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Introdução | Época medieval | Séculos XVI e XVII | O século dezoito, um período de transição | De meados do século XIX ao primeiro terço do século XX | Do Estado Novo aos nossos dias | Conclusões | Potencial de investigação
As relações luso-espanholas estiveram marcadas por momentos de intenso contacto que alternaram com outros de profunda apatia. Apesar da proximidade geográfica e histórica, Portugal e Espanha têm vivido de costas viradas durante longos períodos da sua história. Esta imagem penetrou na consciência coletiva de ambos os povos até tornar-se um lugar-comum. O tópico reflete a desconfiança de Portugal perante a Espanha após a época da Monarquia Dual ou União Ibérica (1580-1640), cristalizada no provérbio De Espanha nem bom vento nem bom casamento; por outro lado, também revela certo ar de menosprezo e superioridade da Espanha com respeito a Portugal. Os pesquisadores costumam usar palavras como afastamento, desconhecimento, hostilidade, ignorância, indiferença ou receio para caracterizar estas relações.
Produto dessa distância, mais mental do que física, foi o desinteresse pelas manifestações culturais do outro que envolve o lamento quase obrigatório daqueles que procuram neutralizar esta situação. Os exemplos vêm de longa data e podem encontrar-se na maioria das publicações que tratam das relações literárias entre ambos os países. Em Babel ibérico, antologia que visa recopilar um conjunto de textos entre Espanha e Portugal (2006) e Portugal e Espanha (2008) através da atividade tradutória, Xosé Manuel Dasilva julgou o seu trabalho “útil para reconstruir o desenvolvimento histórico dos contactos entre os dois países” e acrescentou na introdução ao primeiro volume que “também pode ajudar a amenizar o afastamento quase constante de ambos” (Dasilva 2006: 6-7).
Poucos anos depois, Carlos Clementson, no prólogo à sua antologia bilingue de poesia portuguesa, Alma minha gentil (2009), afirmou que “ambos os povos sempre viveram de costas viradas, como dois sapatos na mesma caixa” e assinalava o convencionalismo de “iniciar qualquer estudo ou aproximação intelectual a essa cultura irmã e quase siamesa […] referindo-se a essa espécie de secular fatalidade” que acompanhou ao longo da história ambas as comunidades ibéricas, embora reconhecesse que, nas últimas décadas, “assistimos a um franco processo de paulatina ruptura de tão secular falta de comunicação” (Clementson 2009: 11-12). Porém, como apontado por Pilar Vázquez Cuesta na nota preliminar de Poesía portuguesa actual (1976), “tão tópica como a irmandade hispano-portuguesa é a afirmação de que, a partir da restauração da independência lusitana em 1640, foi quase absoluto o desconhecimento mútuo entre os dois reinos peninsulares”, para sublinhar a seguir que “a escassez de relações literárias entre Portugal e Espanha nesses quase três séculos e meio de história paralela” não teve “carácter uniforme” (Vázquez 1976: 7).
Do ponto de vista historiográfico moderno, a imagem de “Espanha e Portugal como irmãos de costas viradas” é considerada uma imagem gasta (Cao 2012: 26). Ao longo da história cultural de ambos os países houve contactos reais, embora de intensidade variável, que uma abordagem peninsular talvez possa esclarecer melhor do que a visão tradicional fornecida por cada uma das histórias literárias. A Península Ibérica surge assim como espaço intercultural (Pageaux 2010), um polissistema onde se revela a complexidade das relações entre os sistemas envolvidos e promove o diálogo entre os protagonistas (Sáez 2014). Por razões de espaço, abordamos os contactos entre português e espanhol através da atividade tradutória, sem avaliar o acontecido nas restantes línguas peninsulares; uma atividade que foi influenciada, não só pelas razões antes apontadas, mas também por outras como a proximidade linguística de ambos os idiomas e o bilinguismo luso-castelhano imperante na corte portuguesa desde a segunda metade do século XV até o século XVIII, cuja consequência mais evidente nesses séculos foi a escassez de traduções, sobretudo em Portugal. Este facto foi favorecido pela ideia, que ainda vigora, de que português e espanhol eram idiomas que as classes cultas liam sem dificuldade, o que implicitamente alimentou o desinteresse pelas criações um do outro.
Uma aproximação parecida foi adotada por Xosé Manuel Dasilva no verbete “Literatura Portuguesa” do Diccionario histórico de la traducción en España, editado por Francisco Lafarga e Luis Pegenaute em 2009. Após a época medieval e entre os séculos XVI e XVII, marcados pela política de casamentos entre membros da realeza de ambos os reinos e que culminou com a anexão de Portugal por Filipe II dois anos depois da morte do rei Dom Sebastião na batalha de Alcácer-Quibir (1578), houve um distanciamento no século XVIII, talvez o pior século nas relações hispano-portuguesas, que foi aos poucos melhorando a partir de meados do século XIX. A instauração da democracia depois das ditaduras de Salazar e de Franco, assim como a entrada de Espanha e Portugal na União Europeia em 1986, fez com que se passasse de viver de costas viradas (vivir de espaldas) para andar de mãos dadas (ir de la mano), nova imagem que representa um tempo de interesses comuns e que teve consolidação em 1998 com a concessão do prémio Nobel de Literatura a José Saramago.
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| Afonso X de Castela (1221-1284) [Fonte] |
Os laços familiares e o começo do uso escrito oficial de português e castelhano propiciaram os primeiros contactos entre os dois reinos peninsulares. Afonso X (1221-1284), o Sábio, promoveu a tradução de autores árabes para o castellano e ordenou que fossem compostas em língua vulgar, e não em latim, as grandes obras históricas, astronómicas e jurídicas. Em tempos de seu neto, o rei Dom Dinis (1261-1325), todos os documentos emitidos na Corte foram escritos em língua vulgar e iniciou-se a tradução para o portugués. Por ordem de Dom Dinis foi traduzido, ainda no século XIII, um conjunto de textos jurídicos, a partir dos originais de Afonso X, as Flores de direito, o Foro Real e as Partidas, que constitui a primeira legislação em língua portuguesa (Hörster, Verdelho e Verdelho 2003-2006: 677).
No século XIV, a tradução é praticada largamente entre as diferentes línguas romances da Península, nomeadamente obras historiográficas, religiosas e literárias. De meados do século é a Crónica Geral de Espanha de 1344, em grande parte a versão portuguesa da Primera Crónica General de España, mandada redigir por Afonso X; do castelhano foi traduzido para o português as Vidas e paixões dos apóstolos de Bernardo de Brihuega e o Pobre livro de confissões (1399; Santoyo 2009: 284; 288-289). Por sua vez, os relatos do Ciclo Bretão (também conhecido como Ciclo Arturiano) procedem em castelhano de versões portuguesas de textos franceses; deste tipo de literatura arturiana pode referir-se o Libro de Josep de Arimatea, que derivaria de um livro anterior em galego-português (Santoyo 2009: 293), e a Demanda do Santo Graal, que introduziu este tema em Portugal e serviu de base para a versão castelhana de 1515, embora provavelmente estas versões procedam de um antepassado comum em língua peninsular. A guerra de Tróia teve também muita difusão na Península e deu origem a duas traduções em galego-português que derivam de uma tradução anterior castelhana (Santoyo 2009: 283).
A tradução em prosa de textos latinos clássicos e medievais inicia-se em Portugal no século XV. O desenvolvimento desta atividade, patrocinada pela Casa de Avis, dinastia que sucedeu à dinastia de Borgonha após a batalha de Aljubarrota em 1385, contou com a colaboração de humanistas castelhanos. Numa das missões de Alfonso de Cartagena a Portugal (1421-1423), o futuro rei Dom Duarte (1391-1438) solicitou-lhe a tradução para o castelhano do tratado ciceroniano De inventione e conversaram, com certeza, sobre qual era a melhor maneira de traduzir os textos latinos; as conversas foram publicadas em forma de conselhos no capítulo 99 do Leal Conselheiro, obra miscelânea composta por Dom Duarte antes de morrer. Durante a regência (1439-1448) do Infante Dom Pedro, o cordovês Vasco Fernandes de Lucena verteu para o português, a pedido do Infante, o tratado De senectute de Cícero. O Condestável Dom Pedro de Portugal, filho do Infante Dom Pedro, foi o primeiro português a usar literariamente a língua espanhola, autotraduzindo, em data anterior a 1453, a sua Sátira de infelice e felice vida (ca. 1447). Antes de 1454 encontramos a primeira obra inglesa traduzida em castelhano, a Confysion del amante de John Gower, elaborada por Juan de Cuenca a partir da versão portuguesa de Robert Payn (Santoyo 2009: 338-339).
Na passagem do século XV para o século XVI, sobressai em Portugal a figura do impressor alemão Valentim Fernandes, que contou com a proteção da rainha Leonor de Portugal, irmã de Manuel I (1469-1521). O proémio que Fernandes escreveu para sua tradução do Livro de Nicolao Veneto, editado junto com o Livro de Marco Paulo em 1502, traduz, em grande parte, o prólogo que Alfonso de Palencia escreveu em 1457 para sua Batalla campal de los perros contra los lobos (Fernández e Sabio 2003: 213). Este exemplo confirma a circulação na Península de um conjunto de ideias sobre a tradução que expunham as dificuldades de traduzir o latim e defendiam a transmissão do sentido. No contexto do bilinguismo dominante nas classes cultas de Lisboa, Valentim Fernandes editou em 1501 a Glosa famosissima sobre las Coplas de Jorge Manrique e os Proverbios do Marquês de Santillana, e fez a tradução, a partir do castelhano, do Reportório dos tempos (1518), uma obra que se insere no ambiente das empresas ultramarinas.
Os abundantes casamentos entre membros das casas reinantes de Portugal e Espanha (com dez enlaces na dinastia de Avis), o intercâmbio de estudantes, professores e confessores, junto à expansão do castelhano, originou um bilinguismo literário documentado em Portugal desde o Condestável Dom Pedro. A supremacia medieval do galaico-português como língua poética dos cancioneiros foi deixando lugar a uma maior presença do castelhano ao longo do século XV, sendo já usado no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende (1516) por setenta por cento dos poetas. As condições que favorecem a função de fonte da literatura espanhola explicam-se por razões de domínio e de prestígio. Além de Gil Vicente, que usou o castelhano em doze de seus autos e misturou ambas as línguas em dezasseis outras obras, foram bilingues, entre outros, Sá de Miranda, Luís de Camões, Jerónimo Corte-Real e, já no século XVII, António de Sousa Macedo ou Francisco Manuel de Melo. Dos grandes escritores desta época, apenas três escreveram exclusivamente em português: Bernardim Ribeiro, António Ferreira e Jorge Ferreira de Vasconcelos. Ademais, em Portugal, era comum publicar obras em espanhol, 126 no século XVI, conforme recolhe António Joaquim Anselmo na sua Bibliografia (1926). E essa familiaridade aumentou durante a Monarquía Dual, como documenta Domingo Garcia Peres no seu Catálogo (1890).
O desenvolvimento autónomo do português como língua literária coincide com o predomínio do espanhol, facto que condiciona a produção de traduções. Se consultarmos o primeiro volume de A Tradução em Portugal, de António Augusto Gonçalves Rodrigues (1992), verificaremos que os séculos XVI-XVII encontram-se entre os mais pobres relativamente à quantidade e variedade de obras traduzidas, com 412 títulos entre 1495 e 1700. A maioria delas são obras religiosas em latim ou em espanhol, as duas línguas com maior influência em Portugal até meados do século XVIII. Além disso, notaremos que as elites dominavam o espanhol o que tornava a tradução de obras castelhanas desnecessária, acontecendo que os próprios portugueses traduziam para essa língua, como frei Sebastião Toscano, que traduziu as Confesiones de Santo Agostinho pela primeira vez para o castelhano em 1564 (Marcos de Dios 2007: 48). Era também comum recorrer à autotradução, como Pedro Nunes em seu Libro de algebra en arithmetica y geometria, que tinha escrito em português por volta de 1534 e publicou em castelhano em 1567 “porque a língua Castelhana é mais comum em toda a Espanha que a nossa” (Sabio e Fernández 1998: 65). Isto não quer dizer que não houvesse fluxos textuais entre ambas as literaturas como, por exemplo, a circulação do texto original espanhol em Portugal e a criação “alófona” em Espanha (Dasilva 2017: § 1). Produto desse contacto, que manifesta “um bilinguismo assimétrico ou diglóssico” (Dasilva 2017: § 6), é a forte castelhanização do português desde o século XVI até aos nossos dias em autores como José Saramago (Venâncio 2014).
A literatura religiosa e espiritual circulou em Portugal durante os séculos XVI, XVII e boa parte do século XVIII. As obras de frei Luís de Granada, único escritor espanhol do século XVI que escreveu em português, além do padre José de Anchieta no seu trabalho de missionação no Brasil, tiveram, até 1700, duas edições em latim, dezasseis em espanhol e quatro em português (Rodrigues 1992: 28). O Flos sanctorum (1599-1601) do padre Pedro Ribadeneyra foi traduzido em 1674 e conheceu grande difusão na primeira metade do XVIII. Por sua vez, o Contemptus mundi de Tomás de Kempis foi lido em Portugal desde meados do século XVI na tradução castelhana (Imitación de Cristo) de frei Luís de Granada, que teve pelo menos sete edições até 1649. Diogo Vaz Carrillo assinalava essa dependência para justificar sua Imitação de Cristo (1670) em português: “Nem é digna de se aceitar a escusa de que já anda traduzido na Língua Castelhana; porque, posto que se comunique por este meio sua lição aos que não sabem a Latina, nem todos entendem com perfeição a Castelhana” (Sabio e Fernández 1998: 78).
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| Frei Luís de Granada (1505-1588) [Fonte] | Los Lusíadas, traduzidos por Benito Caldera (1580) [Fonte] |
As traduções de obras portuguesas para o castelhano registam-se em menor quantidade, mas existiram. Podemos destacar o romance de cavalaria Palmeirim de Inglaterra de Francisco de Moraes, composto provavelmente em Paris entre 1540 e 1544 e traduzido em 1547 e 1548; os tratados Da pintura antiga (1548) e Do tirar pelo natural (1549) de Francisco de Holanda, traduzidos pelo pintor português Manuel Denis em 1563; as duas partes da Imagem da Vida Cristã (1563, 1572) de frei Heitor Pinto, a primeira traduzida em 1571 por um tradutor desconhecido e a segunda em 1580 por Gonzalo de Illescas; o livro de viagens autobiográfico, Peregrinação de Fernão Mendes Pinto, redigido entre 1569 e 1578, mas publicado em Lisboa em 1614, foi traduzido por Francisco Herrera Maldonado em 1620 com o título Historia Oriental de las Peregrinaciones de Fernan Mendez Pinto; o tratado de cortesania Corte na aldeia e noites de inverno de Rodrigues Lobo, elaborado em 1619 e traduzido por Juan Baptista de Morales em 1622, e os sete volumes de Sermões do padre António Vieira, traduzidos entre 1678 e 1687 por Francisco de Cubillas Donyaque e Pedro Godoy (Dasilva 2009: 924).
No entanto, o destaque é para o poema épico Os Lusíadas (1572) cuja divulgação foi obra, sobretudo, de tradutores portugueses. Em 1580, ano da morte de Camões e do início da União Ibérica, saíram duas traduções patrocinadas, respetivamente, pelas universidades de Alcalá de Henares e de Salamanca: a primeira do português Benito Caldera e a segunda do andaluz Luis Gómez de Tapia, que foi também o primeiro anotador de Os Lusíadas. Sem um interesse cultural comum, não poderiam entender-se estas duas versões quase simultâneas do poema, que teve no século XVI tantas traduções em castelhano como edições em Portugal. A terceira tradução, do português Henrique Garcés, embora elaborada no Peru, apareceu em Madrid em 1591. Estas traduções introduziram numerosos cultismos em espanhol e ajudaram a universalizar o poema antes de ser traduzido em outras línguas. A divulgação de Os Lusíadas em Espanha culmina com a edição comentada do também português Manuel de Faria e Sousa, publicada em Madrid em 1639, um ano antes da restauração da independência de Portugal, que inclui a primeira tradução em prosa do poema.
O século dezoito, um período de transição
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| Dom Quixote, tradução anónima (1794) [Fonte] |
O século XVIII pode ser considerado o século da transição na história dos contactos entre Portugal e Espanha devido a questões políticas, herdadas do século anterior, e a uma nova sensibilidade literária. Isto se observa na escassa receção da literatura portuguesa em Espanha: do padre António Vieira foram traduzidos os Sermones varios (1711-1716, 21 vols.) e a Historia de lo futuro (1726), assim como a Carta de guía de casados (1724) de Francisco Manuel de Melo, autores ambos do século XVII; o Verdadero método de estudiar de Luís António Verney (1760-1768, 5 vols.) e várias obras de Teodoro de Almeida (Dasilva 2009: 925-926). Camões e Os Lusíadas não interessaram neste século e será preciso esperar até 1818 para encontrar a quarta tradução em verso do poema, de Lamberto Gil, que saiu em dois volumes em Madrid; o terceiro volume, dedicado às Rimas, apresenta a novidade de reunir pela primeira vez em espanhol um corpus representativo da lírica camoniana.
A literatura espanhola em Portugal teve uma receção um pouco maior. O teatro foi o género mais influenciado pelas tendências literárias da Espanha durante o século XVII e a primeira metade do XVIII. Dos autores teatrais, Calderón de la Barca foi o mais representado e traduzido: O Alcalde de si mesmo (1783), Affectos de odio e amor (1783?), Comedia nova intitulada Apelles e Campaspe (1784), O Lavrador honrado (1784), O héroe lusitano. Príncipe constante e martyr (1794) e Ninguém fie o seu segredo (1797). A influência das comédias de capa e espada, com personagens como “o gracioso”, será patente na estrutura de muitas produções setecentistas. Dentro dessa corrente sobressai a Vida de D. Quixote (1733) de António José da Silva, comédia inspirada na segunda parte do romance cervantino. Curiosamente, Dom Quixote de la Mancha não será traduzido em português até 1794, em versão anónima posterior a outras traduções de Cervantes: Historia nova, famosa e exemplar da Hespanhola ingleza (1748), Historia do curioso impertinente (1783), Historia do amante liberal (1788). Outras obras traduzidas neste século são: o Lazarozinho de Tormes (1721), as Saudades de Inés de Castro… com o Poliphemo (1734) de Góngora, o Theatro crítico universal (1746) do padre Feijoo, a Vida e acções celebres e graciosas do Gusmão de Alfarache (1792-1793, 3 vols.) de Mateo Alemán ou as Fábulas (1796) de Iriarte (Sabio 2009: 211-212). Esta tendência aumenta no período de 1780-1850 em que, conforme Cao (2016: 464), se registam 484 títulos em Portugal, dos quais 301 são traduções publicadas de forma autónoma; assim, esta autora conclui que o desconhecimento da literatura espanhola em Portugal é menor que o acreditado e, portanto, obriga a repensar o estado das relações literárias entre os dois países nesses anos.
De meados do século XIX ao primeiro terço do século XX
Durante o período liberal ressurge o interesse pela literatura de cada país graças ao ensaio La Iberia (Lisboa, 1851) de Sinibaldo de Mas, que foi traduzido para o português, em 1852, por Latino Coelho. Esta obra estimulou o sentimento iberista na Península, que teve novo impulso nas comemorações tanto do tricentenário da publicação de Os Lusíadas (1872) e quanto da morte de Camões (1880) auspiciadas pelo Partido Republicano português. De 1872 é a tradução em verso de Os Lusíadas do Conde de Cheste. Pouco depois, apareceram as traduções em prosa de Carlos Soler y Arqués (1873) e de Manuel Aranda y Sanjuán (1874), e foi elaborada a tradução em verso inédita de Gabriel García Tassara, que poderia ter sido a quarta tradução espanhola impressa num período de quatro anos (Extremera e Sabio 1990). Além de Camões, segundo recolhe Cao (2008: 35-42), até 1890 são traduzidos os românticos Almeida Garrett (Fray Luis de Sousa, 1859, 1890; Viajes por mi tierra, 1861), António Feliciano de Castilho (Los celos del Bardo, 1870), Camilo Castelo Branco (Amor de perdición, 1872), e, sobretudo, Alexandre Herculano (El Monasticón. Eurico el Presbítero, 1845, 1875; Páginas de Iberia. El Monasticón II. El monje del Císter, 1877, e algumas das Leyendas y narraciones). Destes escritores, Castelo Branco será o mais divulgado a partir da década de quarenta do século XX.
No que diz respeito à literatura espanhola traduzida em Portugal, conforme documenta Rodrigues (1992, 1993, 1994), encontramos desde 1848, em revistas, traduções de poesias de José de Espronceda, do Duque de Rivas e de José Zorrilla. Outros escritores traduzidos são Fernán Caballero (A filha do Sol, 1851; A gaivota, 1871), Mariano José de Larra (Noites de amor e ciúmes, 1859), Pedro Antonio de Alarcón (O chapéu de três bicos, 1871) ou Juan Valera (Pepita Jiménez, 1875). Em 1876 e 1878 foi publicada a segunda tradução portuguesa do Quixote, que teve uma elaboração acidentada e é conhecida pelos apelidos dos três tradutores como Castilho-Azevedo-Chagas. De 1877-1878 é a tradução do Visconde de Benalcanfor publicada em Lisboa e realizada com Luis Bretón y Vedra, que ajudou na interpretação do texto. Antes de terminar o século, em 1888-1889, apareceu a tradução de José Carcomo
Os anos entre 1890 e 1936 são especialmente significativos para as relações literárias hispano-portuguesas. Este período, que se inicia com o Ultimato britânico de 1890, inclui a Guerra hispano-americana de 1898 e coincide com a Idade de Prata da literatura espanhola, inaugura um “novo paradigma” nos intercâmbios entre os dois países na época do modernismo e das vanguardas. Alentados por republicanos e iberistas, encontramos uma “genealogia” de autores portugueses e espanhóis que se propuseram construir “o edifício da aproximação peninsular”, mas esse esforço “não conseguiu eliminar a imagem de vizinhos que não se davam bem” (Sáez 2014: 26-27).
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| José Maria Eça de Queirós (1845-1900) [Fonte] |
Dos membros da Geração de 70, introdutora do Realismo em Portugal, foi traduzida em 1894 a Historia de la civilización ibérica do historiador Oliveira Martins e, sobretudo, a obra de José Maria Eça de Queirós, dos poucos escritores lusos com presença constante, embora intermitente, nas letras espanholas (Losada 2010): a receção começa no século XIX (Crimen del Padre Amaro, 1875, 1882; 1884, com o título de El crimen de un clérigo; El primo Basilio. Episodio doméstico, 1884; La reliquia, 1887, 1892; El mandarín, 1880, a obra mais divulgada com numerosas traduções até 2013), continua no primeiro terço do século XX, entre 1910 e 1930, até culminar em 1948 com a tradução das Obras Completas por Julio Gómez de la Serna, e é retomada a partir de 1980, em grande medida, com reedições de traduções anteriores. Os Maias, a sua obra-prima, só teve segunda tradução em 2000, Los Maia, por Jorge Gimeno, que foi também o tradutor de El primo Basilio (2005).
Andrés González Blanco, Julio Gómez de la Serna, Francisco Villaespesa, Wenceslao Fernández Florez, Eduardo Marquina ou Ramón María del Valle-Inclán traduziram Eça de Queirós com maior ou menor grau de exatidão; porém, todos eles são fundamentais, com Miguel de Unamuno ou Ignasi Ribera i Rovira, na divulgação da cultura portuguesa do primeiro terço do século XX, como Emilia Pardo Bazán e Curros Enríquez no último terço do século XIX. Depois de Eça de Queirós, Eugénio de Castro, o poeta de Oaristos (1890), foi o escritor mais traduzido deste período sendo suas Obras Completas publicadas em 1922, com traduções de Unamuno, Villaespesa, González Olmedilla, Maristany ou González Blanco (Sáez 2014: 35-36).
Outro poeta muito divulgado durante esses anos foi Teixeira de Pascoaes, o criador do Saudosismo, bem representado na antologia Las cien mejores poesías líricas de la lengua portuguesa (1918) de Fernando Maristany (Gallego 1996 88-96; Sáez 2014: 38-39). A poesia de Pascoaes foi traduzida também em tomo independente da coleção Las mejores poesías (líricas) de los mejores poetas, publicada entre 1916 e 1932 pela editora Cervantes, assim como Guerra Junqueiro, Antero de Quental, Gomes Leal e Camões. Outras antologias de poesia portuguesa são Pequeña antología de poetas portugueses de Díez-Canedo (1909?), Antología de la lírica portuguesa, editada por Martín Manrique (1928), que recolhe poesia de todos os tempos em tradução de vários tradutores, e Noventa y siete sonetos portugueses de José María de Cossío (1933). As revistas Cervantes, Cosmópolis, La Pluma, Alfar e La Gaceta Literaria tiveram também um papel de relevo na receção de poesia portuguesa (Gallego 1996: 89).
Neste período são traduzidos alguns romances de Júlio Dinis, escritor de transição entre o Romantismo e o Realismo; os contos Mis amores de Trindade Coelho, vindos à tona pela vez primeira em 1899 e depois em 1919; algumas peças de Júlio Dantas, em tradução de Villaespesa, e várias obras de Raúl Brandão, entre elas Humus (tradução de Ribera i Rovira, 1925?), novela considerada precursora do existencialismo em Portugal. Dos escritores espanhóis, Vicente Blasco Ibáñez ocupa lugar de destaque no meio literário português (Sáez 2007: 127) e Ramón Gómez de la Serna e suas greguerias gozarão de grande aceitação, até se tornar o autor mais conhecido e divulgado em Portugal da nova literatura em língua espanhola (Sáez 2014: 42).
Do Estado Novo aos nossos dias
O início do Estado Novo de Salazar e os anos da Guerra Civil Espanhola estiveram marcados pelas relações de propaganda entre ambos os países, relações que serão superficialmente amistosas durante as respetivas ditaduras. Para estudar os intercâmbios entre Espanha e Portugal durante o Estado Novo (1933-1974) é imprescindível consultar o projeto Intercultural Literature in Portugal 1930-2000: a Critical Bibliography, uma iniciativa do Centro de Estudos de Comunicação e Cultura da Universidade Católica Portuguesa e do Centro de Estudos Anglísticos da Universidade de Lisboa, que abrange os anos entre 1930 e 2000 e que regista para o período de 1930 a 1986 quase vinte e cinco mil referências de obras traduzidas (CECC e CEAUL/ULICES 2010).
Segundo Dionisio Martínez Soler, a receção da literatura espanhola em Portugal entre 1940 e 1990 esteve marcada pela escassez quantitativa e qualitativa de traduções. Por exemplo, a obra de Antonio Machado não se traduz até 1989 por José Bento, graças ao apoio de instituições governamentais de Espanha, e com exceção de García Lorca e, mais moderadamente de Vicente Aleixandre, não se traduzem os poetas da Geração de 27 (Martínez 2000: 79). Martínez aponta como principal causa que a literatura espanhola tenha sido considerada rival dentro do cânone mundial e relaciona esse facto com a reciprocidade das importações literárias através da tradução e com o acesso à língua espanhola pelo leitor português, outro lugar-comum na história das relações culturais de ambos os países. Incluir obras de escritores espanhóis no corpus digno de traduzir e, portanto, de preservar e canonizar precisa de “justificação” e a principal é que sejam obras e autores que tratem temas portugueses (Martínez 2000: 84).
Nesse sentido, os autores mais traduzidos são Miguel de Unamuno, pelos vínculos com Portugal: Do sentimento trágico da vida (1953, 1989), A Tia Tula (1965), A agonia do cristianismo (1975, 1991), Por terras de Portugal e da Espanha (1989), Névoa (1990); García Lorca, pela faceta de poeta popular e vítima da Guerra Civil: traduzido em revistas desde 1936, o primeiro corpus amplo de poesias é a Antologia Poética (1943) de Eugénio de Andrade, que fez nova tradução em 1968, Trinta e seis poemas e uma aleluia erótica; até 1993 não aparece outra antologia, desta vez de José Bento; do teatro foram traduzidas entre outras obras: Yerma (1955), A Casa de Bernarda Alba (1957), O Público (1989); e, por fim, Camilo José Cela, por retratar uma Espanha violenta que se ajustava aos estereótipos que tinham os portugueses da cultura espanhola: A família de Pascoal Duarte (1952), A colmeia (1965), Mazurca para dois mortos (1983). Durante esses anos e até aos nossos dias continuam as traduções do Quixote (Sabio 2018): Aquilino Ribeiro (1954-1955), Daniel Augusto Gonçalves (1978), Albertina de Sousa (1991), Daniel Augusto Gonçalves e Arsénio Mota (1999), Adelino dos Santos Rodrigues (s.d.), Miguel Serras (2005) e José Bento (2005).
Por sua vez, Os Lusíadas conheceram novas traduções em espanhol. A adaptação em prosa para crianças, realizada por Manuel Vallvé em 1914, inaugura as traduções do poema no século XX e foi precursora da tradução de 1934, também em prosa, de Pedro González Blanco. Em 1955, apareceu a tradução em verso de Ildefonso Manuel Gil, que voltou a traduzir o poema em 1982. De 1964 é a única tradução completa em catalão do poema, escrita em oitava-rima por Guillem Colom e Miquel Dolç. Coincidindo com o quarto centenário da morte do poeta apareceu em 1980, em edição bilingue, a tradução de Aquilino Duque, revisada e novamente publicada em 2016. A tradução de Os Lusíadas de Benito Caldera (1580) tem sido reeditada duas vezes: em 1986 por Nicolás Extremera e José Antonio Sabio e em 2007 por Elena Losada, que também reeditou a tradução da lírica de Lamberto Gil (1818) e traduziu o Auto de Filodemo e três cartas de Camões. Antes, em 1998, Xosé Manuel Dasilva e Isabel Morán traduziram o Auto dos Anfitriões.
Gavilanes (1999) tem estudado a receção da literatura portuguesa na Espanha entre 1970 e 1990. Este autor constata um maior número de traduções de obras portuguesas em termos absolutos, porém, em termos relativos, a situação não é tão propícia: durante esse período os livros portugueses não atingiram um por cento da produção editorial espanhola (Gavilanes 1999: 92), situação que, aliás, não difere muito da literatura espanhola em Portugal (Comellas 2007). A inversão de tendência regista-se em Portugal a partir de 1990, com quarenta e dois títulos traduzidos (Guardiola 1990), graças às relações institucionais entre ambos os países e aos novos projetos editoriais. Publicações Dom Quixote, Companhia das Letras, Assírio & Alvim, Cavalo de Ferro ou Edições Teorema, assim como uma plêiade de pequenas editoras, divulgam desde então os nomes dos escritores espanhóis contemporâneos.
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| Fernando Pessoa (1888-1935) [Fonte] | José Saramago (1922-2010) [Fonte] |
O interesse pela literatura portuguesa na Espanha a partir dos anos oitenta do século XX está ligado ao sucesso da obra de Fernando Pessoa e de José Saramago. É impossível recensear todas as traduções de Pessoa poeta, ficcionista e ensaísta. Das traduções de poesia destacamos as antologias gerais de Rafael Santos Torroella (1972), Miguel Ángel Viqueira (1981), Ángel Crespo (1982), que já tinha traduzido os poemas de Alberto Caeiro (1957), José Luis García Martín (1982), José Antonio Llardent (1982), Ángel Campos Pámpano (2001) ou Paco Moral (2016), sem referirmos as numerosas traduções de cada um dos heterónimos e da restante obra ortónima, de que citamos Mensaje (1997), em tradução de Jesús Munárriz, e a mais recente de Manuel Moya (2017); o conto El banquero anarquista é o mais traduzido da prosa de ficção, tendo sido realizado pelos seguintes tradutores: Domingo Santos (1983), José Antonio Llardent (1983), Miguel Ángel Viqueira (1986), Jorge Gimeno (2001), Jorge García Bedia (2011), a que lhe segue El libro del desasosiego, traduzido por Ángel Crespo (1984), Perfecto E. Cuadrado (2002) e Antonio Sáez Delgado (2014), a partir de uma nova edição crítica.
José Saramago, o primeiro e até agora único escritor em língua portuguesa a que foi atribuído o Prémio Nobel de Literatura, teve dois tradutores principais na extraordinária receção que teve na Espanha: Basilio Losada foi o seu tradutor desde El año de la muerte de Ricardo Reis (1985) até Ensayo sobre la ceguera (1996) e Pilar del Río a sua tradutora a partir de Todos los nombres (1998) até Alabardas (2014), romance que Saramago deixou inacabado antes de morrer em 2010. Miguel Torga, outro escritor de raízes profundamente ibéricas, tem conhecido duas grandes etapas: a primeira inicia-se com a tradução do livro de contos Bichos (1946) por María Josefa Canellada e continua com Pilar Vázquez Cuesta desde 1949 até 1984, ano da publicação de sua tradução completa dos Poemas ibéricos em edição bilingue; a segunda etapa parte de meados dos anos oitenta e centra-se na tradutora Eloísa Álvarez e na editora Alfaguara. É agora que Torga começa a ser mais lido, graças à continuidade na publicação de algumas das suas obras narrativas e autobiográficas: La creación del mundo (1986), Cuentos de la montaña (1987), Piedras labradas (1987), Diario 1932-1987 (1988), Rúa (1994), Diario 2 (1997), Bichos (1998) e Poemas ibéricos (1998).
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| Basilio Losada (1930-) [Fonte] | Ángel Crespo (1926-1995) [Fonte] |
Eloísa Álvarez é também divulgadora da literatura espanhola em Portugal: em 1994 publicou, junto a António Apolinário Lourenço, História da Literatura Espanhola (Lisboa: Edições Asa). Na Espanha, contamos com três histórias da literatura portuguesa da autoria de Ángel Marcos de Dios e Pedro Serra (Salamanca: Luso-Española de Ediciones, 1999), José Luis Gavilanes Laso e António Apolinário (eds.) (Madrid: Cátedra, 2000) e a coordenada por María Jesús Fernández García (Mérida: Gabinete de Iniciativas Transfronterizas, 2011).
Outros autores bem representados nas letras espanholas, embora com menor projeção que Miguel Torga, são o poeta Eugénio de Andrade e os romancistas Fernando Namora e Vergílio Ferreira. O escritor mais traduzido nos últimos anos é António Lobo Antunes, com doze traduções de Mario Merlino publicadas pela editora Siruela, desde Tratado de las pasiones (1995) até Auto de los condenados (2003), revisadas pela também tradutora Dolores Vilavedra para as reedições aparecidas nos selos Mondadori e Debolsillo. A partir de 2010, Antonio Sáez Delgado tornou-se o tradutor de Antunes para a editora Literatura Random House, com sete traduções sendo a última Para aquella que está esperándome sentada en la oscuridad (2021). Entre os romancistas merecem ser citados pela sua ampla divulgação nos nossos dias: Gonçalo M. Tavares, que tem em Ana Rita da Costa García a sua principal tradutora, El reino (2018) recolhe quatro novelas Un hombre: Klaus Klump, La máquina de Joseph Walser, Jerusalén e Aprender a rezar en la era de la técnica, ou Un viaje a la India (2014) e Una niña está perdida en el siglo XX (2016), traduzidas por Rosa Martínez Alfaro; e José Luís Peixoto Nadie nos mira (2001), tradução de Bego Montorio, ou Una casa en la oscuridad (2008), por Antonio Sáez Delgado.
Lembremos, por fim, o papel das antologias na divulgação de poetas e correntes poéticas. Em Portugal, sobressai o vulto de José Bento, primeiro tradutor de A Celestina (1988) para o português e prolífico divulgador de poesia clássica e moderna: Antologia da poesia espanhola contemporânea (1985), que abrange o século XX; Antologia da poesia espanhola do Siglo de Oro (1993, 2 vols.) e Antologia da poesia espanhola das origens ao século XIX (2001). Na Espanha, já na segunda metade do século XX, encontramos Antología de la nueva poesía portuguesa (1961) e Antología de la poesía portuguesa contemporánea (1982, 2 vols.), de Ángel Crespo; Poesía portuguesa actual (1976), de Pilar Vázquez Cuesta; Los nombres del mar. Poesía portuguesa 1974-1984 (1985), de Ángel Campos Pámpano, e, mais perto dos nossos dias, a antologia geral Alma minha gentil (2009), de Carlos Clementson, e Escribiré en el piano. 101 poemas portugueses (2015), antologia traduzida por Jerónimo Pizarro e Nicolás Barbosa, como a anterior em versão bilingue.
O balanço global dos contactos entre Portugal e Espanha através da tradução é moderadamente otimista e vem desdizer o tópico do desinteresse apontado no início deste verbete. A divulgação da literatura portuguesa em Espanha e da literatura espanhola em Portugal foi intermitente, com base em esforços individuais ou com motivo de comemorações que, terminadas, não tiveram a continuidade desejada. Também não houve uma política editorial, bem definida e sustentada no tempo, para selecionar, reeditar e publicar as traduções da literatura de cada país.
Porém, é também certo, como esperamos ter mostrado, que os nossos contactos contam com uma longa tradição e perpassam, com maior ou menor intensidade, todas as épocas, tendo um aumento exponencial de traduções no século XX, especialmente a partir dos anos noventa. Esse trabalho de divulgação foi obra de tradutores de perfil muito variado, na sua maioria anónimos e de escasso protagonismo, que mantiveram vivo o fluxo de traduções e a presença de escritores de um país e de outro até aos nossos dias. Muitas traduções são fragmentárias e estão espalhadas por antologias, revistas e miscelâneas. Corresponde aos historiadores da tradução trazer à luz todo esse acervo, ordená-lo, estudá-lo e dar visibilidade aos protagonistas. Além disso, é imperioso rastejar os “abundantes vasos comunicantes” que jazem no subsolo das relações literárias hispano-portuguesas (Cao 2016: 211) e que se manifestam, não só na tradução, mas também numa intertextualidade de temas, géneros e modelos que devem ser explorados pela literatura comparada.
Temos estudado os contactos entre Portugal e Espanha através da tradução de obras literárias. Para isso, adotamos um enfoque peninsular, comparado e diacrónico, para traçar um panorama dos intercâmbios entre ambos os países ao longo da história.
Entende-se aqui pelo termo contacto a relação entre duas culturas e o diferente grau de influências mútuas. O conceito procede da teoria dos polissistemas, formulada por Itamar Even-Zohar a partir dos anos setenta do século XX. Segundo esta teoria, a tradução é um tipo específico de transferência que favorece o contacto e a interferência entre diferentes sistemas literários. Neste sentido, podemos observar a estreita relação entre os estudos de tradução, os literários e os comparatistas.
Esta investigação permite desenvolvimentos promissores nos domínios da história da tradução e da literatura comparada, que compartilham o interesse pelas traduções, designadamente, pela literatura traduzida: na história da tradução, para estudar os tradutores, as traduções em sentido lato e as ideias sobre a tradução; na literatura comparada, para estudar os intercâmbios literários, as presenças e as ausências, assim como a transferência de temas, géneros e modelos. Outros desenvolvimentos poderiam encontrar-se na história da receção, para explicar o impacto das traduções e avaliar os seus efeitos na nova cultura, e na história das mentalidades, se nos centrarmos no imaginário ibérico e na visão estereotipada que se tem de cada cultura.
Sendo uma investigação de natureza histórica, é preciso fixar o quadro espacial e temporal a ser analisado e selecionar adequadamente o material de estudo. Um modelo sociológico ocupar-se-ia de estudar o contexto sociocultural das obras traduzidas e as mudanças provocadas pelas traduções no sistema recetor. Outros modelos de natureza descritiva e comparada focar-se-iam na análise de traduções, na relação entre as teorias da tradução e em outras práticas coetâneas, na elaboração de biografias de tradutores, nas concepções da tradução em diferentes períodos, no papel da reedição de traduções e em fenómenos como a retradução, a autotradução e até a não tradução. Contamos com estudos bastante completos para a Idade Média, os séculos XVI-XVII e o primeiro terço do século XX, mas ainda falta muito por explorar e aprofundar nas pesquisas.

![Fray Luis de Granada (1505-1588) [Fuente]. Fray Luis de Granada (1505-1588) [Fuente].](Portugal-Espaa_Imagen2.jpg)

![Dom Quixote, traducción anónima (1794) [Fuente]. Dom Quixote, traducción anónima (1794) [Fuente].](Portugal-Espaa_Imagen4.jpg)
![José Maria Eça de Queirós (1845-1900) [Fuente] José Maria Eça de Queirós (1845-1900) [Fuente]](Portugal-Espaa_Imagen5.jpg)



