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A tradução no Tawantinsuyo | A tradução em Nova Castela (ou Peru) | A tradução durante a Emancipação e a República | Legislação contemporânea sobre o uso de línguas | Ensino e pesquisa no Peru | Potencial de pesquisa
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| Limites do Império inca: pelo norte, chegava até as redondezas de Pasto (Colômbia), no rio Ancasmayo e, pelo sul, até Talca (Chile), no rio Maule [Fonte] |
O mosaico linguístico (Mannheim 1991, 1998) foi o resultado da política de incorporação de grupos étnicos à confederação do Tawantinsuyu, que estimulava a conservação das línguas de cada grupo. Segundo autores como Francisco Falcón, Juan Polo de Ondegardo e Hernando de Santillán, durante o século XVI, a nível local, a fala era a do grupo étnico; à medida que se ascendia na hierarquia socioeconômica e se tinha de tratar com chefes centrais, era imprescindível conhecer a língua da administração geral. Até onde se sabe, a língua que falavam os inka ou o estrato superior da sociedade era o puquina. Mas, o Aimará e o Quéchua alcançaram, sucessivamente, grande difusão. A primazia do puquina foi superada tanto pelo quéchua quanto pelo aimará, embora não em todos os âmbitos culturais, após episódios de ocupação, difusão e imposição, os quais ainda estão sob investigação. O puquina era o mais antigo, originário da região do Titicaca e do grupo étnico dos poques ou puqi que se deslocaram em direção ao norte. O puquina serviu de substrato para o aimará, falado pelos wari e tiwanaku, e em menor escala para o quéchua, falado por grupos humanos que habitavam a zona andina de altura média denominada kechwa, como os chillke. Essas três línguas ocuparam espaços em regiões que hoje pertencem à Bolívia, ao Chile, à Argentina e ao Peru. Tanto o aimará quanto o quéchua conservaram o substrato do puquina no tocante à terminologia relacionada com cargos administrativos, as hierarquias sociais, o culto, a toponímia, os nomes próprios de chefes, entre outros. Supõe-se que essas línguas não provenham de uma origem comum, mas que conviveram em situação de contiguidade durante longos períodos históricos e, portanto, mostram elementos de interinfluência. Inclusive, por volta do final do século XVI, nas Relaciones Geográficas, documentos que recompilavam informação sobre os diferentes enclaves indígenas, confirmou-se a existência de várias línguas em um mesmo território. A conformação multiétnica e multilíngue do Tawantinsuyu perdurou até bem avançado o período da colonização espanhola.
A tradução em Nova Castela (ou Peru)
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| Desenho de Guamán Poma de Ayala: Atahualpa em Cajamarca. Diante dele estão Francisco Pizarro, e o padre Vicente de Valverde, e Felipillo num lado [Fonte] |
Os “línguas” que trabalharam para sacerdotes, com os dominicanos primeiro e com os jesuítas depois, tiveram muita demanda pela prontidão em elaborar os primeiros Vocabulários e Léxicos que circularam entre 1540 e 1550. Em 1560, aparece o primeiro Vocabulário bilíngue quéchua-espanhol, utilíssimo para os sacerdotes recém-chegados ou com conhecimentos incipientes da língua quéchua ou aimará. Outrossim, a preparação de sermões nas línguas indígenas era de importância capital, pois esses eram a principal ferramenta de indoutrinação. Os sermões em línguas indígenas eram traduzidos do espanhol pelos mesmos freis ou seus colaboradores indígenas. Não se sabe exatamente quantos desses prólogos chegavam a ser compreendidos, pois as línguas indígenas expressavam mal os conteúdos da religião católica.
A legislação espanhola relativa ao uso de línguas para a evangelização teve muitas normas e contra-normas, o que não contribuiu para uma evangelização rápida. Os sacerdotes deveriam saber as línguas indígenas, mas foi somente em 1579 que foi inaugurada a disciplina de quéchua da Universidade de Lima, atualmente Universidade Nacional Mayor de San Marcos. Esta disciplina cumpre com o decreto real que exigia que os sacerdotes soubessem a língua indígena da paróquia à qual haviam sido designados.
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| Khipu no Museu de Machu Picchu [Fonte] |
Tanto os dominicanos quanto os jesuítas instituíram Colégios de Índios Nobres nos principais povos do vice-reinado. Essas instituições reuniam os filhos e descendentes dos caciques indígenas. Lá lhes ensinavam espanhol, latim, os fundamentos da religião católica e aprendiam deles os termos e significados de suas próprias línguas para transpô-los a seus vocabulários e léxicos. Ademais, atuavam como línguas, intérpretes e instrutores de outras crianças.
Simultaneamente, durante as primeiras décadas da invasão espanhola, alguns dos “conquistadores” letrados dedicaram-se a descrever o que haviam visto do Estado Inka. Seus textos publicados, poucos se comparados com os que escreveram, despertaram um grande interesse na Europa e foram objetos de tradução a várias línguas: Agustín de Zárate escreveu Historia del descubrimiento y conquista de las provinçias del Peru (1555), que foi traduzido a quatro línguas europeias durante o século XVI. Outros autores foram traduzidos posteriormente porque seus textos só circularam em meios muito reduzidos, manuscritos, devido à forte censura das autoridades espanholas. Essa censura chegou à publicação e circulação de romances e comédias, tanto na Espanha quanto nas suas colônias, por serem considerados alheios a uma formação católica. Não circulavam traduções nem produções literárias entre ambos continentes, exceto obras pias e tratados de leis em latim, língua que esteve presente no Peru desde a instalação das ordens religiosas no país. Muitos dos altos funcionários que chegaram da Espanha ao Peru desde a segunda metade do século XVI eram bilíngues espanhol-latim devido à sua formação acadêmica. Um desses letrados, emigrante espanhol desde muito jovem, foi o mestiço Garcilaso Inca de la Vega, quem traduziu do italiano os Dialoghi d’amore, de León Hebreo, em 1535.
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| Tradução de Garcilaso Inca de la Vega dos Dialoghi d’amore de León Hebreo [Fonte] |
Durante o vice-reinado, o bilinguismo línguas indígenas-espanhol foi se difundindo em todo o antigo território do Tawantinsuyu. Os espanhóis que tratavam diretamente com a população indígena foram aprendendo suas línguas e, simultaneamente, os indígenas, especialmente os “caciques”, também aprenderam o espanhol. Fator importante foram os Colégios de Índios Nobres organizados pelos religiosos, cujo interesse era em evangelizá-los, mas, para isso, deveriam primeiro alfabetizá-los em espanhol. Formou-se uma elite de dirigentes e funcionários indígenas e mercadores espanhóis bilíngues quéchua-espanhol e aimará-espanhol.
Uma vez adquirida a independência da Espanha em 1821, o Peru continuou com o statu quo linguístico de amplo bilinguismo, com um marcado sinal de prestígio voltado ao espanhol. Desenvolveram-se dialetos do espanhol em diferentes regiões do país, sempre com uma marcada preferência pendente às falas espanholas da costa. Desapareceram os intérpretes do aparato judicial, já que se considerava que toda a população conhecia o espanhol e os representantes da religião católica, uma das mais importantes formas de introdução do espanhol, assumiram que essa língua era compreendida por todos os praticantes.
A colônia espanhola tardia no Peru vivia em isolamento com respeito a influências que viessem da Europa, da América do Norte e da Ásia. A Espanha havia cortado todos os meios de comunicação do Peru com países que não fossem a própria Espanha. A Guerra Civil estadounidense de 1776 ou a Revolução francesa de 1789 e as ideias que as provocaram e as sustentaram tiveram uma tímida e geralmente secreta presença na América hispânica. Alguns dos criollos aristocratas viajaram à Europa e estudaram lá, conhecendo a realidade francesa pós-revolução e transmitindo-a a seus conterrâneos. Nesse século, a língua francesa erigiu-se como a língua da cultura e refinamento e estendeu sua influência não só pela Europa, mas também pela América do Sul. Esse é o caso por que muitos tradutores peruanos utilizaram o francês numa tradução indireta do alemão ao espanhol: “No século XVIII predominaram as letras francesas que têm Pedro Peralta Barnuevo como seu principal tradutor por meio de La Rodoguna [...]. A literatura portuguesa começa a ter presença com Juan de la Pezuela e sua versão de Os Lusíadas” (Barrós, 2016, s.p.). Seguiu-a a tradução da literatura brasileira: os modernistas Víctor G. Mantilla, José Santos Chocano, Enrique Bustamante y Ballivián foram os primeiros interessados em traduzir poetas brasileiros (Barrós, 2016).
A tradução durante a Emancipação e a República
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| O Mercurio Peruano foi um jornal de grande influência publicado em Lima [Fonte] |
A emancipação da Espanha trouxe uma certa abertura para outros países europeus nos quais existia muito interesse, não apenas comercial e econômico, mas também científico e cultural. Diversos humanistas europeus queriam ver de perto o que apenas vislumbravam por meio dos textos traduzidos que conseguiram obter em suas línguas. Lançaram viagens de exploração científica até a América do Sul e isso gerou uma grande troca de informações. Os visitantes reuniram as suas impressões em diversas publicações em suas próprias línguas, que logo foram traduzidas para o espanhol, e também reuniram textos americanos, peruanos, que foram traduzidos para o alemão, o francês, o italiano e outras línguas.
Os linguistas Johann von Tschudi e Ernst Middendorf e arqueólogos como Alexander von Humboldt, Max Uhle e, de modo geral, humanistas como Hermann Trimborn, entre muitos outros, demonstraram um profundo interesse pela nossa cultura pré-hispânica. Esses cientistas ministraram diversas disciplinas que impactaram grupos de profissionais locais. Goethe, que nunca visitou o Peru, conseguiu conhecê-lo melhor graças à leitura de Mercurio peruano, uma publicação recebida diretamente das mãos de Alexander von Humboldt e que, em 1808, apareceu em Weimar como dois volumes, traduzida para o alemão por E. A. Schmidt (Sandoval, 2020).
Juan de Arona (1839-1895) se dedicou à escrita, primeiro em verso e depois em prosa. Conheceu e traduziu os clássicos: destaca-se a sua tradução do primeiro livro das Geórgicas de Virgílio. Seu grande conhecimento em latim, que aprendeu no Colegio de San Carlos, em Lima, é reconhecido. Sua erudição foi forjada desde cedo na biblioteca da província de Cañete, de seu avô, Hipólito Unanue, que a recebeu como doação de seu benfeitor, Agustín de Landaburu y Ribera, juntamente à fazenda Arona. Arona viajou pela Europa e pelo Oriente entre junho de 1859 e 1863. Residiu na França de 1859 até 1861, período em que estudou Ciências Humanas na Sorbonne, Filosofia e Direito no Collège de France e História Natural no Jardin de Plantes (Toledo, 2006). Desde o final de 1869 colaborou em revistas literárias e seguiu escrevendo poesia. Foi professor de literatura no Colegio Guadalupe e na Faculdade de Letras de San Marcos, ensinando também o latim e o grego. Ingressou no corpo diplomático do Peru. Em Buenos Aires começou a editar, em 1882, seu Diccionario de peruanismos, o qual completa em Lima no ano seguinte. Em 1883, publicou Poesía latina, Traducciones. Transformou as anotações de suas viagens em memórias que nunca chegou a publicar. Estuardo Núñez as agrupou e editou; a Biblioteca Nacional do Peru as publicou em 1971 com o título Memorias de un viajero peruano: apuntes y recuerdos de Europa y Oriente (1859-1863) (Toledo, 2006). A década de 1870 viu surgir muitos tradutores, geralmente com pseudônimos: Arona, González Prada e Flores Galindo
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| Diccionario de peruanismos publicado por Juan de Arona em 1882 [Fonte] |
Durante o século XIX, historiadores estrangeiros, especialmente britânicos e norte-americanos, escreveram histórias diferentes e individuais do Peru. Estes textos, escritos em inglês, foram traduzidos para o espanhol, geralmente por espanhóis, e chegaram tardiamente ao Peru, muitos a princípios e meados do século XX. Um dos escritores mais destacados foi o norte-americano William H. Prescott, advogado formado por Harvard em 1814, que se interessou primeiro pela literatura hispânica e logo pela história da Espanha. Pascual de Gayangos, a que conhece por meio do professor de literatura hispânica, George Ticknor, contribuiu com a identificação e compilação da documentação necessária para a redação de seus três livros de história, o último intitulado The History of the Conquest of Peru (1847). Em 1848 já havia sido publicada a primeira tradução para o espanhol, feita pelo espanhol Nemesio Fernández Cuesta. O mexicano Joaquín García Icazbalceta também realizou uma tradução para o espanhol de The History of the Conquest of Peru, entre os anos de 1846 e 1848 (Mould de Pease, 1985, p. 17-21). Prescott se baseou em textos espanhóis traduzidos para o inglês, escreveu em inglês e seu texto foi, posteriormente, traduzido para o espanhol. Mould de Pease salientou que a verificação do texto original em inglês com as versões em espanhol: “... esse [não] foi revisado, em comparação com o original em inglês” (1985, p. 21). Prescott criou uma imagem romantizada da “conquista” do Peru que foi transmitida, por meio dos tradutores, às diversas versões em espanhol (Mould de Pease, 1985, p. 27). A primeira edição peruana é de 1972. Estes textos, de uma evidente perspectiva hispanista, não foram questionados nem criticados por seus receptores peruanos. Muito mais que isso, foram adotados como a história do Peru. Em 1981, Alberto Flores Galindo se perguntou se a história de Prescott era “história peruana ou história sobre o Peru?”"
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| Javier Sologuren, poeta, ensaísta, tradutor e editor peruano [Fonte] |
Dentro do espectro literário, foi publicada em 1847 a primeira tradução em prosa, atribuída a Arona, do alemão para o espanhol do poema “A Morte de Fausto”, de Goethe, o primeiro dos autores alemães a ser traduzido diretamente ao espanhol. Mais adiante foram traduzidos Heine, Hartmann, Lenau, entre outros (Sandoval, 2020). É interessante notar que ninguém creditou suas traduções, ainda que publicadas em Lima, no El Instructor Peruano: não desejava-se dar destaque à presença de intermediários entre a obra do artista e a versão traduzida. Posteriormente, quando identificou-se a autoria, foram outros poetas tradutores que destacaram-se: Manuel González Prada, Nemesio Vargas, Modesto Molina, Ricardo Palma, José Mendiguren, Samuel Velarde, Adriana Buendía, Arturo Morales, Carlos Augusto Pásara, Enrique Solari Swayne, Emilio Adolfo Westphalen, Víctor Li-Carrillo e Javier Sologuren. Manuel González Prada se sobressai ao ter traduzido com maestria Goethe, Schiller, Heine, Lessing, Uhland, Mörike, Rückert, entre outros.
Destacam-se as traduções de Nemesio Vargas, cujo interesse pelos textos alemães foi despertado por Leopold Contzen e August Herz, que chegaram à Universidad Nacional de San Marcos e iniciaram o processo de disseminação da literatura germânica (Sandoval, 2020). Ricardo Palma publicou Enrique Heine: Traducciones, em 1886. Esse era um dos poetas alemães mais admirados do momento.
Don Estuardo Núñez (1908-2013) escreveu várias antologias de cada uma destas fontes, com suas respectivas traduções. O primeiro volume foi Autores germanos en el Perú (1953), o segundo, Autores ingleses y estadounidenses en el Perú (1956) e o terceiro, Las letras de Italia en el Perú (1968). Núñez falou de “autores dedicados às tarefas de tradução”, mas não de “tradutores” (1956, p. 189). Como se pode observar, continuou o costume de poetas e escritores ou jornalistas traduzirem para línguas estrangeiras. No entanto, junto aos conhecidos e consagrados, encontram-se outros: “que se dedicaram em outras épocas ao modesto, cansado, humilde e exemplar ofício dos tradutores, onde sua obra beneditina e humanista encontrou, uma hora ou outra, escassa ou nenhuma recepção” (Núñez, 1956, p. 190).
“Depois dos estudos de Estuardo Núñez, o panorama traçado por Ricardo Silva-Santisteban é a primeira tentativa de historiar a presença dos tradutores no Peru” (Barrós, 2016). Silva Santisteban, poeta, tradutor e professor universitário, “recuperou, preparou e escreveu o prefácio de muitas das edições de prosa e poesia peruanas mais relevantes deste século. Além de suas próprias traduções, publicou a Antología general de la traducción en el Perú, que possui cinco volumes…” (Barrós, 2016). Seu último livro, Breve historia de la traducción en el Perú (2013), descreve não só a tradução no país, mas também o seu próprio desempenho no campo. “Dentre as diversas línguas vertidas ao espanhol, as mais comuns são o francês, inglês, alemão e português, sobretudo devido à tradução de autores brasileiros. Mas também são mencionadas traduções a partir do chinês, japonês, sânscrito, latim, grego, sueco, italiano, finlandês, dinamarquês e polonês” (Sabogal, 2013). Guillermo Dañino foi o principal tradutor de poesia chinesa. Juan José del Solar foi o principal tradutor de vários clássicos da literatura de língua alemã. O principal tradutor da geração de cinquenta, Javier Sologuren, introduziu ao país a lírica sueca. Nos últimos anos, os tradutores mais notórios são Isabel Sabogal, pelas traduções do polonês Czeslaw Milosz, Renato Sandoval, pelas traduções do alemão Rilke, e Reynaldo Jiménez, pelas traduções do brasileiro Haroldo de Campos (Barrós, 2016).
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| Edição bilíngue do Manuscrito de Huarochiri traduzido por José María Arguedas [Fonte] |
A tradução para o espanhol de obras escritas em quéchua iniciou entre 1920 e 1930. Adolfo Vienrich traduziu cantos folclóricos e, posteriormente, foi seguido por José María Arguedas, antropólogo e escritor, que traduziu do quéchua para o espanhol Canto kechua (1939), Dos cuentos quechuas (1947) e Tupac Amaru Kamaq Taytanchisman (1962). Arguedas foi o primeiro tradutor da grande obra indígena quéchua conhecida como Dioses y hombres de Huarochiri ou El Manuscrito de Huarochiri, feita em 1966. A versão em espanhol de Arguedas gerou muita polêmica. Llerena (2012, p. 74) resume a necessidade de “revalorizar essa tradução como uma prática que busca superar o processo meramente interlinguístico para se converter em uma intervenção estético-política em duas frentes: colocando em evidência o processo de redução ao qual a língua quéchua foi submetida durante o período colonial e expondo a expansão semântica e sobretudo social da língua no Peru do século vinte”.
Desde 1968 o poeta, escritor e acadêmico William Hurtado de Mendoza escreve poesias em quéchua e em espanhol. Os poetas e narradores que escreviam em quéchua, primeiro escreviam na sua própria língua e depois traduziam o poema para o espanhol, ou o contrário, conforme suas habilidades (Osorio, 2020, p. 89). No entanto, Hurtado de Mendoza explica que, em seu caso, não acontece assim: “Insisto no bilinguismo e não no quéchua com tradução para o espanhol… nenhuma é tradução da outra” (Osorio, 2020, p. 90). Isso significa que escreve uma poesia em quéchua e, com a mesma temática, produz uma parecida em espanhol. Entre suas criações bilíngues se destacam: Sunquypa harawin / Harawi del corazón (1991), Ñanpaq harawin / Harawi para el camino (2005) e Maskhaypa harawin / Harawi de la búsqueda (2015). Além disso, tem o poeta Killku Waraka, que usa o pseudônimo de Andrés Alencastre e também é cusquenho (Osorio, 2020, p. 90). Esse bilinguismo autoral exige um bilinguismo de leitura, algo que, no entanto, ainda não é comum no Peru. Ainda que os escritores peruanos se nutram de traduções de autores estrangeiros, essas traduções não geraram um interesse profissional pela tradução literária, como ocorreu no México e na Argentina, de onde vem a maior parte das traduções literárias para o espanhol.
Desde o início do século XX, muitos dos colégios particulares do Peru, regidos em sua maioria por ordens religiosas europeias, iniciaram o ensino de idiomas. São lecionadas aulas de inglês, francês, alemão, italiano, chinês ou japonês, resultando em uma quantidade maior de falantes com conhecimentos de outras línguas. Pouco tempo depois, apareceram instituições como a Alianza Francesa, o Istituto Italiano de Cultura, o Goethe Institut, a Asociación Cultural Peruano Británica (BRITÁNICO), o Instituto Cultural Peruano Norteamericano (ICPNA), o Instituto Peruano-Japonés, o Instituto Confucio, além de academias especializadas. Muitas delas possuem polos em diversas localidades do país. Isso facilitou a leitura de textos na língua original, mas também contribuiu para ampliar e consolidar as atividades de tradução.
Legislação contemporânea sobre o uso de línguas
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| Registro Nacional de Intérpretes e Tradutores de Línguas Indígenas [Fonte] |
Apenas em 1948 e em 1972 houve legislação a favor dos falantes de línguas indígenas, e foram estabelecidos programas como o ensino bilíngue-cultural para esses indivíduos, assim como a educação inicial em línguas vernáculas. Novamente se estabeleceram disciplinas de línguas indígenas nas principais universidades do país, especialmente como cursos obrigatórios de faculdades, a exemplo das de medicina, de pedagogia e de direito. Essas alterações decorrem do marco da reforma educacional promovida pelo governo de Juan Velasco Alvarado, quando foi promulgada a Lei Geral de Educação em 1972, a qual estabeleceu a Política Nacional de Educação Bilíngue. Em 1975, o quéchua foi declarado como língua oficial, em igualdade ao espanhol. Nesse mesmo ano se institucionalizou um alfabeto para o quéchua, assim como um para o aimará. A configuração do alfabeto quéchua gerou discussões acaloradas entre os linguistas e os cidadãos conhecedores do quéchua popular. Essas discussões postergaram uma resolução do Ministério da Educação até 1985, quando recém foram oficializados os alfabetos quéchua e aimará pelo órgão. Ainda assim, o Instituto Nacional de Cultura falhou em difundir tanto a Resolução quanto os alfabetos e sua sustentação acadêmica. Infelizmente, esse apoio ao progresso e à inclusão de línguas indígenas foi reduzido pela troca de governo, também em 1975. A Constituição de 1979 não contribuiu para ampliar os avanços anteriormente obtidos, sendo que foram mantidas as regulamentações que promovem a espanholização. Com relação às línguas faladas na região amazônica, a primeira aproximação à espanholização e à alfabetização em línguas indígenas foi assumida pelo Instituto Linguístico de Verano (ILV), o qual, à moda colonial, alfabetiza enquanto evangeliza. Em geral, o Estado não participa diretamente na alfabetização e na evolução do bilinguismo, mas sim entidades individuais como a Universidad Nacional Mayor de San Marcos, o ILV, a USAID, o GTZ, o Banco Mundial: “Isso leva a uma dependência financeira e à reprovação de projetos como modalidades do sistema educativo peruano” (Godenzzi, 1987, p. 45).
O Ministério da Cultura do Peru, garantidor dos direitos linguísticos dos peruanos, emprega uma estratégia de formação e de capacitação de tradutores e intérpretes de línguas indígenas, a fim de que serviços públicos possam ser prestados nas línguas próprias dos cidadãos. O setor Cultura desenvolveu catorze cursos de tradutores e intérpretes de línguas indígenas desde 2012, em que pôde capacitar 525 tradutores e intérpretes em 37 línguas indígenas, entre amazônicas e andinas, os quais atuam em diferentes espaços e processos que requerem seus serviços. O Registro Nacional de Intérpretes e Tradutores de Línguas Indígenas (ReNITLI) já chega à marca de 509 inscritos. O curso de 2020 contou com a participação de 52 pessoas, provenientes de oito regiões do país, de cinco línguas indígenas ou originárias: quéchua, aimará, ashaninka, aguaruna e shipibo-conibo.
Paralelamente, áreas da tradução de línguas estrangeiras se desenvolveram. Primeiro, as pessoas com conhecimentos de duas ou mais línguas exerceram a profissão de forma prática, em fóruns, conferências e congressos em que a tradução era requerida. Além disso, notou-se um aumento da tradução literária estrangeira para o espanhol. Com a necessidade de formar profissionalmente os tradutores, foram surgindo cursos e faculdades de tradução em diferentes universidades. A primeira foi a Facultad de Traducción, Interpretación y Ciencias de la Comunicación de la Universidad Femenina del Sagrado Corazón (UNIFE), fundada em 1968. Depois, a Universidad Ricardo Palma (URP), cujo Programa Acadêmico de Intérpretes e Tradutores (hoje Facultad de Humanidades Lenguas Modernas) iniciou suas atividades em 1974, oferecendo cursos de quéchua e línguas estrangeiras. Posteriormente, a Universidad César Vallejo (Trujillo) ofertou o curso de Tradução e Interpretação. A Universidad Peruana de Ciencias Aplicadas (UPC) conta com a facultad de Traducción e Interpretación Profesional desde 2011. A particularidade desta universidade, atualmente, é que ela oferece tradução a partir e para o quéchua. Estas universidades outorgam títulos de bacharelado e de licenciatura. A URP foi a primeira que ofereceu Mestrado em Tradução no Peru; em seguida, veio a UPC, que oferta Mestrado em Tradução, com especialização em tradução audiovisual. Paralelamente, surgem outros centros de formação de tradutores e intérpretes como LITS, Cibertec e Margarita Cabrera, EUROTRAD, entre outros. Recentemente, foi aberto um centro de formação para tradutores literários, patrocinado por uma editora internacional..
O Colegio de Traductores del Perú foi fundado em 1996. É membro do Consejo Nacional de Decanos de los Colegios Profesionales del Perú (CDCP), do Centro Regional América Latina da Fédération Internationale des Traducteurs (FIT) e a FITLATAM. Também integra a American Translators Association (ATA). Atualmente, o CTP conta com 806 membros ordinários.
O trabalho acadêmico de pesquisa e docência da tradução realizado no Peru inclui publicações como Algunos conceptos básicos de la ciencia de la traducción, de Ernest Zierer (1979), e Temas de Traducción, de Rosa Luna (2002). As duas publicações reúnem modelos teóricos desenvolvidos principalmente na Europa ao mesmo tempo em que apresentam propostas teóricas próprias. Também é possível mencionar a publicação de Lydia Fossa, Narrativas problemáticas: Los inkas bajo la pluma española (2006), cuja terceira parte aborda as traduções linguísticas e culturais. Uma publicação recente é Binomio traducción especializada y terminología pontual: Caso de un informe técnico jurídico (ES-EN), de Carmen Franco (2020). Esse é um livro essencial para iniciar na tradução jurídica.
Devem-se incluir também as publicações da URP Tikray: Revista especializada en traducción (1987), que teve como diretora Mihaela Radulescu; Lenguas Modernas (1993), dirigida por Raúl Estuardo Cornejo; e Revista de la Facultad de Humanidades y Lenguas Modernas (1998-2016), sob a direção de Pedro Díaz Ortiz. A UNIFE, por sua vez, publicou Puentes (1986-2003). No campo específico da tradução literária, encontram-se os títulos La traducción literaria, de Rosario Valdivia (2004), e De los ideales de la traducción a la traducción ideal (2016), de Ricardo Silva-Santisteban. Destaca-se seu trabalho de investigação minucioso editado nos nove volumes de Antología general de la traducción en el Perú (2007-2016). Em 2012, foi editado por Miguel Ángel Vega o volume monográfico sobre Traductores hispanos de la orden franciscana en Hispanoamérica (Zuazo y Villanueva, 2019). Além disso, “… foi publicado o Diccionario para profesionales de la traducción, de Rosa Luna y Mary Ann Monteagudo (2017), contribuição sobre terminologia especializada da tradução” (Zuazo y Villanueva, 2019).
A partir da revisão histórica da tradução no Peru podemos afirmar que os campos de estudo em desenvolvimento são vastos. Em primeiro lugar, existe um campo fértil sobre a colonização linguística durante a conquista e como os discursos foram interpretados a partir do olhar do outro. Como a tradução era guiada pela necessidade de evangelizar, os textos religiosos publicados em quéchua para sermões e doutrinação constituem um corpus amplo, já que muitos conceitos andinos foram reinterpretados para se adequarem à religião católica. Por outro lado, o desenvolvimento e a influência do puquina, uma língua de grande importância social e política no mundo pré-colonial, oferecem uma ampla gama de possibilidades de estudo. Ainda não está claro porque essa língua não se desenvolveu na mesma medida que o quéchua e o aimará, e se a sua marginalização teve origem deliberada.
Outra frente de investigação pode ser encontrada no estudo das prolíficas publicações periódicas do século XIX, que incluem revistas, boletins, entre outros, cujas páginas continham textos traduzidos. No entanto, a figura do tradutor como autor permanecia oculta por meio de pseudônimos. Certamente, ainda existem nesse contexto autores e textos a serem revelados. Por outro lado, os textos traduzidos que foram levados à Espanha e que provavelmente permanecem em bibliotecas públicas e privadas podem permitir uma pesquisa arqueológica em busca de descobertas. Além disso, é possível fazer uma análise da recepção que esses textos tiveram fora do Peru.
Deve-se destacar que o estudo da tradução contemporânea se concentrou principalmente no espanhol e nas línguas estrangeiras. Por essa razão, uma análise dos textos traduzidos em línguas indígenas e amazônicas, além das publicações bilíngues, é um trabalho pendente. Em outra perspectiva, a história da tradução não literária segue sendo um terreno fértil ainda não desenvolvido. Não só é possível um estudo de textos históricos, acadêmicos e científicos do patrimônio cultural, como também é viável investigar textos atuais relacionados ao desenvolvimento econômico e à assinatura de acordos que trouxeram consigo intercâmbios com outros países como Brasil, Estados Unidos e China. Finalmente, faltam estudos que analisem o desenvolvimento profissional e os campos de trabalho e de especialização do tradutor e do intérprete.








