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Introdução | Lidando com tabus em diferentes culturas | Modulando a carga das palavras tabu | Operações tradutórias para lidar com linguagem tabu | Potencial de pesquisa
Introdução: a natureza do tabu
Para começar, é necessário discutir o escopo de tabu e o que se entende por esse termo nos dias de hoje. Allan (2016: 2303) se refere aos tabus como “proscriptions of behavior arising out of social constraints on the individual’s behavior where it is perceived to be a potential cause of discomfort, harm, or injury” [proscrições de comportamento resultantes de restrições sociais referentes a um indivíduo, cujo comportamento é considerado uma possível causa de desconforto, malefício ou injúria]. Dessa forma, a consciência cultural é fundamental para discernir se determinadas palavras ou ações devem ser condenadas pela sociedade, uma vez que cada cultura possui seu próprio código de conduta. Logo, a intolerância aos costumes do outro pode ser a causa de conflitos entre indivíduos ou comunidades.
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| Uma Enciclopédia dos Palavrões: A História Social das Pragas, Profanidades, Linguagem Obscena e Insultos Étnicos no Mundo da Língua Inglesa (Geoffrey Hughes) | Palavras Proibidas: O Tabu e a Censura da Linguagem (Keith Allan e Kate Burridge) |
Por isso, o escopo do tabu abrange diversas temáticas. Allan e Burridge (2006: 1) relacionam tabu aos “corpos e seus eflúvios”, aos “órgãos e atos sexuais, micção e defecação”, ao ato de “nomear, dirigir-se a, tocar e observar pessoas, seres, objetos e lugares sagrados” e a “coleta, preparo e consumo de alimentos”. Abordar esses tópicos em situações diversas ou não respeitar os costumes de uma determinada sociedade pode se configurar como um comportamento considerado tabu ou indesejável, dependendo do/a interlocutor/a, do contexto, bem como da cultura e da idade do/a falante.
De uma perspectiva psicológica, Jay (2009) considera palavrões e palavras tabu como sinônimos para se referir a uma linguagem de cunho emocional ofensivo. “Taboo words are sanctioned or restricted on both institutional and individual levels under the assumption that some harm will occur if a taboo word is spoken” [As palavras tabu são proibidas ou limitadas tanto em nível institucional quanto individual, sob a premissa de que algum mal acontecerá se uma palavra tabu for dita.] (Jay 2009: 153). Essas autoridades limitadoras podem ser de natureza religiosa, jurídica, educacional e informativa (como a mídia). Em nível linguístico, Jay afirma que tabus em inglês podem abranger questões sexuais (“cunt”), religiosas (“Jesus Christ!”), referências escatológicas (“shit”), objetos nojentos (“douche bag”), nomes de animais se referindo a pessoas (“bitch”), ofensas étnico-raciais e de gênero (“dago”), insultos com base em distúrbios psicológicos, físicos e sociais (“retard”), alusões à ancestralidade (“son of a bitch”), termos vulgares (“fart face”) e gírias ofensivas (“cluster fuck”). Diante disso, torna-se evidente que as palavras tabu podem variar de ofensas moderadas (“damn”) a ofensas muito graves (“nigger”).
“Taboo words are sanctioned or restricted on both institutional and individual levels under the assumption that some harm will occur if a taboo word is spoken” (Jay 2009: 153). Estas autoridades impositivas pueden ser del ámbito religioso, jurídico, educativo e informativo (los medios de comunicación). A nivel lingüístico, Jay señala que los tabúes en lengua inglesa pueden tratar referencias sexuales (“coño”) [cunt], religiosas (“¡Dios!”) [Jesus Christ!], escatológicas (“mierda”) [shit], términos asquerosos (“ducha vaginal”) [douche bag], términos de animales usados para referirse a personas (“perra”) [bitch], insultos étnicos, raciales y de género (“gallego”) [dago], insultos en torno a la condición psicológica, física o desviación social (“retrasado”) [retard], alusiones generacionales (“hijo de perra”) [son of a bitch], términos vulgares (“cara culo”) [fart face], y argot ofensivo (“follón”) [cluster fuck]. Aunque resulte una obviedad, los términos tabú pueden usarse con una carga suave (“maldita sea”) [damn], o con una muy ofensiva (“negro de mierda”) [nigger].
Ávila-Cabrera (2016: 28) propõe dois termos diferentes considerando a natureza e as funções desses tipos de palavras. Ele afirma que:
[o]ffensive language refers to those linguistic terms or expressions made up of swearwords, expletives, etc., which are normally considered derogatory and/or insulting [and] taboo language is related to terms that are not considered appropriate or acceptable with regard to the context, culture, language and/or medium where they are uttered.
[Linguagem ofensiva refere-se a termos ou expressões compostos por palavrões, xingamentos e similares, que são normalmente considerados pejorativos e/ou ofensivos, enquanto a linguagem tabu está relacionada a termos considerados inapropriados ou inaceitáveis em função do contexto, da cultura, da língua e/ou do meio em que são proferidos.]
Com relação às duas principais categorias descritas acima, Ávila-Cabrera (2023: 47) estabelece uma taxonomia de termos ofensivos e tabu, conforme descrito abaixo:
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Categoria |
Subcategoria |
Exemplos |
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Ofensivo |
Maldição / Ameaça / Violência |
Se minha esposa morrer, você também morre. |
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Expletivo |
Puta que pariu! |
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Insulto |
Bando de filho da puta! |
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Invectivo |
Eu não falei com você, meu bem. |
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Imprecação |
Eu juro pelo túmulo de minha mãe. |
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Xingamentos |
Que porra é que eu tô fazendo aqui? |
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Tabu |
Drogas / Consumo excessivo de álcool |
Quando eu saí de casa, meu irmão começou a fazer um monte de merda: usar drogas e… |
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Sujeira / Micção / Escatologia |
O cachorro come as próprias fezes. |
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Profanação / Blasfêmia |
Porra, Deus, que merda! |
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Sexo |
Chupe minha pica! |
Em contrapartida, Valdeón (2020) considera palavrões como termos tabu, uma vez que implicam estigmas sociais e são utilizados para revelar emoções fortes. Alinhados a essa ideia, Díaz-Cintas e Remael (2021) observam que os palavrões estão associados a manifestações de raiva, desespero e outras emoções do/a falante.
Lidando com tabus em diferentes culturas
O tratamento de conteúdo tabu na tradução pode ser um assunto controverso e delicado considerando que um mesmo conceito ou ação pode ter diferentes implicações dependendo da língua ou cultura envolvida. Dessa forma, se em uma língua ou cultura específica uma determinada palavra pode ser considerada moderada, o mesmo termo ou conceito falado em outra língua/cultura pode desencadear um impacto negativo no/a receptor/a.
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| O Novo Dicionário Conciso de Gírias e Inglês Não Convencional - Partridge. 2ª edição por Tom Dalzell e Terry Victor |
Mohr (2013) investiga a evolução histórica dos palavrões e estabelece uma conexão entre a linguagem ofensiva usada no latim e no inglês contemporâneo. Entre os/as linguistas, há um consenso de que as piores palavras em inglês são compostas pelos “Big Six” (“Seis Grandes”): cunt (puta, boceta), fuck (foder, porra), cock/dick (pau, pica, piroca, caralho), ass (cu, bunda), shit (merda), e piss (mijo, mijar). Entretanto, no latim antigo, observa-se a existência dos “Dez Grandes”: “cunnus (cunt [boceta]), futuo (to fuck [foder]), mentula (cock [caralho]), verpa (erect or circumcised cock [caralho ereto ou circuncidado]), landica (clit [clitóris]), culus (ass [bunda]), pedico (to bugger [penetração no ânus]), caco (to shit [cagar]), irrumo [(introduce a penis into someone’s mouth [penetração na boca])], and fello [(suck a penis [sexo oral, boquete])]” (2013: 17).
Atualmente, a aceitação e sensibilidade sociais em relação a conteúdos tabu variam conforme diversos fatores, como a cultura, a classe social, a idade, o gênero e a língua do/a falante. Alguns exemplos a esse respeito são discutidos por Wajnryb (2005: 210-212), que descreve as diferenças ao proferir palavrões ou insultos em diferentes culturas. Nesse sentido, ela afirma que xingamentos bósnios geralmente envolvem o círculo familiar com expressões como: “Tomara que seus filhos ponham o dedo molhado em uma tomada” ou “Tomara que sua mãe peide em uma reunião da escola”. Já na Noruega se insulta com: “Que se fodam os noruegueses matadores de baleia” e os holandeses desejam má saúde: Utter krijg de ziekte [Tomara que pegue uma doença]. Para Wajnryb, o insulto mais ofensivo em inglês é “cunt”. Além disso, xingamentos russos incluem menções à mãe de alguém, tal como em Yob tvojú'mat’ que pode se traduzir como “Alguém fodeu a sua mãe” (Ljung 2011).
Do mesmo modo, na Espanha, um xingamento grave é Me cago en tu puta madre. Na Andaluzia, no sul da Espanha, é comum utilizar no dia a dia palavrões e insultos em conversas casuais e brincadeiras com amigos, como, por exemplo, Hijo/a de la gran puta ou Me cago en tus muertos (Ávila-Cabrera 2023). É possível relacionar esses exemplos com o uso da palavra “nigger” no inglês americano, que pode representar um sinal de camaradagem quando proferida entre pessoas negras. Por outro lado, ela é altamente ofensiva quando dita por pessoas brancas para pessoas negras, conforme discutido por Dalzell e Victor (2020).
Modulando a carga de palavras tabu
Os/As falantes podem modular a intensidade ou carga de palavras tabu por conta própria. A fim de explicar como fazer a adequação, há três conceitos que giram em torno do nível de intensidade: eufemismo (do grego euphemismos; uso de uma palavra favorável); ortofemismo (do grego ortho-; uso de um termo normal ou adequado); e disfemismo (do grego dysphemia; uso de um termo pejorativo). Allan e Burridge (2006) explicam esses conceitos da seguinte forma: eufemismos são palavras usadas para evitar termos ofensivos. Elas se referem a termos leves como “cocô”. Ortofemismos são palavras neutras ou formais como “fezes”, enquanto disfemismos são palavras ofensivas como “merda”. O conjunto desses três conceitos são definidos por Allan e Burridge como “X-femismo”, eles possuem o mesmo significado, mas são usados em contextos diferentes. Os/As falantes podem, portanto, usar termos leves, neutros ou ofensivos dependendo do contexto situacional. Alguns exemplos de modulação de palavras ou frases de cunho sexual podem ser vistos em Ávila-Cabrera (2023: 109).
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Disfemismo |
Ortofemismo |
Eufemismo |
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Foder |
Fazer sexo |
Fazer aquilo |
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Meter |
Fornicar |
Nheco-nheco |
Conforme explicitado acima, os/as falantes que querem fazer uso de termos neutros, por conta de seus contextos interacionais, podem recorrer a “fazer sexo” ou “fornicar”; já aqueles/as que preferem uma linguagem mais explícita podem optar por “foder” e “meter”, enquanto falantes que preferem um tom eufemístico, recorrem a expressões como “fazer aquilo” ou algo mais engraçado como “nheco-nheco”. Nesse sentido, vale mencionar que Crespo-Fernández (2008) destaca a importância da contextualização para o uso e a interpretação de eufemismos e disfemismos de cunho sexual metafórico.
Sob uma perspectiva psicológica, Jay (2009) afirma que palavras tabu podem transmitir informações emocionais dos/as falantes, podendo contribuir para que alcancem um objetivo pessoal ou social. Contudo, o autor observa que não está claro se o uso de eufemismos provoca o mesmo efeito de satisfação emocional que o uso de palavras tabu, o que pode justificar sua escolha por parte dos/das falantes.
Operações tradutórias para lidar com a linguagem tabu
Quando encontram dificuldades durante o processo tradutório, os/as tradutores/as costumam recorrer a estratégias de tradução para contorná-las (Hurtado-Albir 1999). A discussão sobre estratégias de tradução torna-se possível quando examinamos como a solução adotada se manifesta no TA (Molina & Hurtado-Albir 2002).
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O Desafio de Legendar Linguagem Ofensiva e Tabu para o Espanhol. Um Guia Teórico e Prático - José Javier Ávila-Cabrera |
Para observar se a carga de linguagem ofensiva e de tabu é ou não transferida, Ávila-Cabrera (2023), em sua taxonomia de técnicas tradutórias, propõe dois níveis que diferenciam a forma de lidar com essa carga.
Quando a carga ofensiva ainda se faz presente no TA, podemos observar três casos: 1) a carga foi reforçada (se as palavras no TA forem mais fortes); 2) a carga foi mantida (se a intensidade no TA for similar); 3) a carga foi suavizada (se a intensidade no TA foi diminuída, mas ainda perceptível).
Por outro lado, quando a carga não está presente, pode ser que 4) foi neutralizada com a solução escolhida no TA; ou 5) foi omitida porque o termo foi excluído na TA.
Explorar as possibilidades de transmissão da carga ofensiva e de tabu para o TA pode ajudar os/as pesquisadores/as a observar como a linguagem tabu costuma ser retratada na tradução literária e, em especial, na tradução audiovisual (TAV), dadas as manipulações técnicas que incidem sobre seu formato, como no caso da legendagem, em que a redução textual é imprescindível.
Os exemplos a seguir foram retirados de produções audiovisuais e ilustram as técnicas tradutórias mencionadas anteriormente. Algumas dessas produções podem ser encontradas em plataformas de streaming e foram traduzidas por profissionais de legendagem e dublagem.
1) Técnica tradutória: Transferência / carga reforçada
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Série: Submundo do Crime T01 E01 (Julien Leclercq 2021-) Modalidade de TAV: Legendagem do francês para o inglês – HBO |
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TO: T’es marrant, mais fais pas le malin. |
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TM: Don’t fuck around with me. |
No exemplo acima, podemos ver uma declaração ameaçadora sem nenhuma carga ofensiva ou de tabu.Porém, o TA foi reforçado com a frase “Don’t fuck around”. Esse é um caso de compensação, frequentemente utilizado em legendagem, que consiste em usar uma linguagem mais forte no TA devido à intensidade da cena ou à impossibilidade de ter traduzido trocas ofensivas ou tabu previamente.
2) Técnica tradutória: Transferência / carga mantida
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Serie: Suburra T2 E1 (Daniele Cesarano & Barbara Petronio 2017-2020) Modalidade da TAV: Dublagem do italiano para o inglês - Netflix |
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TO: Mo’ vattene a fanculo. |
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TM: Now go fuck yourself. |
Em italiano, lê-se Mo’vattene a fanculo, dublado de forma bem parecida como “go fuck yourself”. Podemos observar que a carga da frase no TF é visível no TA e, portanto, foi mantida.
3) Técnica tradutória: Transferência / carga suavizada
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Filme: Era Uma Vez em… Hollywood (Quentin Tarantino 2019) Modalidade da TAV: Dublagem do inglês estadunidense para o espanhol latino-americano - Netflix |
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TO: Who’s this shaggy asshole? |
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TM: ¿Quién es ese greñudo? |
O enunciado acima é composto por dois termos pejorativos: “shaggy” e “asshole””. Durante o processo tradutório, foi reduzido para greñudo [cara com cabelo de esfregão], uma gíria em espanhol usada para descrever alguém que tem cabelo grande. Porém, falta no termo do TA a intensidade que “asshole” produz e que, literalmente falando, não está presente. Houve um esforço por parte do/a tradutor/a para manter a essência do insulto, razão pela qual a transferência foi realizada, mas a carga foi suavizada.
4) Técnica tradutória: Sem transferência / carga neutralizada
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Filme: Os Oito Odiados (Quentin Tarantino 2015) Modalidade de TAV: Legendagem do inglês estadunidense para o espanhol europeu - HBO |
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TO: Jesus Christ! That door is a whore! |
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TM: ¡Dios santo! ¡Qué cabrona esa puerta! [PT: Santo Deus! Que porta desgraçada!] |
No exemplo acima, o sintagma tabu de caráter religioso “Jesus Christ!”, quando proferido por um falante nativo de inglês, gera conotações fortes para uma pessoa religiosa, mas isso some quando é proferido em espanhol, nos termos que aparecem na legenda: Dios Santo! Assim, a carga de tabu que a frase no TF produz é neutralizada no TA devido ao termo escolhido, que não é considerado linguagem forte pela audiência espanhola. A transferência da carga é, portanto, neutralizada com essa solução.
5) Técnica tradutória: Sem transferência / carga omitida
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Filme: Bastardos Inglórios Modalidade da TAV: Legendagem do inglês estadunidense para o espanhol europeu - Versão do DVD |
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TF: Shit! Fucking shit head. Faggot fuck. Fuck you! |
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TA: ¡Puto cabronazo! ¡Maricón de los cojones! ¡Tu puta madre! [PT: Canalha do caralho! Viadinho do caralho! Sua mãe, aquela puta!] |
O TF é cheio de termos tabus e ofensivos. Devido à densidade do TF, o palavrão “Shit!” parece ter sido omitido na legenda para favorecer a tradução de outras expressões no TA. Porém, ainda que o primeiro palavrão não tenha sido traduzido, é totalmente justificado por conta dos termos que foram traduzidos em sequência. Termos como esses são normalmente omitidos ou condensados, quando necessário, por causa das limitações espaço-temporais dessa modalidade de TAV.
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A taxonomia das técnicas tradutórias já citadas anteriormente pode ajudar os/as tradutores/as a transferirem ou não a carga que os termos tabus produzem no TF. Ávila-Cabrera (2023) recomenda que a linguagem tabu seja traduzida obedecendo às restrições técnicas da modalidade da TAV da forma mais próxima possível em relação ao TF, a fim de cumprir a função que essas palavras/expressões desempenham no TF. Para isso, deve-se levar em conta o contexto dos/as falantes e a intensidade do discurso, e a solução escolhida deve ser idiomática. Por último, mas não menos importante, deve-se destacar que os/as tradutores/as não traduzem palavras ou frases isoladas, mas o TF como um todo. É esse o motivo pelo qual a escolha da técnica tradutória é muito influenciada por todos esses aspectos.
Por outro lado, o processo tradutório pode também ser influenciado por forças externas que podem afetar o produto final, como (auto)censura e manipulação.
A censura consiste na eliminação, proibição ou supressão de informações linguísticas visuais, escritas ou orais efetuadas por autoridades ou instituições que detêm esse poder. Ainda que a censura seja geralmente associada a regimes totalitários, como foi o caso das ditaduras em países europeus, ela pode também ser encontrada em sociedades democráticas (Hughes 2006). Diversas áreas como a literatura, o teatro, o cinema e a televisão foram alvos de censura (Díaz-Cintas 2001), razão pela qual os campos da cultura e da comunicação têm sido continuamente perseguidos ao longo da história.
Muitos autores/as como Ivarsson e Carrol (1998), Díaz-Cintas (2001), Díaz-Cintas e Remael (2021) defendem que a linguagem escrita tem um impacto maior na audiência do que a linguagem oral. Díaz-Cintas (2012) entende como “manipulação ideológica” quando o/a tradutor/a suaviza ou apaga a carga de palavras tabu presente no TF sem nenhuma pressão externa. Isso também pode ser denominado autocensura, a qual pode ocorrer no âmbito profissional da TAV, como em legendas destinadas ao público na Espanha, quando o texto aborda referências religiosas. Nesse sentido, as blasfêmias costumam ser suavizadas ou outras alternativas ofensivas são utilizadas para evitar insultos diretos a figuras religiosas, como “Deus” ou “Jesus Cristo” (Ávila-Cabrera 2020). Outro tipo de censura pode ser imposta por clientes a partir de uma lista de termos que devem ser evitados durante o tempo de tela para crianças ou para versões de legendas para voos.
Outro tipo de manipulação em algumas modalidades de TAV está diretamente relacionada às convenções técnicas de cada uma. Na legendagem, tal prática é conhecida como manipulação técnica (Díaz-Cintas 2012). Isso se deve ao fato de que essa modalidade de TAV implica condensar o TF para que seja possível transferi-lo para as legendas. Além disso, quando se exige limitações espaço-temporais, a linguagem tabu costuma ser excluída, se necessário. Na dublagem, a sincronização labial (lip-sync) quando os/as atores/atrizes estão em cena, a sincronia cinestésica e a isocronia são elementos cruciais para executar uma dublagem apropriada (Chaume 2012). Por todos esses motivos, o texto audiovisual não está isento de manipulações técnicas.
O tabu, em suas mais diversas formas e áreas, foi difundido por meio da série de conferências Taboo (Taboo Conference - TaCo), criada por Delia Chiaro, Chiara Bucaria e Anthony Mitzel, realizada em Bologna (2012), Durham (2014), Barcelona (2016), Bertinoro (2018) e Roma (2022). A Taboo Conference se tornou um evento de referência para acadêmicos/as, docentes e profissionais interessados/as em diversas áreas como tradução, literatura, sociolinguística, pragmática, psicologia etc., além de abordar assuntos relacionados ao conceito de tabu em suas múltiplas manifestações. Espera-se que mais estudos sobre tabu e tradução sejam desenvolvidos nesse campo, enriquecendo essa área de pesquisa em um futuro próximo.
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Logo da Taboo Conference [Imagem concedida por Chiara Bucaria] |
A linguagem tabu na tradução tem ganhado destaque especialmente por sua natureza multidisciplinar. Graças às plataformas de streaming e às combinações linguísticas disponíveis para usuários/as, diferentes linhas de pesquisa em tradução audiovisual (TAV) estão abertas a contribuições com o tratamento de questões tabu de uma língua e cultura-fonte e a forma como são traduzidas para outras línguas. Por exemplo, um TF traduzido para o inglês estadunidense, britânico e australiano permite-nos observar diferenças no tratamento de expressões consideradas tabu, especialmente levando em consideração a sensibilidade cultural de alguns termos. Um TF em inglês traduzido para o espanhol da Espanha pode ser comparado com versões do espanhol da América Latina ou do espanhol neutro. Além disso, termos tabu costumam ser suavizados ou apagados em países da América Latina (Fuentes-Luque 2015), o que pode revelar resultados interessantes a respeito das diferentes variedades da língua espanhola.
Foi comprovado que pacientes com problemas neurológicos podem passar a proferir palavrões na velhice, mesmo que não tivessem esse hábito quando mais jovens (Jay 2000). Da mesma forma, quando tradutores/as em formação traduzem para uma língua estrangeira, eles/as podem utilizar palavras tabu ou palavrões mais livremente (Ávila-Cabrera & Rodríguez-Arancón 2018) devido à falta de consciência cultural. Tal fato destaca a necessidade de estudos empíricos para elucidar essa questão.
Uma vez que o uso da língua pelos/as falantes sofre mudanças ao longo do tempo, assim como os costumes culturais, os estudos sobre tabu certamente serão mais explorados por outras disciplinas. Além disso, assuntos contemporâneos considerados tabu podem deixar de ser vistos dessa forma no futuro, assim como aconteceu com questões que, no passado, eram problemáticas e atualmente são consideradas normais.




