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Introdução | Os povos originários | O encontro (de 1492 até a queda do Império Inca, em 1533) | A colonização (1533–1792) | Emancipação e constituição das novas repúblicas (1792– 1850) | Os últimos 170 anos: 1850-2020 | Potencial de pesquisa
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| Mapa político da América Latina. |
Referir-se à América Latina sob o ponto de vista geográfico, demográfico ou histórico requer algumas considerações metalinguísticas e conceituais. O próprio termo “América Latina” requer esclarecimentos. Embora o nome "América" tenha sido usado de forma equivocada desde o início do século XVI para se referir a todo o continente, as denominações América Hispânica, Ibero-América e América Latina podem ensejar confusões. Nas linhas que seguem, a América Latina deve ser entendida como os territórios habitados pelos povos de cultura latina. Portanto, incluímos o Brasil junto com os países independentes de língua espanhola, inclusive Cuba e a República Dominicana. Apesar disso, entendamos que, em rigor, as ilhas de língua francesa do Caribe bem como a Guiana Francesa deveriam ser incluídas.
Da mesma forma, é preciso refletir por qual denominação devemos nos referir aos povos que habitavam a América Latina antes de seu encontro com os europeus no final do século XV. Devemos chamá-los de nativos, índios, ameríndios, aborígenes, povos indígenas ou povos originários?
Decidimos priorizar a expressão “povos originários”, visto que eles habitam o continente há dezenas de milhares de anos. Aos membros dos povos originários latino-americanos, chamaremos de indígenas, a fim de evitar conotações pejorativas comumente atribuídas a índio.
Um estudo da história da América Latina também exige uma periodização adequada. Adotamos uma periodização que corresponde à história dos países independentes da cultura latina, incluindo o Brasil, tendo em vista os acontecimentos, os textos e as pessoas que representaram, em cada época, a história da tradução na região.
Miscigenação – ou “mestiçagem”, como uma tradução mais próxima do espanhol - é outro conceito que precisa ser ponderado. Tanto no discurso acadêmico quanto na linguagem leiga, o termo foi progressivamente perdendo suas conotações raciais e se desviando para uma fusão de identidades, comportamentos, estilos e características. Na América Latina, as conotações do conceito são exclusivamente raciais.
Do ponto de vista cultural, é mais conveniente falar em “hibridismo”. Sherry Simon (1999) evidencia essa diferença ao declarar que "miscigenação/mestiçagem" deve ser vista como um estado final e definido, enquanto o hibridismo é caracterizado por sua natureza evolutiva e instável. O hibridismo é um processo, não um estado, o que melhor corresponde à realidade identitária da América Latina. Ademais, como veremos, na América Latina, conceitos como “tradução” e “liberdade” assumem conotações muito específicas (Bastin e Díaz 2004).
A institucionalização dos Estudos da Tradução e a profissionalização da prática da tradução na América Latina se concretizaram nas últimas três décadas. Nosso objetivo nesta entrada é esboçar uma cronologia da paisagem da tradução latino-americana. Para cada período, além de documentar os acontecimentos históricos já estudados, faremos referência a algumas lacunas da história da tradução da região que ainda aguardam ser preenchidas. Para tanto, dividimos a história da tradução na América Latina em cinco períodos principais, adotando, concomitantemente, uma perspectiva latino-americana global e sensível às histórias nacionais:
- povos originários
- encontro e conquista (de 1492 até 1533)
- colonização (1534-1792)
- emancipação e novas Repúblicas (1792-1850)
- os últimos 170 anos (1850-2020)
Cabe destacar que:
[...] la caracterización y la delimitación de períodos en la historia de América Latina suscitan algunos problemas específicos que tienen que ver con: 1) la simultaneidad de los procesos de “descubrimiento”, “conquista” y “colonización”; 2) el lapso histórico abarcado por dichos procesos; 3) la ubicación de la independencia misma; 4) la instalación de las Repúblicas; 5) la delimitación de la historia contemporánea; y 6) la correspondencia con la periodización euro-occidental. (Fundación Polar 1988: tomo 3, 108)
Nossa periodização revela dois momentos de intensa atividade tradutória. Em primeiro lugar, o encontro e a conquista, principalmente pela presença dos intérpretes. Em seguida, a emancipação e a instalação de novas repúblicas na maioria dos países, com a tradução de textos filosóficos e fundacionais (particularmente, declarações de independência e Constituições políticas), textos jornalísticos, canções e discussões em encontros sociais (tertúlias). Os outros períodos, embora mais longos, são menos intensos em termos de atividades de tradução. Durante a colonização e nos últimos 170 anos, as práticas tradutórias latino-americanas foram mais estáveis, organizadas e sistemáticas.
La selva del tiempo, de Adrenalina Caribe, é uma canção venezuelana que nos recorda que a América nasceu muito antes de 1492: “Mucho antes de que llegaran los españoles, ya en América los Indios dominaban las estrellas.” Do mesmo modo, dizia Oswald de Andrade que: “Antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o Brasil tinha descoberto a felicidade”. A celebração do 500º aniversário da “descoberta” da América (em 1992) ou o do Brasil (em 2000) foi um erro prontamente corrigido porque a história da região não começou em 1492.
Por muito tempo, multiplicaram-se estereótipos sobre a América pré-colombiana, fruto de especulações de exploradores, cronistas e intelectuais europeus e norte-americanos. Esses mesmos estereótipos aparecem em romances, filmes e campanhas ambientais e publicitárias. Até mesmo alimentos e trajes alusivos à época que precedeu o encontro entre os dois mundos foram divulgados. Primeiro, acreditou-se que todo o continente era uma terra virgem e que seus poucos habitantes eram beneficiários passivos de sua natureza generosa. Essas ideias foram disseminadas em comentários (alguns elogiosos; outros, depreciativos) ao longo de muitos anos.
Conforme Hernán Cortés, nas Cartas da Conquista do México:
[...] ¿qué mas grandeza puede ser, que un señor bárbaro como este tuviese contrahechas de oro y plata y piedras y plumas todas las cosas que debajo del cielo hay en su señorío, tan al natural lo de oro y plata, que no hay platero en el mundo que mejor lo hiciese; y lo de las piedras, que no basta juicio á comprehender con qué instrumentos se hiciese tan perfecto; [...] Tenia dentro de la ciudad sus casas de aposentamiento , tales y tan maravillosas, que me parecería casi imposible poder decir la bondad y grandeza délias. E por tanto no me porné en expresar cosa délias, mas dé que en España no hay su semejable. (Cortés [1520] 1866: 109-110)
Em 1580, Michel de Montaigne escreveu sobre os povos amazônicos que:
Es un pueblo [...] en el cual no existe ninguna especie de tráfico, ningún conocimiento de las letras, ningún conocimiento de la ciencia de los números, ningún nombre de magistrado ni de otra suerte, que se aplique a ninguna superioridad política; tampoco hay ricos, ni pobres, ni contratos, ni sucesiones, ni particiones, ni más profesiones que las ociosas, ni más relaciones de parentesco que las comunes; las gentes van desnudas, no tienen agricultura ni metales, no beben vino ni cultivan los cereales. Las palabras mismas que significan la mentira, la traición, el disimulo, la avaricia, la envidia, la detractación, el perdón, les son desconocidas. (Montaigne [1595] 1898: 160)
Como foi demonstrado em estudos de campo relativamente recentes (William Denevan, nos anos 1960 e 1970, entre outros), as terras latino-americanas não estavam em um estado virginal em 1492; elas foram trabalhadas, transformadas e exploradas por diversas comunidades indígenas. Denevan (1992) questionou o que chamou de “o mito primitivo”, a ideia de que os povos originários tinham pouco impacto sobre seu meio ambiente. Excelentes exemplos de tal atividade humana são os traços geométricos deixados na terra (as linhas de Nasca encontradas no Peru), e os montículos (morros artificiais com cerca de dezoito metros de altura feitos de peças de cerâmica misturadas com solo) na região de Llanos de Moxos, na Bolívia. Essas colinas, que foram descobertas com o recuo da selva, não provêm de extraterrestres, mas da atividade de grandes populações originárias. Cerca de cinquenta milhões de membros das comunidades indígenas do continente foram dizimados por doenças, desastres naturais e guerras.
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| O beija-flor das linhas de Nasca (Peru) e os campos e montículos dos Llanos de Moxos (Bolívia) |
Uma vida intelectual rica e grandes obras de engenharia já existiam no continente antes da chegada de Cristóvão Colombo. O quipu, na cultura inca, era uma forma sofisticada de “comunicação” tridimensional, um objeto usado para registrar cálculos numéricos e uma forma inteligente de tradução intersemiótica. O tocapu, também da cultura inca, era um tipo de representação geométrica abstrata que aparecia ou era aplicada em tecidos, cerâmicas e madeira. Além de ser uma forma de expressão estética e artística, o tocapu, muito parecido com os códices asteca e maia, também pode ter servido para registrar os principais eventos da história incaica.
Os povos originários construíram milhares de quilômetros de estradas para unir as diferentes regiões de seus imensos impérios. No México, alcançaram um entendimento sofisticado do tempo e inventaram um calendário avançado. Construíram pirâmides que, até os dias atuais, não revelaram seus segredos de construção. Embora ainda haja muito a aprender sobre os vários aspectos da vida dos povos originários, poderíamos demonstrar com muitos outros exemplos que essas eram, de fato, sociedades organizadas com conhecimentos agrícolas avançados e práticas de construção. Os indígenas latino-americanos não foram bons selvagens nem bárbaros, como os europeus os descreveram para justificar seu projeto de colonização e evangelização (Bastin 2017).
O número de línguas faladas no continente antes da chegada dos europeus é uma dentre as tantas perguntas sobre os povos originários a permanecer sem resposta. Devemos ter em mente que essas línguas nem sempre tinham um nome particular para seus próprios falantes, que podiam chamá-las de “a língua”, “a nossa língua” ou “a língua verdadeira”. No caso do mapuzugun, língua falada pelo povo mapuche, presente no território que hoje é considerado Chile e Argentina, eles a chamaram de “a língua da terra”. Em outros casos, as línguas foram nomeadas por povos vizinhos ou inimigos. Ainda que não se possa precisar quantas foram as línguas originárias, não há dúvidas de que houve trocas, influências e traduções entre seus falantes. Infelizmente, essa realidade ainda não foi estudada extensivamente do ponto de vista dos Estudos da Tradução e da Interpretação (ETI).
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| À esquerda e ao centro, o quipu e uma túnica tocapu (1450–1540) incas. À direita, pinturas rupestres da Serra da Capivara (Brasil) |
Os povos indígenas do Brasil tiveram seu primeiro encontro com o português em 1500. No entanto, com base em descobertas arqueológicas recentes no Parque Nacional da Serra da Capivara, o que hoje se considera Brasil é habitado, há mais de 60.000 anos, por vários grupos humanos - entre eles os das etnias tupi, guarani, pano, jê e arawak, que falavam centenas de línguas. Portanto, a história do continente que os europeus encontraram por engano não começou em 1492. Da mesma forma, a história da tradução na América Latina não começou com as primeiras trocas entre os invasores e os povos indígenas, como muitos relatos históricos sobre as atividades de tradução no continente têm tradicionalmente proposto. Diversas cronologias, inclusive as que utilizamos em estudos anteriores, propuseram o encontro entre as duas civilizações como o primeiro período da história da tradução no continente. Hoje, os avanços dos Estudos da Tradução nos dão a oportunidade de corrigir essa imprecisão e de destacar o valor que as atividades de tradução no continente antes da chegada dos europeus tiveram para a história da tradução na região. Nossa compreensão da tradução foi além da transferência de um texto escrito em um idioma de origem para um texto escrito em um idioma diferente. Em virtude do aumento da colaboração interdisciplinar, dos avanços na multimodalidade e, acima de tudo, do conceito de tradução como transferência intersemiótica, a pesquisa em tradução agora pode contar com ferramentas teóricas e metodológicas adicionais e confiáveis para investigar de forma mais completa um período importante da história da tradução.
Os indígenas tinham seus próprios meios de manter registros históricos e de se comunicar com outros povos que não compartilhavam sua(s) língua(s). É sabido que eles transmitiam seus conhecimentos e valores culturais de geração em geração, principalmente por meio das tradições orais. Os Estudos da Tradução na América Latina têm a oportunidade de direcionar pelo menos um aspecto de seus esforços de pesquisa para o estudo das formas de comunicação utilizadas pelos povos originários, como os códices mixtecos Colombino-Becker e Zouche-Nuttal. Esses códices são documentos escritos em peles de animais em forma hieroglífica que registram tanto as genealogias quanto os eventos mais importantes da vida dos membros de seus grupos dirigentes.
O encontro (de 1492 até a queda do Império Inca, em 1533)
Quando Cristóvão Colombo pisou em solo americano, havia milhares de línguas - agrupadas em torno de 133 famílias linguísticas - que estavam sendo faladas no continente. Entre as línguas ou famílias linguísticas com o maior número de falantes estavam a asteca na América Central, México e Estados Unidos (com mais de 20 variantes, incluído o náhuatl no México, Guatemala e América Central); a maya-quiché no México, Guatemala e América Central; a chibcha (ou muísca) na Colômbia; as línguas caribes (caribas ou caraíbas) nas Antilhas e norte da América do Sul; as línguas tupi-guaranis no Paraguai, Uruguai, norte da Argentina e Brasil; o aimará e o quíchua, no Equador, Peru e Bolívia e as línguas araucanas, presentes sobretudo no Chile e na Argentina (Bastin 2003). Ainda não temos dados sobre as trocas entre comunidades indígenas de diferentes origens linguísticas que teriam exigido o uso de intérpretes (Rosenblat 1984: 72-74). Como os espanhóis não conheciam as línguas indígenas e os indígenas não sabiam o castelhano, os intérpretes eram de extrema importância. Deve-se notar que o trabalho dos intérpretes foi regulamentado desde os primeiros dias da colônia. As Leis das Índias (Las Leyes del Reyno de las Indias), emitidas pela Coroa Espanhola para o governo de suas colônias, incluíam no Livro II, Título XXIX - Dos intérpretes, Livro II, cerca de 15 disposições assinadas por Carlos V, Filipe II e Filipe III, entre 1529 e 1630.
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| Malinche, interpretando para Hernán Cortés e Felipillo interpretando para Pizarro e Atahualpa |
Considerando os intérpretes indígenas inadequados, missionários espanhóis e portugueses se viram obrigados a aprender as línguas originárias. No entanto, os problemas de comunicação transcenderam aspectos linguísticos nos esforços por promover o encontro entre os dois mundos. Os missionários queriam ensinar e transmitir conceitos estranhos aos indígenas. Por meio do sacramento da confissão, condenavam comportamentos segundo valores e modelos cristãos europeus. Por fim, a evangelização se inscrevia em um conjunto rígido de ideias que não acomodava uma compreensão das múltiplas cosmovisões desenvolvidas no continente a partir de uma relação estreita com a natureza.
Segundo García Ruiz (1992: 10), três construtos conceituais opuseram os mundos europeu e indígena: a percepção do indivíduo, a percepção da divindade e a percepção da transgressão (pecado).
Embora alguns missionários tenham se empenhado em compreender as cosmogonias indígenas, não abandonaram suas concepções hegemônicas e paternalistas. Além disso, a evangelização por meio da tradução falhou em apagar completamente as crenças ou os elementos éticos da cultura indígena. Enquanto partes desses elementos culturais foram preservados, outras partes foram reorganizadas na identidade latino-americana por meio de hibridismo ou “contágio” (Baigorri e Alonso-Araguás 2007).
Diante das dificuldades de tradução às línguas originárias de conceitos do cristianismo (depois, do catolicismo), tradutores frequentemente optaram por deixá-los sem tradução, preservando-os em espanhol, português ou mesmo latim. Ocasionalmente, eles os traduziam para as línguas locais, mas não sem se expor a críticas e censura. Esse tipo de mediação linguística revela a ordem hegemônica das línguas: acima, o espanhol e o português, às vezes o latim (línguas superiores capazes de expressar conceitos com precisão), e, abaixo destas, as línguas indígenas.
Os paratextos (introduções, prefácios, notas de rodapé e apêndices) de obras traduzidas deste período em discussão possuem comentários numerosos sobre as línguas indígenas, sua cultura e seus falantes. Eles também possibilitam uma visão interna sobre o processo meticuloso de tradução e o controle aplicado por autoridades eclesiásticas e civis antes da autorização para a publicação, distribuição e utilização dos textos traduzidos (Bastin 2007). É importante notar também que o primeiro dicionário da língua espanhola, o Tesoro de la lengua castellana o española, de Sebastián de Covarrubias (1611: 739-740), continha dois verbetes sobre intérpretes:
Lengua: El interprete que declara una lengua con otra, interviniendo entre dos diferentes lenguages.
Intérprete: El que vuelve las palabras y conceptos de una lengua en otra, en el qual se requiere fidelidad, prudencia y sagacidad y tiene igual noticia de ambas lenguas, y lo que en ellas se dize por alusiones y términos metafóricos, mirar lo que en estotra lengua le puede corresponder.
A partir de 1516, uma série de recomendações, sugestões e súplicas foram dirigidas às autoridades espanholas para que os locais fossem ensinados a ler e escrever em castelhano. Data de 1550 a primeira lei geral a ordenar que os sacristãos ensinem às crianças indígenas a língua do império (Solano 1991: 47). Isso foi seguido pela criação, em 1573, da primeira escola de tradutores e intérpretes da América Latina, o Colégio Imperial de Santa Cruz de Tlatelolco. O debate linguístico opôs missionários e juristas, os primeiros imersos na realidade cotidiana, enquanto os segundos tentaram impor ideais jurídicos e doutrinários. Esse conflito perdurou até 1770, quando, por decreto real, a Real Cédula de Carlos III, o rei Carlos III baniu as línguas americanas (Solano 1991: 257). É de se destacar que esses ideais linguísticos eram totalmente contraditórios com o projeto de evangelizar os habitantes locais em suas próprias línguas. As línguas indígenas eram empregadas em atividades de divulgação da fé e nas trocas entre europeus e americanos. Documentos escritos - leis, documentos oficiais, estudos e livros - eram invariavelmente publicados em latim, em castelhano ou português, no caso do Brasil.
A experiência de colonização do Brasil foi a mesma do restante do continente. O país passou por uma extrema transformação étnica e linguística com a imposição do português, a dispersão de seus povos originários e a introdução de línguas africanas faladas pelas populações escravizadas. Depois de quase duas décadas estudando a história da tradução na região, aprendemos muito pouco sobre o papel que os intérpretes desempenharam nas várias etapas do processo que realocou milhões de africanos de diferentes nações e culturas para as colônias espanholas, portuguesas e inglesas na América. O papel dos intérpretes negros nas colônias é um assunto que não tem recebido muita atenção. O primeiro intérprete negro conhecido para o espanhol foi Estebanico (pequeno Esteban), também conhecido como Estebancito, Estevancico ou Estevanico, um membro da expedição de Pánfilo de Narváez que partiu de Cuba para a Flórida em 1527.
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Uma vez conquistados os vários povos originários, a diversidade linguística tornou-se um obstáculo para as missões evangelizadoras. Então, foram adotadas línguas auxiliares ou línguas francas para facilitar a comunicação. Membros das diferentes ordens religiosas empenharam-se na difusão de algumas “línguas gerais”. Em 1584, o náhuatl se tornou uma língua proeminente de Zacatecas até a Nicarágua. No final do século XVI, o quíchua era falado do Peru ao nordeste da Argentina e do sul da Colômbia ao alto Amazonas. O chibcha ou muísca era falado em todo o planalto cundiboyacense da Colômbia. O guarani era falado no Paraguai, no litoral do Rio da Prata e em muitas partes do Brasil. Como Rosenblat (1984) aponta, é paradoxal que, sob o domínio espanhol, as línguas náhuatl e quíchua tivessem alcançado uma presença mais significativa durante o período colonial do que no auge dos impérios Asteca e Inca, respectivamente.
Deve-se notar que, até o final do período colonial, houve uma significativa falta de interesse oficial pelas línguas indígenas (exceto o seu uso funcional), o que levou à perda e destruição de um valioso corpus de textos e uma série de estudos linguísticos feitos por missionários das ordens jesuíta, franciscana, dominicana e agostiniana. Na verdade, as autoridades religiosas não permitiam a administração dos sacramentos a (pretensos) destinatários que não estivessem familiarizados com as crenças básicas da fé católica. A confissão, por exemplo, não devia ser dada com a ajuda de intérpretes. Os padres se sentiram compelidos a estudar e aprender as línguas locais, escrever gramáticas, criar dicionários e traduzir escritos doutrinários como catecismos, breviários, missais e livros de horas, de cantos e outros livros da Igreja. Alguns desses documentos foram esquecidos com o tempo; outros, nunca foram impressos. Algumas tradições, rituais, cerimônias, crenças e representações gráficas, por serem consideradas heréticas, foram sistematicamente proibidas desde o início da colonização. Por isso, a maioria dos códices indígenas foi queimada.
Os jesuítas chegaram ao Brasil em 1549. A primeira tradução escrita, A suma da doutrina cristã na língua tupi, do jesuíta João de Azpilcueta Navarro, data de 1557. A primeira gramática de uma língua local, de autoria do Padre José de Anchieta, foi impressa em 1595. Apesar de uma proibição oficial no Brasil contra a impressão, os jesuítas, antes de sua expulsão dos territórios portugueses na América, em 1759, conseguiram estabelecer bibliotecas importantes voltadas para o desenvolvimento cultural e educacional da população da colônia. No Brasil e nas colônias espanholas, os missionários jesuítas quase que exclusivamente traduziram escritos doutrinários e outros textos religiosos para as línguas indígenas como ferramentas para a conquista espiritual das populações.
Emancipação e constituição das novas repúblicas (1792-1850)
Neste período, surgiu um grande número de intelectuais em toda a América Latina. Os criadores do século XIX, em sua maioria membros das elites criollas, foram eloquentes paladinos do projeto intergeracional de rastrear, identificar e desenvolver as raízes e a identidade latino-americanas. Os primeiros sinais de produção literária e científica surgiram no final do século XVIII. Os traços imitativos e pouco seletivos de suas manifestações (a tradução era um deles) foram copiados das modas e tendências europeias e norte-americanas, convertidas em autoridade. Nas tertúlias, membros das camadas educadas da sociedade compartilhavam experiências sobre suas viagens. Eles discutiam as ideias filosóficas de sua época e refletiam sobre os livros recentemente importados que haviam lido. Os sonhos de independência foram agitados primeiro em reuniões populares e posteriormente consolidados com a tradução de textos políticos fundacionais.
Os líderes do movimento de emancipação eram em sua maioria políticos e intelectuais que viajavam à Europa ou aos Estados Unidos animados por ideais revolucionários, separatistas e emancipatórios. As traduções mais importantes do período foram, sem dúvida, traduções de textos políticos. Em 1792, o jesuíta Juan Pablo Viscardo y Guzmán escreveu em francês a Lettre aux espagnols Américains (Carta aos espanhóis americanos).
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| A carta de Viscardo, publicada em francês por Francisco de Miranda (1799), quem a traduziu e republicou em 1801. À direita, Juan Bautista Picornell |
Em 1799, Francisco de Miranda publicou a versão francesa dessa Carta, em Londres, e, em 1801, publicou a versão em espanhol, que se tornaria a peça central de seu projeto emancipatório. O texto também foi usado pelos revolucionários da época para justificar a independência da Espanha. Como muitos outros produtos do período colonial, o germe da Independência na América Latina também foi importado da Espanha.
Em dezembro de 1796, Juan Bautista Marinao Picornell y Gomila (1759-1825) foi encarcerado na prisão de La Guaira (Venezuela)
Seu crime foi participar da Conspiração de San Blas, em Madri, em fevereiro do mesmo ano, com o objetivo de acabar com a monarquia e estabelecer as ideias liberais da Revolução Francesa. Entre seus papéis, Picornell tinha uma tradução da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, redigida em 1793 (35 artigos), bem como uma seção da Constituição da Primeira República. Este texto se tornou o alicerce político e filosófico da Conspiração de Gual e Espanha (Venezuela, 1797), talvez a primeira tentativa séria de independência na América Latina.
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| Andrés Bello (1781-1865). |
Essas duas conspirações (a de San Blas e a de Gual e Espanha) tinham em comum o fato de terem fracassado e de as traduções terem desempenhado um relevante papel crítico. Graças à tradução de documentos políticos, como a Constituição Francesa e a Constituição dos Estados Unidos, a Declaração de Independência dos Estados Unidos e o Código Civil Francês (Código Napoleônico) (Bastin, Echeverri e Campo 2004), os revolucionários latino-americanos tiveram acesso a modelos constitucionais e jurídicos que mais tarde foram usados para estabelecer as novas repúblicas.
No que se refere à tradução, a Venezuela compartilhava diversas características comuns a toda a América Latina, tais como uma predileção pela tradução literária, a seleção de textos filosóficos para introduzir ideias emancipatórias, o elo entre a tradução e as tarefas pedagógicas das universidades emergentes e a liberdade criativa do tradutor. Andrés Bello (1781-1865) foi, sem dúvida, o tradutor mais influente desse período. Escritor, educador e diplomata, suas criações poéticas foram universalmente reconhecidas por sua beleza e originalidade. Ele traduziu Florian, Byron, Plauto, Victor Hugo, A. Dumas, Boiardo e Virgílio, entre outros (Valero 2001). Bello redatou o primeiro Código Civil, ainda presente em alguns países latino-americanos. O Código de Bello é uma mescla de partes retiradas dos códigos civis francês e alemão e partes do espanhol (Bastin, Echeverri e Campo 2004). Bello extraiu de cada texto o que considerou necessário e benéfico para o espírito das repúblicas em formação.
Devido a sua localização geopolítica favorável, a Venezuela “ha sido la vía de penetración de las nuevas ideas renovadoras que, al final del XVIII, iban a cuajar en el pensamiento que condujo a la independencia” (Grases 1981: 135). A respeito disso, cabe destacar a importância das traduções de Manuel García de Sena. As traduções de García de Sena para o espanhol de algumas das obras de Thomas Paine e John M’Culloch e, em particular, da Constituição dos Estados Unidos, foram usadas como “documentos de trabalho” para os primeiros constitucionalistas latino-americanos.
Não é exagero dizer que a elite criolla da época considerava a tradução uma atividade necessária, a julgar pela frequência com que traduziam e a posição social dos tradutores. As traduções do período refletiam o espírito e a estrutura do idioma de origem, ainda que não faltassem exemplos de verdadeiras criações e adaptações que evidenciavam intervenções deliberadas. Essas intervenções demonstram que o valor do texto era, mais que estético, instrumental.
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| À esquerda, livro que compila extratos de Paine em tradução de Manuel García de Sena (1811). À direita, retrato de Antonio Nariño y Álvarez |
Os tradutores se apropriaram dos textos na realização de seu projeto emancipatório, proporcionando à história da tradução um dos exemplos mais claros de uma forma continental comum de tradução. Os tradutores extraíam de textos estrangeiros o que era vantajoso para sua causa emancipatória (Bastin, Echeverri e Campo 2004).
Nessa época, na Colômbia, se destaca, por seu significado histórico, a tradução da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (17 artigos), realizada por Antonio Nariño, em 1794, obra que o fez conhecido como o primeiro tradutor dessa Declaração na América. Na primeira década do século XIX, várias traduções da Constituição dos Estados Unidos ao espanhol já circulavam por Bogotá. Há poucas informações sobre esses tradutores e essas traduções, embora o período tenha sido objeto de um detalhado estudo histórico sobre a importância da tradução (Grases 1981).
No Brasil, no início do século XVIII, a tradução de peças de teatro era muito popular e deu suporte à consolidação e estabilidade do português brasileiro. Os próprios tradutores apresentavam suas traduções como imitações, paródias ou adaptações para o público local (Wyler 2003: 92-93).
A partir do século XVIII, nas sociedades latino-americanas, a imprensa ajudou a nutrir o interesse pela tradução tanto dentro quanto fora dos círculos cultivados. A imprensa começou tarde no Brasil, considerando que havia chegado ao México em 1536 e ao Peru em 1584 (Grases, 1983). A Colômbia viu sua primeira imprensa em 1738; a Venezuela, em 1808.
Em geral, os periódicos foram inicialmente constituídos com o apoio das autoridades monárquicas espanholas, e só depois, sob a influência dos movimentos emancipatórios, tornaram-se republicanos. Retomam fórmulas europeias, mas reivindicam referências americanas. Conforme Hart (2014: 21), os periódicos são a “exaltación criolla de un espacio específico y sus habitantes más eminentes”.
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A Gazeta de Guatemala (1729-1821), um dos periódicos estudados sob a perspectiva dos Estudos da Tradução, traduziu e publicou longos trechos da primeira edição da Storia Antica de Messico, de autoria do jesuíta Francisco Javier Clavijero. Essas traduções, como as publicadas em outros periódicos da época, foram utilizadas como estratégia comercial para aumentar as assinaturas.
A Gazeta de Caracas (1808-1822) publicou 698 exemplares dos quais puderam ser identificadas 756 traduções (mais de uma por exemplar!) (Navarro 2018), evoluindo por meio das mudanças políticas vividas na Venezuela durante quatro períodos monarquistas e cinco republicanos.
Como era de se esperar, a educação popular das novas repúblicas exigia professores capazes de transmitir aos novos cidadãos os valores projetados pelas classes dominantes. Um caso exemplar do uso da tradução para atingir esse fim é o da revista colombiana La Escuela Normal (1781-1879), que serviu de meio de difusão do projeto de um grupo de intelectuais, políticos e educadores que almejavam um modelo educacional laico, universal e gratuito. Um número considerável de traduções de textos do francês e do inglês foi publicado com o objetivo de formar futuros docentes (Montoya 2014).
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Estudar a imprensa traz um aporte metodológico à História da Tradução; aos estudos de relação entre tradução e poder; para descrição e concepção da tradução nos diferentes países da região durante o século XIX. Os periódicos revelam o papel central que a tradução desempenhou nos processos políticos na América Latina no período. O estudo da história da tradução ajuda não apenas a revelar a intertextualidade entre periódicos locais e estrangeiros, mas também destaca as intervenções deliberadas de tradutores-escritores, tanto no nível micro quanto no macrotextual.
Uma vez alcançada a independência, o foco da atividade de tradução se deslocou para a consolidação das diferentes repúblicas e, principalmente, para a educação. No Brasil e nos países de língua espanhola, diversos projetos de tradução foram concebidos para fins educacionais e para o desenvolvimento das literaturas nacionais.
Na Argentina, no final do século XIX, Miguel Navarro Viola fundou a Biblioteca Popular de Buenos Aires para criar uma cultura literária e promover a educação geral. Navarro Viola reservou um lugar especial para a literatura contemporânea traduzida (Pagni 2013). Já no século XX, essa ideia de cultura literária teria sua continuidade no projeto Biblioteca de la Nación promovido pelo diário La Nación, com o objetivo de fomentar a educação popular. Entre 1901 e 1920, esse projeto facilitou a tradução de centenas de obras literárias associadas à tradição europeia, combinando obras consideradas canônicas com outras categorizadas como cultura popular (Willson 2005).
Por sua relativamente ampla difusão, os periódicos foram altamente influentes em todos os países, entre outros aspectos, por causa de suas traduções. Os temas principais e suas motivações estavam relacionados aos campos da política, da educação, do teatro e da promoção literária, sem falar na religião e na arte da guerra. A criação de periódicos, boletins literários, editoras e universidades foram motivações sérias para as atividades tradutórias.
Os projetos mencionados eram comuns a praticamente todos os países da região, embora em diferentes níveis. As elites educadas sabiam como usar a tradução para avançar em seus objetivos políticos, artísticos e sociais. As atividades de tradução foram intensas durante esse período em toda a região, conforme ilustrado nas entradas sobre Argentina, Brasil, Colômbia, Chile, México, Peru e Venezuela no Diccionario histórico de la traducción, editado por Francisco Lafarga e Luis Pegenaute (2013) e pesquisas como as do grupo de História da Tradução na América Latina (HISTAL), entre outras.
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| Praça Tiradentes, em Ouro Preto, Minas Gerais. Tiradentes era a alcunha de Joaquim José da Silva Xavier, um dos líderes da conjuração emancipatória conhecida como Inconfidência Mineira |
Em Cuba, no final do século XVIII, as traduções de textos e obras de vários movimentos literários e filosóficos de todo o mundo exibiam uma marca que passava a ser criolla. Entre os mais proeminentes tradutores cubanos do período estavam José María Heredia y Heredia, que traduziu W. Scott, T. Moore, Chenier, Alfieri, Ducis, Voltaire, E. Roch e Tytler. Heredia, que se identificou com o modo latino-americano de traduzir, ficou conhecido por fazer contribuições originais ao texto de partida. A história da tradução em Cuba no século XIX também é marcada pela presença de um grupo de mulheres tradutoras. Entre elas, Gertrudis Gómez de Avellaneda (1814-1873), quem se recusava a ver a tradução como uma cópia servil do original, traduziu Victor Hugo, Byron, Lamartine e Augusto de Lima. Aurelia Castillo de González e Mercedes Matamoros (Arencibia 1993) também se destacaram nesse grupo.
O Brasil abriu-se ao comércio internacional em 1808, com a chegada da Corte Real, e tornou-se independente em 1822. Antes, porém, houve forte influência de pensadores franceses, cujas ideias inspiraram a Inconfidência Mineira (1789), as Conjurações Carioca (1794) e Baiana (1798) e a Revolução Pernambucana (1817). No século XIX, as elites educadas brasileiras tornaram-se ainda mais receptivas, traduzindo obras literárias das tradições de língua francesa e inglesa.
O século XIX foi também marcado por relatos de viagens e expedições científicas. O contato com viajantes estrangeiros e a publicação de seus relatos científicos suscitaram um novo interesse por traduções. Com a consolidação das novas repúblicas, a tradução de textos políticos perdeu espaço para a tradução de textos literários, científicos e educacionais.
Os últimos 170 anos: 1850-2020
Nos últimos 170 anos, a tradução desempenhou um papel crucial na consolidação e no desenvolvimento das “nações” latino-americanas. A tradução tem, entre outras coisas, servido como uma fonte constante de desenvolvimento tecnológico e científico. Por meio dela, os autores latino-americanos apresentaram a seus leitores não apenas obras literárias europeias e norte-americanas, mas também conhecimentos em muitos outros campos. Uma consulta ao catálogo de autores traduzidos no Diccionario histórico de la traducción en Hispanomérica, de Lafarga e Pegenaute (2013), confirma a influência da tradução nas literaturas nacionais da região.
Assim como na Europa, as primeiras reflexões teóricas sobre a tradução no continente foram produzidas por autores motivados pelos desafios que enfrentaram em sua própria prática tradutória. Entre os numerosos intelectuais latino-americanos que gravaram seu nome nos anais da teoria da tradução estão Machado de Assis, Oswald de Andrade e Haroldo de Campos (no Brasil); José Martí (em Cuba); Bartolomé Mitre e Jorge Luis Borges (na Argentina); Octavio Paz (no México); e Miguel Antonio Caro (na Colômbia). Esses autores escreveram ensaios, notas preliminares e comentários sobre suas traduções a fim de elucidar suas ideias teóricas.
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| O cubano José J. Martí Pérez e o argentino Jorge Luis Borges |
Essa tradição teórica é bem conhecida na comunidade latino-americana dos Estudos da Tradução, e alguns dos textos que veiculam suas ideias estão incluídos em antologias mundiais de tradução. É o caso de Traducción: literatura y literalidad (1971), de Octavio Paz, e Los traductores de las Mil y una noches (1936), de Jorge Luis Borges. Quem acompanha a história da tradução na América Latina sabe que existem muitos textos semelhantes escritos por latino-americanos que não tiveram uma recepção tão ampla - seja dentro ou fora da região - como os escritos de Paz e Borges. E não é por acaso que a imagem que melhor reflete o modelo latino-americano de tradução é a do brasileiro movimento antropofágico (Nitschack 2016).
Até onde sabemos, nenhuma antologia das ideias teóricas mais influentes na história da tradução na região foi publicada. Dada a natureza intensiva da prática tradutória, a influência da tradução na formação das literaturas nacionais, e pelas ideias teóricas que gerou, os Estudos da Tradução deveriam, a essa altura, fazer parte da formação universitária.
A maioria dos países da região oferece algum tipo de educação universitária em tradução. Embora muitos desses programas tenham sido criados na segunda metade do século XX, os esforços de pesquisa na região raramente cruzaram as fronteiras nacionais. Um caso em questão foi o incrível estudo de Lourdes Arencibia sobre a história da tradução em Cuba. A pesquisa da Arencibia ganhou reconhecimento maior e merecido com a consolidação de uma comunidade regional de pesquisadores interessados no tema. Cientes da existência de projetos de pesquisa comparáveis na América Latina, em 2004 nós, os autores, criamos o grupo de pesquisa HISTAL na Universidade de Montreal, no Canadá. Um dos principais objetivos desse grupo é oferecer uma plataforma colaborativa na forma de site (www.histal.net) para promover projetos de pesquisa em tradução na América Latina e estimular a consolidação de uma comunidade de pesquisa extensa cuja massa crítica seja determinante para conferir maior visibilidade a seus trabalhos.
A criação da Rede Latino-Americana de Estudos de Tradução e Interpretação (RELAETI) representa o maior esforço colaborativo em tradução na América Latina nos últimos anos. A RELAETI organiza um congresso internacional a cada dois anos e tem fortalecido consideravelmente a colaboração acadêmica em Estudos da Tradução. Das atividades vinculadas à RELAETI e ao grupo Histal, destacamos três grupos de pesquisa coordenados por Gertrudis Payás, Martha Pulido e Danielle Zaslavsky.
Na Universidade Católica de Temuco (Chile), Payás desenvolveu, entre outras, uma linha de pesquisa sobre tradução e interpretação intercultural na fronteira araucana durante o século XVII. A obra La mediación lingüístico-cultural, en tiempos de guerra: cruce de miradas desde España y América, de 2013, organizada por Gertrudis Payás em colaboração com José Manuel Zavala, compila textos que examinam as mediações interlinguais a partir de uma perspectiva multidisciplinar, incluindo os Estudos da Tradução, mas também a Filosofia, a Antropologia e outras áreas. Esses estudos analisam um dos mais antigos conflitos do continente: o que se trava entre comunidades indígenas e outros grupos humanos na região mapuche desde os tempos coloniais até o presente.
Martha Pulido, da Universidade de Antioquia (Colômbia), é membra ativa da RELAETI, e seu trabalho de pesquisa contribuiu enormemente para a institucionalização dos Estudos da Tradução em seu país. Uma das principais iniciativas de sua equipe tem sido a tradução para o espanhol de textos sobre história e teoria da tradução. O primeiro projeto do grupo foi a tradução do livro Les traducteurs dans l’histoire [Os tradutores na história], de Jean Delisle e Judith Woodsworth (1995). Esse projeto contou com a colaboração estreita entre a Profª Pulido e seus estudantes, que participaram de todas as etapas de preparação e realização da tradução.
Finalmente, no Colégio do México, a Professora Danielle Zaslavsky desenvolveu um intenso programa de pesquisa e colaboração acadêmica relacionando os Estudos da Tradução e a Análise do Discurso. Ela também conduziu pesquisas sobre o discurso zapatista. Em 2013, publicou um estudo sobre o papel dos intérpretes e tradutores jurídicos envolvidos no caso de uma mulher náhuatl vítima de estupro coletivo. Também organizou, no México, vários congressos sobre tradução literária. O trabalho de Zaslavsky, no México, e de Payás, no Chile, são exemplos claros da adaptação da pesquisa em tradução à virada social.
Muitos dos fatos e dados discutidos nesta entrada foram tratados com maior detalhamento em outras publicações (Bastin e Echeverri 2004; Echeverri e Bastin 2019; Bastin e Echeverri 2019, entre outras). Aqui foi proposta uma periodização da história da tradução na América Latina baseada em fatos de tradução. Também foram mencionados tópicos da história da tradução na América Latina ainda sem pesquisas aprofundadas. Este é o caso da tradução entre os povos originários e entre as línguas africanas na época colonial, da conspiração de San Blas, das traduções das Constituições dos Estados Unidos na Colômbia nas primeiras décadas do século XIX, e o papel importante desempenhado pelas mulheres na história da tradução e dos estudos da tradução latino-americanos.
A história da tradução é um vasto campo para pesquisas. Há muitos trabalhos sobre países europeus, mas os demais continentes, particularmente a América Latina, ainda requerem muitos esforços de pesquisa. O propósito de qualquer estudo histórico deve ser o de resgatar, descrever e analisar o papel desempenhado pela tradução em nosso mundo, passado ou presente.
A história da tradução estuda uma grande variedade de objetos: textos (textos literários, textos científicos, textos jornalísticos e textos filosóficos, para citar alguns), pessoas (tradutores e intérpretes), instituições e agentes de tradução em geral (editoras, governos, instituições privadas, etc.), regiões e comunidades (sociais, religiosas, etc.) e também eventos. O trabalho do historiador da tradução é coletar uma grande quantidade de dados para apoiar o alcance dos objetivos da pesquisa. Tal empreendimento requer rigor e perspicácia. No caso de estudar textos, deve-se analisar minuciosamente seu paratexto, ou seja, considerar-se todos os dados relativos ao texto em questão, os quais também podem ser referidos como peritexto (capa, prefácio, notas de rodapé, glossário, etc.). Ademais, devem ser considerados todos os dados que acompanham a produção do texto e sua recepção (editoriais, correspondências, críticas, publicidade, etc.), o que se conhece por epitexto.
Os objetivos da pesquisa também são diversos: documentar a disciplina (quem, quando, por quem, por que, onde, etc.), ou ainda caracterizar a um tradutor (seus retratos, seus projetos e sua recepção) e definir seus modos de traduzir (tradução direta ou indireta, estratégias, técnicas, etc.).
Atualmente, o campo reconhece três etapas no trabalho dos historiadores: (1) a etapa arqueológica, de coleta de dados; (2) a análise dos dados coletados e (3) a interpretação.
Os métodos de pesquisa podem ser apresentados de várias formas. Em uma abordagem esquemática e seguindo Lépinette (2003), o método de pesquisa pode ser resumido à localização do objeto de estudo nos contextos socioculturais de produção e recepção. Em outras palavras, trata-se de recuperar, descrever e analisar todos os eventos e fenômenos ligados à produção de um texto ou conjunto de textos traduzidos e sua manifestação no contexto sociocultural receptor. Esse método tem duas etapas: (a) o estudo diacrônico comparativo das teorias da tradução e a evolução dos conceitos metatradutológicos e (b) o estudo das traduções com o objetivo de descrever as estratégias utilizadas a partir de um enfoque global (textual) ou seletivo (linguístico).
O enfoque também pode ser descritivo, com vistas a resgatar dados e reunir o máximo de informações possíveis sobre um tradutor, uma ou várias traduções, um acontecimento relevante, etc. Além de ser descritiva, tal abordagem poderia incorporar um ângulo sociocultural, a fim de determinar o papel dos agentes e a origem das traduções e seu(s) efeito(s) na sociedade receptora.











