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Introdução | Época medieval | 1500-1700 | O Século das Luzes | Oitocientos | O século XX | Potencial de investigação
Só faz sentido iniciar uma história da tradução em Portugal a partir do momento em que se considere existir, em paralelo com um português oral, um vernáculo, uma “linguagem” com acesso à escrita, o que acontece em finais do século XII. Convém relembrar que a reconquista do território aos árabes e a recolonização cristã fizeram de Lisboa, em meados desse século, um espaço de comunicação plurilingue, em que se podia ouvir falar árabe, hebraico, românico moçárabe, inglês, línguas faladas em França e, evidentemente, latim. Várias destas línguas perdurariam como línguas-fonte para traduções de tipos textuais muito variados, de cunho pragmático, como súmulas doutrinais ou sínteses historiográficas, que foram alimentando um léxico próprio, de base interlinguística e intercultural.
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| Pedro de Portugal, 1º Duque de Coimbra, um dos primeiros tradutores portugueses. [Source] |
Para a consagração do português como língua distinta do reino de Portugal foi consensualmente decisiva a actuação do rei D. Dinis (1279-1325), que decretou o uso obrigatório do português para todos os diplomas régios, em substituição do latim. Mas “português”, como nome de língua, foi pela primeira vez usado pelo ilustre tradutor D. Pedro (1393-1449), na introdução à sua tradução do Livro dos Ofícios, de Cícero (1430), dedicada ao seu irmão D. Duarte (cf. Neves 2021: 148s.). Este é, portanto, um possível início da história da tradução em Portugal, bem mais cedo do que o implicitamente proposto por Rodrigues (1992) na sua bibliografia A Tradução em Portugal, cujo primeiro volume se inicia com o ano de 1495 e a tradução de De vita Christi, de Ludolfo da Saxónia.
Importa, ainda, recordar a grande “fluidez de fronteiras entre diferentes espécies de textos” na Idade Média. A cópia dos manuscritos levava a uma “panóplia diversificada de intextos […] desde glosas à margem […] a paráfrases intralinguais e até a comentários circunstanciados […] ou inclusive a instruções de natureza didáctica e ética (…) (Bernardo 2001-2: 21). É assim que, se temos traduções directas como a referida de Cícero, que Sabio e Fernández (1998: 29) consideram “a primeira [tradução] integral de um autor clássico latino em Portugal e a única hoje conservada”, outras temos elaboradas a partir de várias fontes, mas com atribuição de autor português. É o caso do Leal conselheiro, da autoria do rei D. Duarte (1391-1438), que coligiu, traduziu e adaptou vários textos de origem latina, aos quais acrescentou contributos de sua lavra (Hörster, Verdelho e Verdelho 2006: 677).
Fora da corte é assinalável a actividade dos mosteiros, onde a vida claustral, à volta de textos litúrgicos, se passava em latim, a língua ritual, aliás também a língua das fontes do estudo. O exercício da tradução, oral e/ou escrita, “ainda que não tomado como tal e documentado” (Nascimento 2021: 624) era necessário para os monges menos instruídos que frequentavam, por exemplo, a escola de Alcobaça. Será mérito de Frei Fortunato de S. Boaventura (1777-1844), organizar e comentar as obras da biblioteca de Alcobaça, tendo dedicado um capítulo às traduções feitas pelos monges cistercienses, c. de 75 títulos, incluindo textos perdidos e cópias. Nascimento elenca e comenta essas traduções (Nascimento 2021: 632-639). Também a vinda do abade D. Estêvão de Aguiar para Alcobaça contribuiu para a encomenda, dentro da comunidade cisterciense, de traduções para língua vernácula. A ele se deve a transferência do manuscrito da tradução da Vita Christi, de Ludolfo da Saxónia (atribuível a D. Duarte, ainda príncipe, segundo Nascimento 2021: 646) da corte, onde exercera funções, para o mosteiro (cf. também Nascimento 2001: 125-142). É por este texto que Aires Nascimento propõe que se inicie a história da tradução no período medieval, pois dele temos manuscrito de base e edição impressa. Um dos primeiros textos a ser ali traduzido foi a Regra de S. Bento, texto normativo que tinha de ser compreendido por todos os membros menos letrados duma comunidade que D. Estêvão de Aguiar estava empenhado em reformar e renovar.
Quanto à prática da tradução propriamente dita, é sabido que as traduções medievais se constituem em “tecido textual múltiplo” (Bernardo 2002: 23), constituído por “várias camadas textuais nele plasmadas – originais, interpretativas, tradutórias – que a tradução ainda mais veio potenciar.” (Bernardo 2002: 23). Por sua vez, o tradutor medieval, além de viajante “aventureiro” (Bernardo 2002: 24) à procura de erudição e dos próprios textos, era tudo menos um agente passivo, que não se limitava a “transpor”, mas dialogava com o destinatário do seu trabalho, interpretava, comentava, transformava o que julgasse necessário. Apesar desta presença marcada, prevalecia o anonimato quanto à identidade pessoal, quantas vezes por receio de infidelidade ao texto de partida, ou seja, por humildade perante a tarefa de se sentar à sombra de um outro “sem ter sido convidado formalmente a fazê-lo” (Nascimento 2021: 29). Em resultado desta atitude, “nominalmente é escasso o elenco dos tradutores que podemos colher em Alcobaça.” (Nascimento 2021: 650).
Nos anos de Quinhentos e Seiscentos há uma rarefacção da actividade de tradução que Hörster, Verdelho e Verdelho (2006: 681ss) explicam com a internacionalização do porto de Lisboa e o fortalecimento da influência castelhana num ambiente de bilinguismo, a par do cultivo de outras línguas como o latim e o italiano. Mas estes autores referem, sobretudo, a publicação, em prelos portugueses, de “centenas” de obras em latim e castelhano, algumas traduzidas de originais portugueses. A quantidade e variedade de livros estrangeiros que iam chegando, tanto literários como científicos e técnicos, podiam ser lidos nos originais em latim, italiano ou espanhol, com a crescente escolarização, sobretudo em latim e espanhol. Hörster, Verdelho e Verdelho (2006: 682) reproduzem números eloquentes: dos 2000 títulos impressos em Portugal no séc. XVI, menos de 800 são escritos em português e, destes, apenas 140 são traduções para a língua portuguesa. Importa também sublinhar que muitos textos traduzidos entre 1500 e 1700 não chegaram a ser impressos, sobretudo do fundo literário greco-latino. Quanto às temáticas, e seguindo o I volume da obra de Rodrigues (1992) A Tradução em Portugal, os 412 títulos traduzidos entre 1495 e 1700 abordam predominantemente a espiritualidade e temáticas religiosas, sobretudo a partir do espanhol. A informação científica e a actualidade ocupam um pequeno número. Há, ainda, traduções para português publicadas no estrangeiro por emigrantes ou dissidentes. Entre as obras impressas, a tradução literária não abunda. Destacam-se os clássicos, como Ovídio e Virgílio, mas também Cícero, Sófocles, Esopo, Horácio, entre outros. Muitos terão sido traduzidos para exercitação, em ambiente escolar, por incumbência régia ou senhorial, em espaço de convivência humanista, mas perderam-se ou estão esquecidos em fundos inexplorados até à data. Outros, como André Falcão de Resende, “esmerado tradutor” de Horácio, só no século XIX foram editados (Hörster, Verdelho e Verdelho 2006: 683s.). No entanto, a herança latina e mesmo grega perdura em diversas modalidades (imitação, paráfrase, recriação, tradução mesmo) na literatura portuguesa da época, sendo exemplos destacados Sá de Miranda, António Ferreira ou Camões. É muito escassa a presença de traduções de autores contemporâneos.
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| Vita Christi, de Ludolfo da Saxónia, impresso por Valentim Fernandes de Morávia. É considerado o mais belo incunábulo em língua portuguesa [Source]. |
Enquanto figuras emerge nesta época a de Valentim Fernandes de Morávia, o impressor, mediador linguístico e tradutor que representa “o dinamismo cultural e a incessante mobilidade de homens e ideias que definem o Portugal de finais do século XV e começos do XVI” (Sabio e Fernández 1998: 30). A impressão da Vita Christi em 1495 e a tradução e impressão do Livro de Marco Paulo (1502) documentam bem a sua actividade entre 1490 e 1518. Enquanto tradutores de Cícero, Duarte de Resende e Damião de Góis também se salientaram, nomeadamente na defesa da capacidade do português em traduzir a língua da cultura da época, o latim, bem no espírito renascentista.
Se há um traço bem distintivo deste período é, sem dúvida, “o encontro do português com as línguas não europeias” (Verdelho 2008), no âmbito dos Descobrimentos. Pais refere-se a esse encontro, afirmando: “Ao partilhar do momento da expansão, a tradução portuguesa inaugura um acontecimento [sic] ímpar na sua História.” (Pais 1997: 31). Trata-se, na verdade, de um capítulo desejável da história da tradução, mas vai bem para além desta, pois é também uma época dourada da “promoção da língua portuguesa no espaço transeuropeu da navegação” (Pais 1997: 17). Incluirá, por um lado, várias modalidades de inter-influência com as línguas dos diversos continentes, dando origem a gramáticas, vocabulários e dicionários que desenvolveram a intercomunicação planetária; por outro, passa necessariamente a incluir estudos de interpretação, pois a mediação linguística era indispensável para os contactos dos navegadores portugueses com os povos nativos (Mullender 2014). Aliás, o português foi a primeira língua europeia de tradução e interpretação regular e especializada da língua chinesa, oral e escrita (Barreto e Changsen 2013: 10). Importa ainda sublinhar o contributo relevante dos missionários para a elaboração de gramáticas e vocabulários. Um caso conhecido e estudado é o dos Jesuítas de Macau, que se destacaram como tradutores e intérpretes (Pina 2013: 29-47).
A primeira metade do século XVII é ainda marcada pelo domínio espanhol (filipino), continuando o castelhano a ser uma língua de prestígio, a que se junta o facto de a literatura espanhola, muito apreciada em Portugal, estar a viver a sua época áurea. Está já amplamente investigado como os próprios escritores portugueses, por uma questão de prestígio e, também, de reconhecimento no estrangeiro, escreviam originalmente em castelhano, muitas vezes nem sequer traduzindo as suas obras para português. Além disso, autores espanhóis que hoje classificaríamos como clássicos – Calderón de la Barca, Cervantes, Góngora, Lope de Vega, Quevedo eram lidos por cá nos originais, quando não também impressos nas tipografias do Reino. Dois exemplos de tradução bem tardia são o caso de D. Quijote de la Mancha, que só teve uma primeira tradução portuguesa em finais do século XVIII; ou o da novela pastoril Diana, de Jorge de Montemor, impressa em espanhol c. de 1559, só traduzida em português em 1924, e apenas como “transposição espiritual”, nas palavras do tradutor e poeta Afonso Lopes Vieira (1878-1946) (Hörster, Verdelho e Verdelho 2006: 686). Na verdade, a tradução do espanhol, em geral, não era considerada uma necessidade, o que se manteve até bem tarde no século XX. Até o teatro em espanhol que se via pelos pátios de Lisboa, com grande popularidade, era representado nos originais. No entanto, mesmo durante a ocupação espanhola (1580-1640), o latim continuou a ser a língua-fonte mais traduzida (42 títulos contra 18 do castelhano, cf. Quadrio 2001: 74s.).
Já no caso da literatura de carácter religioso e moral abunda a tradução, nomeadamente do latim (sem surpresa). É, porventura, a Imitação de Cristo, atribuída a Tomás de Kempis, a obra traduzida que mais se destaca, até pela sua grande difusão no país. Datando a sua primeira tradução da segunda metade do século XV, teve várias edições, por diferentes tradutores, no século XVII e dezenas delas entre os séculos XVIII e XX. Também a literatura espiritualista espanhola (S. Francisco Xavier, Santo Inácio de Loyola, Santa Teresa de Ávila, entre outros) em tradução gozou de grande impacto, explicável pelo empenho português na ortodoxia doutrinal ou pelas necessidades da evangelização dos territórios de além-mar. De proveniência espanhola é também o filão dos textos hagiográficos, de que a versão de João Franco Barreto da Flos sanctorum, história das vidas e obras insignes dos santos (1674,) é exemplo relevante.
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| Sebastião José de Carvalho e Melo, Marquês de Pombal e Conde de Oeiras, figura mais carismática, embora controversa, do Iluminismo português [Source]. |
A “Época Ilustrada” (Sabio 2009) ou do Classicismo (Silva 2015) ou ainda do Iluminismo assiste a um incremento notável de traduções, a ponto de ser difícil falar do séc. XVIII sem referir este fenómeno. Por exemplo, a primeira metade do século XVIII conta com 440 traduções, contra 260 em todo o século XVII (Rodrigues 1992). O seu efeito sobre as letras foi tal que acabou por gerar um importante movimento de denúncia da corrupção do português, em que se empenharam nomes cimeiros da intelectualidade portuguesa da época, aliás alguns eles próprios tradutores…Em relação à fase anterior sob o domínio castelhano a vários níveis, observa-se uma clara mudança na língua-fonte predominante, que passa a ser o francês – uma influência avassaladora que se manterá sem rival até meados do século XX. O francês vai tornar-se rapidamente a língua intermediária de acesso à produção estrangeira. Mesmo quando, sobretudo na segunda metade do século, entram em cena, como novidade, as literaturas inglesa e alemã, embora existindo tradução directa nalguns casos, uma parte substancial ocorre por via francesa, o que se prolongará até bem tarde no século XX. Assiste-se, por outro lado, a um renovado interesse pelos clássicos, com a diferença que as traduções agora são feitas em grande parte a partir dos originais, muito comentadas, explicadas, na consciência de que estava a diminuir bastante o conhecimento das línguas clássicas. Também quanto aos clássicos há uma mudança a assinalar: os modelos agora são Horácio e Quintiliano, substituindo Aristóteles.
Em termos dos agentes responsáveis pelo novo clima racionalista, de renovação da actividade mental em vários domínios, são de referir à cabeça os “estrangeirados”, Rafael Bluteau (1638-1734), defensor do conhecimento experimental e autor do monumental Vocabulário Português e Latino (1712-1728, 10 vols.), colaborador da reforma do ensino do Marquês de Pombal (1699-1782), juntamente com Luís António Verney (1713-1792) e o seu Verdadeiro Método de Estudar (1746), assim como com Ribeiro Sanches (1699-1782), cujas Cartas sobre a Educação da Mocidade ajudaram Pombal a fundar o Colégio dos Nobres. É assim que os propósitos reformistas da época levaram a um impulso significativo de traduções de obras científicas e didácticas (Sabio 2009: 220-223).
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| 1761-1762, cópia digital, Hemeroteca Digital. Revista fundada por Francisco Bernardo de Lima [Source]. |
O teatro foi outro campo em que a tradução se manteve preponderante, em franca continuidade com tempos anteriores, apenas com a deslocação do interesse e do gosto do público para o teatro francês clássico (Molière, Racine, Voltaire), mantendo-se o italiano no caso da ópera e opereta (Metastasio e Goldoni), preenchendo o vazio do repertório nacional. A publicação dos respectivos libretos em traduções ou edições bilingues era frequente (Sabio 2009: 212-216). Neste campo a tradução confundia-se largamente com adaptação, e era “afeiçoada ao gosto português”, uma expressão que perduraria até finais do século XIX com António Feliciano de Castilho (1800-1875). Quanto a instituições, a ideia forte da República literária levou à fundação da Arcádia Lusitana, uma academia que se guiava pelos modelos greco-latinos e pelos renascentistas que os haviam seguido. Ao trabalho de muitos árcades se deve o cuidado e o rigor que muitas traduções passaram a exibir. Os meios de divulgação das traduções também se diversificaram.
Não só as livrarias e tipografias incrementaram os seus ganhos com a publicação intensa de traduções, como estas encontraram um meio muito eficaz de ganhar terreno e leitores através de gazetas e jornais, como a Gazeta Literaria.
Alguns autores, entre os quais Sabio (2009), conferiram especial importância à censura (outros não, como Hörster, Verdelho e Verdelho), atribuindo às suas instituições muito antigas, como o Ordinário (“governo eclesiástico da diocese em que a obra se publicava”, Martins 2005: 20) e o Santo Ofício, bem como ao conservadorismo da sociedade portuguesa, a influência reduzida do movimento ilustrado em Portugal (2009: 207-209 e 217-219). Outros autores, como o brasileiro DeNipoti, investigaram em concreto a censura às traduções, do âmbito da medicina (2017a) ou generalistas (2017b). Estes dois estudos informam como a proibição de algumas traduções era justificada pelo conteúdo do original tanto como pelas muitas deficiências do português, devido à importação constante de termos estrangeiros. De qualquer modo, a tradução de assuntos científicos, para além do objectivo da popularização da ciência, não pode ter deixado de contribuir para cimentar o uso do vernáculo, algo em que os próprios agentes (censores) acreditavam ao defender as “boas traduções” (DeNipoti 2017a: 14). É consensual que os relatórios dos censores são uma fonte de informação preciosa sobre o estado da ciência, das letras e do teatro no Portugal do século XVIII, mas também transmitem, nas suas críticas, as ideias sobre tradução em vigor.
Nos anos de Oitocentos assiste-se a um aumento vertiginoso de obras traduzidas, bem como, aliás, da produção do livro em geral, em parte em consequência da abertura ao estrangeiro do regime liberal (1807-1890). Obras caracteristicamente românticas, porém, demoraram a entrar no gosto do público. Ainda em meados do século os catálogos de editoras e livrarias abundavam em livros de pendor religioso e histórico, como se o gosto não tivesse evoluído desde Setecentos (Anselmo 1997: 157). Mas a chegada de novos leitores ao mercado era evidente, e a produção nacional não satisfazia. Logo em 1837 Alexandre Herculano (1810-1877) dirá que “os livros portugueses enfastiam” (1837, apud Pais 1997: 125), uma insuficiência que será sentida até ao século XX e que explica a presença massiva de traduções no mercado livreiro. A língua e cultura fonte dominante continua a ser o francês. Liam-se intensamente obras francesas no original, como por exemplo Herculano atesta no texto referido. Mas é sobretudo o “aluvião de traduções” (Rebelo da Silva, 1841), são os “milhares de traduções indigestas” (Garrett 1827) que dão continuidade à denúncia setecentista dos malefícios desta prática para a língua portuguesa, como o haviam feito no século XVIII Bocage, Filinto Elísio ou José Agostinho de Macedo. Na verdade, ao longo deste século XIX, intensificaram-se, por parte dos nomes cimeiros das letras portuguesas como Garrett (1799-1854), Herculano, Castilho e, mais para o final do século, um Fialho de Almeida (1857-1911), as queixas e as denúncias de como Portugal era um “país traduzido do francês”, “cópia da França, malfeita e grosseira”. Sublinhe-se a criatividade linguística de Castilho para reverberar o português das traduções, chamado de “desportuguês”, ou as novelas francesas traduzidas que são sempre sempre “maléficas e remaléficas, vergonhosas e revergonhosas” (1865, apud Pais 2013: 45).
Também a defesa da vernaculidade, ou pureza da “nossa formosíssima linguagem” (expressão muitas vezes usada por Herculano, Castilho e. o.) se prolonga do século XVIII para o XIX. O objectivo era “escrever português para portugueses”, nas palavras de Castilho (no Prólogo à sua tradução de Metamorfoses, de Ovídio). Pode, aliás, dizer-se que a escola francesa das “Belles Infidèles” perdurava por cá. Se é certo que se apelava à fidelidade ao original, recordando o bom exemplo dos árcades, são, de facto, mais frequentes e assertivas as denúncias da “desnacionalização deplorável”, dos “traduzideiros empreiteiros” (Castilho) ou da necessidade de “versões bem castigadas” (Herculano). Castilho fala mesmo em “afeiçoar” a tradução “aos usos e costumes” portugueses, como na “Advertência” à sua tradução do Fausto de Goethe.
De tal modo esta ideia de tradução foi praticada no caso da célebre tragédia de Goethe (tradução publicada em 1872), que originou uma forte polémica literária que ficou conhecida com a “Questão do Fausto”. Nunca, até aos dias de hoje, uma tradução assumiu tal visibilidade no espaço público das letras portuguesas. Na base da polémica estão, sem dúvida, concepções de tradução, mas o envolvimento, nela, dos principais escritores do tempo confere-lhe uma dimensão histórico-política: uma luta de gerações entre os Modernos e os Antigos, como que um avatar lusitano da Querelle des Anciens et des Modernes do século XVII francês, e uma reedição da portuguesa Questão Coimbrã (1865).
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| António Feliciano de Castilho [Source]. | Capa da 1ª edição da tradução portuguesa de Faust, de Goethe, por Castilho. |
Após uma primeira tentativa, frustrada, de Almeida Garrett de traduzir um excerto do texto (1846), Agostinho d’Ornellas (1836-1901), jovem diplomata português, assiste a uma representação do drama em Berlim, daí lhe nascendo a ideia da tradução, que faz e publica na totalidade (1867, I parte; 1873, II Parte). Esta tradução passou praticamente despercebida, embora o interesse dos portugueses pelo tema se tivesse mantido (por exemplo o Fausto, de Gounod, estreou-se no Teatro Nacional de S. Carlos em Dezembro de 1865 e, até princípios de 1872, perfaz um total de 87 récitas). Mas é a tradução de Castilho (1872, reeditada em 1888, 1919 e 1938) que está na origem da Questão. Castilho não sabia alemão, tendo-se servido da tradução de seu irmão José Feliciano de Castilho (1810-1879), por sua vez coadjuvado pelo alemão Laemmert e sua tradução interlinear, da tradução de d’Ornellas, e quatro francesas em prosa (1872, apud Pais 1997: 148-154). As reacções não se fizeram esperar, os campos formam-se: A favor de Castilho estava a elite intelectual romântica (Camilo Castelo Branco (1825-1890), o escritor, político e historiador Pinheiro Chagas (1842-1895), o escritor germanófilo José Gomes Monteiro (1807-1879). À frente dos adversários de Castilho figurava Joaquim de Vasconcelos (1849-1936), crítico de arte de formação alemã, considerado o fundador da História da Arte em Portugal. Juntou-se-lhe um grupo de intelectuais que sabia alemão (Adolfo Coelho (1847-1919), Teófilo Braga (1843-1924), entre os mais conhecidos). As duas frentes degladiaram-se ferozmente, publicando inclusive livros de crítica e defesa da tradução de Castilho. O grupo crítico, na esteira das intenções da Questão Coimbrã, pretendia uma regeneração das letras portuguesas pela mudança de modelos – oposição à influência francesa nas artes e ciências nacionais - e pela aplicação de métodos mais rigorosos ao estudo e tradução dos textos, sob inspiração da escola alemã da Filologia (Seruya 1998: 163-179).
Embora a Questão do Fausto tivesse chamado a atenção para a necessidade do rigor filológico, que o mesmo é dizer para o respeito para com o original, a verdade é que se continuam a aceitar “significativas modulações” nos textos a traduzir, e as adaptações passam facilmente por traduções (Silva 2014:23ss.). Ou seja, reina alguma inconsciência quanto às exigências do traduzir. Deste estado de coisas faz parte o baixo prestígio social do tradutor, exemplarmente formulado pelo militar e escritor Latino Coelho (1825-1891): “Os tradutores são os soldados rasos da literatura. Assim como quase todos podem ser soldados, assim quase todos têm habilitações para tradutores.” (1851, 1919 apud Bastos Silva 2014: 76, ortografia actualizada por mim).
A viragem de século e os primeiros anos do século XX não trouxeram alterações significativas à história da tradução (este é, no entanto, um período ainda pouco estudado). Se é certo que são pouco frequentes os casos em que as traduções são publicadas sem nomeação do tradutor, por outro lado não parece haver interesse nem em reflectir sobre a tradução, nem em discorrer sobre dificuldades e decisões. Quando, algumas vezes, nos deparamos com paratextos, estes servem à elucidação do autor ou da obra, não para falar de tradução. Uma pesquisa preliminar em revistas culturais das primeiras décadas do século concluíu que, pese embora uma sua vertente de abertura a autores e livros estrangeiros, incluindo publicação de textos de autores estrangeiros, não faziam qualquer menção dos tradutores. Um fenómeno de apropriação sistemática directa da produção estrangeira, sem qualquer respeito pelas instâncias de mediação.
Quanto ao estado da literatura e língua portuguesas, o publicista e escritor José Boavida Portugal (1889-1931) publica em 1915 um Inquérito à Vida Literária Portuguesa em que o notável psiquiatra Júlio de Matos (1856-1922) depois de afirmar que a literatura portuguesa “atravessa uma fase de assustadora desorientação”, lamenta: “Vivemos a imitar a literatura francesa”, aconselhando os escritores a lerem livros ingleses e alemães, e até mesmo espanhóis, para “[arejarem] a inteligência com muito proveito.” (Portugal 1915: 14). O germanismo militante dos detractores de Castilho, pelos vistos, não tinha surtido os seus efeitos. As denúncias da corrupção da língua pelo francês e o respectivo corolário da insistência no regresso àquilo a que o ilustre filólogo Cândido de Figueiredo (1846-1925) chamou “o velho e robusto tronco da língua de Camões” (1906: 10), perduram pelo século XX adentro, na convicção de que é possível “expurgar o nosso amplo e rico património lexiológico de tudo o que lhe é estranho (…)” (Figueiredo 1906, 11). Mesmo em mentes mais optimistas quanto ao “renascimento” da literatura portuguesa, não deixa de se falar nas “influências opressivas transpirinaicas” que “desnaturavam o nosso génio literário” (Lima 1923: s.p.). Continuava a imperar um forte nacionalismo linguístico.
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| Relatório que proibe a tradução de um livro que, por sua vez, condena a censura. |
No âmbito dos Estudos de Tradução em Portugal tem-se dado especial atenção ao século XX posterior a 1930. Algumas iniciativas (entre várias outras) têm contribuído para um conhecimento cada vez mais aprofundado do campo: a série de colóquios Estudos de Tradução em Portugal, na Universidade Católica Portuguesa (13 Colóquios entre 1999 e 2018, com participação de colegas de todas as Universidades portuguesas, e respectivos resultados publicados), a bibliografia Intercultural Literature in Portugal 1930-2000: a Critical Bibliography, projecto ainda em curso levado a cabo por dois centros de investigação, o CECC – Centro de Estudos de Comunicação e Cultura, da Universidade Católica Portuguesa, e o CEAUL – Centro de Estudos Anglísticos da Universidade de Lisboa.
A partir das referidas iniciativas podemos traçar algumas linhas de força do contributo do século XX para a história da tradução em Portugal: a lenta mudança da língua e cultura fonte dominante para a anglofilia a partir do final da II Guerra Mundial, em simultâneo com a chegada avassaladora de traduções vindas de Espanha a partir dos anos 50, preenchendo as necessidades de entretenimento (com novela sentimental, narrativas do Oeste, género policial, ficção científica) da burguesia urbana em crescimento; desta tendência começa a emergir uma literatura infanto-juvenil, policial e de ficção científica nacional, após o domínio do campo por traduções. Continuando uma linha que vinha despontando desde a República (1910-1926), verifica-se um aumento das traduções das ciências sociais, acompanhando a criação de estruturas universitárias na área (a partir dos anos 60).
Um fenómeno marcante do século XX, sobretudo entre os anos 40 e 70, são as pseudotraduções, muitas já importadas de Espanha como tal, ali com pseudónimos em geral de língua inglesa. Mas também autores portugueses recorreram a este expediente destinado a popularizar géneros que, com autoria verdadeira, não mereceriam credibilidade junto do público que, no entanto, parecia estar ávido deles.
Surgiu uma nova linha de investigação sistemática a partir da censura (oficial) que vigorou em Portugal durante o Estado Novo, a ditadura de Salazar/Caetano (1926-1974). Estudou-se a censura ao livro estrangeiro (1933-1974), em parte candidato à tradução, a partir dos relatórios sobre cada livro chegado à Comissão de Censura ao Livro, elaborados pelos diferentes censores ao longo dos 40 anos de vigência do órgão (os originais estão guardados na Torre do Tombo, em Lisboa).
Quanto à organização da oferta (não só literária), permanece (em relação ao século XIX) e intensifica-se, no século XX, a tendência para integrar as obras publicadas em colecções e bibliotecas, a ponto de, quanto à literatura, ser reduzida a percentagem de obras não incluídas em colecções. Esta tendência corresponde ao que Toury chamou de “planificação da cultura” (Toury 2001), explicável em grande parte, no caso português, por razões comerciais (exploração do gosto humano pelo coleccionar). Fenómeno idêntico se passa com o crescimento das antologias mais para o fim do século, aliás em linha com outros países europeus (Seruya, D’hulst, Rosa et al. 2013: 2).
A visibilidade do tradutor foi maior, verificando-se, porém, dois fenómenos opostos: se pouco se encontra qualquer figura relevante da vida cultural portuguesa (escritores, sociólogos, artistas, entre outros), que não tenha sido alguma vez tradutor, há também um elevado número de pseudónimos e de nomes impossíveis de identificar, muito especialmente na literatura de entretenimento até finais do século. Se juntarmos a esta espécie de anonimato a frequência com que, até hoje, na comunicação social, o que é traduzido não tem autoria visível, diríamos que há muito ainda a fazer em Portugal pelo reconhecimento público dos principais agentes da tradução que são os tradutores.
A grande tarefa que se nos coloca é escrever uma história da tradução em Portugal, o que, até agora, não existe, uma falha que não se verifica noutros países e culturas, como em Espanha. Está, neste momento, em preparação um livro intitulado Tradução e tradutores em Portugal. Um contributo para a sua história, com contributos de investigadores de várias Universidades portuguesas, e coordenado por Seruya. Deverá ser publicado no principio de 2023.
Quanto a épocas, os períodos menos estudados são os anteriores ao século XVIII. Para colmatar esta tarefa impor-se-á uma maior diversidade nas competências dos investigadores.
O principal desiderátum ainda por cumprir é um dicionário de tradutores, projecto cuja execução será difícil e morosa, dada a escassez de fontes.
A curto prazo impõe-se continuar e concluir o projecto bibliográfico Intercultural Literature in Portugal 1930-2000: a Critical Bibliography.






