| ENG Equivalence SPA Equivalencia |
conteúdo
Introdução | Abordagens pioneiras | Abordagens textuais | Abordagens funcionais | Abordagens empíricas: Estudos descritivos de tradução e do processo tradutório | Abordagens críticas | Reflexões finais | Pesquisas potenciais
A equivalência é uma noção fundamental em qualquer reflexão sobre a tradução. Nos estudos contemporâneos de tradução, é a relação que vincula qualquer texto meta (TM) com o texto original (TO) do qual deriva, e que explica que ambos os textos sejam supostamente “o mesmo” em línguas diferentes. Dependendo da perspectiva teórica e da especificidade do texto em questão (p. ex., literário, técnico ou multimodal), tal relação de dependência adota diferentes formas para garantir uma tradução (TM) eficiente para seus destinatários.
A equivalência foi e continua sendo um dos temas mais controversos para os pesquisadores, que adotaram diferentes pontos de vista: a equivalência como condição decisiva da tradução, como ferramenta conceitual para descrevê-la ou como impedimento para avançar nos estudos da tradução (Halverson 1997, Kenny 2009). A maioria discute o conceito em termos de necessidade ou de utilidade (p. ex., Nida 1964, Catford 1965; Popovič 1976, Toury 1980, 1995; Wilss 1982; Koller 1983, 1995; Rabadán 1991; Neubert & Shreve 1992; House 1997; Pym 2007, 2010); mas também tem aqueles que recusam a proposição de que o conceito não tenha nenhum valor para os Estudos da Tradução (p. ex., Reiss & Vermeer 1984, Snell Hornby 1998). Para outros, a equivalência simplesmente não tem espaço em seus marcos epistemológicos (p. ex., Robinson 1991).
Existem razões de sobra para afirmar que não é possível nenhum modelo de tradução sem um reconhecimento implícito ou explícito da relação entre o TM e o seu TO. Tal omissão questionaria a própria existência da tradução em todas suas formas e manifestações.
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Na prática, a equivalência está subjacente aos esforços para diferenciar a tradução da não tradução. A pesquisa sobre os universais da tradução demonstrou que a língua traduzida — o terceiro código — apresenta elementos que a diferenciam da língua original, não traduzida. Dado que ambas as práticas textuais utilizam os mesmos recursos, esses elementos diferenciais são essenciais para distinguir as traduções dos textos que não o são (Rabadán, Labrador e Ramón 2009). A equivalência também é o princípio fundamental da avaliação da qualidade em tradução, um critério para medir a conservação do significado e a função textual de uma língua e cultura a outra, qualquer que seja o modo de avaliação. Também, renunciar à equivalência colocaria em causa os fundamentos da maioria dos desenvolvimentos tecnológicos da tradução, desde a tradução automática e as memórias de tradução até as ferramentas de pós-edição.
Visto que estudar a equivalência supõe analisar grande parte do desenvolvimento dos Estudos da Tradução como disciplina, o que segue é um panorama crítico (não necessariamente exaustivo) das principais abordagens a esse conceito.
O debate sobre a equivalência remonta à afirmação de Jakobson (1959) de “equivalência na diferença” (tradução da autora, igual a todas as demais desta entrada, salvo que se indique o contrário). Desde então, foi formulado um bom número de abordagens divergentes, mesmo que muitas vezes complementares, que enriquecem a discussão (ver Rabadán 1991: 57-78, Pym 2007, Krein-Kühle 2014:15-35, para uma visão geral). As abordagens mais antigas costumam depender, conceitual e metodologicamente, das teorias linguísticas às quais aderem para tentar explicar as operações (superficiais) que interviriam na tradução. As abordagens linguísticas vão desde a equivalência como estratégia de tradução nos estudos de estilística comparada (Vinay & Darbelnet 1958) até as classificações de acordo com o nível linguístico (p. ex., Koller 1995). Outras se baseiam no grau de traduzibilidade (Kade 1973) ou, mais recentemente, na modelização linguístico-cognitiva (Lewandowska-Tomaszczyk 2015).
A partir da estilística comparada do francês e do alemão de Malblanc (1944), Vinay e Darbelnet apresentam a équivalence como um dos sete procedimentos de tradução, junto com o empréstimo, o decalque, a tradução literal, a transposição, a modulação e a adaptação (1958: 8-9). Seu objetivo é trazer uma solução para os problemas de correspondência interlinguística. Definem a equivalência a nível microtextual, que consiste em traduzir expressões idiomáticas fixas do TO por uma correspondência funcional no TM no lugar de recorrer à tradução literal. Por exemplo, o português “estar novo em folha” pelo inglês “to be as right as rain”. Vázquez-Ayora (1977) também define a equivalência como uma técnica de tradução que afeta o léxico e se aplica à expressão fixa e aos modismos. Na perspectiva atual, trata-se de uma descrição contrastiva dos pares de línguas envolvidas. O estruturalismo clássico fundamenta os trabalhos de Vinay & Darbelnet e de Malblanc, enquanto Vázquez-Ayora se baseia nos princípios gerativo-transformacionais.
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| Vinay & Darbelent (1958): A equivalência como técnica de tradução: os modismos |
Koller (1995: 196-97) é o representante da escola alemã da Äquivalenz que mais se destaca, caracterizando-se por suas tipologias e classificações. Koller propõe cinco tipos de equivalência: (a) a equivalência denotativa, relativa aos aspectos extralinguísticos do texto, (b) a equivalência conotativa, que afeta as soluções léxicas, (c) a equivalência textual-normativa, relativa aos tipos de texto, (d) a equivalência pragmática, que envolve o destinatário, e (e) a equivalência formal, que tem a ver com os aspectos formais e estéticos do texto. Na mesma linha, estão os graus de equivalência (terminológica e lexicográfica) de Kade (1973): a equivalência total seria a correspondência palavra por palavra, a equivalência opcional aproximativa remeteria à equivalência parcial, entre uma palavra e várias soluções possíveis, e a equivalência zero se referiria à ausência de termo e conceito na língua meta.
Catford (1965:1) apoia seu estudo na linguística sistêmico-funcional. Ele usa a gramática de escala de Halliday para abordar "a natureza e as condições da equivalência em tradução (1965:21)". Nessa abordagem, a correspondência formal é responsável pelas correspondências sistêmicas, em diferentes níveis e intervalos entre ambas as línguas, enquanto a equivalência textual se refere a elementos textuais que são intercambiáveis em termos de situação. Os correspondentes formais são aquelas categorias da língua meta que “ocupam o mesmo espaço” na economia da língua de origem e da língua meta, um princípio bem estabelecido no contraste linguístico tradicional. No entanto, os equivalentes textuais raramente são iguais ou têm o mesmo significado, mas podem funcionar na mesma situação (Catford 1965: 49). Quando os recursos da língua origem e da língua meta podem se intercalar em um contexto linguístico determinado, são equivalentes de tradução. A equivalência de Catford geralmente se estabelece a nível oracional, e o significado está sujeito às condições contextuais do TM.
Nida (1964) inclui o receptor no debate ao diferenciar equivalência formal e dinâmica. A equivalência formal implica uma correspondência exata das unidades linguísticas da LO com as da LM. Na equivalência dinâmica, a atenção se volta para a obtenção da mesma compreensão da mensagem por parte dos receptores meta que a obtida pelos receptores origem. Ele a define como “o equivalente natural mais próximo à mensagem da língua de origem” (Nida 1964:166), no qual natural se refere à aceitabilidade na LM. Ao trabalhar exclusivamente com a tradução bíblica, ele prioriza a compreensão conceitual sobre a precisão linguística e a fidelidade literal ao TO e dá lugar a uma virada nas abordagens da equivalência ao introduzir o receptor. A aplicação da equivalência dinâmica supõe substituir referentes no TM, se for considerado necessário, para chegar ao mesmo “efeito equivalente” (de Waard y Nida 1986). A abordagem de Nida é a primeira tentativa de introduzir na tradução a equivalência funcional baseada no receptor.
Os questionamentos de Nida e Catford marcaram o início de uma extensa tradição que define a equivalência — e a tradução — como um conceito binário que se identifica, por um lado, com o TO e a sua cultura, e, por outro, com o TM e o contexto receptor. As classificações binárias da equivalência estão bem documentadas e costumam estar relacionadas aos tipos e modos de tradução. Entre elas estão a formulação de House (1977) de tradução manifesta frente à tradução velada, uma dicotomia muito influente (ver adiante); a tradução semântica frente à comunicativa de Newmark (1981), a tradução documental frente à instrumental de Nord (1997) (ver adiante), ou a distinção de Pym (2007) entre equivalência natural e direcional (que abrange a maioria das dicotomias anteriores), para citar algumas.
A pesquisa em linguística do texto, tanto tipológica quanto de análise do discurso, também repercutiu na equivalência em tradução. Wilss considera que a tradução é um “acontecimento orientado ao texto”, um procedimento que conduz de um TO a um TM “perfeitamente equivalente”. Os textos se caracterizam por suas funções comunicativas, que se combinam de forma diferente em cada tipo de texto concreto. Os tipos textuais correspondem a diferentes critérios de equivalência e métodos de transferência (Wilss 1982: 112). Este autor propõe a equivalência pragmático-textual, que “descreve e regula as relações comunicativas entre TO e TM" (Wilss 1982:135) dentro de um marco de referência semiótico. Nesse marco, encontramos o tradutor como emissor secundário, as características específicas do texto, assim como as do destinatário. Dependendo do tipo textual, as características são diferentes, p. ex., em textos para propósitos específicos, drama ou ficção. Neubert começa considerando a equivalência como uma categoria semiótica composta por aspectos sintáticos, semânticos e pragmáticos e, após uma evolução, defende que está baseada no texto e no receptor e que é alcançada através da "intertextualidade mediada intencionadamente" (Neubert & Shreve 1992:145). Em sua primeira abordagem, os níveis obedecem a uma organização hierárquica, na qual a equivalência sintática está determinada pela equivalência semântica e pragmática. Posteriormente, diferencia equivalência máxima, textual e comunicativa. Nesse modelo, a equivalência é uma relação entre os elementos textuais que desempenham a mesma função no TO que no TM para os respectivos receptores com “valor comunicativo”. O valor comunicativo de uma tradução se refere ao efeito pragmático e social que gera o significado textual do TM em seu contexto de recepção (Neubert & Shreve 1992: 140ss).
Reiss (1971, 1976) adota uma perspectiva tipológica que mostra uma evolução interessante em sua concepção. Em sua primeira proposta, equivalência significa que o TM mantém a função e a categoria textual do TO. Contempla três categorias textuais baseadas nas três funções da linguagem de Bühler: i) os textos definidos pela forma, p. ex., os textos literários; ii) os textos centrados no conteúdo, p. ex., os textos científicos e técnicos, e iii) os que têm uma função conativa e estão especialmente centrados no destinatário, p. ex., os anúncios. Uma quarta categoria, a dos textos subsidiários, abrange os textos multimodais, por exemplo, os textos audiovisuais. Em 1976, ela reformulou essa classificação de acordo com a função comunicativa dominante nos textos informativos, expressivos e operacionais. Essas três categorias determinariam as estratégias de tradução. Após fortes críticas (House 1977, entre outros) a essa concepção monofuncional de equivalência, Reiss (1981) refina sua formulação: a equivalência permanece textual e funcional, mas se sustenta sobre dois princípios: seleção e hierarquização. O princípio de seleção regula quais traços se levam em consideração para determinar a função textual do TO; o de hierarquização ordena e prioriza os traços para manter a categoria textual no TM e em seu contexto receptor. Reiss tornou-se cofundadora, junto com Hans Vermeer, da teoria do escopo (Reiss & Vermeer 1984), que questiona a noção de equivalência (ver mais adiante).
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| O modelo do "órganon" de Bühler(1934) de acordo com as funções da linguagem |
House (1977 [1981]) adota os princípios da pragmática e também defende que é essencial para a equivalência que TO e TM compartilhem a mesma função. A função é "a aplicação e o uso que o texto tem em um contexto de situação particular" (House 1977:37). O perfil textual e a função do TM e do TO devem coincidir para que ambos os textos sejam equivalentes. O perfil se baseia no conceito de registro de Halliday, que consiste nos parâmetros de campo, tenor e modo, e na categoria de gênero (House 1997, versão revisada do modelo). Quando se aplicam esses parâmetros analíticos ao TO, se obtém o perfil textual, que determina uma função textual. Que o TM mantenha a função do TO vai depender do tipo de tradução que se aplique, seja manifesta (overt) ou velada (covert) (House 1997:66-71). Em uma tradução manifesta, um TO marcado linguística e culturalmente chega aos receptores meta depois de aplicar um "filtro de segunda mão" ao TM. Seu objetivo é facilitar aos receptores meta a compreensão da função pragmática que o TO tinha no contexto e a cultura originais, p. ex., uma comédia inglesa marcada por jogos de palavras com duplo sentido. Em contrapartida, uma tradução velada e seu TO são iguais do ponto de vista pragmático para os receptores de origem e meta, p. ex., um informativo de vendas. Em outras palavras, ambos os textos são funcionalmente equivalentes, então o TM funciona como uma espécie de "segundo original".
Em tradução, o funcionalismo costuma ser associado à teoria do escopo (Reiss & Vermeer 1984/1996), que se estrutura em torno da ação tradutória e das necessidades específicas da formação do tradutor profissional. Segundo a teoria do escopo, todo projeto de tradução tem como objetivo produzir um TM efetivo em seu contexto para os receptores meta. A equivalência, compreendida como aproximação (Reiss & Vermeer 1984:139), não é considerada o escopo "normal" da tradução, mas sim um caso excepcional no qual há mudança de funções (Nord 1988/ 1991:230). Para se contrapor ao protagonismo extremo do receptor-cliente do TM no modelo do escopo, Nord, uma funcionalista da "segunda geração", introduz o princípio de lealdade, e torna os tradutores responsáveis, desde o ponto de vista ético, por respeitar as intenções comunicativas do autor original em sua tomada de decisões. Nord formula duas modalidades de tradução, determinadas por sua finalidade: tradução documental e instrumental (Nord 1997: 47-52) (ver anteriormente tradução velada e tradução manifesta). Uma tradução documental é orientada ao polo de origem, marcada como um texto de outra cultura, e contém "evidências" do propósito do TO, p. ex., uma tradução interlinear de um texto clássico. Por outro lado, em uma tradução instrumental o material obtido do TO é reelaborado em um formato da cultura meta de modo que sejam atendidas as necessidades e expectativas dos receptores-clientes nessa cultura meta; p. ex., um folheto turístico.
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| Popovič (1970) - Teória umeleckého prekladu (A arte da tradução). |
Entretanto, a abordagem funcional da tradução está longe de ser homogênea e inclui perspectivas tipológicas e pragmáticas, como foi exposto anteriormente. Outros modelos funcionais que se originam do formalismo russo e do estruturalismo tcheco contribuíram de forma significativa para o debate sobre a equivalência e sobre os estudos da tradução.
Ancorada no estruturalismo funcional tcheco como base epistemológica e metodológica, a obra de Jiří Levý (1963/ 2011) examina a tradução (artística) literária a partir de uma perspectiva multidisciplinar (Jettmarová 2011: xv). Levý é mais conhecido por sua concepção da tradução como um processo de tomada de decisões (Levý 1967), que se move entre a reprodução (do TO) e a originalidade (no TM). A prioridade nesse processo é preservar o valor artístico do original (Králová & Cuenca Drouhard 2013). O trabalho de Levý se reflete na dicotomia de Lefevere de literatura traduzida e tradução literária (1982), nas normas de Toury (1995:53-69), e também está subjacente à concepção da equivalência de Popovič. Popovič, o representante mais conhecido da Escola de Nitra, também entende a tradução como uma questão estética e a equivalência como o equilíbrio entre um núcleo invariável e as transformações expressivas necessárias (Popovič 1970). O objetivo é conseguir a identidade estilística entre o TO e o TM. Ele faz distinção entre quatro tipos de equivalência: a linguística, que se refere à correspondência palavra por palavra; a paradigmática, que afeta as categorias gramaticais; a textual, restringida ao formato textual; e a equivalência estilística, que ele define como "a equivalência funcional dos elementos entre o original e a tradução que tem como objetivo a identidade estilística com uma invariante de significado idêntico" (Popovič 1976:6). As transformações de Popovič lançaram as bases para muitas questões importantes, como a hibridismo, a autoria, a naturalização e a modernização, conforme refletido na(s) prática(s) da tradução e em enfoques posteriores dos Estudos da Tradução (p. ex. Venuti 1995, entre outros). Também, é possível atribuir a ele o mérito de ser um dos precursores da análise retrospectiva, crucial nos estudos descritivos de tradução (ver mais adiante).
Abordagens empíricas: Estudos descritivos da tradução e do processo tradutório
Até aqui, nosso panorama se centrou nas abordagens que partem de uma noção pré-definida de equivalência (óptima). Essa orientação maximalista e prescritiva determina quais produtos textuais são considerados traduções e desconsideram aqueles que não se ajustam plenamente às condições preestabelecidas (Even-Zohar 1981:3). Contrariamente, nos estudos descritivos da tradução (EDT), a equivalência é entendida de modo empírico, uma propriedade necessária de todo TM. Toury considera as traduções como fatos da cultura meta e formula a concepção de tradução suposta para explicar a relatividade e a variabilidade inerentes a qualquer relação de dependência TM-TO (Toury 1995:31-36). A equivalência pode ser considerada a partir de três pontos de vista: como uma relação de equivalência potencial, se é considerada a partir de uma perspectiva teórica; como equivalência empírica, se é considerada a partir do ponto de vista descritivo, ou como equivalência a priori prescritiva, se é considerada a partir do ramo aplicado dos ET (Toury 1981: 65ss; 1995:19). Como é possível acessar aos processos de tradução só de forma indireta, fica faltando analisar os TMs e seus TOs de forma retrospectiva para descobrir o tipo de equivalência de um determinado produto de tradução. A equivalência, conforme manifestada nas traduções, é regida por regras. As regras são específicas de um contexto, uma época, um gênero, etc., e as definimos de acordo com regularidades de comportamento tradutório observadas pelos profissionais e podem ser obtidas de modo empírico mediante a análise retrospectiva das traduções e seus correspondentes TOs. A equivalência, como propriedade que define a tradução, é regulada por regras e é uma noção relativa que se atualiza a cada novo TM segundo o que signifique tradução para o contexto meta em determinado momento.
Rabadán (1991) retoma a perspectiva descritiva de Toury e examina ocorrências diferentes da equivalência, uma concepção dinâmica, funcional e relacional que define a dependência de cada TM ao seu TO. Analisa, a partir de um ponto de vista funcional, os fatores linguísticos, a especificidade textual, as dimensões sociais e culturais e os problemas que podem surgir para a realização de equivalência. Por meio da análise comparativa retrospectiva, sempre e quando exista evidência empírica suficiente, o investigador vai identificar as regularidades do comportamento tradutório. Essas vão ser o fundamento empírico da formulação de regras de tradução e da reconstrução do modelo de equivalência subjacente a cada par textual (Rabadán 1991: 201-277). A equivalência é, então, a relação existencial que todo TM mantém com seu TO.
Assim, os EDT se concentram no estudo empírico dos produtos de tradução (TMs) por meio da análise retrospectiva TMs-TO. O objetivo é reconstruir a relação de equivalência subjacente, que pode ser de diferentes tipos. No entanto, os modelos descritivos não abordam como surge essa relação e nem como é produzida.
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| Think aloud protocols, de Chun Fei Lung (2018). |
Para completar o vazio deixado pelos EDT e outras "abordagens comportamentais orientadas ao resultado" (House 1997:4), como os modelos funcionais já mencionados e a equivalência dinâmica de Nida, um crescente número de pesquisadores adotaram uma perspectiva cognitiva orientada ao processo (Alves & Jakobsen 2020). Esse tipo de estudo se concentra nos processos mentais dos agentes implicados na tradução (Muñoz Martín 2010) e no modo como refletem as idiossincrasias físicas, sociais e tecnológicas presentes em um contexto concreto e como interagem com elas. (Ehrensberger-Dow & Massey 2017).
A equivalência cognitiva está localizada na mente do tradutor e seu objetivo é simular os mesmos efeitos conceituais (significado) do TO e do TM em seus respectivos receptores (virtuais). É um conceito procedimental relacionado à tentativa do tradutor de nivelar as diferenças (problemas de tradução) entre o TO e o TM e o principal mecanismo de tomada de decisões na tradução (Lewandowska-Tomaszczyk 2015:9). Em outras palavras, a equivalência é relativa, já que remete ao resultado de um processo comparativo cognitivo concreto entre um TO e um TM e seus contextos de recepção. As abordagens cognitivas se concentram no processamento das operações de tradução, que são rastreadas por meio de métodos introspectivos, em particular os protocolos de pensamento em voz alta Think-Aloud Protocols (TAPs), folhas de dados e questionários, ou ferramentas como o registro de pulsações do teclado. Todos demonstraram sua eficácia na formação de tradutores.
Entre as abordagens cognitivas, encontramos modelos de competência tradutória (p. ex., PACTE 2003, Hurtado Albir 2017) e de tradução situada (Risku 2002). Elas também englobam concepções como a de Lewandowska-Tomaszczyk, que adota a reconceitualização para definir a equivalência em termos cognitivos (2015) ou o modelo de processamento proposto por Sickinger (2017).
Como contrapartida às abordagens anteriores para caracterizar a equivalência, também oferecemos visões críticas em nosso panorama. Junto com Vermeer, cuja teoria do escopo prioriza o propósito do TM sobre a dependência do TO e rejeita a equivalência, Snell-Hornby (1998) considera que a equivalência é uma concepção mal definida, que colocou obstáculos na investigação e que não é adequada para uma abordagem unificada dos Estudos da Tradução. De acordo com essa autora, a equivalência cria "uma ilusão de simetria entre as línguas que apenas existe para além de vagas aproximações (Snell Hornby 1998: 22). Ela propõe o abandono da concepção de equivalência e sua redução a uma terminologia técnica.
Nas abordagens baseadas na desconstrução, a equivalência é uma ficção interpretativa (Robinson 1991), já que todo TO é uma tradução de outros textos anteriores. Segundo os desconstrutivistas, o significado não reside nos textos e não pode ser extraído deles. Ao contrário, os leitores atribuem significados aos textos por meio de um ato de interpretação. Traduzir não significa reproduzir um TO numa segunda língua e cultura, mas transformá-lo para que continue existindo. O papel do tradutor se estende até corresponder ao do autor original. Desse modo, a equivalência fica anulada, já que a posição central do TO e o status subordinado (dependente) do TM são questionados. Nessa ideologia se sustenta, p. ex., a reivindicação da (in)visibilidade do tradutor (Venuti 1995) e da tradução como luta de poder. Está implícita nas abordagens pós-coloniais da tradução (p. ex., Bassnett e Trivedi 1999), nas abordagens feministas (p. ex., Simon 1996) e na teoria queer aplicada à tradução (Baer e Kaindl 2018).
Esse panorama revela que, independentemente da abordagem, existe uma constante na tradução: duas ontologias textuais diferentes. Uma, o TO, desencadeia o ato (e o processo) tradutório. A outra, o TM, é um "texto derivado" e depende de seu TO. Essa dependência é originada por vias diferentes, dependendo do modo textual e a modalidade de tradução: p. ex., na tradução teatral, a equivalência implica "declamabilidade" e "performatividade" (Merino 2000). Em publicidade, se atualiza como transcriação. Além disso, as práticas contemporâneas de tradução , como a tradução audiovisual (que combina modos textuais diferentes), desafiam os conceitos mais tradicionais de equivalência (Díaz-Cintas e Remael 2007, Gutiérrez-Lanza 2014). Na dublagem, equivalência significa sincronização entre a articulação fonética do que é visto e o que é ouvido (Chaume 2012). A legendagem depende de uma estrita sincronização temporal e espacial. Na tradução de conteúdos multimídia, ou seja, softwares, sites, videogames, aplicativos para celulares, etc., equivalência significa localização.
O uso de tecnologias da tradução, sejam memórias de tradução, tradução automática ou ferramentas de revisão e pós-edição (O'Brien, Simard e Goulet 2018), requer entender a equivalência de outra forma. As práticas de pré-edição, como as linguagens naturais controladas, cada vez mais generalizadas, também trazem novas perspectivas sobre como a equivalência é interpretada e aceita.
As modalidades de tradução colaborativa mostram claramente que a tradução é parte de formas de produção textual muito heterogêneas, como a colaboração aberta (crowdsourcing), a tradução híbrida homem-máquina ou a redação assistida por computador, assim como outras formas de translaboração em tradução (Zwischenberger 2020). Naturalmente, essa hibridização influencia na forma em que a equivalência se materializa.
As pesquisas em curso apontam para a combinação de corpora relatados por humanos com rotulagem multinível (Čermak 2016, Rabadán 2019) e dados cognitivos (Neumann & Serbina 2020) como a melhor via para explicar essas novas realidades e para definir a tradução com maior precisão. As palavras de Ivir sobre a relatividade e o dinamismo do conceito de equivalência seguem sendo válidas hoje: "A equivalência é... relativa, não absoluta, surge do contexto de situação definido pela interação de (muitos) fatores e não existe fora desse contexto" (1996: 155). O contexto situado inclui os agentes tradutores e o ambiente de trabalho tecnológico. Independentemente de como se interpreta a equivalência (ou de por que se rejeita, de acordo com a abordagem), parece que a natureza da dependência ontológica TM-TO continuará, até o momento, um tema central nos estudos da tradução.
Pesquisar a equivalência é investigar modelos de tradução. Os estudos empíricos de novas modalidades textuais, assim como das práticas de tradução híbrida, são necessários para uma melhor compreensão da equivalência. A utilização de corpus no estudo da tradução como produto de modalidades textuais mais tradicionais vai contribuir para obter um melhor conhecimento da tradução e das práticas textuais nesses contextos. Os estudos da tradução como processo, centrados no comportamento tradutório e na sua interação com o ambiente, incluindo o tecnológico, também aportariam avanços na caracterização da equivalência.
A combinação de métodos da linguística de corpus e, p. ex., choice network analysis (CNA), nos estudos de tradução como produto e tradução como processo, pode contribuir com dados sólidos sobre a resolução de problemas e a tomada de decisões na tradução.




