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Introdução | A natureza onipresente da paráfrase | A paráfrase como tradução intralinguística | A paráfrase como uma estratégia tradutória | Potencial de pesquisa
De acordo com o Common European Framework of Reference for Languages, paráfrase e tradução são vistas como “activities of mediation [which] make communication possible between persons who are unable, for whatever reason, to communicate with each other directly” (2001: 14) [atividades de mediação que possibilitam a comunicação entre pessoas que, por quaisquer motivos, estejam incapacitadas de se comunicar diretamente]. Vila, Martí e Rodríguez (2014) afirmam que não há uma definição de paráfrase que seja precisa e amplamente aceita. De acordo com os/as autores/as, o ato de parafrasear é um fenômeno amplo e multifacetado, vagamente descrito na linguística como modos alternativos de veicular uma mesma informação, ou um significado semelhante, utilizando uma escrita diferente. Rinaldi, Dowdall e Kaljur et al. (2003) consideram paráfrases como unidades linguísticas que correspondem à mesma representação conceitual ou lógica. Isso pode ser alcançado pela reorganização estrutural e/ou pela substituição por sinônimos, processo que pode envolver apenas mudanças superficiais ou reformulações profundas. Bhagat e Hovy (2013: 470) enumeraram 25 operações que geram resultados com significados mais ou menos equivalentes (quasi-paráfrases).
Uma vez que parafrasear significa expressar um significado igual ou similar de diferentes formas, assemelha-se às operações cognitivas executadas no processo tradutório interlinguístico e intralinguístico. A habilidade genérica de reformular significados fundamenta a habilidade humana de traduzir (Muñoz 2011; Whyatt 2012; Harris 2017).
A natureza onipresente da paráfrase
Parafrasear é uma habilidade cognitiva fundamental do ser humano, usada para processar informações e facilitar a comunicação. Faz parte da experiência de todo falante reescrever a mesma informação com palavras diferentes, recorrendo, por exemplo, a sinônimos e outros recursos. A motivação é possivelmente impulsionada por fatores pragmáticos, incluindo o contexto de troca comunicativa e os/as participantes envolvidos/as, o que nos faz ajustar e remodelar a maneira como queremos comunicar algo várias vezes ao dia, dependendo a quem nos dirigimos e com qual objetivo. Nesse sentido, a capacidade de parafrasear é uma sub-habilidade linguística que, em muitos casos, pode ser aplicada de modo contextualizado, por exemplo, para evitar uma falha na comunicação. A paráfrase, como uma manipulação das formas linguísticas, pode fazer textos inacessíveis mais fáceis de ler ao tornar seu conteúdo informativo acessível ao/à leitor/a. Ela pode ser utilizada para intensificar ou suavizar o efeito do que é comunicado ao/à leitor/a ou ouvinte. A paráfrase ajuda a brincar com o estilo e o registro, permitindo escolher entre ser formal, neutro ou amigável ao comunicar a mesma informação.
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| Paráfrase é uma característica universal da comunicação. [Fonte] |
A capacidade de reformular significados desempenha um papel importante na aquisição de conhecimento. Na escola, as crianças são encorajadas a expressar e descrever conceitos e processos complexos com suas próprias palavras. Desse modo, o conhecimento delas é avaliado com base em como conseguem parafrasear sua compreensão de um material textual.
A paráfrase ou reescrita é muito valorizada no ensino e aprendizagem de línguas estrangeiras. Harmer (2007: 382) notou que reescrever frases, fazer transformações, substituições lexicais e usar circunlóquios são tarefas extremamente benéficas para os/as estudantes de línguas. Sendo assim, atividades de paráfrase são frequentemente utilizadas em avaliações de aprendizado de idiomas para verificar se os/as estudantes conseguem expressar o mesmo conteúdo, ou um conteúdo semelhante, usando palavras e estruturas diferentes. Em avaliações orais, a capacidade de reformular ideias é valorizada como uma “estratégia de reparo”, ajudando o/a estudante a evitar uma falha na comunicação e a demonstrar sensibilidade ao contexto situacional. Além disso, Newfields (2001: 6) observa que a habilidade de escrever resumos, frequentemente praticada em aulas de língua estrangeira, também depende da capacidade do/a estudante de parafrasear informações, que posteriormente precisam ser estruturadas conforme as necessidades do/a leitor/a, sem usar as mesmas palavras do texto original. Em cursos avançados de escrita, a paráfrase é usada na fase da revisão, quando o/a escritor/a busca melhorar a qualidade comunicativa do texto. Na escrita acadêmica, a necessidade de interpretar textos científicos e comentar seu conteúdo exige a capacidade de parafrasear por meio de manipulações dinâmicas das formas, garantindo que o sentido se mantenha próximo àquele do texto original. Como a paráfrase opera sobre formas e significados, ela é de interesse central para o estudo cognitivo da mediação comunicativa através da tradução tanto intralinguística quanto interlinguística. Porém, sua relevância foi muito pouco discutida de maneira explícita nos Estudos da Tradução (Whyatt 2012: 2017).
A paráfrase como tradução intralinguística
A tradução intralinguística (ou reformulação) é um dos três tipos de tradução citados no artigo de 1959 de Roman Jakobson traduzido como “Aspectos Linguísticos da Tradução” e publicado pela primeira vez no Brasil em 1975 no terceiro capítulo do livro “Linguística e Comunicação”. Esse tipo de tradução se refere a situações nas quais os signos verbais são interpretados “por meio de outros signos da mesma língua” (Jakobson 1975: 64). A tradução intralinguística envolve o mesmo processo de interpretação de significado e reformulação que a paráfrase (intralinguística). Ambas compartilham um objetivo semelhante: expressar um significado equivalente por meio de formas linguísticas diferentes (outros enunciados), normalmente para atender outros objetivos e outras audiências. O processamento intralinguístico de significado é semelhante em operacionalidade à tradução interlinguística (tradução propriamente dita). Por razões óbvias, é a tradução interlinguística, como expressão prototípica de mediação linguística para superação das barreiras entre línguas, que atraiu maior atenção de acadêmicos em tradução. Todavia, a tradução intralinguística vem reivindicando um lugar nos Estudos da Tradução (ET) (Zethsen2007, 2009; Schmid 2008) e nos Estudos da Tradução e Cognição (Whyatt 2017).
Zethsen (2007, 2009) é uma das poucas teóricas que reconheceu a posição periférica da tradução intralinguística e fez campanha pela inclusão dessa como um objeto legítimo dos Estudos da Tradução. Além disso, Zethsen (2009: 805) apontou quatro fatores que justificam a necessidade da tradução intralinguística para tornar conteúdos acessíveis a usuários/as de uma mesma língua. Esses fatores são: (1) barreiras de conhecimento (falta de expertise para o entendimento de discurso especializado que pode requerer, por exemplo, a reescritura de um artigo científico para ser publicado em uma revista de circulação mais ampla, ou a paráfrase de um documento legal em Linguagem Simples); (2) passagem de tempo, que pode, por exemplo, gerar a necessidade de atualizar textos canônicos (Stanton 202) ou clássicos antigos (Delabastita 2009)”; (3) diferenças culturais, que envolvem as referências necessárias para o entendimento de um texto (Whitehead 1997); (4) restrições de espaço (versões resumidas de livros). Outros exemplos de tradução intralinguística que aplicam a habilidade de parafrasear, reformular, condensar o significado e criar efeitos equivalentes no/a leitor/a ou receptor/a, vêm da Tradução Audiovisual (TAV). Para tornar os produtos da TAV acessíveis para todos/as espectadores/as, a tradução intralinguística é empregada em diferentes modalidades. Por exemplo, na Legendagem para Surdos e Ensurdecidos (LSE) e na legenda refalada ou respeaking, o que é dito deve ser parafraseado, combinado com informações paralinguísticas essenciais e efeitos sonoros, e então convertido em texto. Na audiodescrição (AD), as informações visuais inacessíveis devem ser convertidas em textos falados e intercaladas aos diálogos para que pessoas com deficiência visual possam receber a informação por meio do canal auditivo (Díaz, Orero & Remael 2007). Em suma, a tradução intralinguística e a estratégia de parafrasear se baseiam no princípio da semiose ilimitada (Eco & Nergaard 2001: 219), segundo o qual o significado dos signos linguísticos é revelado quando traduzido ou interpretado por outro signo (o interpretante, de acordo com Peirce). Do ponto de vista cognitivo, a paráfrase compartilha os mesmos estágios de processamento que a tradução. Primeiro o significado precisa ser interpretado, processado e então reexpressado em outro formato.
Paráfrase como uma estratégia tradutória
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[Religião e Filosofia Uma paráfrase sobre os Quatro Evangelistas. No qual [...] o texto completo e a paráfrase são apresentados lado a lado. Inclui notas críticas [...] em dois volumes. Por Samuel Clarke [...] Volume 1 de 2.] Paráfrase é uma prática tradutória antiga. |
Em 1680, Dryden já considerava a paráfrase como uma boa forma de traduzir sentido-por-sentido, diferente da metáfrase, tradução ao pé da letra ou imitação, que corre o risco de abandonar (ou se afastar) completamente do texto original (Munday 2005: 25). Já que a equivalência formal de sentido é inatingível e a equivalência dinâmica pressupõe a adaptação necessária às expectativas de um público-alvo diferente (Nida 1964), pode-se considerar que uma tradução bem-sucedida é uma espécie de paráfrase interlinguística. Como pontuado por Baker (1992: 41), “[the] main advantage of the paraphrase strategy is that it achieves a high level of precision in specifying propositional meaning” [o principal benefício da estratégia de paráfrase é que ela atinge um alto nível de precisão ao especificar o significado proposicional]. Kussmaul (1995: 28) observou que as soluções mais criativas para problemas de tradução registrados em protocolos verbais surgiam quando os/as tradutores/as em formação estavam parafraseando o texto-fonte. Ele também sugere que “the phase of understanding the source text is linked up with the phase of producing the translation via paraphrasing” (Kussmaul 1995: 31) [a fase de compreensão do texto-fonte está ligada à fase de produção da tradução por meio da paráfrase]. A paráfrase como uma estratégia efetiva é frequentemente mencionada quando estudamos a atividade de interpretação. Seleskovitch (1976:103) observou que, ao enfrentar dificuldade em encontrar equivalentes na língua-alvo, os/as intérpretes recorrem à paráfrase das palavras do/a orador/a.
Alguns/as teóricos/as dos Estudos da Tradução destacam que a tradução interlinguística envolve muito trabalho intralinguístico. Algumas pesquisas sobre o processo tradutório utilizando keylogging (registro de teclado e mouse) e rastreamento ocular revelaram como tradutores/as reformulam e revisam o texto-alvo, seja durante a revisão online ou na revisão final (Jakobsen 2017) e edição. A habilidade de parafrasear o conteúdo informativo e ajustar o texto às necessidades e expectativas de um novo público também é importante durante a pós-edição de traduções automáticas. Pym (2013: 490) previa que, em práticas tradutórias altamente tecnologizadas, o trabalho intralinguístico seria predominante, já que grande parte da tradução interlinguística seria realizada por programas de tradução automática. Whyatt e Naranowicz (2020) apresentaram evidências de que tradutores/as transferem suas habilidades metacognitivas de planejamento, monitoramento e revisão para a paráfrase intralinguística. Contudo, essa transferência se torna mais eficaz quando se alcança um certo nível de experiência. Zethsen (2009) também destacou que os/as tradutores/as estão bem preparados/as para adaptar textos intralinguisticamente.
No contexto da Tradução Automática, parafrasear o texto de entrada serve para aumentar as chances de gerar correspondências mais precisas durante o processo interlinguístico (Barreiro 2010). Além disso, a pré-edição de textos através da paráfrase de seu conteúdo também faz parte do fluxo de trabalho dos/as tradutores/as da União Europeia (UE) ao lidar com documentos.
Não é fácil responder à pergunta sobre qual seria o lugar da investigação científica da paráfrase enquanto um processo de reformulação de significado. Conforme exposto nas seções anteriores, a natureza onipresente da paráfrase faz com que ela seja do interesse de diversas disciplinas relacionadas à linguagem e interessadas em comunicação efetiva. Os Estudos da Tradução consideravam como uma obviedade que o significado era parafraseado e reformulado em outra língua para possibilitar a comunicação. Apenas recentemente reconheceu-se que uma reformulação similar de significado pode ser necessária para superar barreiras de comunicação dentro de uma mesma língua. A paráfrase é do interesse dos Estudos da Comunicação e tem sido explorada no contexto da comunicação entre pessoas especialistas e leigas. Wolfer, Hansen-Morath e Konieczny (2015: 263) investigaram a inacessibilidade linguística de textos jurídicos na Alemanha e concluíram que sua complexidade sintática, com múltiplas subordinações, palavras pouco conhecidas e inúmeros elementos discursivos “stands in contrast to the highly relevant function the jurisdictional system fulfils in modern democracies” [contrastam com a função de grande relevância que o sistema jurisdicional exerce nas democracias modernas]. Os/As autores/as utilizaram rastreamento ocular para testar se o desmembramento de frases complexas reduziria o esforço cognitivo de leitura. Ao final, concluíram que seria muito melhor se esses tipos de texto fossem originalmente escritos de modo claro e acessível. Simonsen (2014: 3) teceu uma crítica semelhante com relação à complexidade desnecessária e ao uso inoportuno de jargão especializado ao investigar a ambiguidade sintática causada por expressões ambíguas em manuais técnicos e folhetos informativos. Schmid (2008: 71) e Zethsen (2009: 806) afirmam que se textos científicos são disponibilizados para um universo mais amplo de leitores/as, eles deveriam ser reformulados em Linguagem Simples, considerando que não se pode esperar que o público geral tenha o mesmo nível de conhecimento que especialistas no assunto.
A paráfrase é uma habilidade valorizada na educação, na aprendizagem de línguas e, é claro, na formação de tradutores/as e intérpretes. Whyatt, Stachowiak e Kajzer-Wietrzny (2016) utilizaram a metodologia de pesquisa em tradução no projeto Paratrans em larga escala e apontaram as semelhanças e diferenças de processamento entre o esforço cognitivo empregado na tradução interlinguística e na tradução intralinguística. Os resultados mostraram que a tradução interlinguística exige muito mais cognitivamente em decorrência da necessidade de alternar entre línguas, mas que essa modalidade, assim como a paráfrase intralinguística, se baseia na mesma habilidade de reformular significado (ver também Whyatt 2018).
Além disso, os/as linguistas computacionais vêm demonstrando um aumento crescente de interesse pela paráfrase. Por exemplo, Vila, Martí e Rodríguez (2014) observaram que os sistemas computacionais apresentam mais dificuldade em detectar conteúdo plagiado quando há níveis mais complexos de paráfrase.
Reflexões teóricas acerca da habilidade humana de reformular significados levantam questões fundamentais em relação à natureza simbólica e flexível da linguagem humana e sobre o modo como os significados são construídos na mente de usuários/as de línguas. Portanto, a paráfrase possui um enorme potencial de pesquisa, já que se trata de uma habilidade cognitiva sensível às necessidades do/a usuário/a.

