consequentemente, convertê-los para a religião cristã. Ele elabora um sistema de escrita silábica chamado “silabário”, constituído por um conjunto de caracteres muito fáceis e rápidos de serem aprendidos. Como não tem acesso a papel, Evans decide inscrever os símbolos de seu silabário na casca de bétula, o que lhe rende a alcunha de “o homem que faz a casca da bétula falar”. Utilizando tinta, caracteres móveis e uma prensa fabricada com os materiais à sua disposição, Evans consegue “publicar” em 1841 um livro de hinos cristãos de umas vinte páginas. O alfabeto concebido por Evans serviu para outras comunidades das Primeiras Nações e foi adaptado para a língua dos povos inuítes do Norte do Canadá. Algumas versões desse alfabeto são utilizadas ainda hoje.

A contribuição de James Evans e de outros missionários para a alfabetização das populações locais, assim como para a sobrevivência e vitalidade das línguas autóctones é não só incontestável, como também problemática no contexto atual. Nos últimos anos, ao passo que a atenção se voltou para as consequências duradouras e devastadoras dos internatos para nativos (como veremos mais adiante), os comportamentos e as ações da Igreja e do governo canadense foram denunciados.

Além disso, alguns especialistas antóctones propuseram novas hipóteses sobre a maneira de interpretar a história de Evans. Segundo uma pesquisa da Canadian Broadcasting Corporation (CBC) que se debruçou sobre as origens do alfabeto silábico, é possível que os missionários tenham aprendido o alfabeto silábico cri dos próprios cris. O jornalista Walter Strong (2000) cita inclusive um artigo de Winona Wheeler, professora de estudos autóctones na Universidade de Saskatchewan, que define a consagração de Evans como inventor dos símbolos silábicos cris como um “grande mito canadense”, o qual perdura em razão da inexistência de questionamento das interpretações históricas dos povos colonizadores: “Few question colonialist/conqueror renditions of the past and even fewer bothered asking Cree people directly about the origins of their writing system” (Strong 2000: n.p.). Do ponto de vista dos cris, eles teriam mais provavelmente recebido o alfabeto diretamente de um membro de sua nação. A pesquisa da CBC menciona em especial Wes FineDay da Primeira Nação Sweetgrass em Saskatchewan, defensor de uma das interpretações da origem dos caracteres silábicos segundo a qual Mistanâkôwêw, também conhecido como Calling Badger, teria recebido o sistema de escrita no mundo dos espíritos. Quando o jornalista da CBC o questionou para saber se essa história deveria ser interpretada de modo metafórico ou literal, Wes FineDay respondeu que a função das histórias sagradas não é necessariamente fornecer respostas, mas apenas indicar linhas de interpretação: “The sacred stories…are not designed necessarily to provide answers but merely to begin to point out directions that can be taken” (Strong 2000, n.p.).

A história deve ser revisitada continuamente. O caso de James Evans, por exemplo, relatado no capítulo sobre os inventores de alfabetos em Os Tradutores na História, foi modificado na edição de 2014, a fim de atualizar a terminologia e levar em consideração essas novas realidades (Delisle e Woodsworth 2014: 17-22). No entanto, muito trabalho ainda precisa ser feito nas relações entre nativos e não nativos, para dar lugar às outras fontes de conhecimentos e assegurar que todas as partes envolvidas sejam ouvidas.

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[heading title] A Confederação e o nascimento de uma nação (de 1867 até hoje) 

Em 1867, a Confederação unifica as três colônias — Canadá, Nova Escócia e Nova Brunswick — formando o Domínio do Canadá, graças ao Ato da América do Norte Britânica. Essa lei reinstaura os direitos linguísticos das duas “nações fundadoras” desse novo país, além de colocar o francês e o inglês em pé de igualdade no Parlamento e nos tribunais. A partir desse momento, a necessidade de tradução e de interpretação continuará aumentando nos campos administrativo, jurídico, comercial e técnico.

Durante um certo tempo, os tradutores são empregados por diversas organizações governamentais, principalmente em Ottawa, a capital nacional. Um grupo restrito de tradutores é designado para a tradução dos debates parlamentares, enquanto outros trabalham para diferentes ministérios. Em 1934, uma nova lei que propõe a centralização dos serviços linguísticos por intermédio do Bureau de la traduction [Departamento da Tradução] entra em vigor. Esse projeto logra um sucesso indiscutível, a despeito das críticas formuladas à época, em especial ao fato de ser uma iniciativa de um governo conservador e ser percebida como uma ameaça à autonomia dos tradutores (Méléka 1977). A função pública emprega então 91 tradutores. Porém, no decorrer dos anos, aproximadamente 2.000 tradutores, intérpretes, terminólogos e auxiliares se juntam ao quadro do Bureau, a fim de atender à demanda crescente por seus serviços.

Nos anos 1950, a interpretação simultânea é introduzida no Parlamento canadense, em meio ao turbilhão de eventos importantes que abalam a cena internacional. Na realidade, após uma série de experiências nos anos 1930, o primeiríssimo sistema de interpretação simultânea é utilizado por ocasião do processo de Nuremberg (1945-1946). Esse progresso foi possível graças ao trabalho de um canadense, o engenheiro eletro-acústico e ex-piloto da Royal Air Force, Antoine (Tony) Pilon (Delisle e Wordsworth 2014: 276, 318). Além disso, o surgimento da interpretação simultânea coincide com a criação das Nações Unidas — que fazem bom uso dessa tecnologia — e com a fundação em 1953, em Paris, da Association internationale des interprètes de conférence (AIIC) [Associação Internacional de Intérpretes de Conferência]. Esses avanços no âmbito internacional incitam, por sua vez, Ottawa a se modernizar e, em 1959, a “tradução instantânea” é introduzida na Câmara dos Comuns (Delisle 2009). Após, a profissão de intérprete ganhou importância no Canadá, não apenas em contextos políticos, mas também em conferências de todo tipo.

Em 1969, a Loi sur les langues officielles [Lei sobre as línguas oficiais] é adotada pelo governo de Pierre-Elliott Trudeau, a partir da recomendação da Commission royale d’enquête sur le bilinguisme et le biculturalisme [Comissão real de pesquisa sobre o bilinguismo e o biculturalismo] do primeiro-ministro Lester B. Pearson. O objetivo dessa lei é tornar uma vasta gama de serviços e documentos governamentais acessível nas duas línguas oficiais, conferindo assim ao inglês e ao francês um status igualitário. Na prática, entretanto, o francês é frequentemente relegado a uma categoria de menor importância, pois os francófonos são visivelmente minoritários. Ademais, as estatísticas linguísticas demonstram que o inglês é a principal língua de trabalho no país e que a tradução é feita essencialmente para o francês, por vezes por mera formalidade.

Na esteira do aniversário de cinquenta anos do bilinguismo oficial, o espírito da Lei sobre as línguas oficiais e seus resultados foram reavaliados. Alguns pesquisadores descreveram o bilinguismo oficial como uma “ficção” ou um “mito” que servia para projetar uma imagem idealizada do Canadá como uma nação engajada em estabelecer uma “justiça tradutória” (“translational justice”) e em “construir pontes culturais” (“cultural bridge-building”, Lane-Mercier 2018). Eles constataram, por exemplo, que a dualidade ou dicotomia linguística é marcada por um desequilíbrio que coloca o Canadá em uma posição de ambiguidade. No Quebec em particular, a noção de dualidade linguística foi fortemente contestada pela população em um contexto de afirmação identitária.

Após um período histórico conhecido como Grande Noirceur [A grande escuridão], o Quebec dá início à Revolução Tranquila, em consonância com movimentos de reivindicação similares no mundo. Os anos 1960 veem efetivamente o surgimento de muitos movimentos ligados à decolonização, aos direitos civis e à contracultura, que visam a mudar as mentalidades e os sistemas políticos. A eleição de 1976 é especialmente marcante, visto que coloca no poder um partido separatista favorável à independência do Quebec, o Parti Québécois [Partido Quebequense]. De um ponto de vista linguístico, entretanto, o momento crucial desse período ocorreu em 1977 com a adoção da Charte de la langue française [Carta da língua francesa], que tornou o francês a única língua oficial do Quebec. Em razão disso, novas regulamentações entram em vigor para assegurar a preponderância da língua francesa, algumas das quais visando afrancesar o mundo dos negócios. Novas perspectivas profissionais surgem no campo da Terminologia, disciplina em que grandes esforços são realizados para criar e normalizar termos franceses em uma grande variedade de áreas, do vocabulário do beisebol ao das finanças. Inúmeros léxicos e glossários especializados também são publicados, assumindo eventualmente a forma de banco de dados terminológicos informatizados. É também nesse período que o Bureau de la traduction cria seu banco terminológico TERMIUM e que o governo quebequense funda de uma só vez o Office québécois de la langue française [Gabinete Quebequense da Língua Francesa] e o Banque de terminologie du Québec (BTQ) [Banco de Terminologia do Quebec].

No Canadá, a profissão de tradutor se integra a um quadro profissional bastante estruturado que, como todas as outras áreas de atuação, está subordinado à jurisdição provincial. Encontram-se associações de tradutores na maior parte das províncias, sobretudo na Colúmbia Britânica e Nova Brunswick. Porém, as instituições mais importantes são sem dúvida a Ordre des traducteurs, terminologues et interprètes agréés du Québec (OTTIAQ) [Ordem dos Tradutores, Terminólogos e Intérpretes Acreditados do Quebec] e a Association des traducteurs et interprètes de l’Ontario (ATIO) [Associação dos Tradutores e Intérpretes de Ontário]. Entre essas associações provinciais, sete são membros do Conseil des traducteurs, terminologues et interprètes du Canada (CTTIC) [Conselho de Tradutores, Terminólogos e Intérpretes do Canadá]. A OTTIAQ é um de seus membros fundadores, mas se retirou em 2012. Todas essas organizações têm por objetivo oferecer a seus membros um apoio à formação, assim como serviços de proteção ao público. Por meio de um rigoroso processo de acreditação, elas também asseguram a conformidade com as normas profissionais e mantêm altos padrões de qualidade em tradução, interpretação e terminologia.

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[heading title]Para além do bilinguismo: a diversidade linguística no Canadá

Os movimentos migratórios — acelerados por diferentes fatores econômicos, políticos e religiosos — transformaram profundamente a paisagem linguística do Canadá. Até a metade do século XX, os imigrantes europeus falam diversas línguas além das duas oficiais, como o alemão, o italiano e o ucraniano. No começo desse mesmo século, a chegada a Montreal de uma onda de imigrantes judeus do Império Russo promove a criação de uma terceira cultura, na medida em que os recém-chegados conquistam um lugar para si entre a maioria francófona e a elite econômica anglófona. O iídiche se torna, assim, a terceira língua mais falada em Montreal depois do francês e do inglês (Anctil 2021: 69). Pouco a pouco, jornais, memórias e diversos textos literários começam a ser publicados em iídiche, sendo alguns traduzidos para o inglês e, nos últimos anos, para o francês.

A sociedade canadense se diversifica mais e mais a cada dia. Quase duzentas línguas são faladas no país atualmente, incluindo dezenas de línguas nativas. Hoje em dia, ainda que a maior parte dos imigrantes não provenha mais de países europeus, aproximadamente 25% dos canadenses falam uma outra língua além do inglês e francês. Segundo o mais recente censo realizado (2021), as línguas mais faladas são mandarim, cantonês, panjabi, espanhol, árabe e tagalo. Cada uma delas conta com mais de meio milhão de falantes, um número considerável para um país com pouco mais de 38 milhões de habitantes.

Uma tamanha diversidade tem consequência para o mundo da tradução. Ao longo do tempo, um vasto corpus foi constituído nessas línguas não oficiais, cujos textos são por vezes traduzidos ou autotraduzidos para uma das línguas oficiais. Um exemplo disso é a escritora Felicia Mihali, nascida na Romênia, que publicou sete livros em inglês e em francês. Alguns deles são autotraduções de obras originalmente escritas em romeno. Além da tradução, a interpretação comunitária é exercida comumente, por pessoas sem formação profissional na maior parte das vezes, a fim de oferecer serviços adequados aos recém-chegados, sobretudo nos tribunais, hospitais, organizações comunitárias e audiências de imigração.

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  [heading title] A população nativa do Canadá

Apesar das consequências consideráveis da imigração, a mudança mais importante continua sendo, sem dúvida, o crescente reconhecimento dos direitos das comunidades nativas no Canadá, a exemplo de outros movimentos similares no mundo.

Conforme o censo de 2021, o país conta com quase dois milhões de nativos, que representam, portanto, 5% da população, ao passo que representavam 4,9% em 2016, e 3,8% em 2006. Essa população é composta por três grupos: as Primeiras Nações, que reúnem mais de seiscentas nações com mais de setenta línguas diferentes; os inuítes, que habitam as regiões ao norte do país; e os métis, descendentes de nativos e de colonos franceses e britânicos. O curso da história fez com que, tradicionalmente, essas comunidades vivessem em regiões afastadas, em condições precárias, e enfrentassem problemas de saúde e dificuldades financeiras com frequência.

Map of indigenous Canada
As línguas indigenas no Canadá [Fonte] Berry Picking in the Fall: livro bilíngue inglês-inuctitute [Fonte]

Em 2008, é criada a Comission de vérité et réconciliation (CVR) [Comissão da Verdade e Reconciliação], inspirada pela comissão estabelecida na África do Sul para as vítimas do Apartheid. O objetivo inicial da CVR é dar voz aos sobreviventes dos internatos indígenas, escolas onde, durante 150 anos, jovens nativos foram enviados à força. Uma vez lá, eram obrigados a abandonar suas línguas ancestrais e eram, por vezes, vítimas de violência física e de agressões sexuais. Esses estabelecimentos deixaram uma herança pesada de traumatismos que subsiste ainda hoje. Após o fim de sua vigência, em 2015, a CVR emitiu quase cem recomendações, incluindo projetos visando a favorecer a utilização das línguas nativas e a revitalizar aproximadamente um terço daquelas em vias de desaparecimento. Em 2019, o Parlamento canadense adota a Loi sur les langues autochtones [Lei sobre as línguas nativas], que reconhece os direitos linguísticos dos povos nativos e recomenda a facilitação do seu acesso a serviços de tradução e interpretação.

Essa nova lei abala mais uma vez a concepção do Canadá como uma nação bilíngue, mas sua capacidade de produzir o efeito esperado foi questionada. Alguns a consideram mais como um ideal inalcançável do que como um verdadeiro avanço (Woodsworth 2021: 6). Na realidade, oferecer serviços de tradução e interpretação nas línguas nativas é bem mais complexo do que oferecer esses mesmos serviços em inglês e em francês, visto que há aproximadamente 70 línguas nativas diferentes divididas em 12 grupos linguísticos. Além disso, não é possível traduzir diretamente de uma língua nativa à outra: o processo precisa algumas vezes de uma tradução indireta, passando por uma das duas línguas oficiais. A despeito dessas dificuldades, esforços têm sido feitos para tornar a educação acessível nas línguas nativas e, como consequência, para traduzir o material e os recursos pedagógicos. Também é oferecida formação a tradutores e intérpretes para atender a essas necessidades linguísticas, mas ainda há muito a ser feito.

Ainda hoje, a tradução entre diferentes línguas nativas, assim como a tradução a partir de línguas nativas para uma das duas línguas oficiais e vice-versa, constitui uma prática comum, efetuada idealmente com a permissão e colaboração dos membros das comunidades envolvidas (os mais velhos, na maioria das vezes, são os que ainda falam as línguas ancestrais). Além disso, cada vez mais pesquisadores se interessam pela preservação das línguas nativas e pelas formas de traduções emergentes. Alguns se dedicaram sobretudo à maneira de reforçar essas línguas por meio da educação e da formação adequada de tradutores e intérpretes. Outros, por sua vez, focaram suas pesquisas na transcrição, na tradução e na publicação ética de relatos orais (Cardinal 2007; Henitiuk 2017).

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 [heading title] A  tradução literária

Comparado ao grande volume de traduções de natureza pragmática ou informativa justificado pela existência de duas línguas oficiais, o volume de traduções literárias continua relativamente baixo. O romance Les Anciens Canadiens [Os Antigos Canadenses], de Philippe Aubert de Gaspé père, publicado em 1863, é o primeiro grande romance quebequense a ganhar uma tradução. Ele é traduzido no Canadá, primeiramente por Georgiana Pennée, e retraduzido em 1890, com o título The Canadians of Old, pelo famoso escritor canadense Charles G. D. Roberts. Em Nova York, o romance vende bem e é recebido com entusiasmo. No entanto, durante quase um século, a tradução literária no Canadá será realizada somente de maneira esporádica (Woodsworth 2000: 300).

Canadians of Old

Primeiro grande romance quebequense traduzido

Philip Stratford (1927-1999), conhecido, entre outras coisas, por suas traduções para o inglês das obras da dramaturga acadiana Antonine Maillet e da escritora Marie-Claire Blais, foi um pioneiro da tradução literária. Em um livro publicado em 1977, ele lamenta a escassa bagagem literária do Canadá naquele momento de sua história e afirma que nenhum grande romance havia sido publicado no Canadá antes de 1960 (Stratford 1977). Ele também observa que a maioria dos livros canadenses são publicados e traduzidos no exterior.

Muita coisa mudou desde então. A literatura canadense construiu sua própria identidade e se fez reconhecida como um objeto de estudo digno de interesse nas universidades. Além disso, a tradução de obras literárias canadenses se tornou uma prática cada vez mais frequente e valorizada.

Desde 1972, o governo concede bolsas de tradução por meio do Conseil des arts du Canada [Conselho de Artes do Canadá], um organismo federal independente, que continua fornecendo apoio financeiro a editoras de língua francesa e inglesa para ajudá-las a publicar traduções que, de outra forma, seriam muito caras de produzir. Em 1974, o Conseil des arts [Conselho de Artes] cria o prix du Conseil des arts du Canada [Prêmio do Conselho de Artes do Canadá], um programa que, dois anos depois, se tornará os Prix littéraires du Gouverneur général [Prêmios Literários do Governador Geral]. Obras de diversas categorias literárias são reconhecidas a cada ano, incluindo uma tradução do francês para o inglês, bem como uma tradução do inglês para o francês. Bolsas com um valor atual de 25 mil dólares canadenses (em comparação com o valor inicial de 2,5 mil) também são concedidas aos vencedores. Esse incentivo financeiro permitiu que tradutores se dediquem a textos literários, que, em geral, não são associados a contratos lucrativos. Carinhosamente chamados de Prêmios do GG, eles promovem o reconhecimento da excelência.

Em 1975, por iniciativa de tradutores do calibre de Philip Stratford, foi fundada a Association des traducteurs et traductrices littéraires du Canada (ATTLC)/ Literary Translators’ Association of Canada (LTAC) [Associação de Tradutores e Tradutoras Literários do Canadá]. Sua fundadora é Patricia Claxton (1929-), uma grande tradutora de obras quebequenses de ficção e não ficção, ganhadora de um Prêmio do GG. Atualmente, ela é membro honorário.

Ao longo dos anos, a ATTLC pressionou o governo de diferentes maneiras. Além disso, promove a tradução literária junto ao público e oferece formação e apoio prático aos seus membros em relação a questões contratuais. Ela também apoiou a renovação na tradução ao acolher membros estudantes e criar o Prêmio John Glassco, que reconhece uma primeira tradução literária.

Em uma edição especial da revista Meta, dedicada ao 25º aniversário da ATTLC, Patricia Claxton relembrou os primeiros anos da Associação e explicou, em particular, que, para criá-la, foram consultados grupos de tradutores da França, Reino Unido, Alemanha e Estados Unidos. Um dos principais objetivos da Associação era melhorar a imagem dos tradutores literários junto ao público e à mídia. Uma de suas maiores conquistas, destacada por Claxton, foi a modificação da lei canadense de direitos autorais: a versão alterada, que entrou em vigor em 11 de dezembro de 1987, finalmente deu às traduções o mesmo status das obras literárias. Outra grande conquista, motivo de muito orgulho para a Associação, é a inclusão do nome do tradutor ou tradutora na capa dos livros em muitas editoras. A tradutora ou o tradutor também é mencionado quando uma obra é resenhada, embora isso não seja sistematicamente respeitado (Claxton 2000).

Em 2003, o Centre international de traduction littéraire de Banff (CITLB) [Centro Internacional de Tradução Literária de Banff] é criado, sobretudo graças aos esforços da ATTLC, inspirado no modelo de centros europeus semelhantes, como o Europäische Übersetzer-Kollegium [Colégio Europeu de Tradutores] em Straelen, na Alemanha, e o  Collège International des Traducteurs Littéraires [Colégio Internacional de Tradutores Literários] em Arles, na França.

Hoje em dia, muitos tradutores trabalham na área de tradução literária, mas, apesar dos incentivos financeiros introduzidos recentemente, a maioria deles precisa exercer outra ocupação, como o ensino ou a escrita, para ganhar a vida.

Nos últimos vinte anos, alguns dos maiores nomes da tradução literária vêm se destacando particularmente, sendo a maioria deles autores e autoras. Do lado anglófono, podemos citar: Phyllis Aronoff, Linda Gaboriau, Katia Grubisic, David Homel, Lazer Lederhendler, Rhonda Mullins, Howard Scott e Donald Winkler. Do lado francófono: Paul Gagné, Patricia Godbout, Benoit Léger, Rachel Martinez, Madeleine Stratford e Sophie Voillot. Mais informações sobre cada um desses tradutores estão disponíveis no repositório da ATTLC.

Como a lista de tradutores talentosos deste país é muito longa, pedimos desculpas, desde já, por quaisquer omissões. Para os propósitos desta visão geral da tradução literária no Canadá, duas figuras importantes foram deliberadamente deixadas de fora, porque nos dedicaremos a elas a seguir: Sheila Fischman e Lori Saint-Martin.

Sheila Fischman
Sheila Fischman, grande tradutora do francês para o inglês [Fonte]

Grande nome da tradução literária no Canadá, Sheila Fischman nasceu em 1937 em Moose Jaw, na província do oeste canadense, Saskatchewan. Ela morou em Ontário, onde estudou antes de chegar ao Quebec, mais precisamente na pequena cidade de North Hatley, a cerca de 140 km de Montreal. Fischman então se integrou a uma comunidade dinâmica de intelectuais, escritores e artistas e, como Sherry Simon destaca na introdução de sua obra comemorativa em homenagem à tradutora, ela se envolveu na efervescência da Revolução Tranquila (Simon 2013, xiii).  Embora tenha descoberto a tradução por acaso, Fischman rapidamente adotou a prática como uma ferramenta de ativismo literário e dedicou sua carreira ao seu papel de mediadora cultural.

Para se familiarizar com a língua francesa, Fischman se compromete, inicialmente, a traduzir o romance La guerre, Yes sir!, de Roch Carrier, para o inglês. Sua tradução é publicada em 1970 pela Anansi, editora emergente sediada em Toronto. Posteriormente, Fischman traduz inúmeras obras, contribuindo para a difusão da literatura franco-quebequense entre o público canadense anglófono. Ao longo de sua carreira, ela traduziu quase duzentos livros — principalmente romances —, de alguns dos autores mais renomados do Canadá francês, como Michel Tremblay, Marie-Claire Blais, Anne Hébert, Jacques Poulain e Gaétan Soucy.

O trabalho de Fischman foi reconhecido com vários prêmios, incluindo o Prêmio Literário do Governador Geral na categoria Tradução, para o qual ela foi indicada inúmeras vezes. Ela também foi admitida na Ordem do Canadá e recebeu dois títulos de Doutora Honoris Causa. Fischman ajudou a promover a tradução literária no Canadá como membro fundador da ATTLC e uma das primeiras redatoras da Ellipse, revista literária bilíngue que publica traduções de textos de escritores francófonos e anglófonos. Além disso, durante cinquenta anos de uma carreira bem movimentada, Fischman foi não apenas uma testemunha de mudanças no campo da tradução, mas também uma instigadora de mudanças (“an agent of change”), como observa Mezei em seu capítulo escrito para a obra comemorativa de Simon (Mezei 2013). Não há dúvida de que a carreira de Fischman abriu caminho para o advento da tradução literária no Canadá: “The arc of Fischman’s career corresponds to the coming of age of Canadian literary translation” [A evolução da carreira de Fischman corresponde ao processo de consolidação da tradução literária no Canadá] (Simon 2013, xii).

Lori Saint-Martin
Lori Saint-Martin (à direita) com seu marido e co-tradutor Paul Gagné [Fonte]

Tradutora canadense de renome, Lori Saint-Martin (1959-2022) era descrita como uma espécie de super-heroína, “uma superdotada” (Belzile 2022). Em colaboração com seu marido, Paul Gagné, Saint-Martin traduziu mais de 130 livros do inglês para o francês em mais de trinta anos. Desse modo, o casal tornou acessíveis ao público francófono as obras de grandes autores anglófonos canadenses, como Margaret Atwood e Michael Ondaatje. Além disso, Gagné e Saint-Martin traduziram escritores internacionais como Maya Angelou, assim como livros aclamados internacionalmente, em especial o romance de suspense État de terreur  (2021) coescrito por Louise Penny e Hillary Rodham Clinton. Eles foram indicados para vários prêmios, incluindo o do GG, que ganharam algumas vezes.

Sua retradução de uma série de romances do romancista canadense e judeu Mordecai Richler, cujo trabalho havia tido uma recepção controversa no Quebec (Woodsworth 2022), também foi aclamada. Sozinha, Saint-Martin traduziu vários livros do espanhol para o francês. Ela também era professora de literatura em tempo integral na Universidade do Quebec, em Montreal, e escreveu vários artigos acadêmicos, um romance, três coletâneas de contos e, mais recentemente, o livro Un bien nécessaire. Éloge de la traduction littéraire (2022), coletânea de ensaios sobre a arte de traduzir.

Nascida Lori Farnham em Kitchener, Ontário, Saint-Martin era, na verdade, anglófona. Ela aprendeu francês e se mudou para o Quebec, onde obteve um título de doutora em literatura francesa e construiu sua vida em francês. Ela era tão admirada nos círculos intelectuais francófonos do Quebec e do exterior que surpreendeu muitos leitores quando revelou suas origens anglófonas em um momento relativamente tardio de sua vida. Em seu livro Pour qui je me prends (2020), cujo título brinca com a expressão inglesa who do you think you are [quem você pensa que é?], Saint-Martin relembra sua transição singular de anglófona para francófona – ou a tradução de sua identidade – ao adotar um novo sobrenome, escolhido aleatoriamente em uma lista telefônica. Se a obra da sua vida foi enriquecer a cultura do Quebec, eliminando a barreira linguística que separava os leitores francófonos de um vasto corpus literário, a sua "primeira obra foi criar [a si mesma] como uma francófona." (Saint-Martin 2020: 11). Ela conclui seu relato autobiográfico com a seguinte observação: “Uma contrabandista de línguas, uma ignorante de fronteiras, uma tecelã de palavras. É isso que eu penso que sou. Esta é quem eu sou." (Saint-Martin 2020: 184).

Quase meio século após a modesta observação de Stratford, é preciso admitir que a tradução literária alçou voos e que a qualidade do trabalho realizado é incontestável. As pessoas que traduzem de ou para o francês, inglês e línguas nativas agora podem solicitar auxílios e trabalham em melhores condições. No entanto, o apoio institucional não evoluiu de modo a acompanhar as mudanças demográficas do Canadá e a globalização das culturas. Embora a qualidade da tradução literária no Canadá seja reconhecida mundialmente, obras literárias internacionais, especialmente as de Annie Ernaux, na França, e Carlos Fuentes, no México, são traduzidas fora do país e distribuídas no Canadá por editoras estrangeiras. Além disso, há muito pouco financiamento disponível para traduções de obras escritas no Canadá para línguas “não canadenses”, como árabe ou espanhol. A ATTLC começou a enfrentar esse problema com o objetivo de conscientizar o público, mudar a regulamentação e criar novas fontes de financiamento.

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 [heading title] A tradução automática

Enquanto os tradutores, tanto na esfera literária quanto na pragmática, estão mais produtivos, qualificados e reconhecidos do que nunca, o fantasma da inteligência artificial (IA) começa a assombrá-los, pois há um grande risco de que essa nova tecnologia substitua os humanos ou, no mínimo, desvalorize seu status profissional.

As origens da tradução automática (TA) remontam à década de 1940 e, geralmente, são associadas às tentativas de tradução automatizada do russo para o inglês durante a Guerra Fria. Na década de 1950, a colaboração entre a IBM [International Business Machines Corporation] e a Universidade de Georgetown, em Washington, parece promissora o suficiente para lançar programas de pesquisa financiados nos Estados Unidos e em outras partes do mundo. Entretanto, em 1966, um relatório bem conhecido hoje em dia freia o entusiasmo inicial, concluindo que qualquer investimento futuro na área seria inútil. Como resultado, a pesquisa em TA nos Estados Unidos ficou estagnada por alguns anos.

Entretanto, no Canadá, as exigências relacionadas ao bilinguismo levam o governo a continuar apoiando a pesquisa em TA. Já em 1964, o governo canadense pensava em usar essa tecnologia para produzir rapidamente traduções aproximadas de documentos oficiais, que depois só precisariam de revisões para torná-las mais idiomáticas (Chadioux 1977: 55). Em 1965, quando os Estados Unidos encerram seu projeto, é criado o projeto de pesquisa Tradução Automática da Universidade de Montreal (TAUM), cujas atividades ocorreram principalmente de 1968 a 1980. Esse projeto leva à criação do protótipo do sistema TAUM- MÉTÉO, desenvolvido em 1975 e 1976, que tem como objetivo traduzir relatórios meteorológicos, daí o nome "meteo".

Pouco depois, John Chandioux desenvolve o sistema METEO, que foi utilizado pelo site Environnement / Environment Canada de 1982 a 2001 antes de ser substituído por outro sistema. Por ano, o METEO conseguia traduzir trinta milhões de palavras do inglês para o francês e vice-versa, com uma taxa de precisão de 97%. O sistema METEO é frequentemente citado, ainda hoje, como um dos raros sucessos no campo da TA.

Com a invenção dos microcomputadores e de softwares cada vez mais sofisticados, ferramentas de tradução assistida por computador (CAT Tools) foram aprimoradas e hoje são comumente utilizadas por agências governamentais, empresas e tradutores autônomos. Além disso, o público em geral agora pode usar softwares de tradução automática totalmente autônomos, alguns dos quais são acessíveis gratuitamente on-line (Google Tradutor, DeepL, etc.). Esses softwares de tradução instantânea, às vezes, produzem resultados medíocres e são recebidos com ceticismo por muitos tradutores profissionais. Entretanto, os avanços mais recentes em inteligência artificial estão chamando cada vez mais atenção e parecem muito promissores.

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 [heading title] O nascimento de uma disciplina

Como vimos, a Lei sobre as Línguas Oficiais, de 1969, adotada pelo governo canadense, assim como a Carta da Língua Francesa, instaurada no Quebec, incentivaram o surgimento de um mercado da tradução promissor. Paralelamente a esses fatores específicos da realidade canadense, as trocas globais continuaram a crescer nos níveis político, econômico e científico. Como resultado, a demanda por tradução em todas as formas simplesmente explodiu.

Inicialmente, a demanda por tradutores era tão grande que os empregadores canadenses foram forçados a recrutar profissionais qualificados dos Estados Unidos e do exterior. A partir dos anos 1970, as instituições educacionais no Canadá abordaram o problema criando cursos planejados especificamente para formar tradutores profissionais.

Há várias décadas, a tradução é ensinada em nível universitário. Essa prática começou nas metrópoles, onde há alta concentração de tradutores, particularmente na Universidade de Ottawa. Localizada a poucos metros do Parlamento canadense e dos gabinetes do serviço público, foi a primeira universidade canadense a oferecer cursos de tradução, já a partir de 1936. O programa de formação se consolidou posteriormente com a criação da École de traduction et d’interprétation [Escola de Tradução e Interpretação]. A Universidade de Montreal, localizada no coração da maior cidade bilíngue do Canadá, bem como a Universidade Laval, na Cidade de Quebec, sede da Assembleia Nacional quebequense (poder legislativo provincial), também oferecem uma formação em tradução.

Outras instituições de ensino superior, por sua vez, começaram a criar seus próprios programas de educação continuada, graduação e, finalmente, mestrado e doutorado, incluindo programas de pós-graduação voltados para a pesquisa. As várias “escolas” de tradução (alguns estabelecimentos são de fato escolas independentes, enquanto outros estão vinculados a um departamento, seja de estudos franceses ou de Linguística) são membros da Association canadienne des écoles de traduction (ACET) [Associação Canadense das Escolas de Tradução], organização que se reúne regularmente para discutir questões pedagógicas e garantir a qualidade do ensino.

A criação de programas de formação gerou uma necessidade de materiais didáticos. O livro Stylistique comparée du français et de l’anglais [Estilística comparada do francês e inglês], publicado em 1958 e coescrito pelos linguistas Jean-Paul Vinay e Jean Darbelnet, foi, por muitos anos, uma das principais obras de referência da área. Em 1980, após obter seu doutorado na ESIT, afiliada à Universidade Sorbonne Nouvelle – Paris 3, Jean Delisle publicou um manual defendendo uma nova abordagem: L’analyse du discours comme méthode de traduction [A análise do discurso como método de tradução]. Essa obra foi amplamente adotada até Delisle escrever uma nova, intitulada La traduction raisonnée [A tradução refletida] (1993), que se tornou uma ferramenta básica de ensino em cursos de tradução de inglês para francês.

Stylistique comparee Delisle's book
Dois manuais canadenses pioneiros no ensino da tradução

Outros recursos educacionais foram desenvolvidos, alguns dos quais são bastante especializados. A obra Le Manuel pratique de terminologie [Manual prático de terminologia], de Robert Dubuc, é um bom exemplo: desde sua primeira publicação em 1980, ela passou por diversas reedições ao longo dos anos.

A existência de escolas de tradução, bem como a pressão exercida por conselhos profissionais para garantir que a formação de tradutores correspondesse às necessidades do mercado de trabalho, incentivou a criação constante de novos materiais ou recursos educacionais digitais. À medida que professores universitários e alguns de seus colegas de círculos profissionais começaram a refletir não apenas sobre o ensino da tradução, mas também sobre os conceitos teóricos que a fundamentam em geral, um novo campo de pesquisa surgiu no Canadá e em outras partes do mundo: os Estudos da Tradução

Assim denominado e conceituado por James S. Holmes, esse novo campo de estudo não é tanto uma disciplina, mas sim uma “multidisciplina”, que atraiu a atenção de muitos especialistas em Linguística, Literatura, Filosofia e outros campos de estudo. De fato, os Estudos da Tradução têm sido tema de conferências e artigos, que deram origem a uma verdadeira proliferação de teorias sobre tradução. No Canadá, pesquisadores se inspiraram nesse novo corpus, especialmente no trabalho do francês Antoine Berman, que, em sua obra pioneira A prova do estrangeiro (1984), faz um apelo à ação:

Por um lado, a tradução permaneceu uma atividade subterrânea, oculta, porque ela mesma não se manifestava. Por outro lado, permaneceu em grande parte “impensada” como tal, porque aqueles que lidavam com ela tendiam a assimilá-la a outra coisa: à (sub)literatura, à (sub)crítica, à “linguística aplicada” (Berman 1984: 11).

A expressão “atividade subterrânea” repercutiu entre pesquisadores canadenses de tradução que, apesar do "boom" da tradução nacional, se sentiam marginalizados no âmago do mundo acadêmico. Por exemplo, nas conferências anuais da Federação de Ciências Humanas e Sociais, quando a tradução era tema de uma oficina ou sessão de discussão, o evento em questão era supervisionado por outro grupo, como a associação de Literatura comparada, Linguística ou estudos quebequenses. Além disso, conseguir bolsas de pesquisa financiadas pelo governo não era fácil para os pesquisadores em tradução, pois a disciplina ainda não era reconhecida como uma esfera de pesquisa acadêmica legítima. Os especialistas se sentiam um pouco abandonados, quase como órfãos, sem um lar.

Como consequência, em 1987, um pequeno grupo de tradutores se reuniu com o objetivo de formar uma associação destinada especificamente à pesquisa em tradução. O primeiro encontro ocorreu durante o Congresso Anual de Humanidades e Ciências Sociais, que, naquele ano, estava acontecendo na Universidade McMaster, em Hamilton, Ontário. A associação recém-nascida, a primeira do gênero no mundo, foi batizada Association canadienne de traductologie/The Canadian Association for Translation Studies (ACT/CATS) [Associação Canadense de Estudos em Tradução]. Judith Woodsworth foi nomeada presidente fundadora, e Jean-Marc Gouanvic, vice-presidente.

En 1987, Gouanvic había lanzado la revista TTR, Traduction, terminologie, revision, que al año siguiente se convirtió en la revista oficial de la recién fundada asociación de estudios de traducción. Con un amplio enfoque cultural, TTR pretendía complementar a Meta, la revista de estudios de traducción más antigua del mundo. Fundada en 1955 por la Association canadienne des Traducteurs diplômés (Asociación canadiense de traductores diplomados), y publicada originalmente con el nombre de “Journal des traducteurs—Translators’ Journal”, Meta se instaló de forma permanente en la Université de Montréal a partir de 1956, bajo la dirección editorial de Jean-Paul Vinay.

Em 1987, Gouanvic lançava a TTR: Traduction, Terminologie, Rédaction que, no ano seguinte, se tornaria a revista oficial dessa nova associação. Focada principalmente em abordagens culturais, a TTR teve como objetivo complementar a Meta, a mais antiga revista de Estudos da Tradução do mundo. A Meta foi fundada em 1955 pela Association canadienne des Traducteurs diplômés (ACTD) [Associação Canadense dos Tradutores Graduados] e publicada, inicialmente, com o nome de Journal des traducteursTranslators’ journal. Em 1956, a direção da Meta foi confiada a Jean-Paul Vinay, com escritório na Universidade de Montreal.

Os pesquisadores mais renomados da comunidade científica de Estudos da Tradução do mundo todo participaram de conferências da ACT e escreveram artigos para a TTR. Além disso, os membros do conselho de administração e do comitê de redação da revista foram recrutados em instituições de ensino de todo o país. Hoje, mais de trinta anos após sua criação, a ACT continua ativa e conta com mais de cem membros – pesquisadores experientes e iniciantes – do Canadá, Estados Unidos, Europa, África e Ásia. A cada ano, ela organiza conferências e publica duas edições da TTR sobre assuntos variados. Por fim, a ACT destaca a excelência de diferentes maneiras, principalmente com o Prêmio Vinay e Darbelnet. Concedido ao melhor artigo em Estudos da Tradução, esse prêmio contribui para a pesquisa nessa área no Canadá e no exterior.

A virada cultural nos Estudos da Tradução abriu caminho para pesquisas inovadoras. As tradutoras e pesquisadoras feministas canadenses se destacaram nacional e internacionalmente e produziram um corpus de trabalhos significativo, organizado em torno de uma corrente chamada Escola Canadense de Tradução Feminista. Entre as principais figuras dessa escola, estão Barbara Godard e Kathy Mezei, editoras-chefes e cofundadoras do periódico feminista bilíngue Tessera (1984-2005). Numerosas tradutoras ilustres acrescentam, em suas traduções, uma reflexão feminista sobre o ato de traduzir. Ao fazer isso, elas conferem uma dimensão política à sua tradução, destacando uma nova consciência sobre a natureza de gênero da linguagem. Luise von Flotow, que traduz obras de autoras, publicou artigos sobre teorias da tradução feminista, incluindo Translation and Gender [Tradução e Gênero] (1997). Sherry Simon também é reconhecida por suas pesquisas teóricas sobre a tradução a partir de uma perspectiva de gênero e foi mundialmente aclamada por seu livro Gender in Translation [Gênero em Tradução] (1996), publicado recentemente com o título Le genre en traduction (2023).

Além disso, Sherry Simon e Paul Saint-Pierre também se dedicaram ao pós-colonialismo na tradução (2000), assim como Paul Bandia (2009). Este também codirigiu, com John Milton, uma obra sobre os agentes de tradução. Enfim, pesquisadores canadenses enriqueceram o próspero campo da Sociologia da tradução (principalmente Brisset 1990; Gouanvic 1999; e Buzelin 2007).

Por sua notável visão geral das teorias e práticas de tradução no Ocidente, Louis Kelly (1979) despertou, por sua vez, um interesse pela história da tradução. Jean Delisle assumiu o comando em seguida com um número considerável de artigos e livros sobre a história da tradução no Canadá. Em 1990, com o apoio da Federação Internacional de Tradutores (FIT), Delisle lançou um projeto ambicioso que resultou na escrita do livro Les traducteurs dans l’histoire [Os Tradutores Na História], editado em colaboração com Judith Woodsworth (1995). Desde então, o livro viajou o mundo, foi traduzido para muitas línguas e teve novas edições.

Outros tópicos de interesse incluem as pesquisas focadas no mundo profissional da tradução, como as de Brian Mossop, e os trabalhos focados em textos literários, incluindo pesquisas sobre a autotradução de Grutman (por exemplo, Ferraro e Grutman 2016), os escritores-tradutores (Woodsworth 2017) e a tradução de peças de teatro (Nolette 2015). Por sua vez, Simon se voltou para as cidades em tradução (2011) e os lugares de tradução (2019), baseando-se em pesquisas atuais sobre as geografias da tradução. A obra coletiva Translation and the Global City [Tradução e a Cidade Global] também aborda questões semelhantes (Woodsworth 2021).

Muitas obras coletivas enriqueceram o campo dos Estudos da Tradução no Canadá, entre as quais uma das mais importantes é a Translation Effects [Efeitos da Tradução] (Mezei, Simon e Von Flotow 2014). Alguns dos acadêmicos da tradução mais influentes do Canadá contribuíram para esse livro, que apresenta uma ampla gama de exemplos e estudos de caso de diversas esferas da cultura canadense.

Finalmente, outros pesquisadores se dedicaram à revitalização das línguas nativas, assim como à tradução de ou para essas línguas. Por exemplo, Valerie Henitiuk cotraduziu o romance Chasseur au Harpon [O Caçador com o arpão], considerado o primeiro romance nativo publicado no Canadá (2021), e refletiu sobre o contexto em que a literatura inuíte foi traduzida no passado (2017). Por sua vez, René Lemieux coordena o Observatoire de la traduction autochtone [Observatório da tradução nativa] da Universidade Concordia, centro de pesquisa sobre a tradução nativa, e lançou o Projeto Awikhiganisaskak, com o objetivo de documentar e preservar línguas originárias, como o huron-wendat.

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Research potential Potencial de pesquisa

Como vimos, a história da tradução e da interpretação no Canadá pré-colonial é uma área que precisa ser explorada mais profundamente, juntamente com o papel da tradução na colonização e nas relações entre nativos e não nativos. Tais pesquisas deverão ser conduzidas com sensibilidade e respeito, em colaboração com os pesquisadores nativos. Temas relacionados, como a revitalização das línguas originárias e suas consequências para a tradução de textos administrativos, pedagógicos e literários, também representam campos de estudo promissores.

Além disso, nem é preciso dizer que a tradução automática e o uso de inteligência artificial na tradução são temas atuais. A partir de agora, será importante não apenas desenvolver novas ferramentas, mas, acima de tudo, estar ciente de seus pontos fortes e fracos, e entender todas as interações entre o homem e as traduções geradas automaticamente.

No Festival Literário Internacional Metropolis Bleu de Montreal, uma das mesas-redondas, realizada em abril de 2023, reuniu uma tradutora, um escritor e um cientista da computação e tinha como tema: “Quando os robôs traduzem: até que ponto o ser humano será indispensável?”. Essa questão está no centro de muitos debates nos círculos acadêmicos e profissionais em um momento em que ChatGPT, Bard, Bing e outros produtos derivados da IA estão colocando em risco o ganha-pão dos tradutores. No momento, pelo menos no Canadá, a tradução continua sendo um campo próspero, apesar desse contexto em rápida mudança. Embora os tradutores humanos ainda sejam muito procurados, logo eles precisarão se adaptar a essas novas realidades. Os professores, pesquisadores e profissionais devem abordar essas questões para garantir aos tradutores um futuro em que eles possam aproveitar as novas ferramentas tecnológicas e, como esperamos, evitar serem substituídos por robôs.

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