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Introdução - As origens do conceito | O gênero textual a partir da perspectiva dos estudos de tradução | Macroênero, subgênero e metagênero | Potencial de pesquisa
Introdução - As origens do conceito
| The better our command of genres, the more freely we employ them, the more fully and clearly we reveal our own individuality in them (where that is possible and necessary), the more flexibly and precisely we reflect the unrepeatable situation of communication—in a word, the more perfectly we implement our free speech plan. |
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| Mijail Bajtín (1986: 80) |
| At their most basic level, genres are formed in order to carry out actions and purposes. | |
| Christine M. Tardy & John Swales (2014: 166) |
O estudo do gênero remonta à Retórica de Aristóteles. No entanto, podemos dizer que o conceito começou a ser usado em seu sentido moderno no final do século XIX. Desde então, muitas disciplinas têm se debruçado sobre o tema: a retórica, a antropologia, os estudos literários, a comunicação audiovisual e a linguística aplicada (Monzó 2002), o que resultou em uma diversidade de conceituações teóricas devido a esses diferentes pontos de partida. A origem da discussão remonta às ideias de Bakhtin (1979), no âmbito da estilística, sobre o conceito de gênero discursivo como um conjunto relativamente estável de enunciados, ligado a uma esfera social. Essa descrição do conceito teve uma influência significativa nos estudos do discurso (Ciapuscio 1994). Não obstante, a disciplina na qual, sem dúvida, ocorreu o maior desenvolvimento da pesquisa, e que teve uma influência significativa nos estudos da tradução, é a da linguística aplicada.
No âmbito dessa disciplina, destacam-se os estudos da Escola Australiana, ou Escola de Sydney, e os da Escola Norte-Americana, ou Nova Retórica (Tardy & Swales 2014). Ambas compartilham o reconhecimento explícito da prevalência do aspecto social na compreensão do gênero textual e o papel fundamental do contexto (Freedman & Medway 2004). Contudo, enquanto a primeira, fortemente influenciada pela Gramática Sistêmico-Funcional de Halliday, se concentra em explicar as características textuais dos gêneros [sem, no entanto, negligenciar sua finalidade social e comunicativa (Martin 1984)], a Escola Norte-Americana concentra sua atenção na análise e tipificação das ações retóricas utilizadas em situações comunicativas recorrentes (Miller 1984) e nos aspectos sociológicos e etnográficos da comunicação (García Izquierdo 2011).
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| John Swales. [Fonte: ResearchGate] |
Juntamente com essas duas escolas, é importante destacar o papel fundamental da pesquisa realizada no campo da linguagem para fins específicos, especialmente por Swales (1990) e seu discípulo Bhatia (1993). Para Swales (1990: 58), cujo trabalho é influenciado pela Retórica de Aristóteles, por abordagens funcionalistas, pela sociolinguística ou pela análise do discurso, o gênero textual é relacionado a uma classe de eventos de comunicação nos quais os participantes compartilham um conjunto de propósitos, que são reconhecidos pelos membros especialistas da comunidade discursiva. Além disso, cada exemplo ou manifestação de um gênero tem padrões comuns de estrutura, estilo, conteúdo e um público potencial comum. Se todas as expectativas forem atendidas, a obra é considerada pela comunidade discursiva como um protótipo.
Esse fato ocorre apesar de, como afirma Orlinowski & Yates (1994a: 5), uma manifestação específica de um gênero textual não precisar refletir todas as regras que o constituem para ser considerada seu protótipo genuíno. Bhatia (1993: 16), discípulo do autor anteriormente mencionado, insiste na natureza convencional dos gêneros e na necessidade de analisá-los a partir de uma perspectiva “sociocrítica”, levando em consideração as restrições sociocognitivas que podem ser produzidas no campo estudado e tendo em conta o espaço sociopragmático no qual os gêneros profissionais invariavelmente funcionam (Bhatia 2002, 2012)
De acordo com o autor (1997: 27), os gêneros textuais têm várias características que os tornam dinâmicos, criativos e versáteis, que estão diretamente ligadas a diferenças organizacionais, estratégias de alcance de objetivos semelhantes entre gêneros etc. Qualquer escritor especialista em gêneros textuais “needs to have sensitivity to inter-and cross-cultural constraints operating on genres across national, cultural and ethnic boundaries” (1997: 31).
Além disso, ao definir essa categoria, devemos levar em consideração a existência de diferentes níveis nos quais a categoria pode ser colocada em prática, sobretudo nas áreas de especialização. De acordo com Bhatia (1997: 29), a versatilidade dos gêneros textuais utilizados nos campos profissionais leva à existência de estruturas genéricas com diferentes níveis de realização (gênero, subgênero, sub-subgênero, etc.).
Em conjunto com os níveis de realização, também é útil, novamente para fins explicativos, utilizar rótulos que nos permitam agrupá-los de acordo com diferentes tipos de relações. Em termos gerais, uma vez que as diferenças conceituais podem, por vezes, ser mais profundas e complexas do que parecem à primeira vista (Spinuzzi 2004), seguindo os principais representantes dessas abordagens, podemos estabelecer os seguintes tipos de relações:
Sistemas de gêneros (Bazerman 1994), ou gêneros textuais interdependentes representados em sequências típicas relacionadas, cujo propósito e forma são os mesmos. Um sistema de gêneros captura as sequências regulares nas quais um gênero textual segue outro no fluxo típico de comunicação de um grupo de pessoas (Bazerman 2003: 464). Portanto, o conceito se refere aos gêneros envolvidos no mesmo processo de comunicação (por exemplo, os gêneros envolvidos em um procedimento judicial formarão um sistema). De modo semelhante, Orlinowski e Yates (1994 a e b) definem o repertório de gêneros, ou grupo de gêneros textuais reconhecidos por grupos, organizações ou comunidades para alcançar seu objetivo, com propósitos comunicativos reconhecidos em relação ao seu público. Para essas autoras, os sistemas de gêneros textuais, assim como os gêneros individuais, fornecem a uma comunidade específica expectativas sobre o propósito, o conteúdo, a forma, os participantes e o tempo e local de uma interação.
Colônia de gêneros (Bhatia 2004: 59) ou grupos de gêneros intimamente relacionados que, caso sirvam a mais de um propósito, servem claramente a propósitos comunicativos semelhantes; e não necessariamente compartilham o mesmo campo disciplinar (por exemplo, os gêneros informativos, pedagógicos, instrutivos, normativos etc., formariam colônias). Esse conceito é semelhante ao conjunto de gêneros (genre set), sugerido por Devitt (1991).
O tradutor, portanto, como veremos em breve, em seu papel de escritor especializado, terá que estar bem familiarizado e deve levar essas relações em consideração. Além disso, todas essas perspectivas influenciarão os estudos realizados na área da tradução, como atividade discursiva.
Gênero textual a partir da perspectiva dos estudos da tradução
| There are, in fact, quite large numbers of genres that operate to support and validate the manufacture of Knowledge. | |
| John Swales (1996: 46) |
| La genología, en su aplicación a la traducción, podría considerarse una plataforma conciliadora en la que se darían cita la lingüística (pragmática, sociolingüística, análisis del discurso, lingüística textual, lingüística cognitiva, lingüística funcional sistémica), la semiótica, los estudios culturales de la traducción, la filosofía, la psicología, la antropología (cultural, cognitiva). |
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| Esther Monzó Nebot (2003: 9) |
Foi somente na década de 1970 que o conceito de gênero textual passou a ser considerado relevante para os estudos da tradução (Bassnett & Lefevere 1990). Embora a ideia tenha sido apresentada pela Escola Alemã do funcionalismo (Holz-Mänttäri & Vermeer), com base no conceito usado na linguística aplicada, não resta dúvida quanto à importância dos estudos da Escola Norte-Americana, e, sobretudo, da Escola de Sydney (Halliday, Martin, Matthiessen), assim como a pesquisa feita sobre línguas para fins específicos (Swales, Bhatia) na área da tradução.
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| Anna Trosborg [Fonte: stiften.dk] |
Embora nos primórdios da pesquisa o conceito estivesse correlacionado às tais “abordagens linguísticas”, a partir da década de 1980, novos estudos começaram a ser desenvolvidos no campo da tradução, incorporando elementos de diferentes vertentes de análise em suas definições. Isso significa que podemos encontrar perspectivas sobre essa categoria nos estudos de diferentes escolas de pensamento.
Como Baker (2000: 26) defende, quando a relutância primeira for superada, talvez venha o momento de abandonar algumas de nossas suposições improdutivas acerca de divisões bem definidas na disciplina.
Portanto, apesar do fato de que a maioria das reflexões sobre gênero terem sido desenvolvidas dentro de uma suposta “abordagem textual” – para alguns, erroneamente (Aragonés 2009), considerando que se trata de uma análise que ultrapassa a barreira textual –, podemos presumir que a natureza poliédrica do gênero, mencionado anteriormente, nos permite abordar sua análise, ao menos em parte, com base em qualquer outra abordagem (sociocultural, cognitiva, semântica etc., cf. Monzó Nebot 2003, García Izquierdo 2005) ou em uma variedade de escolas teóricas (o funcionalismo, a Teoria dos Polissistemas, a Escola da Manipulação etc.).
Entretanto, vamos nos concentrar nas ideias desenvolvidas pelos representantes da abordagem textual. Longe de tratarem somente do sistema, seus estudos lidam também com questões como a função do texto de partida e do texto de chegada, a função estilística de elementos internos do texto, fatores de comunicação (emissor, destinatário, condições de interação) ou a natureza intercultural da tradução. Alguns dos grandes representantes dessa abordagem nos estudos da tradução que analisaram o conceito incluem Hatim & Mason (1990), Trosborg (1997) e Schäffner (2002).
A contribuição de Hatim & Mason (1990) é uma das mais influentes no mundo hispanófono. Para eles, de acordo com os acadêmicos da comunicação visual (Kress 1985) e os funcionalistas sistêmicos (Martin 1985), o gênero textual é definido como “‘conventionalised forms of ‘texts’ which reflect the functions and goals involved in a particular social occasion as well as the purposes of the participants in them”.
Assim, dentro da dimensão semiótica do contexto, o gênero textual é tido como um conceito no qual há a convergência de aspectos formais (formas convencionalizadas), aspectos socioculturais (ocasiões sociais) e aspectos cognitivos (objetivos dos participantes). Essa dimensão tripla, como já destacamos, será crucial para o entendimento da complexidade de gêneros em diferentes línguas e culturas. Consequentemente, isso é concebido como um elemento adicional na descrição do contexto.
Trosborg (1997, 2000) segue uma definição eclética de gênero, combinando as considerações da Linguística Sistêmico-Funcional com as dos estudos de línguas para fins específicos (sobretudo os estudos de Swales e Bhatia) e alguns aspectos de pragmática e estilística. De acordo com Trosborg (2000: 15), o gênero é uma categoria culturalmente determinada, uma atividade na qual falantes se engajam como membros de uma comunidade cultural, por objetivos específicos (Martin 1984); uma categoria de registro superordenada, que mostra o propósito geral da interação comunicativa. Entretanto, na opinião da autora, qualquer análise de gênero textual de uma perspectiva tradutória deve ter a capacidade de capturar seus múltiplos objetivos, tanto os esperados quanto os menos reconhecidos, e assim atingir as expectativas dos destinatários. Afinal, como defende Bhatia (2002: 7), gêneros textuais são construídos em cada ocasião ou cerimônia comunicativa e, portanto, sua relevância deve ser levada em conta, considerando que é com base nisso que os meios discursivos podem ser criados para alcançar novos propósitos comunicativos. Na caracterização do autor, então, seguindo à risca a abordagem dos funcionalistas sistêmicos, o gênero e o registro são considerados categorias próximas.
Schäffner (2002: 4), mobilizando principalmente a abordagem da Nova Retórica, apresenta uma nova consideração à análise: a determinação sociológica de atividades nas quais gêneros textuais estão envolvidos. Embora ela defina isso de uma maneira semelhante, como “conventional, typical combinations of contextual (situational) or communicative-functional, and structural (grammatical and thematic) features”, Schäffner sinaliza que os gêneros refletem escolhas conscientes e circunstancialmente apropriadas de significados linguísticos. Ela acrescenta que “they are involved in sociologically determined communicative activities” (2002: 4). Schäffner critica Trosborg pelo fato de que sua concepção de gênero não corresponde exatamente ao significado amplamente aceito nos estudos da tradução e da interpretação, porque, ao contrário de outros autores como Hatim & Mason (1990), ela não considera gênero como uma noção semiótica relacionada ao modo do discurso.
Entretanto, como Lee (2001) aponta, há mais consenso sobre a definição da categoria do que seus próprios usuários consideram. Além disso, há muitas características sobrepostas atribuídas a ela provenientes de abordagens aparentemente conflitantes.
No geral, como vimos, o gênero é uma categoria que pode ser usada em qualquer campo de comunicação por ser um produto coletivo, isto é, o resultado de cada circunstância de comunicação específica. Assim sendo, qualquer forma de texto convencionalizado e culturalmente determinado, independentemente do campo (especializado ou não) no qual a comunicação está inserida, pode ser considerada um gênero (García Izquierdo 2007). No entanto, alguns especialistas vêem o conceito de gênero textual como particularmente relevante no campo da comunicação especializada. Isso porque há certas variáveis que determinam a estrutura de gêneros que são mais específicas à comunicação especializada. Sobretudo, estamos nos referindo à disciplina na qual eles estão envolvidos, o grau de conceptualização e abstração, e o escopo da comunicação que fornecem. Nesse sentido, então, a categoria se mostra especialmente produtiva no campo de tradução especializada. Hurtado (2001: 491 ss.) afirma que “para traducir, o para enseñar a traducir, los textos propios de cada ámbito social y profesional, es necesario conocer las normas que los rigen. Esto es sobre todo patente en el caso de los textos especializados (técnicos, científicos, jurídicos, etc.), al tratarse de textos más codificados y estereotipados al tener convenciones muy fijas”.
No contexto da língua espanhola, o grupo de pesquisa GENTT (García Izquierdo 2005) sugeriu uma classificação de gêneros na comunicação especializada na qual, apesar da nítida influência do trabalho de Hatim & Mason (e portanto da Escola de Sydney), há também a influência de outras tendências de análise, como a análise de gênero textual na língua para fins específicos ou a sociologia. Assim, dentro do escopo desse grupo de pesquisa, encontramos definições como a seguinte:
Los géneros son las unidades de comunicación de una comunidad. Constituyen una síntesis de situaciones y manifestaciones discursivas prototípicas que constituyen una herencia aprendida y un medio de aceptación de las diferentes comunidades. […] Son, por supuesto, un instrumento de transmisión de contenidos a través de medios discursivos en el que se aprecia la situación de los interlocutores en la comunidad en la que participan.(García Izquierdo & Monzó 2003)
Com essa definição podemos ver a importância da comunidade do discurso (Swales, Aragonese) que existe, sobretudo, no caso da tradução especializada. Além disso, o fato de que devemos encarar o gênero de uma perspectiva cultural mostra que se trata de um meio de socialização (a figura social da pessoa que traduz só tem uma raison d’être dentro da comunidade discursiva de que ela faz parte) (Martin 1982, Monzó 2002 & 2003, Aragonés 2009). Por outro lado, nas palavras de Berkenkotter & Huckin (1995: 7), o conhecimento de gênero textual, em vez de ser ensinado explicitamente, é transmitido pela enculturação ou socialização nos modos de falar de comunidades disciplinares específicas.
A principal diferença entre a proposta do GENTT e as propostas revisadas até aqui, está no lugar que a categoria ocupa na análise. Portanto, o gênero é visto como uma categoria na qual convergem todas as questões textuais e contextuais que são relevantes à análise de tradução. Seguindo esse princípio, o modelo proposto em García Izquierdo (2002, 2005) mostra que a análise começa e termina com o gênero. Portanto, García Izquierdo (2011) defende um modelo genológico de análise textual de tradução, no qual o gênero, longe de ser apenas mais uma categoria dentro do modelo, torna-se seu pilar.
De modo geral, podemos afirmar que, independentemente de terminologias mais ou menos explícitas, a maior parte dos estudos indicam que essa categoria funciona como elo entre o texto e o contexto e enfatizam a necessidade da caracterização multidimensional do conceito. Entretanto, é importante destacar que a categorização de gênero por parte do tradutor sempre pode ser baseada em fatores palpáveis, determinados pelas ações dos usuários da língua (Monzó 2002: 105). Por fim, apesar da natureza convencional e recorrente do conceito, do dinamismo e da possível hibridização da categoria (Bhatia 2002; Aragonés 2012), como supracitado, devem ser consideradas, em qualquer análise, a priorização de características do contexto e a atribuição sobre caracterizações fixas, evitando o máximo possível as considerações prescritivas. Qualquer tentativa de estabelecer uma taxonomia de gêneros será inevitavelmente restritiva (García Izquierdo 2009) e deve ser levada em conta para propósitos explicativos, informativos ou didáticos.
Macrogênero, subgênero e metagênero
No que condiz aos níveis de execução, eles deverão ser considerados para análise e sistematização da realidade da tradução especializada. Recordemos que os especialistas em estudos de comunicação para fins específicos propuseram a distinção entre sistemas de gênero, que geralmente estão relacionados a culturas de campos específicos, e colônias de gênero, que transcendem as fronteiras disciplinares.
No contexto da tradução especializada, o grupo GENTT sugere o conceito de macrogênero (García Izquierdo 2009). Em sua concepção, esse conceito é semelhante ao de uma colônia de gêneros textuais, o qual não se refere a uma realidade tangível, mas apenas a um rótulo que busca um objetivo organizacional. Assim, em nenhum caso, ele pode ser considerado como definidor dos gêneros que nele estão incluídos, uma vez que, como já vimos, os gêneros textuais devem ser classificados de acordo com muitos outros parâmetros. Portanto, os macrogêneros são categorias abstratas que tentam organizar o “mapa” da comunicação escrita em cada campo. Basicamente, é uma denominação que nos permite agrupar os gêneros textuais de uma especialidade, baseando-se em seus campos específicos de uso dentro daquela especialidade e da sua finalidade principal. Por exemplo, no campo médico, podemos encontrar macrogêneros informativos, clínicos ou publicitários; ou no campo jurídico, macrogêneros normativos ou didático-pedagógicos.
Essa classificação permite, portanto, sistematizar as informações relacionadas aos gêneros em nossas línguas de trabalho. Às vezes, porém, eles se manifestam em um nível específico, mas restrito, de realização. Nesses casos, podemos classificá-lo como subgênero, ou um gênero que está em um nível de realização inferior ao gênero, determinado pelo domínio específico e que não é aplicável em todos os casos — nem todos os gêneros têm subgêneros (Ezpeleta 2012).
Na verdade, existem gêneros textuais em que somente um único nível de realização é encontrado e, portanto, não se derivam em subgêneros; e outros nos quais, apesar do alto nível de sobreposição (finalidade, participantes etc.), existem pequenas diferenças que devem ser representadas: consideremos, por exemplo, o gênero relatório, que além de apresentar um traço evidente de hibridismo (já que pode ser encontrado nos campos jurídico, técnico e médico), também possui diferentes níveis de realização (subgêneros). Na área médica, por exemplo, encontramos relatórios clínicos, relatórios de exames, relatórios pré-operatórios etc. Como resultado, o tradutor deve estar ciente dessas ramificações do gênero textual, tanto do ponto de vista intra quanto interlinguístico.
O conceito de metagênero “considered as tools for stabilising practices which rule the flow of information and the way it has to be provided” (Ezpeleta 2012: 329), para gêneros como regulamentos, normas etc., nos ajuda a compreender o contexto em que alguns gêneros são produzidos, o que também é interessante.
Uma última distinção que merece destaque é proposta por Hatim (2001: 140), que reenquadra o conceito de gênero textual para distinguir entre dois níveis diferentes de abstração: tradução do gênero (entendida como um macrosigno, cuja estrutura o tradutor julgará a adequação e na qual se manifestam aspectos sintáticos, semânticos, pragmáticos e semióticos); e tradução como gênero (à medida em que uma tradução representa tudo o que o material traduzido deve parecer ou soar). Assim, como é fácil deduzir, as considerações que fizemos se enquadrariam na primeira categoria.
Na perspectiva de Hatim & Mason (1997:11), "[t]ranslators' choices are constrained above all by the 'brief' for the job which they have to perform, including the purpose and status of the translation". Dada a natureza fugaz dessa atividade, a definição de gêneros é apresentada como uma oportunidade para reduzir a internalização progressiva de convenções por parte dos (futuros) tradutores, que, de outra forma, teriam que aprendê-las de maneira não sistemática e ineficaz. Além disso, há o fato de que "[g]enres are created naturally and spontaneously as the occasions for exchanging points of view within an institutionalised reality are repeated" (Aragonés 2009).
Em vias de conclusão, os tradutores devem desenvolver, paralelamente à competência em tradução, uma especialização multilíngue e multicultural em gêneros textuais, o que definirá sua identidade profissional e será crucial para que atuem na prática como comunicadores interlinguísticos e interculturais (Montalt e García Izquierdo 2002).
Dependendo das áreas de especialização em questão, o tradutor encontrará diferentes tipos de restrições que terão de ser resolvidas por meio dessa especialização e, só assim, poderá adquirir as estratégias de escrita e tradução adequadas.
Com base no que foi discutido acima, é evidente que o uso do conceito de gênero textual reduz o esforço cognitivo tanto na produção quanto na recepção de textos e, por consequência, simplifica bastante a tarefa do tradutor. Nos últimos anos, esse fato levou à necessidade de mais pesquisas acerca da análise dessa categoria nas línguas e culturas envolvidas na tradução, sobretudo no caso de campos especializados, considerando que gêneros textuais são vistos como os níveis mais úteis e práticos de categorização (Lee 2001, Hurtado 2001, García Izquierdo 2007, 2012, 2016).
Diversos trabalhos na área de estudos da tradução usaram esse conceito no ensino e na pesquisa, ambos partindo de uma abordagem teórica e aplicada. Como resultado, vemos um número crescente (i) de estudos, na Europa, na América Latina e nos Estados Unidos, que ressaltam a utilidade desse conceito na pesquisa; (ii) de propostas didáticas específicas, apresentadas em conferências e colocadas em prática nas salas de aula de muitas universidades, as quais mostram relações entre as características do gênero textual e de desenvolvimento de competência em tradução (Montalt, García Izquierdo & Ezpeleta 2008); (iii) de demanda por uma metodologia de pesquisa específica envolvendo gêneros textuais (Borja, García Izquierdo & Montalt 2009). Essa metodologia permite um estudo aprofundado (i) dos aspectos formais do texto nas línguas e culturas em questão (por exemplo, a análise de interferência gramatical e sobretudo lexical em gêneros específicos); (ii) de análises da situação comunicativa específica da produção de texto (por exemplo, os problemas derivados de diferentes relações de poder ou níveis educacionais existentes entre participantes no ato de comunicação [isto é, emissor-destinatário] em diferentes culturas: especialista vs. especialista - especialista vs. não especialista etc); (iii) ou das diferenças no nível de normalização e uso – tradição – de gênero nas culturas envolvidas etc.; (iv) ou de sua carga cognitiva, pois podemos interpretar gêneros textuais como módulos de discussão e conceitos que são repetidos com uma variação de regularidade em textos que os representam. Dessa forma, podemos encontrar distinções entre os gêneros da língua de partida e de chegada em termos de sua carga cognitiva ou de complexidade conceitual – e, portanto, as diferenças em exigências de interpretação que dependem dos destinatários (expectativas de relevância). Uma metodologia que nos possibilite combinar abordagens teóricas (a linguística contrastiva, a abordagem textual, a abordagem cultural, a abordagem cognitiva) e diferentes métodos de análise (quantitativo e qualitativo), e que nos ajude a entender a natureza complexa da realidade – e, consequentemente, da necessidade de entender o gênero textual como uma unidade, apesar do fato de que, para interesses de pesquisa e por motivos de explicação, possamos compartimentalizar sua análise. Exemplos dessa metodologia mista são os projetos desenvolvidos pelo grupo de pesquisa GENTT nos últimos anos e, especificamente, o projeto mais recente do grupo (2019–2022), o HIPÓCRATES, no qual mesclam metodologias de análise de corpus e a criação de ferramentas de gestão de documentos com pesquisas, entrevistas, grupo de foco ou interpretações de papéis com atores para simular situações reais com propósitos didáticos ou investigativos.
Entretanto, ainda há um longo caminho a ser percorrido para definir essa categoria em diferentes línguas e culturas, tanto de uma perspectiva sincrônica (a predominante até aqui) quanto de um viés diacrônico, pois o gênero não é imune a mudanças socioculturais; e para oferecer, à base de características contrastivas (formais, comunicativas e de tipificação cognitiva), padrões mais ou menos estáveis de comportamento que viabilizarão a tarefa de tradutores e editores especializados. Os principais percalços que um tradutor pode encontrar incluem os que partem da existência de assimetrias de gênero nas línguas/culturas de trabalho. Portanto, a depender do contexto e do projeto de tradução, o tradutor:
(a) terá que enfrentar o conflito entre traduzir as convenções genéricas da língua de chegada, as convenções genéricas da língua de partida, ou adotar uma solução específica de conciliação para a tradução (o que alguns autores – por exemplo Monzó 2002 – definiram como transgénero, um gênero transtextual);
(b) terá que escolher uma tradução equigenérica ou intergenérica (García Izquierdo e Montalt 2014), ambas tanto de modo tanto intra quanto interlinguístico, no intuito de cumprir adequadamente as exigências de comunicação em contextos específicos, dependendo da necessidade ou não de manter o mesmo gênero textual ou optar por outro (ou diversos outros); ou
(c) terá que poder cumprir as novas exigências comunicativas, a exemplo do surgimento de gêneros “híbridos”, que podem combinar características de diferentes domínios (os quais não necessariamente coincidem com a língua de partida e a de chegada).
Por fim, o gênero textual é apresentado como uma categoria que torna possível conciliar abordagens tradicionalmente exclusivas e obter uma visão abrangente da funcionalidade dos textos e de sua tradução para línguas e culturas diferentes.

