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Introdução | Desenvolvimento | O conceito de cultura na teoria do escopo | Disseminação, recepção e crítica | Ética e responsabilidade na teoria do escopo | Aplicação à didática | A teoria do escopo na interpretaçãoPotencial de pesquisa

 

Introducción  Introdução

A teoria do escopo (Vermeer 1978, 1986, 1989a, 1989b, 1990, 1996a, 1996b; Reiß &  Vermeer 1984) marca o início do funcionalismo alemão e estabelece suas bases teóricas junto à teoria da ação translatória (Holz-Mänttäri 1984). As abordagens funcionalistas ocasionaram uma mudança de perspectiva nos Estudos da Tradução alemã ou “ciência da tradução” (Übersetzungswissenschaft) e, de modo mais amplo, nos Estudos da Tradução e Interpretação (ETI). Esta mudança de perspectiva pode ser descrita como um movimento de distanciamento que, ao se afastar do seu objeto, foi capaz de introduzir elementos essenciais que costumavam permanecer fora do campo de investigação. O enfoque nas diferenças entre os sistemas linguísticos mudou para as atividades profissionais dos/das tradutores/as e intérpretes. O objetivo das abordagens funcionalistas era desenvolver uma teoria geral da tradução (Tradução alemã, que incluísse todas as formas de tradução e de interpretação), baseada na teoria da ação.

Vermeer (1996a) introduziu as ideias centrais da teoria do escopo por meio de uma série de teses (algumas axiomáticas) que descrevem o ato de traduzir baseado na metáfora “PURPOSEFUL ACTION IS SELF-PROPELLED MOTION TO A DESTINATION” (Lakoff & Johnson 1999: 191; Martín de León 2005: 59). [Uma ação voltada para o propósito é uma moção auto impulsionada para um destino]. Essas teses representam a estrutura metafórica da ação como um movimento direcionado a um objetivo e chegam à conclusão lógica de que a tradução, como uma forma de ação, também compartilha desta estrutura:

Thesis 1 (Axiom 1): All acting presupposes a "point of departure" [...]

[Toda ação pressupõe um “ponto de partida” ].

Thesis 2 (Axiom 2): All acting is goal-oriented [...]

[Toda ação é voltada para o seu objetivo].

Thesis 3: From a variety of possibilities […] that action will be chosen which one believes one has the best reason(s) for choosing under the prevailing circumstances.

[De uma gama de possibilidades, a ação escolhida será aquela que alguém acredita ter a(s) melhor(es) razões dentro das circunstâncias vigentes].

Thesis 4: Given the prevailing circumstances, an actor tries to reach the intended goal by what seems to him the/an optimal way [...]

[Considerando as circunstâncias vigentes, um/a agente procura alcançar o objetivo pretendido da forma que lhe parece adequada].

Thesis 5: Translating is acting, i.e. a goal-oriented procedure carried out in such a way as the translator deems optimal under the prevailing circumstances. (Vermeer 1996a: 12-13).

[Traduzir é uma ação, ou seja, um procedimento voltado para o objetivo realizado de modo que o/a tradutor/a considere adequado dentro das circunstâncias vigentes].

Arco Skopos
[Fonte]

A teoria do escopo considera a tradução e a interpretação como formas particulares de ação, isto é, de um comportamento intencional (orientado ao objetivo ou escopo). Esse objetivo é considerado o fator principal que determina as estratégias adotadas pelos/as tradutores/as como profissionais responsáveis por produzir traduções que são adequadas para suas devidas funções e público-alvo. Consequentemente, a teoria do escopo não vê o produto da tradução (o translatum) como um elemento puramente linguístico, mas como parte de uma dada ação comunicativa. Pode-se dizer que a teoria do escopo marca o início das teorias funcionalistas, oferecendo a primeira visão sistemática da tradução como processo dinâmico (Vermeer 1996b) e ação situada em um desenvolvimento paralelo ao que ocorreu nas ciências cognitivas nas últimas décadas do último século (Risku 2002).

Além disso, a teoria do escopo, ao mesmo tempo que oferece uma visão mais ampla da atividade tradutória do que as teorias linguísticas presentes na época, define os textos como “ofertas de informação” (Informationsangebot, Reiß & Vermeer, 1984) que não são só materializadas pela língua, mas, na comunicação oral, também por elementos não-verbais (como gestos ou roupas) e elementos paraverbais (como entonação), e, pela comunicação escrita, por elementos visuais (tipografia, design, layout, ilustrações, gráficos, etc.). Assim, o funcionalismo alemão logo voltou-se para os aspectos multimodais da tradução e interpretação, que vem atualmente recebendo mais atenção nos ETI.

Manos Skopos
[Fonte]

No entanto, o campo mais influenciado pela teoria do escopo é a didática, no qual as teorias funcionalistas vêm sendo usadas como modelos pedagógicos desde a década de 1990 (Kiraly 2012). Entre os trabalhos de teoria da tradução mais citados no período de 1991-2015 está, em primeiro lugar, Translating as a Purposeful Activity (Nord 1997), um dos trabalhos que mais contribuiu para disseminar as ideias centrais do funcionalismo, em particular, da teoria do escopo (ver Franco Aixelá 2016). A especificação de tarefas de tradução plausíveis e a formulação dos objetivos de tradução em sala de aula são algumas das práticas pedagógicas inspiradas por abordagens funcionalistas.

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[título del epígrafe] Desenvolvimento

What does it mean to translate? Surely this much at least (or is it again a question of definition?): to have a skopos and accordingly transfer a text(em) from its source-culture surroundings to target-culture surroundings, which by definition are different from the former. Suppose you take a tree from a tropical climate to a temperate zone. Will it not need special care? Will it not be considered something out of the ordinary by whoever sees it? It will never be the same as before, neither in growth nor in the eyes of its observers (in their “evaluation”). (Vermeer 1996a: 39)

Hans J. Vermeer
Hans J. Vermeer. [Fonte]

[O que significa traduzir? Certamente, pelo menos isso (ou será que, mais uma vez, trata-se de uma questão de definição?): ter um escopo e transferir um texto de seus contextos culturais fonte para os contextos culturais alvo, que por definição são diferentes do primeiro. Suponha que você leve uma árvore de um clima tropical para uma zona temperada. Ela não precisará de cuidados especiais? Não será considerada algo fora do comum por quem quer que seja que a veja? Ela nunca será a mesma de antes, nem em crescimento, nem aos olhos de seus observadores (em suas “avaliações”)].

Hans J. Vermeer propôs uma teoria geral da tradução em 1977 em Germersheim (Universidade de Mainz, Alemanha), através de uma série de palestras acompanhadas por debates instigantes entre os/as acadêmicos/as presentes que ofereceram um terreno fértil para as abordagens funcionalistas. Após um ano, Vermeer (1978) reuniu em um artigo as reflexões provocadas por essas discussões, destacando a estrutura geral de sua teoria e propondo um modelo de tradução (tradução e interpretação) baseado em um modelo geral de ação e interação. Em 1984, Katharina Reiß e Hans J. Vermeer publicaram o Grundlegung einer allgemeinen Translationstheorie (traduzido para o inglês por Christiane Nord, em 2013, com o título Towards a General Theory of Translational Action e para o espanhol em 1996 com o título de Fundamentos para una teoría funcional de la traducción), um trabalho com o qual divulgaram a teoria do escopo entre os/as acadêmicos/as germanistas. Esse livro, juntamente com outro publicado no mesmo ano por Justa Holz-Mänttäri, no qual ela apresentou a teoria da ação translatória (Translatorisches Handeln), estabeleceu o funcionalismo alemão na teoria da ação, distanciando-o, em grande escala, da linguística, disciplina que até então conduziu a ciência da tradução alemã.

O trabalho de Reiß e Vermeer (1984) apresenta uma estrutura heterogênea que reflete as contradições inerentes às mudanças que estavam acontecendo na tradutologia alemã naquelas décadas. Na primeira parte do livro, Vermeer estabelece as bases para a sua teoria geral da tradução, que dá grande prioridade ao escopo entre os outros fatores que guiam as decisões tradutórias. Na segunda parte, Reiß apresenta um modelo de tradução baseado em suas ideias sobre tipologia textual (Reiß 1971) e na noção de equivalência, a qual ela define como a relação entre dois textos que executam a mesma função em duas culturas diferentes. Isso obriga os/as autores/as a introduzirem uma segunda noção: a de adequação (Adäquatheit), que remete à relação entre texto-alvo e texto-fonte quando o objetivo (o escopo) da tradução é levado em consideração. Desse modo, a equivalência é definida como um caso de adequação, que surge quando o texto-fonte e o texto-alvo têm a mesma função. Essa ambiguidade conceitual deu origem a uma série de críticas e mal-entendidos na comunidade de tradução germanista.

Diana skopos
[Fonte]

Vermeer elaborou e aprimorou sua teoria do escopo em sucessivas publicações (Por exemplo, Vermeer 1982, 1986, 1989a, 1990 e 1996a). Sua abordagem é baseada em um “relativismo relativo” (Vermeer 1996a: 24), no qual  toda interpretação textual depende categoricamente do ponto de vista e da situação do/da receptor/a. Em concordância com essa ideia, Vermeer (1982) define os textos como ofertas de informação, que podem ser aceitas ou rejeitadas, e percebidas de formas diferentes por seus/suas destinatários/as. Ademais, ele define as traduções como ofertas de informação de uma determinada cultura e língua sobre outras ofertas de informação originadas de uma cultura e língua. Desse modo, o papel dos/das tradutores/as e intérpretes não pode ser reduzido ao de mediadores/as linguísticos/as neutros/as que reproduzem “o” significado de um texto em outra língua. Assim, a teoria do escopo coloca esses/as profissionais como responsáveis por suas decisões e especialistas em mediação cultural. Além disso, considerando os aspectos não-linguísticos e culturais da comunicação e a possibilidade de atribuir às traduções escopos diferentes daqueles que orientaram os textos-fontes, a abordagem de Vermeer oferece uma visão mais complexa dos processos de tomada de decisão do/da tradutor/a, que não depende exclusivamente da estrutura linguística do texto-fonte.

A visão de tradutores/as como especialistas atinge suas consequências máximas no modelo de ação translatória de Holz-Mänttäri (1984), o qual Vermeer (1989a) depois conecta à teoria do escopo. Baseado na teoria da ação e na teoria dos sistemas, Holz-Mänttäri (1984) define a ação translatória como uma atividade cooperativa situada em uma estrutura social caracterizada pela divisão de trabalho. Nesse modelo, a comunicação é entendida como uma atividade que guia a cooperação, logo a necessidade de uma ação translatória surge quando há barreiras culturais que impedem ou dificultam essa cooperação. Holz-Mänttäri (1984) descreve os/as tradutores/as como especialistas responsáveis por criar textos apropriados às situações de ação e cooperação nas quais estarão integrados/as. Em outros trabalhos (por exemplo, Holz-Mänttäri, 1993), a autora introduz mais amplamente o conceito de design do texto, que inclui, além de tradução e interpretação, outras atividades profissionais como a consultoria cultural e a escrita técnica.

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[título del epígrafe] O conceito de cultura na teoria do escopo

A teoria do escopo apoia-se no conceito da ação para oferecer uma visão de tradução mais abrangente do que as abordagens tradicionais que se baseiam na linguística comparativa e estrutural. O conceito de cultura também desempenha um papel essencial nesta expansão de perspectiva. Reiß & Vermeer (1984: 26) e Holz-Mänttäri (1984: 34) desenvolveram seus conceitos de cultura a partir da reconhecida definição de Göhring (1978: 10, apud Reiß & Vermeer 2014: 24):

Culture is whatever one has to know, master or feel in order to be able to judge whether a particular form of behavior shown by members of a community in their various roles conforms to general expectations or not.

[Cultura é tudo aquilo que um indivíduo precisa saber, dominar ou sentir para ser capaz de julgar se uma forma particular de comportamento demonstrado por membros de uma comunidade, em seus diversos papéis, está ou não de acordo com as expectativas gerais].

Heinz Göhring

Heinz Göhring. [Fonte]

Heinz Göhring, que não foi apenas um sociólogo e antropólogo, mas também um intérprete profissional. Ele dedicou sua atividade acadêmica à ampliação do ensino de línguas estrangeiras para tradutores/as e intérpretes, na Universidade de Mainz, com uma nova disciplina: a comunicação intercultural. Sua definição de cultura baseia-se naquela proposta por Goodenough (1964: 36) no campo da antropologia cognitiva:

[...] a society's culture consists of whatever it is one has to know or believe in order to operate in a manner acceptable to its members, and do so in any role that they accept for any one of themselves.

[a cultura de uma sociedade consiste em tudo aquilo que um indivíduo tem que saber ou acreditar para operar de maneira aceitável com os membros dessa mesma sociedade, e deve fazê-lo em qualquer papel que aceitem para si próprios].

Ambas definiciones de cultura se centran en la competencia cultural, es decir, en las capacidades cognitivas necesarias para desenvolverse en una sociedad, y no en su realización, de forma similar a la noción chomskyana de competencia lingüística en oposición a la de actuación lingüística.

Ambas as definições de cultura se concentram na competência cultural, ou seja, nas habilidades cognitivas que uma pessoa precisa para funcionar em uma sociedade, e não em sua concretização, de forma semelhante à noção chomskyana de competência linguística em oposição ao desempenho linguístico.

O objetivo dessas abordagens para a cultura era elaborar inventários de formas e sistemas de regras, ou seja, gramáticas culturais, refletindo as estruturas mentais que, supostamente e de forma bem inconsciente, guiavam o comportamento de indivíduos em uma cultura. Eles responderam ao ponto de vista do etnógrafo que observa do lado de fora um grupo social e tenta se integrar nele. Além disso, conceberam a cultura como um sistema análogo à linguística

Reiß & Vermeer (2014: 24) resumiram a definição de Göhring, enfatizando os aspectos normativos da cultura: “Culture encompasses a society’s social norms and their expression.” [A cultura engloba as normas sociais e as expressões de uma sociedade]. Por consequência, deixaram pouco espaço evidente para a iniciativa e criatividade individual (Prunč 2003: 175). Para considerar as diferenças individuais e a heterogeneidade de grupos sociais, Vermeer (1990: 229) estabeleceu sucessivas subdivisões no conceito de cultura para possibilitar sua aplicação em diferentes situações comunicativas:

Da eine Gesellschaft bei aller Ähnlichkeit ihrer Mitglieder in sich nicht homogen ist, unterscheiden wir neben der Gesellschaft als ganzer (neben ihrer "Parakultur") Teile der Gesellschaft mit ihren jeweiligen "Diakulturen" bis hinab zu den Normen und Konventionen eines einzelnen Mitglieds, die es von allen anderen Mitgliedern derselben Gesellschaft unterscheiden. Letztere Kultur nennen wir "Idiokultur". Es ist nun nicht so, daß die Summe aller zugehörigen Idiokulturen eine Dia- und die Summe aller Diakulturen eine Parakultur ausmacht. Vielmehr sind die Ränder der jeweiligen Kulturen nicht deckungsgleich [...].

[Como uma sociedade não é homogênea, apesar de todas as semelhanças entre os seus membros, distinguimos, além da sociedade como um todo (juntamente com sua "paracultura"), partes da sociedade com suas respectivas "diaculturas", incluindo até as normas e convenções de um indivíduo que o distinguem de todos os outros membros de uma mesma sociedade. Chamamos esta última cultura de "idiocultura". Ainda assim, não significa que a soma de todas as idioculturas associadas constitua uma diacultura nem que a soma de todas as diaculturas constitua uma paracultura. Em vez disso, as fronteiras das respectivas culturas não se sobrepõem].

De acordo com o modelo de Vermeer, a paracultura inclui as normas da sociedade como um todo, que por sua vez se divide em diaculturas e idioculturas. Apesar da noção de paracultura ser aplicada em diferentes níveis (ex.: pode se referir à cultura europeia ou à cultura ocidental), há uma tendência a se identificar com a cultura de uma nação. As diaculturas são culturas de diferentes grupos sociais ou profissionais, enquanto as idioculturas correspondem às normas e convenções de indivíduos. Esse esquema tem como modelos noções de linguística, como os dialetos e idioletos, e atende ao projeto de desenvolvimento da etnografia generativa de Göhring’s (1967: 808), o qual atenderia às diferenças elaborando uma estrutura hierárquica de grupos e subgrupos culturais. Portanto, trata-se de um conceito de cultura baseado no paradigma linguístico em curso na década de 1960.

Matrioskas skopos
[Fonte]

O desenvolvimento da antropologia cognitiva e outras ciências relacionadas levou a questionar essa abordagem por adotar uma visão monolítica da cultura e negligenciar as variações interpessoais e a complexidade das relações entre pensamento e linguagem (D'Andrade 1995). No campo de interpretação de conferências, Pöchhacker (1991: 50) destacou que os/as especialistas presentes em uma conferência internacional compartilham um contexto cultural independentemente da sua paracultura específica, e propôs o conceito de diacultura internacional, mais orientada a indivíduos com seus contextos socioculturais específicos do que para um grupo de receptores/as definido pela nacionalidade.

Sendo uma abstração que abrange fenômenos diversos e mutáveis, o conceito de cultura levanta o problema de seu locus: onde situamos as culturas? Na mente dos indivíduos? Em suas práticas? Nos artefatos que produzem? Essa dificuldade se manifesta no conceito de idiocultura de Vermeer, que situa as normas e convenções na mente do indivíduo. No entanto, falar sobre as convenções individuais é um paradoxo, visto que convenções dependem da existência de um acordo (implícito ou explícito) entre pessoas. Nesse sentido, o conceito de idiocultura é contraditório, porque tudo o que é cultural é, por definição, social (Risku 1998: 53). Prunč (2003: 177) criticou esse conceito por atribuir um papel passivo ao indivíduo e propôs a adoção de uma visão mais coerente com o conceito de ação translatória que enfatiza a natureza interativa da cultura.

Em abordagens mais recentes, em particular na aplicação de teorias funcionalistas à didática da competência intercultural, o conceito de cultura parece ser mais orientado à interação interpessoal, empatia, consciência dos modelos e esquemas de sua própria cultura e mudança de perspectiva (Witte 2017, 2020). Esta evolução está alinhada com o desenvolvimento da antropologia cognitiva, que, desde a década de 1990, adota uma visão mais incorporada e dinâmica, colocando em primeiro plano as noções de ação, emoção e motivação (D'Andrade 1995: 247-248).

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[título del epígrafe] Disseminação, recepção e crítica

Os textos fundadores da teoria do escopo estão escritos em um denso alemão acadêmico com intercalações de fórmulas pseudo-matemáticas. Embora Vermeer também tenha escrito alguns artigos em inglês, ele manteve, em grande parte deles, o estilo acadêmico alemão, o que atrasou as suas disseminações para além da comunidade acadêmica germanista até meados da década de 1990 (Dudenhöfer, 2012). Nas décadas de 1980, 1990 e nos anos 2000, Vermeer disseminou suas ideias por meio de editoras universitárias de pequena circulação ou publicações independentes, principalmente através da revista TexTconText, que ele fundou com Justa Holz-Mänttäri e outros/as colegas em 1986 (Holz-Mänttäri, 2012: 73). Esta revista, que também publicou volumes monográficos, desempenhou um papel central no debate e disseminação das abordagens funcionalistas.

Revista TexTconText
Revista TexTconText

Na comunidade acadêmica germanista, a teoria do escopo suscitou críticas consideráveis por relativizar o axioma da função constante e, assim, se distanciar da tradutologia alemã das décadas anteriores, que estava centrada em uma noção de equivalência e considerava apenas a reprodução textual e a preservação da função original. Com a teoria do escopo, a ênfase deixou de ser no texto-fonte e passou a ser no texto-alvo, uma mudança que o próprio Vermeer (1986: 42) descreveu com um “destronamento” do texto-fonte. Reiß e Vermeer (1996: 84) haviam formulado o axioma da intencionalidade da ação translatória de uma maneira provocante com a máxima “o fim justifica os meios”, que foi interpretada como uma justificativa para a arbitrariedade nas decisões dos/as tradutores/as. De acordo com Koller (1992: 212), essa arbitrariedade poderia ser evitada apenas ao recuperar as noções de verdade e fidelidade: “Der Satz ‘Der Zweck heiligt die Mittel’ beinhaltet nichts anderes als die gefährliche Abspaltung des Begriffs der Zweckmässigkeit (der Übersetzung) vom Begriff der Wahrheit (bzw. in der traditionellen Terminologie: der Treue) der Übersetzung.” [A expressão ‘o fim justifica os meios’ não implica nada além da perigosa separação do conceito de adequação (da tradução) do conceito de verdade (ou, na terminologia tradicional, de fidelidade) da tradução].

Essas críticas foram, principalmente, de natureza ética, mas também tinham uma raiz ontológica, ou seja, se referiam à delimitação da tradução em oposição a outros conceitos como o de adaptação ou de produção original. Em sua tentativa de modelar a realidade profissional dos/as tradutores/as e intérpretes em um ambiente cultural complexo e dinâmico, Vermeer expandiu a definição tradicional de tradução

Contudo, a teoria do escopo também recebeu respostas positivas na comunidade acadêmica germanista, sendo bem recebida por pesquisadores/as que compreenderam o potencial de orientação da noção de escopo para tradutores/as:

Die unlösbaren Dilemmata, in die Translatoren durch die rigiden, miteinander konkurrierenden Äquivalenzpostulate unweigerlich gedrängt wurden, werden so durch eine sinnvolle und erfüllbare Forderung ersetzt. Durch die angeführte Prioritätsreihung von Adäquatheit und Äquivalenz wird die bisherige Wertehierarchie zwar auf den Kopf, dafür aber der Translator auf die Beine gestellt und gewinnt für seine Entscheidungen festen Boden innerhalb eines überschaubaren Horizonts(Prunč 2003: 168)

[Os dilemas insolúveis, aos quais os/as tradutores/as eram inevitavelmente forçados/as a enfrentar por conta dos postulados rígidos e contraditórios de equivalência são, assim, substituídos por um requisito razoável e realizável. A classificação de prioridade declarada da adequação e equivalência inverte a hierarquia de valores existentes, e, ao mesmo tempo, fundamenta o/a tradutor/a e fornece uma base sólida para suas decisões dentro de um horizonte possível]

No que diz respeito à recepção da teoria do escopo para além do meio acadêmico germanista, o trabalho de Christiane Nord deve ser destacado. Nord (por exemplo, 1997, 2013) contribuiu com inúmeras publicações para a disseminação das abordagens funcionalistas nos estudos internacionais (ver também Chesterman, 2001; Schäffner, 2009 e Martín de León, 2020). A teoria do escopo também foi criticada pela comunidade acadêmica anglófona, especialmente em relação a sua abordagem epistemológica, ou seja, a sua maneira de abordar o conhecimento. Por exemplo, embora Toury (1995) compartilhasse a orientação final da abordagem de Vermeer, não considerava a teoria do escopo como uma teoria geral descritiva, mas uma teoria aplicada, com o intuito de melhorar a prática. Chesterman (2010) também a considerou uma teoria prescritiva com estrutura dedutiva, baseada em alguns axiomas, e criticou a sua falta de suporte empírico e sua suposição de que o comportamento humano é sempre racional (para uma discussão dessas críticas, ver Dudenhöfer 2012).

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[título del epígrafe] Ética e responsabilidade na teoria do escopo

Since conventions determine what readers expect of a translation, the translator has the responsibility not to deceive the users of his translation by acting contrary to the conventions without telling them what he is doing, and why. This responsibility is what I refer to as loyalty.(Nord 1991: 91)

[Já que as convenções determinam o que os/as leitores/as esperam de uma tradução, o/a tradutor/a tem a responsabilidade de não decepcionar os/as usuários/as desta tradução, agindo de forma contrária às convenções sem dizer o que ele/ela está fazendo e o porquê. Esta responsabilidade é o que eu chamo de lealdade. (Nord 1991: 91)]

  Christiane Nord
Christiane Nord. [Fonte]

Nord (1991) tentou conciliar o caráter decididamente finalístico da teoria do escopo com as abordagens tradicionais baseadas na noção de equivalência,

introduzindo um princípio ético de lealdade (Loyalität) na teoria funcional. Ao contrário da antiga noção de fidelidade, que diz respeito à relação entre textos, o conceito de lealdade se refere à relação entre pessoas, em particular, a relação do/a tradutor/a com o/a autor/a do texto-fonte e com os/as destinatários/as. O princípio da lealdade assume regras e convenções de tradução da tradição europeia que não sustentam, particularmente no caso da tradução literária, a atribuição de objetivos incompatíveis com as intenções do/a autor/a original. Desse modo, Nord também respondeu a algumas críticas feitas na comunidade acadêmica anglófona, como a de Pym (1996: 338), que acusou as abordagens funcionalistas de produzirem “mercenary experts, able to fight under the flag of any purpose able to pay them”. [mercenários/as profissionais capazes de lutar sob a bandeira de qualquer propósito que os pague].

No entanto, Vermeer (1996a) argumentou que a teoria do escopo é uma teoria geral, e como tal, é livre de qualquer determinação cultural específica (na medida do possível) e apontou que os/as tradutores/as são livres para desviar das intenções do/a autor/a do texto-fonte "[...] as long as he informs the target recipients about his procedure and its reasons" (Vermeer 1996a: 22). [desde que informe ao público-alvo sobre seus métodos e suas razões]. Além disso, a regra de que o escopo de uma tradução não pode contradizer as intenções do texto-fonte levanta uma questão sobre a identificação de tais intenções. Se os textos são estruturas abertas à interpretação do/a receptor/a, conforme a teoria do escopo discute, como podemos determinar qual interpretação corresponde às intenções do/a autor/a? (Prunč 2003: 193). Ademais, e em concordância com a teoria do escopo, cada texto-alvo tem o seu próprio escopo, o que pode ou não coincidir com o escopo do texto-fonte. Se não coincidir, obviamente os textos não compartilharão a mesma intencionalidade.

A teoria do escopo oferece critérios para avaliar a eficácia (a adequação aos fins) da ação translatória, mas não menciona o debate sobre os próprios fins, os quais considera ser específico para cada cultura. No entanto, há uma contradição nessa abordagem, pois a pretensão de universalidade e a primazia da eficácia são características da tradição cultural ocidental, ou seja, a teoria do escopo não está livre de determinações culturais (Martín de León 2005). Na verdade, o conceito da responsabilidade do/a tradutor/a profissional implica em uma dimensão ética, como afirmou Vermeer (1989a, 1989b/2004). Nesse sentido, Witte (2005: 7) aponta que a noção de lealdade é redundante ao considerar os fatores condicionantes da situação cultural determinada, já que a aplicação da teoria do escopo limita as possibilidades de atribuir objetivos a uma tradução. Em outras palavras, a própria situação comunicativa deveria exigir que o princípio da lealdade fosse seguido, de acordo com a regra de que o escopo depende do/a destinatário/a.

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 [título del epígrafe] Aplicação à didática

Como apontado por Kiraly (2012), a teoria do escopo vem sendo utilizada como um modelo pedagógico há mais de 25 anos e inspira práticas didáticas que ainda estão em uso nos dias atuais, como o uso de tarefas de tradução (reais ou imaginárias, mas plausíveis), e o desenvolvimento da autonomia e responsabilidade profissional de futuros/as tradutores/as.

classroom skopos Paul Kußmaul y Hans G. Hönig
Aula Paul Kußmaul e Hans G. Hönig

As abordagens funcionalistas, desenvolvidas a partir da teoria do escopo, rapidamente encontraram espaço nas salas de aula. Em 1982, Hönig e Kußmaul, que lecionaram na Universidade de Mainz, publicaram um livro didático de tradução chamado Strategie der Übersetzung [Estratégia de tradução] em que propuseram uma estrutura funcional para orientar os/as estudantes no desenvolvimento de estratégias adequadas aos propósitos pretendidos das suas traduções. Em um trabalho posterior, eles abordaram os aspectos cognitivos do processo de tradução com base no funcionalismo e na psicolinguística que teve como objetivo principal aprimorar a prática em sala de aula.

Nord publicou diversos trabalhos de orientação didática destacando diferentes aspectos da tradução (por exemplo, tradução de títulos, tradução literária e tradução de nomes próprios). Sem dúvida alguma, o mais utilizado na sala de aula é o seu renomado manual sobre análise textual em tradução (Nord 1988, traduzido para o inglês pela própria autora junto a Penelope Sparrow em 1991 e com tradução e adaptação para o português, coordenada por Meta Zipser, em 2016). Seu trabalho tem contribuído para a disseminação dos conceitos funcionalistas, como as tarefas de tradução e o escopo na prática pedagógica das universidades ao redor do mundo.

Baseado no funcionalismo de Vermeer e Holz-Mänttäri, o trabalho de Witte (2000, 2017, 2020) visa desenvolver a competência cultural de futuros/as tradutores/as, promovendo a consciência do seu próprio condicionamento cultural e a capacidade de adotar diferentes perspectivas, bem como o conhecimento das diferenças culturais que podem comprometer a comunicação, particularmente aquelas relacionadas com a percepção do outro, incluindo preconceitos e estereótipos.

Por fim, as abordagens de tradução centrada em usuárias/os (Suojanen, Koskinen & Tuominen 2015) desenvolvem e aplicam a ideia central da teoria de Vermeer à didática, na qual o propósito ou escopo de uma tradução depende de seus/suas destinatários/as, especialmente dos seus conhecimentos e expectativas.

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[título del epígrafe] A teoria do escopo na interpretação

More often than not, persons attending international meetings have a certain familiarity with other languages or cultures or, at any rate, are ready and willing to engage in some sort of cross-cultural contact. Conference participants therefore may not even expect or wish to have all "foreignness" of the original speech filtered out, as it were, by the interpreter; after all s/he is deliberately interacting with someone from abroad [...]. (Pöchhacker 1995: 47-48)

[É bem comum que as pessoas em uma conferência internacional tenham uma certa familiaridade com outras línguas ou culturas, ou então que estejam dispostas a se envolverem em um tipo de contato intercultural. Logo, os/as participantes de uma conferência não esperam ou visam que todo o “estrangeirismo” do discurso original seja filtrado pelo/a intérprete. Até porque o/a participante está deliberadamente interagindo com alguém de outro país]

Embora a teoria do escopo tenha sido apresentada, desde o início, como uma teoria geral da tradução, que se aplica a qualquer tipo de tradução ou interpretação, ela vem sendo desenvolvida principalmente no campo da tradução (escrita). Franz Pöchhacker (1991, 1994, 1995) apontou alguns problemas teóricos e metodológicos que surgem a partir da aplicação da teoria de Vermeer à interpretação de conferência. Além disso, ele destacou que as peculiaridades desta modalidade de interpretação podem exigir uma revisão de alguns conceitos funcionalistas. Na tradução, a produção do texto-fonte e a recepção do texto-alvo são, normalmente, separados no espaço e tempo. Por outro lado, na interpretação, a entrega do discurso-fonte e sua recepção costumam coincidir em espaço e tempo. Isso era ainda mais comum na década de 1990, quando outras formas de interpretação remota ainda não haviam sido tão desenvolvidas.

Booth skopos
[Fonte]

Pöchhacker (1995) concebe de forma holística a conferência da qual intérpretes participam como um hipertexto que inclui ações, discursos e textos, e dentro do qual a atividade do/a intérprete constitui um sistema complexo  de ações que engloba a recepção da tarefa e a preparação antes da interpretação. A partir desta perspectiva, o escopo da interpretação simultânea corresponderia à tarefa geral da conferência como especificado no contrato, e não a cada um dos textos individuais. Ou seja, seria o escopo do hipertexto que conduziria a atividade geral dos/as intérpretes durante toda a conferência.

Além disso, no caso da interpretação de conferência, a audiência tem acesso a informações auditivas e visuais (gestos, slides) fornecidas pelo/a palestrante. Por isso, Pöchhacker (1994) define a interpretação como um tipo de voice-over dependente do discurso de partida. Ademais, os/as participantes em uma conferência internacional, mesmo se tiverem origens culturais diferentes, compartilham uma série de conhecimentos específicos para a disciplina e uso do inglês como língua franca, para que possam ser considerados formadores/as de uma diacultura internacional, o que faz ser necessário reconsiderar e reelaborar os conceitos de paracultura e de diacultura propostos por Vermeer (1990).  

A situação é diferente se olharmos outros modos de interpretação, como a interpretação comunitária ou a interpretação para pessoas surdas. Nesses casos, as diferenças culturais do público-alvo, assim como suas necessidades e expectativas, podem ser claramente definidas, o que permite a aplicação mais direta dos conceitos funcionalistas de escopo e cultura (Kalina 2012).

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 potencial para la investigación Potencial de pesquisa

A teoria do escopo continua a oferecer um potencial para pesquisa em vários campos. A priori, como defendido por Chesterman (2010), os estudos empíricos são necessários para investigar em que medida e de que maneira os pressupostos básicos da teoria do escopo são cumpridos no campo profissional da tradução e interpretação. Entretanto, até o momento, poucos estudos se encaminharam nessa direção. Flynn (2004), por exemplo, conduziu um estudo etnográfico para explorar como os conceitos de escopo, avaliação e translatum se inter-relacionam no campo da tradução literária profissional a fim de estabelecer uma base empírica para a teoria do escopo. A pesquisa empírica em âmbito profissional pode abordar diferentes modalidades de tradução e interpretação, testando os conceitos básicos da teoria e ajudando a desenvolvê-los e reestruturá-los quando necessário. 

Além disso, o funcionalismo de Vermeer mantém seu potencial pedagógico e há muito para ser explorado nessa direção também. O contexto teórico e as ferramentas conceituais fornecidas pela teoria do escopo têm demonstrado sua aplicabilidade e utilidade na sala de aula e precisam ser mais desenvolvidos e refinados para se adaptarem às diferentes áreas de especialização e às novas exigências do mercado profissional. A respeito disso, a pesquisa-ação pode oferecer um caminho metodológico promissor, envolvendo os/as estudantes em projetos, promovendo sua autonomia e sua consciência do processo de aprendizagem.

Em síntese, as ideias centrais da teoria do escopo influenciaram outras abordagens com aplicações pedagógicas que podem ser mais exploradas e desenvolvidas. É o caso das abordagens de comunicação intercultural (Witte 2000, 2017, 2020) e da teoria de tradução centrada em usuárias/os, que atribui um papel essencial ao público-alvo durante o processo de tradução (Suojanen, Koskinen & Tominen 2015).

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