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Introdução | Antecedentes | Estudos de tradução | Potencial de pesquisa
Os estudos da tradução e da interpretação (ETI) se desenvolveram a partir de outras disciplinas preexistentes, com comunidades científicas mais consolidadas, das quais foram tomados de empréstimo modelos e quadros teóricos, resultando em distintas tradições epistemológicas de conceitualizações do mundo e da mediação linguística. Desde o mapa conceitual proposto por James Holmes (1972), e a partir do trabalho de Gideon Toury (1980), parte da disciplina se desenvolveu de acordo com os pressupostos e compromissos epistêmicos de uma agenda empírica descritiva: os fenômenos de mediação linguística podem ser reconstruídos e, portanto, ser submetidos à observação empírica falível, da qual podem ser extraídas conclusões lógicas e falseáveis (Popper, 1959). O foco de estudo descritivo recebeu críticas, por exemplo, referentes a sua aplicação na tradução literária ou na história da tradução, dos tradutores e de seus contextos (Snell-Hornby, 1988; Pym, 1998).
A evolução da filosofia dos ETI pode se inscrever numa genealogia de pensamento que se origina no empirismo do século XVIII, adota criticamente posicionamentos positivistas (cientificismo) e aceita aspectos da teoria pós-moderna que não incorrem nos paradoxos do relativismo. Os últimos avanços na epistemologia dos ETI reconhecem um interesse crescente na diversidade de tradições epistêmicas e metodológicas, com um apelo ao diálogo interdisciplinar. Atualmente, os projetos empíricos nos ETI estão em consonância tanto com os pressupostos epistemológicos básicos da disciplina, quanto com o objetivo de enriquecer a prática docente e profissional de todos os âmbitos dos ETI.
Antecedentes
A origem de alguns traços de identidade
Apesar do interesse, os trabalhos dos autores anteriores aos estudos da tradução não são, de modo geral, de grande utilidade prática para os pesquisadores atuais que não os tenham como objeto de análise em si mesmo, dado que esses trabalhos tendem a ser prescritivos, a se basear em noções de literalidade já superadas e a ter um campo de aplicação reduzido. No entanto, certas características desses trabalhos iniciais acabaram permeando as conceituações e os problemas dos ETI. A tradução tem atraído a atenção de escritores, estudiosos e filósofos desde a antiguidade através de discussões fragmentárias, muitas vezes como textos complementares, em forma de paratextos que serviam de análise, introdução ou apresentação de traduções de textos literários ou religiosos. Em outras palavras, o pensamento sobre a tradução não foi produzido de maneira sistemática, mas sim como escólios dispersos que tinham origem em pressupostos e modelos sobre estética, linguagem, autoria, convenções textuais e significado que cada época possuía. Os textos que eram considerados dignos de tradução eram frequentemente religiosos e nenhuma iniciativa intelectual na Europa se desvinculava de Deus e do zelo de seus representantes até o século XVIII. Isso fez com que as investigações sobre a tradução se tornassem relatos prescritivos dos passos do tradutor, relatando o cumprimento dos requisitos do que era aceitável, com cuidado meticuloso e preventivo, como a Carta a Pamáquio de Eusébio Sofrônio Jerônimo, conhecido também como Jerônimo de Estridão ou São Jerônimo (405). Conceitos como significado e literalidade na tradução se baseiam numa presumida estabilidade de um significado prévio e imutável, muitas vezes de inspiração divina. Se o sentido de um texto preexiste ao próprio texto, este é unívoco; não cabe mais do que uma única interpretação correta. Assim, o significado poderia ser desvinculado dos textos nos quais aparece e ser representado em outra língua, ainda que por meio das palavras formalmente mais próximas do original. Essa consideração de viés religioso impôs uma hierarquia de textos e de línguas, segundo a qual textos privados ou comerciais podiam ser traduzidos livremente conforme as necessidades; no entanto, quando era permitido, os textos sagrados – cujo autor último era Deus – tinham que ser traduzidos literalmente das línguas nobres de expressão divina.
Essa concepção de absolutos ajudou a estabelecer a dicotomia de forma e fundo, segundo a qual as palavras contêm um significado que exige fidelidade e a tradução implica uma perda, o que contradiz, por outro lado, a ideia de que o significado é separável do texto origem (TO) e, deste modo, totalmente traduzível. O imaginário popular e os próprios comentadores da tradução assumiram este modelo que sacraliza o texto original e o autor, o que permearia os conceitos de tradução literal, infidelidade, autoria e significado até o século XX. À exceção de casos relacionados à poética individual de autores como Nicolas Perrot d’Ablancourt (1640) e Dryden (1680), os referidos conceitos constituirão os alicerces sobre os quais se constrói o pensamento ocidental acerca da tradução, quase até chegar ao século XX.
Essa dupla característica do nascimento da reflexão sobre a tradução – a) ela ocorre como um conjunto de textos dispersos de diferentes tradições de pensamento e b) obedece a uma hierarquia entre línguas e textos, aplicada principalmente a textos religiosos ou modelos literários – antecipa dois aspectos do campo acadêmico atual. Por um lado, trata-se de uma “disciplina usuária”, interdisciplinar, que se alimenta de outras áreas de pesquisa, o que acaba produzindo discrepâncias e incoerências metodológicas; por outro, a relação formal entre o texto origem (TO) e o texto meta (TM) tem sido a moeda corrente nas discussões teóricas de um campo que, até a segunda metade do século XX, tem se ocupado sobretudo de textos literários.
O passo à frente. Do Romantismo à Pós-modernidade
As mudanças políticas e culturais que o Romantismo acarretou, principalmente na Alemanha, deram grande impulso à reflexão acerca da tradução. Autores como Wilhelm Von Humboldt (1816) confiaram à tradução das línguas clássicas (principalmente o latim e o grego) o crescimento das línguas e, consequentemente, como pedra de toque para validar as culturas das jovens nações do século XIX. O autor mais representativo desta nova abordagem da tradução é Friedrich Schleiermacher, pai de uma perspectiva dicotômica da tradução bastante influente. Conforme tal perspectiva, há apenas dois modos de traduzir: ou o leitor se aproxima do autor, ao se traduzir o mais literalmente possível, ou o autor se aproxima do leitor, diante de uma tradução que esteja de acordo com os usos lexicais, textuais e pragmáticos da língua meta (LM), ignorando, na medida do possível, as particularidades do texto origem (TO) (1813).
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| Friedrich Schleiermacher, 1854. |
Schleiermacher defendia o primeiro método. Os métodos que ele propõe consolidam a tradição de pensamento já descrita anteriormente (para a qual o sentido é preexistente ao texto, há hierarquia entre línguas e uma primazia do autor) e giram em torno da interpretação que o tradutor faz do TO. É uma proposta hermenêutica e prescritiva. Isso não é um acaso, pois seu autor era um teólogo especializado na exegese das Escrituras Sagradas. No entanto, ele introduz uma novidade: não se propõe traduzir ao pé da letra por respeito à integridade do TO, mas sim para enriquecer a LM, uma postura que retoma um conceito de tradução próprio da Roma antiga (Bassnett, 1980, p.51) e que acabaria integrando o ensino acadêmico medieval. Schleiermacher, conforme o pensamento de seu tempo, vê na língua um repositório do espírito nacional, do Volkgeist (Herder), e por isso a considera fundamental para a prosperidade cultural da nação. A tradução engrandece o acervo. A tal ponto que os tradutores e escritores românticos alemães, como Schlegel ou Novalis, falam sobre desejar a poesia alheia, de uma vontade de traduzir (Sáenz, 2014, p.50). Nessa concepção, a língua original (LO) passa a conter as essências culturais de um povo e isso traz implícitas duas novas considerações: a) reconhece-se que existe uma cultura, um conjunto de costumes e tradições em torno do qual se articula o espírito das nações e que se encontra contido na língua e na literatura e b) as culturas de outrem podem ser valiosas. Ao longo do século XX, essas duas considerações terão uma grande importância na pesquisa literária nos ETI.
Nas décadas de 80 e 90, o tradutor literário e pensador francês Antoine Berman retomaria a tradição romântica alemã para elaborar uma estética da deformação na tradução (1984). A partir de sua obra, Laurence Venuti (1995), também tradutor literário, introduzirá um novo conceito, a invisibilidade do tradutor, para descrever a tendência em produzir traduções que assimilam a língua e cultura metas aos TO. Venuti se inspira nos métodos propostos por Schleiermacher ao descrever duas estratégias de tradução: uma que nega a cultura e a língua de origem e invisibiliza o tradutor e seu processo de trabalho, chamada de domestication [domesticação]; e outra que permite ao leitor perceber a mediação e as particularidades do TO, chamada de foreignization [estrangeirização]. Venuti defende com veemência esta última, considerando-a a única forma possível de confrontar o etnocentrismo das traduções (literárias) no contexto anglo-saxão. As posições de Venuti servem como exemplo da influência da tradição hermenêutica. Em todo caso, ressaltemos que Venuti não reproduz, mas adapta essa tradição. Suas posições têm sido alvo de grande atenção nos ETI, e não isentas de crítica, como por exemplo, quanto à limitação delas ao reduzir os conceitos originais de Schleiermacher ao contexto anglo-saxão contemporâneo (Snell-Hornby, 2006).
O surgimento do positivismo em meados do século XIX e sua fé no progresso decorrente do conhecimento científico leva à constituição de campos do saber em ciências, sejam elas exatas, sejam sociais. A linguística não foi uma exceção e, consequentemente, no início do século XX, o conceito de língua muda: já não é um repositório de essências ou do espírito de um povo, mas sim um sistema que se pode observar seguindo uma descrição sociológica. Ferdinand de Saussure (1916) define o signo linguístico e estabelece a diferença entre e langue, o sistema, e parole, que é o sistema em seu uso individual, também chamado de idioleto. Mais adiante, em meados do século XX, Noam Chomsky (1957) propõe, com sua gramática gerativa, a diferença entre competence, a habilidade de usar uma língua, e performance, o uso da língua. Essas são as bases do que poderíamos chamar de paradigma linguístico nos ETI. O físico, historiador e filósofo da ciência Thomas Khun (1962) formulou o conceito de paradigma para se referir a um conjunto de práticas, conhecimentos e pressuposições que regem uma comunidade científica em um dado momento. Neste caso, parte-se do axioma de que a língua é um sistema que se pode estudar cientificamente de maneira independente do seu uso e que os fenômenos interlinguísticos, como a tradução, podem ser entendidos de forma contrastiva ao se comparar sistemas linguísticos sem ter em conta considerações pessoais, contextuais ou culturais. Exemplos típicos desse paradigma são a obra de Jakobson (1959) e Catford (1965). Jakobson introduziu a classificação dos tipos de tradução interlinguística, intralinguística e intersemiótica, isto é, entre sistemas de signo não necessariamente linguísticos.
Duas escolas se desenvolveram no âmbito dos paradigmas linguístico e semiótico, quais sejam, a Escola de Leipzig e a Escola de Paris, que prepararam o terreno para os estudos cognitivos da tradução e interpretação (ECTI). Essas escolas admitem pressupostos dos referidos paradigmas: pode-se entender a tradução como uma forma de comunicação entre sistemas, as mensagens podem se desverbalizar e o processo (a mente) dos tradutores, foco de estudo pela primeira vez em lugar de priorizar o resultado, pode ser analisado independentemente das circunstâncias particulares dos tradutores ou intérpretes, prescindindo destes últimos. Como se percebe nesses exemplos, o paradigma é eminentemente cartesiano: pressupõe o dualismo mente-corpo e se baseia em percepções da língua e do significado que se prestam mais à introspecção do que à investigação empírica descritiva. No entanto, essa mesma base que se encontra no trabalho de Descartes combina a incipiente disciplina com o empirismo do Iluminismo e é o preâmbulo à ascensão dos ETI como disciplina descritiva, abandonando o paradigma linguístico e superando a tradição hermenêutica de origem romântica. Efetivamente, tanto o dualismo quanto a introspecção persistirão nos modelos cognitivos do processo da tradução e da interpretação es começarão a ser debatidos e abandonados somente na segunda década do século XXI (Muñoz, 2010).
Em 1972, James S. Holmes deu uma conferência intitulada “The name and Nature of Translation Studies” na qual apresentou um mapa dos ETI. Ele realiza uma distinção entre estudos “puros” e “aplicados”, definindo assim os modos de abordar a tradução através de uma perspectiva independente da literatura e da linguística.
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| Mapa dos estudos da tradução, de James Holmes (Toury 1995: 4). |
Holmes inventa uma disciplina ao cartografar os âmbitos de conhecimento possíveis que lhe dizem respeito e os ângulos metodológicos a partir dos quais se pode aprofundar nela. Com o mapa dos ETI, ele estrutura o conhecimento que a comunidade científica pode gerar e, pela primeira vez, inicia a discussão epistemológica: “Translation Studies have reached a stage where it is time to examine the subject itself. Let the meta-discussion begin” (1972, p.22). [Os Estudos da Tradução atingiram um nível tal que é hora de examinar o próprio objeto de estudo. Que comece a metadiscussão.].
É importante que se faça a distinção entre os estudos teóricos e os descritivos. Por um lado, herda-se de Chomsky a distinção dos estudos teóricos como meramente especulativos; por outro, a finalidade da disciplina é descrever, explicar e predizer o produto, o processo e a função da tradução, além de desenvolver teorias, modelos, hipóteses gerais ou parciais que descrevam a mediação linguística e, com isso, propor generalizações de utilidade prática. Abandona-se, assim, a prescrição.
Nos estudos do produto da tradução, e no âmbito da literatura, a publicação “The Manipulation of Literature” (Hermans, 1985) lançou as bases de um novo paradigma que transcendia a dicotomia romântica e concebia as traduções como objetos ligados a sistemas sociais e culturais que cumprem uma função teleológica, ou seja, que têm uma função última vinculada à cultura, às normas e restrições do público-alvo. As obras de Itamar Even-Zohar (1979) e do próprio Hermans e Gideon Toury ampliam o foco para além do linguístico com a pretensão de extrair generalizações a partir da observação empírica de traduções.
O desenvolvimento da tecnologia e da metodologia de corpus na década de 1990 irá dotar de novas ferramentas projetos de pesquisa que se comprometerão com a busca de traços universais da tradução (Baker, 1993).
Na terminologia de Kuhn, há uma mudança de paradigma para um racionalismo crítico tal como proposto por Karl Popper: a ciência descreve fenômenos observáveis por meio de proposições falseáveis (hipóteses) que são provadas à luz de evidência empírica. A mudança mais significativa com relação a posições nitidamente positivistas é o pressuposto de que todo o conhecimento científico é precário, enquanto sujeito a falsificação ulterior, ou seja, aceita-se enquanto não se prove o contrário.
Ademais, aceita-se outro compromisso epistemológico: que a realidade é estável e se pode formular generalizações em função dos modelos que se constroem a partir dela. Essa posição realista é criticada por estudiosos da tradução, sobretudo da tradução literária, que trabalham de acordo com posições pós-modernas, frequentemente derivadas de posturas pós-estruturalistas e desconstrucionistas (Derrida, 1985; Arrojo, 1993) que negam a estabilidade do significado e de alguns textos que se constroem a cada iteração e interpretação, isto é, todo conhecimento é relativo. O relativismo é um ponto de dissensão na disciplina. No ano de 2000, Andrew Chesterman e Rosemary Arrojo editaram um número especial da revista Target no qual propuseram 30 enunciados sobre os quais autores eminentes de seus campos de atuação, descritivista ou desconstrucionista, dialogaram e buscaram (ou não) consenso nos números seguintes da revista. Apesar de a maioria das respostas ter buscado promover um “terreno compartilhado” ou até mesmo tentar unificar a disciplina, a diversidade de pontos de vista, de críticas à iniciativa e à sua proposta, e de definições do objeto e dos instrumentos de estudo foi tal que o debate finalizou, se não em empate, com os ânimos exaltados (Arrojo, 2002; Chesterman, 2002).
Alguns dos traços principais da pós-modernidade são a negação da história como fenômeno ineludível, linear e unidirecional, a crítica à ideia de um conhecimento generalizável e estável e à preexistência do significado (textual, social etc) alheio a toda contingência. Dentro dos ETI tem havido reações contra a tendência à generalização dos estudos descritivos de posições pós-modernas ou pós-positivistas que não necessariamente implicam uma postura relativista ou que renega a capacidade de descrição de outras metodologias. Christophes Rundle, por exemplo, sustenta que a metodologia e o aparato teórico dos ETI descritivos são insuficientes para a historiografia da tradução porque “a historical approach is one that seeks the specific in any given context” (2012, p. 134) [uma abordagem histórica é aquela que busca o específico num dado contexto]. O substrato epistemológico dessas críticas está relacionado com pensadores pós-modernos como Hannah Arendt, Isaiah Berlin e o ensaísta espanhol Rafael Sánches Ferlosio que, sem cair no relativismo, questionam a validade de certos métodos, sem renegar a utilidade de outros.
Nos estudos aplicados também tem havido reações que poderiam ser enquadradas numa epistemologia pós-moderna não relativista, como se pode ver na transformação do autor Donald Kiraly, de posições originalmente socioconstrutivistas passando a adotar posturas pós-modernas (2000).
Do processo à mente: ECTI
Quanto ao processo da tradução e com os mesmos compromissos epistemológicos dos estudos descritivos do produto, na década de 80 começaram a se desenvolver modelos e hipóteses inovadores (Vermeer, 1989; Holz-Mänttari, 1984) que logo mostraram limitações para a investigação dos processos cognitivos dos tradutores. Os estudiosos da tradução não dispunham de construtos ou ferramentas teóricas para configurar a “caixa preta”, a mente do tradutor (Toury, 1982, p. 25), razão pela qual recorreu-se à psicologia experimental e às ciências cognitivas que, pouco a pouco, foram dando forma aos modelos teóricos e aos pressupostos epistemológicos dos pesquisadores do processo da tradução. No fim do século XX, as novas preocupações dos pesquisadores do processo se manifestaram: a competência do tradutor e sua aquisição, o modelo do processo como ferramenta conceitual e a aplicação de teorias cognitivas nas tarefas de tradução (Danks, Shreve, Fountain et al., 1997). Os estudos do processo da tradução se transformaram em estudos cognitivos da tradução e da interpretação (ECTI), uma nova subdisciplina que cresceu exponencialmente nos vinte anos após a virada de século e que apresenta como uma de suas características fundamentais a confluência de tradições epistemológicas distintas, o empréstimo de teorias, modelos e construtos (O’Brien, 2013). A agenda empírica dos ECTI e a adoção de modelos das ciências cognitivas implicam, por sua vez, a adoção dos paradigmas dessas ciências. Assim, desde a primeira década do século XXI, os ECTI participam dos debates epistemológicos da psicologia experimental e ciências afins.
Nos ECTI, três paradigmas ou tradições são identificadas e correspondem aproximadamente aos programas de pesquisa na área das ciências cognitivas (Piccinini, 2012; Shapiro, 2012). Esses paradigmas são o cognitivismo (cognitivism), também conhecido como paradigma do processamento de informação, baseado numa teoria computacional que descreve a mente como um processador modular, sequencial, da informação; o conexionismo (connectionism), para o qual a cognição ocorre através de redes neuronais que processam a informação subsimbólica de forma paralela e distribuída; e a cognição incorporada e estendida (embodied, extended cognition), para a qual a cognição é uma adaptação biológica que aproveita construções mentais baseadas no entorno. Assume-se que os processos cognitivos são um fenômeno corporal que transcende o cérebro e se apoia em ferramentas externas; por exemplo, quando usamos lápis e papel para fazer uma soma. Tradicionalmente, tem-se considerado que o cognitivismo e, em parte, o conexionismo, compõem o paradigma clássico da investigação do processo da tradução (TPR, conforme a sigla em inglês).
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Esses paradigmas incluem diversos postulados e axiomas, às vezes muito distintos entre si, que adotamos em nome da concisão. Todavia, no conjunto, essas posições e axiomas agrupados se distinguem de um paradigma para outro em função de sua forma de configurar o processamento da informação (de forma linear e sequencial, em paralelo, ou de forma dinâmica e com a ajuda do entorno, respectivamente); na distinção entre processamento de alto ou baixo nível, ou seja: a) se há uma diferença qualitativa entre elaborar um raciocínio abstrato e o processamento de estímulos primários, como a dor, algo que a cognição incorporada não admite, visto que é situada e estendida, diferentemente do cognitivismo e o conexionismo que a aceitam; b) se há uma representação mental funcional, cuja manipulação faz funcionar a mente (para o cognitivismo e o conexionismo, sim) ou a representação é um aspecto do processo, isto é, não aquilo que se manipula, mas sim um dos instrumentos mentais para a manipulação da informação (segundo a cognição incorporada e estendida, dado que a representação está distribuída).
Até a segunda década do século XXI, os ECTI foram dominados pelo paradigma clássico, quer dizer, pelo paradigma cognitivista e, em menor medida, pelo conexionista (Alves, 2015; Muñoz, 2017). À luz dos postulados expostos, os modelos clássicos do processo de tradução assumem que a informação se processa de forma linear ou em paralelo, mas por etapas independentes, e, o que é o mais importante, que o significado do TO, ao ser representado mentalmente, pode se desverbalizar (proposta da Escola de Paris, tal como já vimos). Ademais, a separação do processamento em alto e baixo nível implica que o processamento concerne somente ao nível superior, o que deixaria de fora, por exemplo, as emoções, que passariam a ser um fator externo. Isso implica o retorno a um certo positivismo (o significado existe independentemente dos textos nos quais ocorre) e, em última instância, ao dualismo cartesiano (separação entre corpo e mente). O paradigma da tradutologia cognitiva (cognitive translatology; Muñoz, 2010) surgiu como resposta a essas implicações. Ao admitir que a cognição é incorporada, esse paradigma se afasta do dualismo e compreende as emoções não como fator externo ou contextual, mas como parte integrante do pensamento e, consequentemente, também do processo cognitivo do ato de traduzir. Ao considerar a cognição situada, isto é, integrada num entorno (que inclui o mundo físico imediato, outras pessoas, artefatos culturais etc.) e que estende nele, admite-se que os tradutores não exercem sua atividade no vazio, mas que as traduções são o produto de um processo de interação (para uma discussão dos postulados e diferenças entre os dois paradigmas, conferir Muñoz, 2017).
Ao passo que o paradigma clássico configura a mente como um computador, o paradigma da tradutologia cognitiva o faz como uma conjunção dinâmica de elementos que interagem. Isso complica a configuração dos processos ao multiplicar as variáveis. Uma das críticas recebidas pela tradutologia cognitiva em seus inícios foi a dificuldade de operacionalizar seus construtos (Alves, 2015). Embora, metodologicamente falando, a tradutologia tenha se iniciado com projetos de pesquisa etnográficos e teóricos que defendiam a validade ecológica, entre 2010 e 2019 houve um aumento de propostas quantitativas e experimentais (conferir os trabalhos de Hanna Risku e Ricardo Muñoz).
Ainda que compartilhem objeto de estudo e, frequentemente, métodos e construtos, os dois paradigmas diferem quanto aos compromissos epistemológicos acerca da natureza da mente e dos processos mentais. Se em suas formas mais extremas o computacionalismo pode implicar dualismo cartesiano, a tradutologia cognitiva se alinha com Espinosa, ao inferir que a extensão da mente é o corpo e que a primeira é indissociável dos afetos (Damasio, 2003). A interação, como âmbito do e no qual emergem a cognição e o significado, por outro lado, vincula a tradutologia cognitiva ao socioconstrutivismo já incluído na didática da tradução (Kiraly, 2000), atende à instabilidade do significado (Wittgenstein, 1953) e adquire um compromisso epistemológico radicalmente novo, alinhado com outras ciências cognitivas ao admitir o realismo incorporado:
Embodied realism, as we understand it, is the view that the locus of experience, meaning, and thought is the ongoing series of embodied organism-environment interactions that constitute our understanding of the world. According to such a view, there is no ultimate separation of mind and body, and we are always in touch with our world through our embodied acts and experiences.
[O realismo incorporado, tal como o compreendemos, é a visão de que o locus da experiência, significado e pensamento é a série contínua de interações corporificadas entre ambiente e organismo que constitui nosso entendimento do mundo. Conforme tal visão, não há uma separação definitiva entre mente e corpo e estamos sempre em contato com o mundo por meio de nossos atos e experiência corporificados]
(Johnson y Lakoff 2002: 249)
Conclusões históricas
Por sua origem e desenvolvimento, a reflexão sobre a tradução se caracterizou pela afluência de tradições de conhecimento distintas, e nem sempre compatíveis, que avançaram paralelamente. A partir da década de 90, os progressos metodológicos anteciparam, em algumas ocasiões, o desenvolvimento teórico. Isto, juntamente com a agenda didática de um campo que tem como um de seus objetivos a formação de mediadores linguísticos, preparou o terreno para projetos de pesquisa de método misto e, de facto, para adotar o pragmatismo epistemológico como paradigma, ou seja, o uso de quaisquer métodos ou marcos filosóficos que se adequem melhor ao problema concreto que está sendo investigado (Tashakkori & Teddlie, 1998). Essa postura está relacionada com o anarquismo epistemológico, cujo expoente principal é Paul Feyerabend. No entanto, por volta do ano 2020, a sofisticação crescente dos modelos importados e próprios dos ETI e uma interação cada vez maior entre as subdisciplinas geraram um interesse gradativo pelo diálogo intradisciplinar, além de ter chamado a atenção para as possíveis incompatibilidades e afinidades entre metodologias e filosofias distintas, dentro e fora das subdisciplinas. De um pragmatismo acrítico, progrediu-se para a análise e comparação na pluralidade em função de parâmetros, como o poder explicativo dos construtos Marín, 2019; Vandevoorde, Dames e Defrancq, 2020; Silva e Radicioni, no prelo). Sem dúvida, é um sinal do progresso da disciplina o fato de que a “metadiscussão”, para a qual Holmes nos convidava a realizar, ainda persista.
O futuro dos ETI passa pelo refinamento dos instrumentos de pesquisa, tanto físicos, tais como conjunto de dados, quanto construtos e modelos que usamos para explicar e descrever os fenômenos. A pesquisa em filosofia ou epistemologia dos ETI avançaram na segunda década do século XXI após o desenvolvimento metodológico das décadas anteriores, num momento em que os estudiosos da tradução veem a validez de seus marcos teóricos comprometida. Uma das linhas que se abre aos interessados na filosofia dos ETI é a análise conceitual comparativa de paradigmas e conceitos e a configuração nova de fenômenos potencialmente observáveis a partir das premissas da teoria da tradução. Neste âmbito, os ECTI são uma subdisciplina promissora.


