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cita ENG Literature for children and young adults CAT Literatura infantil i juvenil EUS Haur eta gazte literatura GLG Literatura infantil e xuvenil SPA Literatura infantil y juvenil

 

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Introduçao | Problemas de delimitación deProblemas na delimitação da literatura infantil e juvenil la literatura para niños y jóvenes | Presença adulta na literatura infantil e juvenil | “Adaptação” versus “tradução” | Censura na Tradução de literatura infantil e juvenil | Visibilidade e invisibilidade do tradutor | Adequação versus aceitabilidade | Dialogismo | Paternalismo do tradutor | Tradução de referências culturais | Potencial de pesquisa

 

Introducción  Introduçao 

O campo de pesquisas sobre a tradução de literatura infantil e juvenil (LIJ) é relativamente jovem, pois não foi considerada literatura de verdade por muito tempo (Fischer 2003: 165). No entanto, o número de traduções de LIJ publicadas anualmente justifica o seu próprio espaço no âmbito acadêmico.

A primeira questão a ser abordada na discussão da tradução de LIJ do ponto de vista investigativo é delimitar o que esse tipo de literatura é e o que ela engloba, já que parece não haver consenso entre os especialistas. Devemos lembrar que a LIJ passou por uma evolução notável da sua criação até os dias atuais, que dividiremos em três etapas. Obviamente, essas mudanças condicionaram de modo significativo a sua tradução.

A primeira etapa é caracterizada pela falta de textos escritos especificamente para crianças, que pegavam textos “emprestados” do sistema literário adulto. Na segunda etapa, vemos o surgimento da escrita específica para o público infantil, mas com um forte elemento pedagógico. E na terceira etapa, quando começaram a dar atenção para as características e necessidades reais das crianças, sem perder seu componente pedagógico, os textos foram adaptados aos novos tempos e aos novos problemas das sociedades modernas.

Para se envolver com a LIJ, é necessário levar em consideração as peculiaridades dos destinatários oficiais: devemos ter em mente que o conceito de criança e infância foi desenvolvido por Rousseau no século XVIII, que diz que os jovens têm natureza própria e especial, e habitam um  mundo próprio, o que resulta em necessidades distintas, como a sua própria literatura. O passo seguinte, porém, foi gerar textos para crianças levando em consideração as necessidades da criança. Crenças sobre as características e exigências da literatura infantil evoluíram ao longo do tempo e, consequentemente, a abordagem de sua tradução também. De fato, de um ponto de vista acadêmico, muitos aspectos afetam a sua tradução, tais como: a capacidade receptiva limitada das crianças ao ler; os sistemas de normas e convenções envolvidas nesse tipo de literatura desde a sua origem e que emanam diretamente do conceito de infância e juventude de cada época; a interação imagem-texto no caso dos livros ilustrados; a presença de temas tabus em textos feitos para crianças e jovens; a estrutura comunicativa particular das crianças, que se refere à mediação adulta entre o autor original e a criança, destinatária final (O'Sullivan 1991: 5); a cada vez mais frequente dualidade dos destinatários, que vê o adulto como um alvo, e não como um mediador; a assimetria cultural entre as culturas original e alvo, materializada nos textos através de referências culturais desconhecidas pelo público alvo etc.

Todos esses aspectos refletem, sem dúvida, as dificuldades associadas à tradução de textos literários. 

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[título del epígrafe] Problemas de delimitação da literatura infantil e juvenil

A falta de definição da LIJ (Fernández 1996: 19) deve-se à ampla variedade de critérios propostos a que esse tipo de literatura deve atender, e isso dificultou a sua delimitação. Por muito tempo, a existência da LIJ tem sido questionada (Townsend 1980: 196), se constitui um sistema literário, ou se, ao invés disso, a LIJ é um sistema pequeno dentro da própria literatura, o que levou à ideia de que a LIJ é, por sua vez, relativamente menos importante (Kenfel, Vázquez, García et al.1995: 35). Outros a consideraram uma Durchgangsliteratur (Doderer 1990: 18), isto é, uma “literatura de transição” para a “literatura real”. O esforço insistente de defini-la e caracterizá-la, a presença de um destinatário diferente, com as suas próprias características e necessidades, e os diversos trabalhos da história da LIJ apoiam a tese de que ela constitui uma literatura com o seu espaço próprio. Nikolajeva (1996: 7) a define como o que é “escrito, publicado, comercializado e tratado por especialistas como tendo crianças como o alvo principal.”

El mundo onírico de la LIJ
Mundo onírico da LIJ. Fonte.

Devemos ter em mente que os primeiros textos lidos por ou para crianças eram folclóricos, na ausência de outros textos escritos especificamente para elas. Assim, quando a escrita para crianças começou, muitas das características desses textos folclóricos, como a narrativa simples, eram vistas como o modelo mais adequado às habilidades literárias limitadas das crianças (Colomer 1998: 58). Esses primeiros textos evoluíram para se adaptar à realidade de cada época e refletir as mudanças sociais que estavam ocorrendo: "A literatura infantil muda à medida que a situação social muda, exatamente como é influenciada por noções pedagógicas predominantes de uma determinada época" (Dahrendorf 1974: 67). Em suma, a LIJ evoluiu de seu forte caráter moralizante para doutrinar crianças em relação a valores éticos e pedagógicos, para cumprir a necessidade de atender o seu desejo de ler e de posteriormente se tornar um instrumento de socialização, entretenimento e diversão.

Outro motivo que explica a dificuldade em delimitar a LIJ são as características de seu principal público-alvo. As crianças estão em um estágio de evolução rápida em seu desenvolvimento, mas possuem conhecimentos linguísticos e de mundo relativamente limitados. Ao mesmo tempo, elas sempre esperam novidades em um momento de suas vidas que é cheio de novas experiências em áreas significativas, como a família, escola etc. Para Kenfel, Vázquez, García  et al. (1995: 11) as vidas intelectuais e espirituais das crianças devem evoluir gradualmente, e elas devem criar suas próprias experiências de vida no seu ritmo e permitir que as suas personalidades se desenvolvam. Como estes públicos-alvo estão em um processo de desenvolvimento, os textos escritos para eles apresentam diferentes níveis de legibilidade e complexidade, aos quais o tradutor deve se adaptar.

Uma questão que criou um problema para suas delimitações foram as diferentes funções atribuídas à LIJ de esferas diversas em distintos momentos, resumidas por Marcelo (2007) da seguinte forma:

  1. Função pedagógica: a LIJ ensina valores e conteúdos.
  2. Função artística, estética ou literária, que introduz as crianças ao mundo da arte, ensina-lhes a brincar com a imaginação e fantasia, a serem criativas e verem além do cotidiano (Marcelo 2007: 27-28).
  3. Função linguística: promove o aprendizado de uma língua.
  4. Função socializante: integra crianças ou jovens dentro da sociedade da qual eles fazem parte (Bortolussi 1985: 42).
  5. Função psicológica, que surgiu no final do século XX: ajuda na compreensão dos problemas e em situações difíceis no seu dia a dia (sexualidade, drogas, problemas familiares etc.)
  6. Função Informativa: as crianças e os jovens se abrem para novos mundos: da ciência, história, arte etc.
  7. Função cultural: mostra a cultura na qual o livro foi criado.
  8. Função de diversão: diverte as crianças, jovens e adultos.

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[título del epígrafe] Presença adulta na literatura infantil e juvenil

Ao longo da história, adultos sempre serviram de instrumento nesse tipo de literatura e em suas traduções, e isso pode ser comprovado de diferentes maneiras.

 

Assimetria

A relação entre autores e tradutores –adultos– e os destinatários oficiais – crianças e jovens – muitas vezes foi definida como assimétrica (Reiß 1982; Shavit 1986; Hollindale 1997; Fischer 2003). Autores da LIJ escrevem para um público com diferentes características e necessidades, assim como os tradutores. O'Sullivan (2003) explica que o processo de publicar textos traduzidos para crianças e jovens envolve o autor implícito do texto fonte, que cria um texto para o destinatário implícito do texto fonte, e o tradutor, que cria um texto na cultura alvo imerso nas convenções daquela cultura, mas sem criar uma mensagem inteiramente nova. Isso significa que a voz do autor original e do tradutor sempre estão presentes nos textos de chegada. O envolvimento do tradutor pode ser visto em um nível paratextual, através de prefácios ou explicações metalinguísticas, e em um nível discursivo, através do que O'Sullivan chama de “voz do narrador-tradutor”, que se manifesta através de modificações nas traduções

em relação ao texto-fonte (descrições, condensações ou amplificações de informações, adaptações culturais presentes na tradução que não estavam presentes no texto-fonte, etc.) (O’Sullivan 2003). Estas mudanças dizem respeito à visão de que a criança alvo não entende todas as informações contidas no texto fonte, normalmente por causa da assimetria cultural entre os dois grupos de costumes, bem como a sua falta de experiência de vida.

Reiss (1982) entende que os problemas tradutórios em textos para crianças são os mesmos que em textos para adultos, mas como resultado da assimetria entre o tradutor e a criança, deve-se lidar com estes problemas de uma maneira diferente.

 

Mediação

Adultos sempre fizeram a mediação entre o autor e a criança ou jovem leitor de um texto original ou uma tradução de LIJ, sejam eles educadores, bibliotecários, familiares, editores ou tradutores (Townsend 1980: 194). Essa mediação faz com que, direta ou indiretamente, o adulto imponha um sistema de normas e convenções de como ele ou ela acredita que textos para crianças e jovens devam ser dentro do sistema literário. Em outras palavras, foi constituído um filtro entre autor e destinatário que condiciona a sua criação, publicação e tradução. O adulto, ou destinatário implícito, age em nome das crianças, os destinatários oficiais, e nesse papel escolhe a qual literatura elas terão acesso.

Portanto, a LIJ não é feita apenas para leitores infantis e juvenis, mas também para o intermediário adulto que decide se o livro –original ou tradução– deve chegar às crianças e jovens leitores. Pascua (2011: 34) coloca essa presença do adulto na LIJ como uma das dificuldades na tradução para crianças e jovens, já que temos que levar em consideração os pais que compram os livros, os professores que os recomendam, os vendedores de livros que escolhem os colocar nas prateleiras etc. Estes intermediários, portanto, ficam entre o autor e a criança e, consequentemente, a tradução para crianças é o resultado da combinação de sistemas diferentes dentro de uma cultura: sociais, educacionais, literários e comerciais (Pascua 2011).

 

Destinatário duplo

Embora ainda sejam minoria, existem cada vez mais exemplos da LIJ – e outros conteúdos audiovisuais – nas quais o adulto não faz somente o papel de mediador, mas também de destinatário, ou destinatário duplo (O'Sullivan 1993, Martínez 2014, Marcelo; Morales 2015). Esta dualidade é manifestada através de referências sutis e mensagens que crianças não entendem por causa de sua limitada experiência de vida, e que os adultos resolvem com trocadilhos, referências intertextuais, ironia, sarcasmo, humor, crítica etc. (Marcelo; Morales 2015). Obras como Alice no País das Maravilhas (Lewis Carroll 1865) ou Manolito Gafotas (Lindo 1994) são bons exemplos de como certas mensagens presentes na LIJ só podem ser entendidas por adultos. Este mecanismo é usado por alguns autores para transmitir mensagens que vão além dos limites do público infantil e também tentam alcançar um público de leitores adultos (Martínez 2014: 26). Esta nova realidade da LIJ muda as condições da tradução destes textos, já que uma função até então desconhecida é adicionada: entreter o público adulto. 

Quando traduz esses textos, o tradutor deve tentar conservar a intenção do autor de enviar mensagens para o adulto em um texto para crianças e jovens em um contexto culturalmente diferente

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[título del epígrafe] "Adaptação" versus "tradução

Na tradução da ficção literária, uma distinção é frequentemente feita entre adaptação e tradução. Embora ambas sejam maneiras de traduzir um texto, a distinção vem do grau de manipulação ao qual o mesmo é sujeito, que no caso da adaptação é consideravelmente alto. Isso mostra um claro afastamento do original e nem sempre acontece entre línguas diferentes, ou seja, quando um texto adulto é adaptado para crianças na mesma língua.

Partindo da ideia de que a adaptação é infiel ao texto original, Göte Klingberg (1978), um dos precursores do debate, considera que o autor já adaptou o seu trabalho para um público infantil, o que ele chama de grau de adaptação, e portanto não prevê uma nova adaptação na língua alvo. Por este motivo, ele só aceita a tradução. No entanto, ele aceita a manipulação que chama de purificação, que ele define como modificações e resumos para adaptar textos aos valores da cultura alvo, e a modernização, uma aproximação local ou temporal do texto com seu contexto alvo (1978: 86-87) para proteger o leitor infantil.

No que diz respeito ao nível de manipulação, Shavit (1981, 1986) aplica a teoria dos polissistemas à literatura infantil e à sua tradução para mitigar essa distinção. Ela coloca esse tipo de literatura na periferia do sistema literário, como consequência de ser uma literatura canonizada, o que dá aos autores e tradutores uma maior liberdade para manipular ou adaptar os textos para se encaixarem nas normas e convenções do sistema alvo:

Unlike contemporary translators of adult books, the translator of children’s literature can permit himself great liberties regarding the text, as a result of the peripheral position of children’s literature within the literary polysystem. […] One of the most interesting manifestations of text adjustment are those elements that translator finds necessary to add to the original. These added elements are the best indicators of the force of constraints on the model, since adding new elements to an already shortened text implies that the translator regards them as indispensable to the model. Additions are thus needed to reinforce the model, and their inclusion reveals even more than deletions do which elements are considered obligatory for the target model.

 (Shavit 1986: 112-121)

Shavit mesma explica essa manipulação em relação a dois princípios: adaptação do texto (língua, trama e estrutura) para as habilidades de leitura de crianças e adaptação para a ideologia de uma sociedade baseada no que considera bom para as crianças (1986: 30); ou seja, adaptar conforme as normas e convenções da língua-alvo para garantir a sua aceitabilidade. Para Nord (1993a), este nível de manipulação, que determina se o texto é uma adaptação ou tradução, oscila entre fidelidade formal e liberdade formal. Fischer (2003) acredita que a escolha entre uma ou outra categoria depende do tipo textual, da função do texto alvo e do público alvo. Este autor (2003: 154), com base na abordagem funcional de Reiß e Vermeer (1984) e Nord (1993a), defende que a dicotomia tradução/adaptação está relacionada à função da LIJ, que define, em grande parte, as normas e convenções para a tradução literária. Para Fischer, estas normas são mais rígidas na LIJ do que na literatura adulta (2003: 157) e, ao escolher entre a tradução e a adaptação, o tradutor toma decisões influenciado por convenções textuais, pré-requisitos, pressões econômicas etc. Ele também acredita que a diferença entre tradução e adaptação é determinada pelas decisões tomadas pelo tradutor, condicionadas pelos princípios de funcionalidade e lealdade. Assim, não podemos falar de tradução, e sim de adaptação, quando a intenção do autor original não é respeitada (2003: 159).

Ilustración de John Tenniel para Alicia en el País de las Maravillas
Ilustração de John Tenniel em Alice in Wonderland.

Na mesma linha de raciocínio, Oittinen (2000: 77) especifica que “a tradução é muitas vezes fiel ao original, enquanto uma adaptação não é” por implicar na mudança ou alteração do original, que ainda é visto como a autoridade e não pode ser modificado. Porém, ela alega que “todos os tradutores, se quiserem ter sucesso, precisam adaptar os seus textos de acordo com seus prováveis leitores. E, ainda assim, tradutores nunca têm a certeza de como os leitores realmente irão ler a tradução” (Oittinen 2000: 78-79). O autor (Oittinen 2000103) tenta resolver a controvérsia argumentando que na tradução, estamos sempre adaptando nossos textos para certos propósitos e certos leitores, tanto infantis quanto adultos").

O motivo que provoca este debate está no termo adaptação em si. Após o que pode ser considerado como um começo excessivamente “invasivo” com os textos-fonte, que mal são reconhecíveis quando comparados com suas adaptações para crianças ou jovens leitores, o termo assumiu muitas conotações negativas que ainda causam rejeição dentro do campo da tradução. Alguns especialistas tentaram reverter estas conotações negativas do termo, como Bloom (1980, in Oittinen 2000: 79): “Todas as vezes que uma história é contada, em uma tradução, ilustração, ou em voz alta, ela tem novos significados, uma nova vida. Portanto, a diferença entre original e adaptação não necessariamente está na '‘originalidade’' do original”. Em suma, textos que foram considerados traduções em outro momento histórico podem agora ser considerados versões ou adaptações (Pascua 2011: 29)

 

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[título del epígrafe] A censura na tradução de literatura infantil e juvenil

Quando lidamos com a LIJ, o problema da censura sempre surge, tanto em trabalhos originais quanto em suas traduções. Como dito acima, desde a sua criação, a LIJ foi condicionada através das ideologias prevalentes em um certo contexto sobre como ela deve ou não ser. Esta censura pode começar simplesmente com uma “não-tradução” por causa da política editorial ou governamental, tal como a proibição da tradução de Robinson Crusoe (Defoe 1719) na Espanha em 1756 pelo Tribunal de la Fe (Pascua 2011: 20).

Os motivos pelos quais alguns tipos de censura são exercidos normalmente baseiam-se no medo do que é diferente, do que é estranho, ou na rejeição daqueles elementos ideológicos, políticos ou religiosos que entram em conflito com ou deslegitimam os valores dos sistemas prevalentes em um determinado contexto geográfico e histórico. A LIJ é um exemplo claro desse tipo de censura, através da qual tradutores de histórias de outros países foram muitas vezes considerados um perigo para os valores nacionais, como Emilia Pardo Bazán (1893, em Bravo-Villasante 1985: 127) declarou:

Na Espanha não há nenhuma coleção de histórias para crianças com personagens nacionais [...]; vivemos com o tempo contado, dependendo da França e da Alemanha, que nos mandam coisas que são muito estranhas e contrárias à natureza do nosso país e, ao invés de bruxas clássicas, gigantes ou magos, eles nos fazem aprender sobre ogros, elfos e outros seres. [Nossa tradução da tradução em inglês do original em espanhol].

No caso específico da tradução de LIJ, a censura responde às ideologias e crenças prevalentes da cultura alvo, principalmente em relação às necessidades do leitor infantil naquele momento. Por exemplo, devido às mensagens doutrinadoras inerentes da LIJ desde a sua origem no século XVII, Pascua foca na censura da LIJ na Espanha e afirma que, como era considerada uma literatura menor, qualquer tipo de manipulação era justificada (2011: 56). A Espanha oferece outros exemplos claros de censura. Nos anos 60, a explosão no número de traduções de LIJ começou naquele país, principalmente do Inglês. Isso resultou na censura da literatura estrangeira para crianças, até com mais ímpeto, se possível, com rejeições subjetivas e arbitrárias (Pascua 2011: 115) que afetaram todos os tipos de elementos que não eram considerados “apropriados” dentro do sistema na época. Existem muitos exemplos de censura de LIJ, como a “expulsão” de “The Adventures of Huckleberry Finn” (Mark Twain 1885) de uma biblioteca pública dos Estados Unidos no Século XIX por ela considerar o livro “imoral e ofensivo”, com linguagem “vulgar e ignorante”; mais recentemente, a proibição dos trabalhos de Roald Dahl em alguns países, como “James and the Giant Peach” (1961) e “Charlie and the Chocolate Factory” (1964) por incentivar a violência e o uso de drogas; as acusações contra Harry Potter (J. K. Rowling 1997-2007) em países como a Arábia Saudita, os Estados Unidos e o Canadá por incitar bruxaria e fazer alusão ao diabo (Corona Aguilar, 2012).

No campo da tradução, essa censura pode afetar elementos específicos, imagens, mensagens etc. e pode ser feita de maneiras diferentes:

  • Não traduzindo uma obra;
  • Eliminando elementos, parágrafos ou capítulos inteiros do texto fonte na tradução;
  • Mudando certos elementos da cultura original para outros que são “mais adequados” para a cultura alvo;
  • Ou mudando mensagens inteiras, adaptadas para as normas e convenções da cultura alvo.

Como podemos ver, a censura não é algo que só acontecia no passado ou exclusivamente em regimes totalitários. Até hoje, tanto a criação quanto a tradução de livros infantis continuam mostrando um claro peso ideológico e sofrendo alguma forma de censura das instituições; auto-censura do autor, devido às mudanças sociais ou ao desejo de atingir uma maior audiência; censura do próprio tradutor ou de editoras, pais, professores, vendedores de livros e bibliotecários que, por razões ideológicas, permitem ou vetam uma série de leituras que eles consideram inapropriadas para crianças e jovens (Pascua 2011: 117); a censura do politicamente correto que nos força a evitar conteúdos que possam ofender certos grupos, como aconteceu com as traduções de Manolito Gafotas para Inglês, (Travalia 2019), etc.  

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[título del epígrafe] Visibilidade e invisibilidade do tradutor

Venuti (1995) introduziu a noção da invisibilidade do tradutor para se referir ao efeito ilusionista do discurso do tradutor e da prática dos editores, revisores etc. na cultura anglófona, que julga uma tradução como “aceitável” se sua leitura for feita com fluidez. Mas este ponto de vista não é exclusivo do mundo anglo-saxônico.

No campo da LIJ, talvez até mais que na literatura adulta, a invisibilidade do tradutor também prevaleceu, tanto que por muito tempo foi recomendado que o tradutor de histórias infantis permanecesse despercebido. A exigência de traduções que se pareçam com um original, para fazer o tradutor ser invisível, teve muitos apoiadores no campo da literatura infantil, como Klingberg (1978), acreditando que tradutores devem colocar as suas vozes “no mudo” e se limitar a repetir as intenções do autor original, embora, contraditoriamente, ele não aceite a visibilidade quando se trata de adaptações.

Oittinen foi o primeiro a quebrar essa invisibilidade na LIJ e defende a autoria da tradução e o direito dos tradutores de serem visíveis:

In my view, the best way to show respect to the readers of translation, and to raise the value of translation, is to stress the importance of the translator's role as a reader and writer and, especially, as an interpreter of the text. As Barbara Godard points out, a translation should be fiction in its own right: ‘Translation is production... not reproduction.

(Oittinen 2000: 97)

O'Sullivan (2003), Marcelo (2007) e Pascua (2010, 2011) também afirmam que o tradutor de LIJ tem o direito de ser visível, de parar de se esconder e, assim, de reconhecer a autoria dos seus próprios textos. Para Pascua (2011: 34), o texto alvo adquire vida própria e começa a operar dentro da cultura alvo. Ela considera que o tradutor não só transfere palavras, mas também cria um novo texto das palavras do original para funcionar em outra cultura, e portanto deve ser considerado um mediador sociocultural e autor de sua própria tradução (ibid.: 34-35).

Essa visibilidade deve manifestar-se em três níveis diferentes. Em primeiro lugar, no nível “social”, no sentido de ser importante transmitir ao público que o texto é uma tradução, para valorizar o papel do tradutor como um intermediário necessário e autor de seu próprio texto. Em segundo lugar, a visibilidade pode se manifestar no nível textual usando mecanismos que clarifiquem que um texto é uma tradução: “Essa ‘chamada para ação’ dos tradutores foi pela visibilidade através do uso de linguagem não-fluente, não-padrão e heterogênea, produzindo textos estrangeirizados ao invés de textos domesticados” (O'Sullivan 2003: 198). Em terceiro lugar, essa visibilidade pode se materializar no nível paratextual através de notas de rodapé ou prefácios, mecanismos que sempre foram preteridos nas traduções de LIJ devido às características da audiência alvo, ou também incorporando o nome do tradutor tanto nos créditos quanto na capa das traduções.

O papel do tradutor de textos literários e de literaturas de não-ficção foi reavaliado nas últimas décadas, em grande parte devido à aplicação destes mecanismos de visibilidade e, em um grau menor, talvez, ao uso de estratégias estrangeirizantes, esclarecendo que são traduções.

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[título del epígrafe] Adequação versus aceitabilidade 

A tradução de LIJ oscilou entre dois polos: a adequação, ou aderência às normas do sistema original, e a aceitabilidade, ou a aderência às normas do sistema alvo (Toury 1995). Durante a evolução da tradução de LIJ, houve uma clara mudança da dominância do texto fonte no processo tradutório para um foco no destinatário da tradução: a criança ou jovem. Um claro exemplo dessa mudança foi apresentado por Shavit quando ela aplicou este modelo à tradução de LIJ e estabeleceu que, para a criança aceitar um texto, esse deve adequar-se a uma série de princípios do sistema literário da criança alvo: "[...] a afiliação do texto aos modelos existentes; a completude dos modelos dos textos primário e secundário; o nível de complexidade e sofisticação do texto; o ajuste do texto para determinados propósitos ideológicos e didáticos; e o estilo do texto" (1986: 115).

Sobre este aspecto, Pascua e Marcelo (2000: 32) pensam que um texto alvo deve ser aceitável para e pela criança leitora. Consequentemente, o tradutor precisa fazer todas as mudanças que considera apropriadas, levando em conta a experiência de vida restrita do público infantil. A aceitabilidade claramente se refere aos sistemas literários fortes e profundamente enraizados aos quais os tradutores estão incorporados, e geralmente foi exigido que a LIJ aderisse aos modelos existentes nestes sistemas literários, já que nos sistemas fracos – e jovens – não há espaço para a inovação e a estrangeirização. De acordo com Shavit (1986), o tradutor da LIJ almeja a aceitabilidade no sistema literário e linguístico alvo ao invés de se conformar com as normas do sistema original. Na prática, isso causa um maior grau de manipulação, como vimos acima, para fazer o texto alvo “aceitável”.

Claramente, essas postulações se referem às diferenças entre as culturas fonte e alvo e, sobretudo, às normas predominantes em cada um desses sistemas. Por exemplo, a cultura norte-americana é muito protetiva com os leitores infantis, e rejeita alusões ou tópicos como sexualidade, violência, linguagem vulgar etc. em textos para este público (Marcelo 2016; Travalia 2019); textos em espanhol, por outro lado, aceitam isso mais naturalmente.

Enquanto o conceito de aceitabilidade de Toury se refere à afiliação às normas do sistema literário alvo, outra abordagem à aceitabilidade é a de Puurtinen, que a descreve como a busca por um estilo dinâmico que é “altamente legível e falável” e aponta as seguintes dimensões relevantes da aceitabilidade: “legibilidade, falabilidade e conformidade às expectativas estilísticas dos leitores adultos” (1989: 7-8). Em outras palavras, considera-se a aceitabilidade do ponto de vista das crianças e jovens alvos da tradução, tendo em mente as características, necessidades e interesses de diferentes grupos etários. Isto significa, por exemplo, que, para leitores mais jovens, a capacidade de ler e contar uma história em voz alta (legibilidade e falabilidade) é mais importante que para crianças mais velhas.  

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[título del epígrafe] Dialogismo

Uma das abordagens mais relevantes no campo da tradução de LIJ é a teoria do “dialogismo”, proposta por Oittinen (1993, 2000), uma autora, ilustradora e tradutora de livros ilustrados para crianças, partindo das teorias do diálogo de Mikhail Bakhtin (1979) e Hans Georg Gadamer (1985). Ela defende um diálogo do autor –e do tradutor– com alguém que não existe em carne e osso, que ela chama de “super-destinatário” (2000: 24). Para Oittinen, tradutores de LIJ mantêm um diálogo com “a história da infância, a criança de seu tempo, a antiga e atual criança de si –a infância do adulto e como ele se lembra dela” (Oittinen 2000: 26). Ela considera que o texto fonte e o texto alvo coexistem em uma relação dialética e vê a tradução de LIJ como um processo dialógico, especialmente na relação entre palavras –o verbal–, e ilustrações –o visual.

Esta interação entre palavras e imagens é uma construção na mente do leitor que forma uma unidade em um dado contexto ou situação, de modo que “tradutores precisam ter a habilidade de ler imagens também, do mesmo jeito que eles precisam ter a habilidade de ler e escrever em línguas estrangeiras escritas e faladas” (Oittinen 2000: 100-101). Imagens influenciam as palavras, como interpretamos um texto e vice-versa, e as palavras influenciam como imagens e ilustrações são entendidas (Oittinen 2000: 108-109).

De um ponto de vista funcionalista, ela insiste na importância da situação global na qual todas as traduções estão enquadradas, e dá ênfase ao leitor, isto é, para quem o texto é traduzido: “Traduções são sempre influenciadas pelo que é traduzido por quem e para quem, e quando, onde, e por qual motivo” (Oittinen 2000: 12). Ela entende que a função da tradução é sempre diferente do original “pois os leitores dos textos, o original e a tradução, são diferentes: eles pertencem a culturas diferentes, falam línguas diferentes e leem de formas diferentes” (Oittinen 2000: 12).

Outro foco da abordagem de Oittinen é ver um texto como um objeto dinâmico que evoca respostas diferentes a cada leitura. A começar pela experiência de leitura do tradutor e dos futuros leitores, imaginados pelo tradutor, em um diálogo com leitores que ainda não existem para o tradutor: a criança que ouve e o adulto que lê em voz alta. Para Oittinen, a experiência de leitura é dialógica, e a palavra nasce do diálogo entre textos, seres humanos e o mundo ao seu redor. Quando a tradução é para crianças, ela inclui as crianças que leem e ouvem neste diálogo, e o tradutor deve antecipar as possíveis respostas e reações do leitor.

Pascua (2011: 34) segue a linha dialógica de Oittinen e afirma que tradutores devem fazer parte do diálogo, intervir e mudar o texto, motivados por uma intertextualidade comunicativa que ela define como a falta de conhecimento cultural pressuposicional, a não coincidência de normas comportamentais verbais e não verbais e, por fim, a não coincidência de convenções textuais (ibid.). 

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[título del epígrafe] Paternalismo do traductor

A prática de tradução de literatura infantil tem sido dominada por uma visão “protetiva” dos adultos em relação às crianças, condicionada pelo didatismo característico desse tipo de literatura. Lorenzo descreve essa abordagem como o paternalismo do tradutor:

Tradutores agem de modo paternal quando estão produzindo o texto alvo (TA). Eles incluem elementos que o autor havia deixado implícitos no texto original, explicam (através de paráfrases intertextuais, notas de rodapé etc.) certas referências ou alusões que eles consideram difíceis para receptores jovens entenderem, ou, indo ainda mais longe, intencionalmente eliminam referências ou alusões a aspectos que eles consideram prejudiciais ao jovem leitor.

(Lorenzo 2014: 36, na nossa tradução para português).

Este paternalismo não se refere apenas ao tradutor, mas também a outros agentes no processo, como editores e diretores de dublagem, que modificam os textos alvos de acordo com a sua noção do que é apropriado para o leitor, o que acham que ele/ela pode entender etc. Esta abordagem já era evidente nas “purificações” de Klingberg (1978), quando ele defendeu a eliminação do tabu em temas como morte, elementos eróticos, álcool, falta de educação etc. Para Oittinen (2000: 90) esta purificação – ou paternalismo – pode se materializar através da remoção de elementos isolados, cenas do texto ou histórias completas pelo simples ato de não publicá-las ou, na prática, censurá-las.

Lorenzo (2004: 37) distingue dois comportamentos paternalistas básicos: (a) paternalismos omissivos como consequência de normas preliminares, que podem resultar na não-publicação de um livro, ou de normas operacionais, ao se suprimirem elementos considerados prejudiciais ou ofensivos na tradução; (b) paternalismos explanatórios para facilitar o entendimento dos textos para o público que, devido à sua idade ou deficiência, tem uma capacidade linguística e um “conhecimento de mundo” mais restrito, através da inclusão de paratextos, explicações intratextuais, explicações de elementos implícitos no texto fonte e no texto alvo, substituições de alguns elementos por outros para facilitar o entendimento, domesticações etc. 

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[título del epígrafe] Tradução de referências culturais

A principal fonte de problemas na compreensão de textos infantis tem sido a assimetria cultural entre a cultura do texto fonte e do texto alvo. Isso se reflete na presença de referências culturais no texto fonte que são desconhecidas pelas crianças no sistema alvo. Este obstáculo é sustentado não só pela postulação de que leitores infantis têm uma capacidade receptiva restrita, mas também pela ideologia predominante de cada sistema sobre como livros infantis deveriam ser, e que deu origem, na prática tradutória, à adaptação de muitas referências culturais presentes no texto fonte em prol da aceitabilidade do texto alvo.

No entanto, o estudo de como referências culturais são traduzidas na literatura infantil merece mais atenção, devido à falta de consenso sobre como esses elementos devem ser traduzidos para a literatura infantil da cultura alvo (Marcelo 2007).

A sua função no texto fonte é clara: elas representam um mundo textual específico e fazem referência a uma cultura específica, normalmente a do autor do texto fonte, o que permite a identificação entre o texto e o leitor (Nord 1993b: 396-397) e refletem a cultura de pessoas específicas em um tempo específico (Pascua 2011: 37). As características de leitores infantis e jovens, bem como as dos seus textos, não permitem o uso das mesmas estratégias tradutórias (notas explicatórias, prefácios, explicações inseridas nos textos etc) que são usadas nos textos para adultos quando se trata de referências culturais complexas para crianças e jovens.

Além disso, Marcelo (2007) nota uma clara falta da aplicação de estratégias globais para um texto quando se transferem essas referências em textos da literatura infantil e juvenil. Em outras palavras, algumas referências são domesticadas, outras são estrangeirizadas e outras são neutralizadas – perdem toda a sua importância cultural – dentro do mesmo texto, o que reflete a ausência de uma estratégia global para a tradução desses elementos. A função cultural dessas referências na LIJ é perdida pela ausência de um critério único quando estes elementos são traduzidos, como Fischer (2003) e Marcelo (2007) mostraram.  

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 potencial para la investigación Potencial de pesquisa

A tradução de LIJ foi estudada em vários campos, focando em problemas tradutórios específicos.

Porém, ainda existem muitas áreas nas quais poucas pesquisas foram feitas.

A tradução da LIJ tem sido condicionada por abordagens, muitas vezes, excessivamente pedagógicas e que carecem de uma base empírica. Portanto, mais trabalhos de campo sobre a recepção de textos traduzidos em tempos diferentes ou que analisem como traduções são percebidas pelos destinatários de diferentes idades são necessários, dependendo do problema de tradução, da função do texto, do tipo de texto (história ilustrada, texto audiovisual, romance etc.) ou da abordagem tradutória.

A presença do intermediário adulto entre o texto e o destinatário ocorreu de maneiras diferentes ao longo dos anos no texto fonte e, consequentemente, também nas traduções. Por um lado, no começo, a escrita e a tradução para crianças buscaram a aprovação do mediador adulto, para que ele ou ela não rejeitasse o texto e o impedisse de chegar até o leitor infantil, o que foi muitas vezes uma forma de censura ou autocensura. Por outro lado, nas últimas décadas, vimos uma evolução desse adulto, que não representa mais tanto um mediador entre o texto e o destinatário, e sim um segundo destinatário destes textos. Autores deixam mensagens para os adultos na forma de referências sutis, referências intertextuais, referências culturais, críticas sociais, jogos de palavras, humor etc que as crianças nem sempre entendem. Esses cenários oferecem inúmeras alternativas de estudo com diferentes abordagens: dependendo do tipo de mensagem pretendida para os adultos, restrições textuais, expectativas dos textos infantis enraizadas nas culturas alvo, entre outros.

Links Relevantes: ANILIJ, Book Trust, IBBY, IJB, OEPLI.

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