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Introdução | O som como texto-fonte | Traduzindo o som | Estratégias para a legendagem do som | Potencial de pesquisa
O primeiro passo no processo de tradução para a Legendagem para Surdos e Ensurdecidos (LSE) é analisar o texto-fonte (TF) multimodal. É importante que os legendistas conheçam a natureza dos diferentes modos semióticos que constituem o TF: o modo visual (imagens dinâmicas) e o complexo modo acústico, característico de trilhas sonoras de produções audiovisuais (Vernon 2016: 11), que abrange sons articulados (modo verbal) e sons não articulados (elementos suprassegmentais, música e efeitos sonoros). Além disso, é fundamental dedicar a devida atenção à interação intermodal. Com muita frequência, o produto final, ou seja, o texto-alvo (TA), é redundante: sons que os receptores podem inferir a partir das imagens são traduzidos, aumentando desnecessariamente a carga cognitiva da pessoa surda..
Por exemplo, nas legendas em espanhol do filme Amour (Haneke 2012), há uma cena em que uma série de sons não evidentes para os receptores e essenciais para a trama são legendados: (MEGAFONIA), (Tosse e silêncio) ou (Silêncio). No entanto, na Figura 3, podemos ver que os espectadores estão batendo palmas. Portanto, é desnecessário legendar que eles estão aplaudindo (Aplausos), pois os receptores podem ver o que está acontecendo na tela. Apesar disso, não é raro que profissionais traduzam sons facilmente inferíveis ou mesmo “visíveis”.
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| Figura 1, 2, 3 y 4. Capturas de tela de uma cena do filme Amour (Haneke 2012) em sua versão dublada em espanhol com LSE | |
Por essa razão, embora o modo visual, ou seja, as imagens, não sejam traduzidas, elas são percebidas e pertencem ao conjunto de elementos com função comunicativa aos quais os receptores surdos têm acesso para criar significados e estabelecer inferências.
Legendistas traduzem o conteúdo sonoro (diálogos, música, efeitos) e as canções na língua-fonte em texto visual no TA. A maneira como o som transmite informações e funciona como ferramenta comunicativa é um dos tópicos menos pesquisados nos estudos fílmicos (Ruiz 2010).
Nesta entrada, não daremos ênfase à explicação de estratégias de tradução intralinguística (simplificação lexical e sintática, omissão e condensação). Embora seja verdade que tanto a LSE quanto a legendagem para ouvintes sejam duas modalidades de tradução influenciadas por restrições de tempo e espaço, observou-se que os legendistas da LSE tendem a traduzir literalmente (Jiménez & Martínez 2018: 127), sobretudo na língua inglesa, em detrimento de outras estratégias de adaptação.
Esta entrada também não se dedica a aspectos profissionais, como o uso de softwares de legendagem e, por isso, a marcação (spotting) não será abordada. Embora essas informações sejam relevantes em termos de conhecimento, não são centrais para o processo de tradução de sons em palavras de uma perspectiva cognitiva e tradutológica. Elas estão mais relacionadas ao aspecto social e profissional da LSE.
O som pode ser estudado basicamente sob duas perspectivas: da física e da percepção humana Por um lado, de acordo com a física, o som é resultado do movimento ondulatório de um corpo vibrante ou fonte sonora em um meio de transmissão. O som se propaga pelo espaço e suas características dependem da natureza da fonte sonora, do meio de transmissão e dos objetos que ele impacta.
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| Figura 5. Figura 5. Reflexão do som da voz humana. [Fonte: Ondas Física 3º "3"]. |
Na Figura 5, observamos como as ondas sonoras da voz humana se propagam, desde sua emissão até o momento em que refletem em uma parede rochosa, criando assim um eco. Dependendo da duração do som e da localização do receptor, a percepção irá variar. Essa diferença deve ser transmitida no produto traduzido.
Os sons podem ser categorizados com base em sua fonte sonora. Eles são classificados em sons artificiais, produzidos por objetos (incluindo música), e sons naturais, produzidos pela natureza, animais e humanos (linguagem, ações corporais e paralinguagem). Identificar a fonte sonora é muito importante para classificar o som e traduzi-lo de forma adequada e coerente.
Na prática, há uma variabilidade excessiva e pouco justificada em relação a como diferentes tipos de sons são traduzidos. Sons produzidos por animais são às vezes traduzidos usando o nome do animal (gato), outras vezes com o som que o animal produz (miado de gato), ou a combinação de ambos: gato mia ou gato miando.
Por outro lado, o som pode ser estudado de acordo com a sua percepção e interpretação pelos seres humanos, partindo, portanto, da sensação produzida no mecanismo auditivo. Por exemplo, os sons podem ser percebidos como agradáveis ou causar medo ou angústia. Ambas as perspectivas são relevantes para o estudo da LSE.
Conhecer as qualidades, características, e efeitos que o som pode exercer sobre o estado mental, físico ou emocional dos receptores poderia ajudar na criação de convenções tradutológicas compartilhadas para a LSE.
Dessa forma, os profissionais poderiam produzir estruturas semânticas recorrentes para traduzir a função narrativa do som em textos multimodais. Isso evitaria a alta variabilidade encontrada nas traduções dos mesmos tipos de som, algo que aumenta a carga cognitiva dos espectadores surdos.
Nas duas figuras a seguir, vemos como o mesmo efeito sonoro é legendado de forma diferente. Em ambos os exemplos, alguém abre uma porta discretamente. No primeiro caso, a legenda em espanhol é porta e, no segundo, porta abrindo.
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| Figuras 7 y 8. Capturas de tela do primeiro episódio da primeira temporada da série As Telefonistas da Netflix (Campos 2017). | |
Se o som em uma cena transmite uma mudança na função comunicativa, então essa alteração deve ser refletida na tradução. Entretanto, essa não parece ser a razão por trás dessa variabilidade quando o fenômeno traduzido e as funções comunicativas são os mesmos. Em vez disso, cada legendista escolhe entre traduzir a fonte sonora (porta), a ação que produz o som (porta abrindo) ou o tipo de som que a fonte sonora pode emitir (porta rangendo), etc. A seleção conceitual tende a ser arbitrária, e não o resultado de uma análise da cena ou da função comunicativa do som.
No entanto, de acordo com os estudos fílmicos, cada mensagem acústica em uma trilha sonora intensifica, atenua, contradiz ou apoia a mensagem verbal ou visual (Llinares 2012: 137). Sons produzidos pela mesma fonte podem ser traduzidos de forma diferente, mas apenas quando há uma mudança na função comunicativa.
Portanto, a redundância no TA será evitada se relacionarmos as características subjetivas do som com o tipo de som que podem produzir e sua função comunicativa prototípica (Quadro 1).
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Características |
Tipo de som, qualidade |
Função |
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Tom |
Agudo, médio, grave |
Calma, estabilidade, medo, terror, etc. |
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Intensidade |
Forte, fraco, suave |
Forte, muito forte, etc. |
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Timbre |
Áspero, metálico, aveludado, etc. |
Áspero, metálico, aveludado, etc. |
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Duração |
Longo, curto |
Agradável, claro, perturbador, etc. |
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Tabla 1. Característica subjetiva do som e sua possível denominação de acordo com a percepção auditiva (Jiménez & Martínez 2017: 246). |
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Esse quadro oferece a possibilidade de diferentes combinações entre as quatro características sonoras, o que pode desencadear percepções distintas e específicas nos receptores.
Por exemplo, quando o tom do despertador é grave, transmite calma e podemos não acordar. Se seu tom for agudo, isso estimulará nosso sistema nervoso e provavelmente acordaremos imediatamente. A intensidade também é um conceito relativo, pois depende da distância entre a fonte sonora e o receptor.
Por outro lado, o timbre é uma qualidade que permite distinguir entre dois sons de igual intensidade, altura e duração produzidos por duas fontes sonoras diferentes. Graças ao timbre, podemos diferenciar um despertador de um relógio tradicional e o de um telefone celular, sendo a percepção auditiva de cada um, portanto, diferente. A duração possibilita diferenciar sons mais longos dos mais curtos. Quanto mais longo for o som do despertador, mais desagradável ele será.
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Estratégias para a legendagem do som
A LSE é a modalidade de tradução da qual mais se tem estudado a fase intermediária do processo tradutório, ou seja, as estratégias tradutórias aplicadas. Em primeiro lugar, dadas as restrições de tempo e espaço, os legendistas adotam uma macroestratégia: a seleção conceitual. Essa primeira seleção envolve a categorização do som, nomeando sua fonte (pássaro, trem, freios, vento) ou o som que ela produz (gorjeio, guincho). Suponhamos que o legendista assista à seguinte cena e ouça o som que a acompanha:
*Na rua, ao longe, escuta-se o barulho produzido pelos freios de um trem que se aproxima lentamente.
O conteúdo sonoro é geralmente categorizado com um substantivo, se for um objeto, ou com um verbo, se for um processo. No caso de nosso exemplo, o objeto, ou seja, a fonte sonora, pode ser categorizado e seria expresso no TA como trem ou freios. Se o que é categorizado é o som produzido pela fonte sonora, a tradução resultante poderia ser “guincho”. Porém, o complexo conteúdo sonoro mencionado acima geralmente não é traduzido apenas por meio de categorização. Em muitos casos, o tradutor especifica o tipo de fonte sonora e adiciona uma atribuição (freios de trem ou guinchos de freios de trem), aplicando assim duas estratégias tradutórias: categorização e atribuição. Por fim, diversas operações cognitivas que envolvem a organização do discurso verbal, relacionando-o a cada elemento do conteúdo acústico, podem ser percebidas aqui. Além disso, esse discurso verbal em forma de legenda enfatiza os elementos mais relevantes para a interpretação funcional da cena. Portanto, a categorização e a atribuição são seguidas por uma explicação ou explicitação. O resultado no TA pode variar entre:
Categorização: trem, freios, guincho
Categorização e Atribuição: guinchos de freios de trem
Explicação, categorização e atribuição: guinchos de freios de trem ao longe
Diversas operações cognitivas que envolvem a organização do discurso verbal, relacionando-o a cada elemento do conteúdo acústico, podem ser percebidas aqui. Além disso, esse discurso verbal em forma de legenda enfatiza os elementos mais relevantes para a interpretação funcional da cena.
Como mencionado anteriormente, ainda não sabemos até que ponto esse processo cognitivo altamente complexo poderia ser organizado de modo a ativar estruturas semânticas, sintáticas e pragmáticas recorrentes. Nesse caso, o mesmo elemento sonoro, com uma dada função comunicativa numa dada cena, corresponderia a uma determinada categorização, atribuição ou explicação, de tal forma que se tornariam estruturas frequentes e associadas a uma intenção comunicativa.
Isso implicaria que uma estrutura sonora X (música) deveria sempre corresponder a uma estrutura discursiva Y (música pop no rádio). A criação de estruturas gramaticais controladas no TA, associadas à função comunicativa do som, poderia ser de grande interesse, trazendo vantagens cognitivas e tradutológicas. De fato, em princípio, isso poderia reduzir a carga cognitiva dos espectadores surdos, que associariam as estruturas à forma e à função do som produzido no TF.
Por exemplo, o conceito de música geraria uma série de estruturas linguísticas que não dependeriam de uma decisão arbitrária, mas de parâmetros baseados nas características do som e suas possíveis interpretações. Primeiramente, a fonte sonora seria categorizada (MÚSICA); em seguida, uma qualidade lhe seria atribuída (POP); e, finalmente, alguma característica adicional, como sua localização, seria explicada (MÚSICA POP NO RÁDIO), sempre nessa ordem. Além disso, quando os aspectos da percepção e seus efeitos fossem os elementos centrais, a atribuição seria um pouco mais complexa, sinalizando o possível desconforto gerado no público ouvinte.
Essa proposta abriria caminho para uma linguagem simplificada de sons básicos produzidos em certos contextos, isto é, uma linguagem controlada para a tradução intersemiótica de sons em palavras.
O foco dessa proposta não está na adequação da tradução de elementos acústicos em palavras, mas sim na coerência tanto do processo de seleção sonora quanto da produção discursiva.
Embora a LSE tenha se beneficiado dos avanços alcançados pela legendagem interlingual para ouvintes com relação a aspectos técnicos, como a velocidade de leitura, a marcação (spotting) ou o posicionamento de legendas (Arnáiz-Urquiza 2015), ela conseguiu trilhar seu próprio caminho no contexto da tradução acessível (Miquel 2017). A complexidade envolvida na descrição do processo tradutório da LSE é a base de muitas pesquisas sobre essa modalidade intersemiótica (Neves 2010; Rica 2016).
Foram realizados estudos de caso (González López 2018) e estudos de corpus (Kalantzi 2008; Arias-Badia 2020). Todos eles fornecem material inestimável para a reflexão sobre questões específicas da LSE, como a falta de uniformidade na aplicação de estratégias tradutórias (Nascimento 2017), a falta de homogeneidade na tradução de sons (Martínez, Jiménez & Jung 2019) ou a escassez de estratégias voltadas a diferentes grupos de usuários, como a legendagem de produtos audiovisuais para crianças (Zárate 2014).
Estão em andamento estudos de recepção inovadores com interessantes delineamentos experimentais que medem o acesso por grupos de usuários de acordo com sua idade (crianças, adolescentes ou adultos) (Tamayo 2015; Lorenzo-García 2010) e também entre surdos, sejam eles oralizados ou sinalizados. O grupo de pesquisa TRACCE criou uma plataforma para a avaliação de recursos audiovisuais acessíveis (https://tracce.ugr.es/pra2/) por meio da aplicação de questionários online.
Em relação a parâmetros técnicos, como a velocidade de leitura das legendas, foram realizados estudos de recepção utilizando tecnologia de rastreamento ocular (Romero-Fresco 2018; Doherty & Kruger 2018). Nessa mesma linha, o projeto europeu DTV4ALL de 2008 (https://cordis.europa.eu/project/id/224994) analisou os movimentos oculares dos participantes e a distribuição da atenção entre as legendas para descobrir padrões de leitura em diferentes países europeus. Contudo, a criação de questionários especificamente elaborados para participantes surdos e com deficiência auditiva é uma questão pendente para melhor avaliar e mensurar o acesso de pessoas surdas tanto ao lazer (por exemplo, filmes) quanto ao patrimônio cultural em geral.
A LSE é uma modalidade em crescimento que requer mais esforços na aplicação de um arcabouço teórico apropriado que canalize a pesquisa intermodal. Estudos da pragmática do discurso, bem como da intermidialidade ou da física do som e suas particularidades perceptivas, poderiam ser de grande ajuda na análise dos problemas de coerência, coesão e inferência cognitiva entre modos semióticos.






