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Introdução | Narrativa | História transnacional | Histórias da tradução | Historiografia da tradução: os objetivos do exercício | Potencial de pesquisa
A palavra história tem um duplo sentido. Ela se refere tanto ao passado quanto ao conhecimento acerca do passado. Historiografia se refere à escrita da história, e, como essa escrita exige um grau de conhecimento do objeto, ela abrange a aquisição desse conhecimento.
A historiografia tem uma longa tradição. No Ocidente, ela remonta aos historiadores gregos Heródoto e Tucídides; na China, o ponto de partida convencional é com os anais dinásticos e biografias de Sima Qian (c.145-c.86 a.C.). A seguir, vou me restringir a desdobramentos recentes no Ocidente.
Apesar de uma grande parte da história medieval e do início da Idade Moderna na Europa pretender traçar um registro histórico para encontrar exemplos de bom ou mau comportamento moral, a historiografia moderna foi posta numa base profissional e científica pelo historiador alemão do século XIX Leopold von Ranke. É famosa a sua descrição da tarefa do historiador como sendo a de descrever o passado como “de fato” ou “realmente” (eigentlich) aconteceu (Von Ranke 1824: vi). Para realizar essa tarefa, Von Ranke declarou que a historiografia teria que dar três passos: pesquisar em fontes primárias, interpretar criticamente as fontes e tecer uma narrativa a partir dessas interpretações (Lambert 2020: 46). Em grande parte, ainda é assim que os historiógrafos modernos operam, com a diferença de que hoje há um acúmulo de uma ampla gama de pesquisas para guiar o profissional. Os historiadores modernos formulam questões de pesquisa, trabalham com as fontes e redigem as suas afirmações e conclusões no contexto do conhecimento existente, e tendo sempre em conta esse conhecimento, tal como estabelecido em publicações acadêmicas.
Na prática, a historiografia é dividida em especialidades de acordo com o objeto (como história política ou econômica, história dos modos à mesa ou das ideias), divisões de tempo e espaço (períodos de tempo mais curtos ou mais longos, perspectivas locais ou globais) ou uma combinação destes.
Como a história normalmente compreende sequências diacrônicas de acontecimentos, atos e suas consequências, a maior parte da historiografia assume a forma de narrativas. É verdade que um relato histórico pode centrar-se na descrição de uma fatia sincrônica do passado, mas mesmo esses recortes transversais permanecem cientes de que a aparente estabilidade sendo descrita não passa de uma pausa temporária num mar de fluxo. A história é um processo de mudança. Assim sendo, a narrativa pode ser pensada como um componente básico do ofício do historiador. Os historiadores contam histórias sobre o que aconteceu no passado. Eles também descrevem, analisam, interpretam e atribuem significado a aspectos do passado, mas como parte de uma narrativa abrangente. A narrativa tende a constituir a espinha dorsal dos relatos históricos (Harding 2021).
No último quartel do século XX, a narrativa se tornou o foco de uma atenção renovada dos historiadores interessados em refletir sobre a relação entre a narrativa e a verdade histórica que a narrativa pretende representar. O exercício ficou conhecido como a “virada linguística”, um termo aplicado a muitas áreas das humanidades, mas usado pela primeira vez em referência ao estudo histórico em 1980 (Passmore 2020: 135). A reconsideração da narrativa por historiadores respondeu ao sucesso da Escola dos Annales francesa de meados do século que favoreceu estudos estruturais e quantitativos de grandes coleções de fatos em longos períodos de tempo. Tanto a micro-história (veja abaixo) quanto a volta da narrativa caminharam em direções opostas, defendendo casos individuais que se caracterizam por acontecimentos e participantes ativos e não por estruturas e estatísticas.
A reconsideração da narrativa histórica foi marcada pela reunião de várias ideias. Já em 1821, o estadista, linguista e tradutor alemão Wilhelm von Humboldt sustentara que os historiadores deveriam, por via de regra, respeitar o registro arquivístico, mas que também precisavam complementá-lo fornecendo conexões e um senso de direção que não estava no registro em si (Von Humboldt 1967). O crítico literário francês Roland Barthes mostrou, nos anos 1960, que tanto os historiógrafos quanto os romancistas históricos costumavam usar técnicas para apresentar suas histórias como se fossem factualmente verdadeiras, obscurecendo a natureza ficcional (no caso de romancistas) ou interpretativa (no caso de historiadores) de seus relatos (Barthes 1967 [1981]). Se o arquivo tinha que ser tanto interpretado quanto complementado e uma narrativa tinha que ser urdida por meios discursivos, o quanto de ficção havia na história?
A contribuição decisiva veio do historiador americano Hayden White. Em uma série de livros e artigos publicados a partir de 1973, ele enfatizou que uma narrativa histórica é, antes de tudo, um artefato verbal atravessado por tropos e figuras retóricas ausentes ou, pelo menos, diferentes do registro arquivístico. A interpretação do registro por parte do historiador exige que alguns dados sejam desvalorizados e outros postos em primeiro plano em prol da narrativa em construção, enquanto que, sob outros aspectos, o historiador faz inferências ou fornece explicações que são essencialmente conjecturas sobrepostas ao registro documental. Segundo White (1980: 15), a narrativa do historiador “charges events with significance” atribuindo-lhes significado e coerência.
Por sua vez, as narrativas ganham aceitação pública ao recair em estruturas de enredo arquetípicas (como a superação de obstáculos para obter um prêmio cobiçado; revelando aos poucos uma verdade básica sobre o mundo ou a natureza humana; restaurando a harmonia após um conflito ou perturbação). White sustentou todas essas formas em uma afirmação que ficou famosa: narrativas históricas são “verbal fictions, the contents of which are as much invented as found” (White 1978: 82; grifo do autor). Os historiadores produzem ficções verbais, mas isso não quer dizer que não estejam visando relatos verídicos. O problema é que, para testar sua veracidade, eles não conseguem confrontar seus relatos do passado com o passado tal como ocorreu, porque esse passado é passado, se foi, é inacessível para nós. Tudo o que temos é o registro documental, que precisa ser respeitado, mas também ser analisado, interpretado, unido como em peças de um quebra-cabeça, complementado e urdido no tecido verbal do historiógrafo. Podemos comparar relatos narrativos do passado entre si, mas não podemos comparar relatos narrativos do passado com o passado.
Se a narrativa é tão central para o ofício do historiador, quais são seus ingredientes básicos? Grosso modo, uma narrativa precisa, em primeiro lugar, de um começo e de um fim. Em histórias ficcionais, isso não é uma questão porque o mundo ficcional não tem existência fora da ficção, então o começo e a conclusão da história marca o início e o fim do mundo ficcional. No entanto, a história não tem começo (exceto, talvez, no Big Bang) e acaba apenas com um momento presente sempre mutável. O pedaço de história tratado no relato histórico representa uma seleção consciente, feita em função da história que os historiadores querem contar.
Em segundo lugar, as narrativas precisam de atores e eventos situados no tempo e no espaço. Estes constituem o quem? o quê? quando? onde? da narrativa. Narrativas ficcionais podem confabular atores, eventos, momentos e lugares como quiserem, mas as narrativas históricas são forçadas visto que precisam relatar as evidências históricas disponíveis. O que conta como evidência não é sempre algo objetivo, já que os historiadores selecionarão e mobilizarão como evidência os elementos do registro histórico que se adequam à narrativa que pretendem criar e preencherão as lacunas no registro como especulações bem embasadas. Dentro da narrativa, a interação entre os vários atores e eventos farão a história avançar.
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| O tradutor francês Claude de Seyssel oferece sua tradução de Tucídides ao rei da França, 1514. [Fonte] |
Em terceiro lugar, a interação entre atores e eventos precisa ser organizada em uma sequência coerente e significativa. A combinação dos elementos da história em um todo estruturado é chamada de urdidura de enredo, e o enredo é a sequência estruturada e significativa resultante. A articulação causal proporciona ao relato histórico uma maior coerência ou um tipo diferente de coerência em comparação ao registro histórico. O registro já pode conter as narrativas que os atores históricos engendraram sobre si mesmos e seu mundo, mas o historiador normalmente tem o benefício da perspectiva. O conhecimento dos resultados e consequências de ações passadas de uma forma indisponível para os atores históricos possibilita que o historiador ligue os pontos e crie sequências enquanto leva em conta desdobramentos subsequentes. Esse é um motivo pelo qual a narrativa do historiador diferirá das narrativas incorporadas ao registro histórico. Outro motivo é que o historiador tem que interpretar as fontes a fim de atribuir sentido a elas no contexto do relato a ser escrito. Dessa forma, a articulação causal fornece uma chave para a causalidade. A causalidade foi descrita como “one of the ‘glues’ that keep historiographic narratives together” (Tucker 2009: 98), mas isso continua a ser um conceito capcioso. Em parte porque, em um contexto histórico, as causas não podem ser facilmente distintas das condições ou razões tais como motivações, persuasões e pressões, e em parte porque a causalidade tende a ser múltipla, complexa e difusa. Podemos ser capazes de explicar um evento sem sermos capazes de identificar inequivocamente o que o causou. A narrativa é particularmente boa nisso. Ela pode sugerir conexões sem destrinchá-las e sua apresentação sequencial pode convidar o receptor a fazer inferências, causais ou outras. Na prática, o que importa é como os historiadores são vistos conectando fatos e justificando suas declarações explicativas, isto é, o quão persuasivos os consideramos ao lidar com as evidências que eles mobilizam em apoio a seu relato dos eventos (Tucker 2009: 108).
Além desses ingredientes básicos, costuma-se distinguir três níveis de análise narrativa. Eles ressaltam o fato de que histórias não se contam sozinhas, mas são estruturas conscientemente orquestradas. Primeiramente, há o nível dos eventos como devem ter acontecido em sua ordem lógica e cronológica (também conhecido como fabulação); em seguida, o nível da forma e da ordem em que os eventos são apresentados em um relato real (também conhecido como discurso), e, em terceiro lugar, o ato de narrar (também conhecido como narração). Os relatos históricos podem manipular a ordem cronológica dos eventos para obter um efeito dramático ou porque querem descrever desdobramentos acontecendo simultaneamente em lugares diferentes. Os historiadores podem destacar seu papel como narradores ou, ao contrário, e mais comum, apresentar os atores e eventos históricos permanecendo discretamente no plano de fundo (e criando uma impressão de objetividade no processo). Chamar atenção para o ato de narrar se tornou importante de outras formas. O que se tornou conhecido como história vista de baixo (mais detalhes abaixo) tende a incorporar a negociação do arquivo por parte do historiador na própria narrativa, e não se trata de perguntar quem está contando qual história em nome de quem – uma questão ética. Em um contexto diferente, escrever sobre historiografia fazendo uso da pletora de fontes digitais e ferramentas de pesquisa disponíveis atualmente levou Fred Gibbs e Trevor Owen a afirmar que “we need history writing that explicates the research process as much as the research conclusions” (2013: 163).
Tradicionalmente, historiadores e pesquisadores da tradução não tinham muito em comum. Eles tinham interesses diferentes. Os pesquisadores da tradução buscaram entender a natureza da tradução ou a tradução no mundo contemporâneo. Os historiadores, quando porventura mencionavam traduções, repetiam clichês batidos sobre tradução como sendo transparente ou inferior.
Hoje já não é mais assim. Nos últimos trinta anos, surgiu uma convergência significativa entre história e estudos da tradução, em duas frentes. Em primeiro lugar, algumas formas de história encontraram ressonância entre alunos de tradução. Isso se aplica à micro-história, aos estudos da memória, à história do livro e, em menor extensão, à histoire croisée ou história cruzada. Em segundo lugar, o surgimento da história transnacional significou que vários historiadores depararam com traduções e tradutores como parte de sua pesquisa e agora produzem trabalhos em que a tradução é reconhecida como uma atividade intelectualmente complexa e socialmente significativa. É verdade que, na relação entre história e estudos da tradução, a influência se dá principalmente em uma direção, da primeira para os últimos. A história é, sem dúvida, a disciplina mais bem e firmemente estabelecida. A assimetria significa que, enquanto os pesquisadores da tradução têm acesso liberado ao trabalho feito por historiadores, poucos historiadores sequer notam o trabalho produzido pelos pesquisadores da tradução (Rundle & Rafael 2016: 30).
A seguir, começarei discutindo a história transnacional, apenas porque alguns dos outros campos mencionados, como a micro-história e os estudos da memória, também passaram pela virada transnacional. A história transnacional surgiu como uma tendência historiográfica nos anos 1990. Ela surgiu a partir dos estudos das transferências culturais, que já haviam minado a noção de culturas nacionais homogêneas ao demonstrar que toda cultura nacional incorporou todas as formas de importação além de suas fronteiras e era, portanto, plural e híbrida (Berger 2020: 301). Os estudos das transferências culturais estavam interessados não apenas na recepção das importações, mas também nos meios e agentes de transmissão, incluindo grupos como migrantes, exilados, turistas, diplomatas, espiões e tradutores (Berger 2020: 301). Outros precursores foram a história feminista e os estudos pós-coloniais, que foram transnacionais desde o início.
As várias formas de história transnacional se unem em sua oposição a duas concepções: eurocentrismo e nacionalismo metodológico. A rejeição do eurocentrismo não significa que o papel histórico da Europa na história mundial seja negado ou diminuído. Significa, sim, que, já que a Europa não deveria ser o parâmetro em relação ao qual se deveria julgar outras partes do mundo, os conhecimentos produzidos em outros lugares são avaliados em seus próprios termos. O nacionalismo metodológico, uma ressaca do século XIX, é a ideia de que o Estado-nação constitui a unidade natural de análise histórica. A história transnacional deseja focar na mobilidade e na migração, em zonas de contato, trajetórias e interações tanto dentro quanto além das fronteiras nacionais e outras fronteiras. Uma consequência dessa mudança de foco é que os modelos de centro e periferia (como a teoria dos polissistemas) são deixados de lado em favor do trabalho com redes e interconexões (Paisly & Scully 2019: 4-8, 21).
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Mapa-múndi de 1689. [Fonte] |
Dipesh Chakrabarty Provincializing Europe (2000), um título genial, põe a história transnacional no mapa. Ele se pergunta como noções como democracia, subjetividade ou racionalidade, que se originaram na Europa, se tornaram universais. O universal, conforme sugerido por Chakrabarty, era algo instável porque estava sempre sendo adaptado a condições locais, e essas inflexões e mutações locais mostravam que até mesmo ideias supostamente universais continham elementos que desafiavam a tradução. Esta foi uma historiografia em que a tradução ocupava um lugar proeminente.
Visto da perspectiva dos estudos da tradução, o benefício-chave da história transnacional é que ela ajudou os historiadores a descobrirem a tradução. Porém, a história transnacional não é apenas um ramo da história. Ela afetou muitos outros ramos e formas de se fazer história, que sofreram o que pode ser chamado de virada transnacional. Vou mencionar algumas dessas formas de se fazer história que vivenciaram a virada transnacional e se mostraram particularmente cativantes para os pesquisadores da tradução.
A Micro-história é uma variante do que ficou conhecido como história vista de baixo ou história popular, uma forma de historiografia que buscava mudar a perspectiva a partir da qual os relatos históricos eram escritos. Ela defendia a experiência dos indivíduos e grupos comuns e oprimidos em vez da experiência das elites sociais. All God’s Dangers (1974) de Theodore Rosengarten, por exemplo, baseado em entrevistas gravadas, apresentou a autobiografia de um colono iletrado no Alabama, filho de escravos libertos que passou doze anos em uma penitenciária. O Coletivo dos Estudos Subalternos, que surgiu na Índia nos anos 1980 e ecoou na América Latina, se interessava pela história local e por comunidades privadas de direitos civis (Guha 2001).
A micro-história se tornou conhecida principalmente com o livro de Carlo Ginzburg O queijo e os vermes, publicado em italiano em 1976 (Ginzburg 1987). O livro se baseia nas transcrições do julgamento de um moleiro do século XVI conhecido como Menocchio, que foi convocado pela Inquisição devido a suas visões heterodoxas sobre o cosmos e a criação. Ginzburg estava menos interessado nas divagações teológicas de Menocchio do que nos detalhes de sua vida cotidiana. Essa abordagem se tornou característica da micro-história, que pintou vívidos retratos de indivíduos e grupos das classes baixas cuja existência teve que ser reconstruída como um quebra-cabeça a partir de arquivos não dedicados a eles. A virada transnacional afetou a micro-história na medida em que trouxe figuras itinerantes para a linha de frente, incluindo tradutores e intérpretes. A abordagem interessou aos estudantes de tradução porque os tradutores com frequência são também personagens de poucos recursos (Adamo 2006). Rachel Lung, por exemplo, escreveu sobre o intérprete coreano do século IX Yu Sinōn, que viajou pela China da dinastia Tang com o monge budista japonês Ennin. Sabemos sobre Yu Sinōn apenas pelo diário de Ennin (Lung 2015). De forma semelhante, Sylvie Kleinman (2012) documentou as atividades obscuras de exilados irlandeses que trabalharam como intérpretes e informantes nos anos 1790 na França. Em ambos os casos, as negociações com os arquivos fizeram parte da história e esta é uma característica típica do trabalho com a micro-história.
Os fundamentos da história das ideias moderna (também conhecida como história intelectual, história conceitual e história dos conceitos) também foram lançados na década de 1970, quando duas escolas independentes se desenvolveram, uma na Alemanha e outra no mundo anglófono, ambas interessadas principalmente na história de conceitos políticos. Logo ficou claro que conceitos e ideias atravessam fronteiras, muitas vezes por meio da tradução. Dessa forma, a tradução se tornou um componente importante da história intelectual em sua vertente transnacional. O historiador alemão Jörn Leonhard, por exemplo, cunhou a expressão idées liberales (“idéias liberais”) ao viajar da França para a Alemanha e a Itália no início do século XIX. Ele observou que, na Alemanha, o termo liberale Ideen, apesar de calcado no francês, adquiriu um sentido muito diferente porque era invocado para garantir a liberdade de consciência, enquanto que na Itália idee liberali, outro decalque, tinha outro significado porque lá a Igreja Católica associava o termo ao ateísmo e se opunha implacavelmente à ideia (Leonhard 2008). A tradução, em outras palavras, mesmo numa transposição tão próxima que beira a tradução literal, não garante que os significados permaneçam estáveis entre as línguas. Cada uso deve ser estudado em seu próprio ambiente. Quentin Skinner, uma figura importante na história intelectual anglófona, fez observações semelhantes, ressaltando que termos como el estado, der Staat, l’état ou lo stato podem ser considerados traduções de o Estado, mas supor nessas bases que todos têm o mesmo significado “pressupposes what would have to be shown’ (Skinner 2010: 26). Trata-se de uma afirmação de grande impacto.
À medida em que a história dos conceitos foi se tornando cada vez mais transnacional e global, os historiadores incluíram a tradução em suas investigações. A pergunta que se fazem não é se os tradutores no passado fizeram uma escolha certa ou errada ao traduzirem um dado conceito de determinada maneira, mas como os tradutores vislumbraram ou inventaram correspondências entre conceitos estrangeiros e seu próprio mundo, e como essas escolhas foram subsequentemente adaptadas ou resistiram. Aqui há ecos da observação de Dipesh Chakrabarty (mencionado acima) de que conceitos supostamente universais invariavelmente mostram inflexões locais. Como uma pesquisa na área da história intelectual global apresenta, os historiadores “examine the renderings that past actors have proposed and their consequences” e isso significa que eles estão “less interested in the success of attempts at understanding than in the historical and often power-laden settings of enacted translations” (Moyn & Sartori 2013: 11-12). Afirmações como as de Leonhard e Skinner são de fundamental importância e podem ser levadas a sério por qualquer pessoa que trabalhe com história da tradução. A tradução não ocasiona a equivalência de sentido. O que interessa é o entendimento e a contextualização de traduções sancionadas.
Os Estudos da memória também começaram em um contexto nacional antes de se tornarem transnacionais. Esse ramo da história estuda como o passado é lembrado no presente, de forma individual ou coletiva. A obra do historiador francês Pierre Nora é típica da abordagem tradicional. A partir da década de 1980, Nora escreveu extensivamente sobre “lugares de memória” (lieux de mémoire), objetos e locais em que o passado nacional foi lembrado, uma identidade nacional foi promovida e a importância contínua do passado ao presente foi enfatizada. Porém, enquanto para alguns, como Pierre Nora, os lugares de memória são estáveis e duráveis, os estudos mais recentes da memória transnacional buscam entender processos de lembrança, diferentes usos ideológicos do passado promovidos por diferentes grupos de interesse e os vários meios, incluindo a tradução, pelos quais o passado é lembrado e mantido vivo. Para os estudos da memória, a tradução é um modo de remediação, dentre outros.
Um lugar especial nos estudos da memória é ocupado pelo Holocausto. Os campos de extermínio nazistas na Segunda Guerra Mundial eram multilíngues desde o início, testemunhos no pós-guerra foram produzidos por sobreviventes em uma gama de línguas e a disseminação internacional dessas declarações testemunhais exigiu várias traduções. Porém, a tradução de testemunhos do Holocausto apresentou problemas éticos de um tipo específico. Os sobreviventes tinham passado por experiências que outros, inclusive tradutores, nem poderiam imaginar. Suas palavras mereciam o maior respeito; subsumi-las no vocabulário bem intencionado mas inexato de outra língua poderia não lhes fazer justiça. Em um estudo profundo das traduções dos testemunhos do Holocausto, Peter Davies (2018) comparou essas considerações com as mudanças e os deslocamentos que acompanham toda tradução.
A História dos livros tem sido transnacional desde o começo. Em sua forma mais simples, refere-se a livros como objetos materiais: o que as dimensões de um livro, sua encadernação, a qualidade do papel em que é impresso, o layout das páginas, seu uso de ilustrações, títulos e fontes e outras características nos falam sobre seu público-alvo? Mesmo em nível rudimentar, fica claro que o objeto de estudo não é a coisa material ou a mercadoria em si, mas as transações humanas que podem ser rastreadas ao seguir as trajetórias ou as coisas-em-movimento, como Arjun Appadurai menciona em The Social Life of Things (1986: 5). Os historiadores do livro perceberam desde logo que a cultura material não está de fato interessada em objetos materiais, mas em “the entire complex of relationships between objects, their meaning and people” (Gerritsen & Riello 2013: 274).
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| Os primeiros versículos, em hebraico e latim, do Gênesis na Bíblia Regia impressa por Christopher Plantin em Antuérpia, 1568-1572. Como o hebraico é escrito da direita para a esquerda, A transliteração em latim é impressa de trás para frente. [Fonte] |
Muito rapidamente, a história do livro expandiu seu escopo para abranger todos os aspectos do comércio do livro, da fabricação à disseminação dos livros às condições econômicas de sua produção e seu uso por leitores reais, incluindo estudos quantitativos. Em um ensaio emblemático publicado em 1982, Robert Darnton concebeu um diagrama decisivo mostrando a interação entre os indivíduos e as instituições envolvidas. Os tradutores não foram descritos nele, mas o diagrama acabou sendo expandido e adaptado para incluir a tradução (Bachleitner 2009; Belle & Hosington 2017). Uma versão recentemente atualizada, explicitamente transnacional, pretende habilitar o modelo para a publicação global na era digital, abrindo espaço não apenas para autores tradicionais, tradutores, tipógrafos e livreiros, mas também para editores de aquisições, gerentes de direitos e financiamentos e pessoal de marketing (McMartin & Gentile 2020). Judy Wakabayashi (2019a) analisou e comparou vários desses modelos para medir sua aplicabilidade a uma situação específica fora da órbita europeia, isto é, o Japão ocupado nos anos imediatamente após a Segunda Guerra Mundial
A base de convergência entre a história do livro e os estudos da tradução é dupla (Colombo 2019; Pickford 2021). Em primeiro lugar, há a trajetória textual das obras e gêneros no tempo e no espaço, sua transmissão e migração, e as mudanças pelas quais passam ao longo do caminho. Uma noção ampla de tradução, incorporando adaptações e reescritas de vários tipos e permitindo mutações por entre mídias também precisa ser traçada e mapeada. O outro pilar é a materialidade, o mundo dos contratos, pagamentos e condições de trabalho, a quais dicionários e informantes os tradutores tiveram acesso. Mas isso é só o começo. Se o nosso mundo tecnologicamente saturado mostrou a tecnologia afetando diretamente a tradução profissional, parece razoável imaginar as relações semelhantes no passado, como fez Karin Littau (2016): existem conexões, por exemplo, entre práticas de escribas medievais de cópia e tradução palavra-por-palavra na época, ou entre cultura oral e tradução sentido-por-sentido?
A história do livro compartilha um interesse em trajetórias e materialidades com outras tendências na pesquisa histórica e sociológica, como os estudos da tecnologia, teoria da prática, teoria ator-rede e história cruzada (ou histoire croisée), tudo isso encontrou ecos nos estudos da história da tradução. Na introdução de um livro que detalha a recepção e a tradução de Frantz Fanon em umas doze línguas, Kathryn Batchelor (2017) inseriu os vários estudos no contexto tanto da histoire croisée quanto da micro-história. Luo Wenyan (2020) aplicou a teoria ator-rede a um projeto de tradução histórica, isto é, a tradução inglesa feita por Arthur Waley do romance chinês clássico Journey to the West nos anos 1940, lançando mão da extensiva correspondência em torno do projeto. Maeve Olohan (2021) usou a teoria da prática para entender o mundo contemporâneo dos prestadores de serviços linguísticos, mas tinha demonstrado anteriormente que abordagens nessa linha também poderiam esclarecer tópicos históricos na tradução técnico-científica (Olohan 2014, 2016).
Como os parágrafos acima mostram, várias formas de história encontraram eco nos estudos da tradução. Porém esse eco costuma ser demorado. Levou trinta anos para a micro-história ser notada pelos pesquisadores da tradução. O surgimento da história transnacional mudou tudo isso. Os próprios historiadores descobriram a tradução como um tópico, e os pesquisadores da tradução rapidamente se agarraram às ideias transnacionais.
O interesse na história da tradução sempre existiu. Tradicionalmente, a historiografia da tradução focou em ideias e discursos sobre a tradução em vez de na prática da tradução. Um livro como o de Flora Ross Amos, Early Theories of Translation (1920), pode ser visto como representativo disso. Décadas mais recentes viram surgir várias antologias de discursos sobre tradução. Um dos primeiros exemplos foi a coletânea de textos poloneses de 1977 de Edward Balcerzan, mas houve muitos outros, tanto nacionais quanto internacionais, começando com Das Problem des Übersetzens (1963) de Hans Joachim Störig e culminando com Western Translation Theory (1997, 2ª edição 2002) de Douglas Robinson. Os dois volumes de Anthology of Chinese Discourse on Translation de Martha Cheung (Cheung 2007; 2017), uma coletânea de documentos chineses em tradução para o inglês, alcançaram o status de modelo por conta da grande quantidade de anotações. A publicação inspirou a antologia histórica recente de discurso árabe em tradução para o inglês (Shamma & Salama-Carr 2022).
Pesquisas históricas abrangentes como as realizadas por George Steiner (1975), Louis Kelly (1979) e Frederick Rener (1989) compreenderam tanto a prática quanto a teoria da tradução na Europa Ocidental. Entretanto, em vez de oferecer relatos sequenciais ou evolucionários, eles tenderam a ler as manifestações históricas da tradução como variações repetidas sobre um tema imutável, dependendo de se a tradução parecia ser concebida principalmente como instrumental ou como criativa. Algumas pesquisas tiveram a natureza de um levantamento, como foi o caso de Histoire de la traduction en Occident (1991), de Henri van Hoof. Outras tiveram um alcance geográfico mais amplo, mas continuaram a ser colchas de retalhos. De 1992 a 2002, Hans Vermeer compilou sete volumes cobrindo a história da tradução da Mesopotâmia Antiga até a Europa Renascentista, mas foram compilações idiossincráticas em grande parte baseadas em fontes secundárias, encontrando pouca ressonância na disciplina. Em contraste, a coleção organizada por Jean Delisle e Judith Woodsworth em 1995, publicada ao mesmo tempo em inglês e francês, teve uma segunda edição (2012), apesar de seu amplo escopo e casos anedóticos relativamente curtos poderem ser considerados mais um aperitivo do que uma história mais rematada. Talvez a realização mais impressionante desse período tenha sido a enciclopédia em três volumes Übersetzung Translation Traduction (Kittel, Frank, Greiner et al. 2004-11), concebida no início dos anos 1990 e cobrindo cerca de 1.500 páginas sobre aspectos da história da tradução no mundo todo, mesmo que suas contribuições tenham permanecido isoladas e desiguais.
As décadas iniciais do século atual viram uma mudança de marcha, já que pesquisas substanciais e significativamente mais convincentes surgiram, algumas delas originalmente concebidas em linhas nacionais, mas que de fato se mostraram mais transnacionais, mesmo que isso não tenha sido explicitado em sua apresentação. A história da tradução na Espanha, por exemplo (Lafarga & Pegenaute 2004), é baseada em um território nacional moderno, mas cobre a diversidade interna com capítulos dedicados ao catalão, galego ou basco. A história da tradução nos Países Baixos (Schoenaers, Hermans, Leemans et al. 2021) trata em grande parte, mas não exclusivamente, de traduções para o neerlandês e cobre uma área que atualmente compreende dois países, a Holanda e a Bélgica. A história finlandesa em três volumes, publicada em 2007 e 2013, engloba a diáspora finlandesa (Paloposki 2021). Michaela Wolf (2012) descreve a rica variedade de formas e funções da tradução no estado Habsburgo multiétnico e multilíngue nos anos entre 1848 e 1918. Os quatro volumes da história da tradução literária em inglês que surgiram até hoje (cinco estão planejados: France & Gillespie 2005-…) vão até 1900 e compreendem não apenas as Ilhas Britânicas, mas também os Estados Unidos, quando apropriado. De longe a realização maior e mais impressionante até hoje, a história da tradução em francês em quatro volumes (Chevrel & Masson 2012-19), em mais de 5.000 páginas, tem uma abordagem transdisciplinar e cobre, em relação ao período moderno, o Canadá, a Bélgica e a Suíça, além da França.
Apesar de algumas dessas histórias serem tidas como transnacionais mais por acidente do que por desígnio, houve tentativas resolutas de escrever a história da tradução ultrapassando fronteiras nacionais e linguísticas. Elas representam um novo tipo de historiografia da tradução em que estão baseadas em pontos em comum compartilhados e explicitamente formulados cobrindo um grande espaço geográfico em termos culturais e históricos. Nesse sentido, Judy Wakabayashi (2005) retraçou a cultura translatória da Ásia Sinítica, abrangendo a China, o Vietnã, a Coreia e o Japão. Os pontos em comum se desdobram em três: a presença disseminada da cultura chinesa, incluindo o uso do chinês clássico como forma dominante da escrita da elite; contatos frequentes, tanto amigáveis quanto hostis; e a experiência comum do colonialismo cultural eurocêntrico no século XIX. Apesar de essas características fornecerem um guarda-chuva comum, elas deixam um amplo espaço para a variação regional. Este também é o caso de uma história ainda mais ambiciosa da tradução na Europa Central (Chalvin, Muller, Talviste et al. 2019), uma área compreendendo dezesseis línguas, repleta de diversidade cultural e fronteiras políticas frequentemente mutáveis. Porém, os autores observam cinco pontos em comum relevantes para a tradução: as traduções religiosas impulsionaram as línguas escritas e depois as línguas nacionais; as traduções moldaram a literatura secular nas línguas vernaculares; a Europa Ocidental forneceu consistentemente modelos culturais; estados-nações formados nos séculos XVIII e XIX e a área sofreu a dominação soviética de 1945 a 1989.
Em ambos os projetos, os pontos em comum precisam ser tratados com considerável flexibilidade para fazer justiça tanto aos paralelos quanto à heterogeneidade, para equilibrar a unidade e a nuance, a complexidade e a idiossincrasia local. Ambas as histórias também suscitaram a questão da extensão possível da abordagem nessa linha. Quanto mais diversa a área coberta, menores e mais tênues os pontos em comum. A dimensão temporal desempenha um papel aí também. Certos pontos em comum ficam mais evidenciados do que outros. Como se sabe, a periodização continua a ser um assunto delicado em toda a historiografia da tradução (Wakabayashi 2019b). Apesar de que, em teoria, as mudanças em como a tradução é realizada ou pensada podem marcar divisões de períodos, na prática, as histórias da tradução se ajustam às amplas divisões prevalecentes da história cultural, elas próprias produtos de mudanças intelectuais e materiais nas sociedades relevantes.
Historiografia da tradução – Os objetivos do exercício
As datas de publicação de alguns dos estudos mencionados na seção anterior ilustram a popularidade de que a história da tradução goza atualmente. Na verdade, muito mais está em curso. Em sua breve introdução ao Routledge Handbook of Translation History, Christopher Rundle (2021b: xviii-xx) resume muito a esse respeito: desde 2004, pelo menos oitos periódicos vêm dedicando edições especiais à história da tradução; três séries de livros vêm surgindo (duas exclusivamente em inglês e uma em alemão, inglês, francês e italiano); um curso de verão anual sobre história da tradução foi criado em 2017; uma base de dados históricos on-line de biografias de tradutores foi iniciada na Suécia e inspirou iniciativas semelhantes na Alemanha e nos Países Baixos; há um periódico especializado, Chronotopos, criado em 2019; e uma nova associação, a History and Translation Network, além do manifesto on-line, teve sua conferência inaugural em maio de 2022. A própria publicação do Routledge Handbook of Translation History é, sem dúvida, um sinal dos tempos.
Toda essa atividade sugere um interesse crescente não apenas na produção de histórias da tradução, mas também em questões metodológicas, conceituais e outras relativas à historiografia da tradução (Lange & Monticelli 2022). Dentre as questões trazidas à baila estão os objetivos de pesquisa da história da tradução e a relação entre história e estudos da tradução como disciplinas.
Reflexões desse tipo começaram quando, em 1992, Anthony Pym fez uma lista do que ele via como deficiências metodológicas da historiografia da tradução tal como se apresentava na época. Ele as resumiu da seguinte forma: um acúmulo de dados não guiados por perguntas de pesquisa claras; o uso de hipóteses metodológicas não refutáveis, de evidências anedóticas e de periodização indiscriminadas (tais como, por exemplo, “tradução do século XIX”); uma visão de traduções como meramente refletindo gostos prevalecentes em vez de como agentes ativos potenciais de mudança; o privilégio de culturas-alvo em detrimento de conexões transnacionais e uma desconsideração pela interculturalidade dos tradutores (Pym 1992: 233). Apesar de o último item poder ser indeferido em caráter de exceção (Pym defendia “interculturas” na época), as deficiências restantes eram bem reais.
Desde o momento dessa crítica, muito aconteceu. O próprio Pym lançou um livro sobre a metodologia da historiografia da tradução (Pym 1998). Lieven D’hulst publicou vários ensaios teóricos desde 1990, sendo alguns deles por fim reunidos em livro (D’hulst 2014). Uma publicação como Charting the Future of Translation History (Bastin & Bandia 2006) dedicou quase metade de suas contribuições a questões de método. Vários livros recentes (Vidal Claramonte 2018; Rizzi, Lang & Pym 2019; Richter 2020; Hermans 2022) tratam de questões conceituais e metodológicas em profundidade, alguns seguindo diretamente o exemplo de historiadores profissionais. Em intervenções que atraíram a atenção nos círculos dos estudos da tradução, Christopher Rundle (2012; 2020; Rundle & Rafael 2016) ressaltou a relação problemática entre os historiadores e os pesquisadores da tradução.
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A Bíblia do Rei Jaime de 1611, uma tradução, é talvez o mais importante livro em língua inglesa. [Fonte] |
As razões pelas quais essa relação é problemática são práticas, bem como conceituais. Conforme mencionado anteriormente, não apenas a história é uma disciplina mais ampla e mais firmemente estabelecida, como também constitui uma comunidade acadêmica com sua própria infraestrutura em forma de circuitos de comunicação, pontos de referência e estilos de argumentação. Porém, as diferenças conceituais são mais fundamentais. Os historiadores abordam todos os aspectos do passado, enquanto que os pesquisadores da tradução defendem uma única dimensão. Os pesquisadores da tradução tendem a olhar para as características constantes gerais da tradução, enquanto que os historiadores focam na singularidade dos eventos históricos (Rundle 2020: 236).
Essa última oposição nos conduz ao cerne da questão. A história e os estudos da tradução têm diferentes objetivos de pesquisa. Os objetivos da historiografia da tradução foram definidos a partir de insights a respeito (1) da natureza da tradução e do traduzir, (2) do impacto de contextos históricos sobre a prática e a conceptualização da tradução, (3) do impacto histórico de traduções individuais e (4) do lugar e do papel da tradução em certos contextos ou constelações históricos (St-Pierre 1993a: 9; Rundle 2020: 235). Esse conjunto de objetivos merece uma análise crítica.
O primeiro objetivo envolve melhorar o nosso entendimento a respeito da tradução ao estudar suas manifestações passadas. Para a maioria dos historiadores profissionais, isso provavelmente não contaria como estudo histórico de forma alguma, porque o objeto do estudo não é um objeto histórico. Os historiadores não estão em busca de entendimento, digamos, da natureza da revolução ao estudarem instâncias passadas como as Revoluções Francesa, Americana, Iraniana e/ou Chinesa. Eles querem estudar as várias revoluções como eventos singulares. Eles podem traçar paralelos e fazer comparações, mas o objetivo seria considerar a individualidade de cada acontecimento.
O segundo objetivo, o de entender a tradução como integrada a seu tempo e lugar, envolve o estudo da tradução como condicionado por fatores sociais, intelectuais, institucionais e outros fatores em seu entorno ou, ainda, o estudo de traduções em interação com os valores dominantes em certas esferas e em certos momentos (St-Pierre 1993b: 63-70). A relevância histórica desse tipo de estudo não está em questão. Ainda assim, um historiador poderia pensar o que, entre as várias outras atividades condicionadas pelo contexto, torna a tradução especial. Posto de outra forma: como há muitas outras formas de calibrar a importância de valores e condições prevalecentes sobre a vida social e intelectual, cabe ao historiador da tradução demonstrar em que aspecto a tradução constitui um índice singularmente significativoO terceiro objetivo diz respeito à sobrevivência das traduções e à diferença histórica que as traduções individuais fizeram; em suma, às traduções que fazem história. Isso gera investigações sobre a forma como as traduções agem em seu contexto imediato ou, se tiverem um movimento mais lento, em contextos posteriores. O desafio aqui é entender não apenas como as traduções afetam o presente histórico ao qual se referem, mas também avaliar como essas traduções se relacionam com outros fatores que moldam o presente.
O quarto e último objetivo inverte essa perspectiva. Aqui a meta é entender uma parte da história e usar a tradução como uma lente para calibrar a constelação histórica (Rundle 2011: 33; 2020: 235). O objetivo pode ser alcançado pela contextualização da tradução ao ponto em que o foco muda da tradução para o contexto ou pelo vislumbre de uma constelação histórica e da definição do lugar e do papel da tradução nela. Como a virada transnacional mostrou aos historiadores, quase toda parte da história abriga uma dimensão translíngue. Esse também é o mais óbvio local de encontro para pesquisadores cientes da história e para historiadores com um olhar especial para as línguas e a tradução.
O estudo da tradução em seu contexto histórico constitui a área de pesquisa mais óbvia da historiografia da tradução. A escala pode variar do micro para o global, isto é, do nível de projetos específicos realizados por tradutores ou intérpretes individuais para várias formas e gêneros de traduzir e interpretar em nível local, institucional, regional, nacional ou transnacional. É claro que quanto maior o projeto de pesquisa, mais colaboração e coordenação com outros pesquisadores serão necessárias.
Enquanto alguns projetos podem exigir pesquisa em arquivos, em outros, uma vasta quantidade de material impresso antes de cerca de 1900 foi digitalizado, incluindo várias traduções esquecidas. Há também bases de dados eletrônicas, algumas alimentadas especificamente para a tradução, mas a maioria, incluindo a mais poderosa (como a WorldCat), tem natureza mais geral. A chave para toda a historiografia da tradução é a contextualização: o objetivo é entender traduções, o traduzir e os tradutores em seu contexto histórico. Como a tradução invariavelmente faz parte de algo muito maior do que ela, não pode ser estudada sozinha.



