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Introdução | Pós-edição e tradução automática | conceito de qualidade e critérios de pós-edição | Processos e ferramentas da pós-edição | Percepções e atitudes sobre a pós-edição | Potencial de pesquisa

 

Introducción  Introdução

No campo dos estudos da tradução, a pós-edição (PE) abrange um amplo espectro de áreas de interesse, variando entre experimentos empíricos que analisam o processo até a avaliação do texto pós-editado como um produto final e sua recepção. A PE também é estudada sob a ótica da didática e da formação, com ênfases na análise das atitudes e percepções sobre o trabalho do/a pós-editor/a. Como podemos ver, a PE traz alguns questionamentos que avaliam, de ângulos diferentes, o papel do ser humano na interação com a máquina, que aparentemente se afasta do campo periférico da tradução e se direciona ao centro (Koponen 2016: 133). A discussão ganha ímpeto quando o resultado da tradução automática recebe o status da primeira versão que será pós-editada pelo/a tradutor/a. Não se pode negar que é uma prática crescente tanto no mundo profissional quanto no ensino da tradução, então é natural que se reflita nos estudos da tradução. Nesse aspecto, podemos pensar na transição da PE da periferia para o centro no processo tradutório como algo que abriu novos e diferentes campos de pesquisa (Vieira, Alonso & Bywood 2019).

TransTech17 - Introduction to post-editing machine translation

Além disso, Nitzke (2019: 26-39) propõe uma revisão dos principais trabalhos realizados nesse campo, iniciando pela análise feita por Krings (2001), um dos primeiros estudos realizados sobre o esforço cognitivo envolvido na PE. Nesse sentido, o trabalho de LaCruz e Gregory (2014) também se destaca. A análise da PE como processo foi feita a partir das seguintes perspectivas complementares.

  • Analisa-se se a experiência do/a tradutor/a influencia o processo da PE de alguma forma (Almeida 2013).
  • Avalia-se o esforço vinculado à tradução em comparação com a PE (O'Brien and Simard 2014).
  • Analisa-se produtividade (Guerberof Arenas 2014). Observa-se o comportamento do pós-editor/a ao decidir a qualidade do texto pós-editado (Carl, Dragsted, Elming et al 2011).
  • Compara-se o esforço percebido pelo/a pós-editor/a com o seu real empenho, incluindo questões de tempo, esforço técnico e cognitivo (Moorkens, O'Brien, da Silva et al 2015, Koglin and Cunha 2019).

De qualquer modo, não podemos esquecer que a PE é desenvolvida inevitavelmente em interação com tecnologias da tradução e, mais especificamente, com a tradução automática. Para autores/as como de la Fuente (2012), Sakamoto, Evans e Torres Hostench (2018) ou Kenny (2018), essa interação é vista até mesmo como uma mudança de paradigma, na qual precisamos nos libertar das representações mais céticas da tradução automática, que a retratam como uma  "mechanised and automated objectification of everything that has become suspect about the linguistic past of translation studies" (Rozmyslowicz 2014: 148). [objetificação mecanizada e automatizada de tudo que se suspeita sobre o passado linguístico dos estudos da tradução]. Nesse novo paradigma, é possível considerar que a tradução automática (e a PE) superaram seu status de ferramenta, uma denominação que é compartilhada, por exemplo, com os dicionários.  Logo, livre desses ‘padrões demoníacos’ que consideram a tradução automática a terceirização máxima do tradutor/a, o que é ensinado pelos avanços tecnológicos na tradução e pela tradução automática deve ser levado para além da agenda instrumentalista, que se concentra nas características técnicas das tecnologias envolvidas (Rozmyslowicz 2014: 148). A partir desse ponto de vista, a PE não deve ser considerada uma exceção.

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[título del epígrafe] Pós-edição e a tradução automática

A pós-edição (PE) é um conceito inevitavelmente associado à tradução automática (TA) e, por consequência, ao seu desenvolvimento ao longo do tempo. A princípio, a PE acontecia em laboratórios de pesquisa, nos quais se desenvolviam os sistemas de TA e era a etapa final na verificação da qualidade do texto gerado por tradução automática. Naquela época, o objetivo da TA era conseguir produzir traduções de alta qualidade, então a PE era vista como uma atividade indesejável. É possível ver isso, por exemplo, no relatório da ALPAC de 1966, quando depois de avaliar os resultados da pesquisa sobre TA por oito anos, foi concluído o seguinte:

The contention that there has been no machine translation of general scientific text is supported by the fact that when, after 8 years of work, the Georgetown University MT project tried to produce useful output in 1962, they had to resort to postediting (ALPAC 1966: 33).

[A afirmação de que não houve tradução automática de textos científicos gerais se fundamenta pelo fato de que, em 1962, após oito anos de trabalho, o projeto de TA da Universidade de Georgetown tentou produzir resultados aproveitáveis e foi necessário recorrer à pós-edição]

Posteriormente, a TA passou a oferecer resultados melhores e algumas organizações internacionais começaram a usá-la. Em paralelo, a PE foi incorporada como uma etapa adicional no processo tradutório. Esse é o caso, por exemplo, da Organização Pan-Americana da Saúde ou da Comissão Europeia (Nitzke 2019: 34-40). No caso da Organização Pan-Americana da Saúde, o serviço de pós-edição é um dos primeiros a ser implementado no mundo e sua eficácia está associada diretamente com a qualidade da  tradução automática baseada em regras, que a organização usa desde 1980. Noventa por cento dos textos produzidos pela organização são traduzidos pela TA e, em seguida, passam pela PE. Desde sua implementação, mais de 88 milhões de palavras foram processadas, com um aumento de 30-50% na produtividade. A Comissão Europeia também adotou a TA relativamente cedo, com a integração da Systran (na sua versão original, baseada em regras) em 1976. O serviço da PE começou em 1995 com o PER-Service (post- èdition rapide), ou pós-edição rápida, e era usado para traduções de urgência. Com a introdução da TA estatística em 2010 e posteriormente, a  tradução automática neural com o sistema de Tradução Automática da Comissão Europeia, a Comissão Europeia afirmou o seguinte:

Our machine translation service produces raw automatic translations. Use it to grasp the gist of a text or as the starting point for a human-quality translation. If you need a perfectly accurate, high-quality translation, the text still needs to be revised by a skilled professional translator.

[Nosso serviço de tradução automática produz traduções automáticas “cruas”. Utilize-a para entender a essência do texto ou como um primeiro passo para uma tradução com qualidade humana. Se você precisa de uma tradução de alta-qualidade e precisa, o texto precisa ser revisado por um/a profissional da tradução/]

  Evolución de la posedición en el tiempo

Pós-edição - Uma Linha do Tempo [Autora: Celia Rico]

A forma como a PE é realizada também evoluiu com o passar do tempo (Garcia 2011: 123). Nos anos 80 e 90, quando a MT ainda não tinha atingido os níveis de qualidade que atingiu no século XXI, o enfoque era em pós-edição simples. O intuito desse tipo de PE era tornar o texto compreensível ao fazer o mínimo possível de mudanças. Essa PE, em específico, foi utilizada em textos que não iriam a público e cujas traduções (e por consequência, a PE) tinham como objetivo entender a essência dos textos. A pós-edição completa não costumava ser feita, já que a TA não produzia resultados bons e os esforços para uma pós-edição completa eram maiores do que fazer a tradução do zero. Essa maneira de compreender a PE está mudando na medida em que usuários/as de TA observam que ela  progride na entrega de melhores resultados. De fato, com o advento da tradução automática neural, a PE tornou-se mais relevante e foi incluída como uma das tarefas do tradutor/a. Assim, com o progresso da TA, a PE passa a cobrir áreas que antes eram exclusivas da TA, a tal ponto que, quando a TA está acoplada às memórias de tradução, a PE torna-se uma maneira alternativa de lidar com os segmentos traduzidos. Dessa forma, como aponta Vieira (2019: 319-320), a evolução do paradigma das primeiras pesquisas sobre a TA muda o enfoque da tradução automática assistida por humanos para a tradução humana assistida pela máquina. Isso põe o/a tradutor/a no centro da produção tradutória, em uma abordagem holística que vê a PE não apenas como um serviço adicional, mas também como uma atividade que vai além da limpeza dos resultados da TA.

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[título del epígrafe] O conceito de qualidade e critérios de pós-edição

Um dos principais problemas na PE é definir o que “qualidade” significa quando estamos falando sobre tradução gerada por máquinas e, subsequentemente, revisada por uma pessoa. Isto é, até que ponto os dois resultados podem ser comparados? Devem ser comparados, de fato?

Originalmente, o sucesso da TA era medido em termos de qualidade obtida em comparação com a tradução humana. Isso veio a ser chamado FAHQMT-Fully Automatic High Quality Machine Translation (Tradução Automática de Alta Qualidade), uma conquista que era claramente impossível nos sistemas de TA mais antigos. Bowker (2019: 453) aponta que qualidade, nesse contexto, era entendida como "the excellence of the machine translation relative to a translation done by a professional human translator". [a excelência da tradução automática em relação à tradução humana profissional]. O teste de qualidade definitivo seria então chegar a igualdade entre TA e a tradução humana (“paridade humana”). Embora seja verdade que a ascensão neural da TA trouxe de volta essa ideia para alguns setores da tradução, não podemos esquecer que no campo dos estudos da tradução existem teorias que preconizam a ideia de que ambas as modalidades são complementares.

Como Bowker (2019) destaca, à medida que as teorias funcionalistas avançam, especificamente com o desenvolvimento da teoria do escopo, o texto final é determinado conforme o propósito que deve cumprir, isto é, a métrica de avaliação da TA deve levar em consideração o uso intencionado do sistema e determinar se o sistema permite uma resposta adequada a certas necessidades e restrições:

MT evaluation metrics should be sensitive to the intended use of the system and determine whether a system permits an adequate response to given needs and constraints (Bowker 2019: 454-455).

Nesse contexto, o produto da PE não deseja mais ser comparável com a tradução humana, mas sim com a intenção do texto. Originalmente, foi Allen (2001), como já visto, que definiu esses dois tipos de PE de acordo com o propósito do texto: PE simples e PE completa. A primeira implica “providing a strictly minimal amount of corrections on documents that usually contain perishable information [and which] are not intended for wide circulation” Allen (2001: 1). [fornecer uma quantidade estritamente mínima de correções em documentos que normalmente apresentam informações perecíveis e cuja proposta não é de circulação ampla]. Quanto ao segundo tipo, a PE completa está vinculada a uma tradução cujo propósito é a disseminação pública. Nesse caso, todas as correções necessárias são feitas para garantir que o texto alcance os critérios necessários para publicação. Os exemplos a seguir ilustram os dois tipos de PE (Sánchez Ramos e Rico Pérez 2020: 82).

  1. Texto-fonte: Explore San Francisco with a bird’s eye view of the city by the bay. Become a Local Expert on a Big Bus Tour. Hilly streets lined with colourful Victorians, eclectic districts from the piers of Fisherman's Wharf to the sunny streets of the Mission, and picture-perfect landmarks from the Golden Gate to the Haight—San Francisco's a treasure trove of must-see sights. Get a lay of the land and take in the City by the Bay on a convenient double-decker bus, hopping off whenever you want to stretch your legs and get a closer look.
  2. Tradução Automática: Explore San Francisco con una vista aérea de la ciudad junto a la bahía. Conviértase en un experto local en un tour de Big Bus. Calles colinas bordeadas de coloridos victorianos, distritos eclécticos desde los muelles de Fisherman's Wharf hasta las soleadas calles de la Misión, y lugares de interés desde la Puerta de Oro hasta el Haight-San Francisco's, un tesoro escondido de lugares de visita obligada. Descubra la ciudad de la bahía en un cómodo autobús de dos pisos y bájese cuando quiera para estirar las piernas y ver más de cerca.
  3. Pós-edição simples: Explore San Francisco con desde una vista aérea de la ciudad junto a la bahía. Conviértase en un experto local en con un tour de Big Bus. Calles empinadas colinas bordeadas de coloridos edificios victorianos, distritos eclécticos que van desde los muelles de Fisherman's Wharf hasta las soleadas calles de Mission District la Misión, y lugares de interés desde el Golden Gate la Puerta de Oro hasta el Haight Street- San Francisco's es un tesoro escondido lleno de lugares de visita obligada. Descubra la ciudad de la bahía en un cómodo autobús de dos pisos y bájese cuando quiera para estirar las piernas y verlo todo más de cerca.
  4. Pós-edição completa: Explore San Francisco con desde una vista aérea de la ciudad junto a la bahía. Conviértase en un experto local en haciendo un tour de con Big Bus. Recorra las calles empinadas colinas bordeadas de coloridos edificios victorianos, los distritos eclécticos que van desde los muelles de Fisherman's Wharf hasta las soleadas calles de Mission District la Misión, y lugares de interés desde el Golden Gate la Puerta de Oro hasta el Haight Street- San Francisco's es un tesoro escondido lleno de lugares de visita obligada. Descubra la ciudad de la bahía sentado en un cómodo autobús de dos pisos y bájese cuando quiera para estirar las piernas y verlo todo más de cerca.

Nesses exemplos, é possível notar como apenas modificações mínimas foram feitas na PE simples com o objetivo de facilitar o entendimento do texto. Algumas correções gramaticais importantes foram feitas, e a tradução de nomes de ruas e lugares também foi revisada. Na PE completa, algumas mudanças também foram feitas para melhorar a qualidade final do texto, mas nenhuma correção estilística foi realizada.

As duas categorias de PE de Allen (2001) são frequentemente tomadas como referência para determinar quais critérios de PE devem ser usados. Entretanto, quando a PE é executada em um ambiente profissional, é necessário definir diretrizes claras que permitam que pós-editores/as trabalhem de maneira coordenada e padronizada. As empresas de tradução costumam disponibilizar guias de PE para propósitos internos, o que faz com que seja praticamente impossível acessá-los. Podemos, porém, indicar pontos básicos que devem ser abordados em guias de PE para poder ajudar os pós-editores/as em suas tarefas. Nesse sentido, as diretrizes devem conter informações nos tópicos a seguir:

  • Quais segmentos devem ser pós-editados.
  • Quanto tempo deve ser dedicado à PE.
  • Que tipos de correções devem ser feitas.
  • Qual é o nível final esperado da PE.

Todavia, vale a pena lembrar que a ascensão da TA neural traz à tona certos aspectos sobre a maneira que a PE é realizada. Para Vieira (2019: 326, 328), já que sistemas neurais produzem textos mais fluentes, talvez seja mais difícil detectar (e corrigir) erros de tradução. A partir desse ponto de vista, a noção de níveis de PE pode perder relevância e conceder espaço para um conceito diferente de revisão de TA, no qual o pós-editor/a se concentra na verificação  do uso correto de terminologia e da tradução. Esse tipo de PE está de acordo com um entendimento de qualidade mais flexível, o chamado “fit-for-purpose”, apontado por Way em 2013. Esse conceito introduz a ideia de que a qualidade final do texto pode ser negociada com base em critérios mutáveis, levando em consideração a tecnologia em uso.

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[título del epígrafe] Processos e ferramentas da pós-edição

O processo de pós-edição pode ser enquadrado em dois paradigmas: um paradigma estático e um paradigma dinâmico e interativo (Vieira 2019: 322). Por um lado, se o consideramos estático, a PE acontece quando o programa de TA gera a tradução e o/a tradutor/a/pós-editor/a intervém no final do processo. Por outro lado, no paradigma dinâmico, a PE acontece em interações contínuas entre o/a tradutor/a/pós-editor/a e a TA. Os/as tradutores/as revisam cada segmento gerado pela máquina enquanto a máquina, por sua vez, incorpora essas revisões em traduções subsequentes.

Abordagens multimodais para a pós-edição da tradução automática

Do Carmo (2017: 188-200) fornece uma análise minuciosa da interação entre ferramentas de tradução assistida por computador (CAT), TA e ferramentas de PE, e o efeito que elas causam no trabalho do/a tradutor/a. Segundo Carmo, o processo de PE sugere um conflito interno para o/a tradutor/a, que está situado entre as exigências externas que convergem na produtividade, e as exigências internas que convergem nos pequenos detalhes e na qualidade. Esse conflito não é resolvido através das listas de erros apontadas por guias, frequentemente utilizados na pós-edição, que desenham uma linha bem definida entre o correto e o errado:

After he has cleared through this conflict and identifies an error, he decides how he will correct those errors, in the places where they appear. So, he clicks on scattered words in the text, and he applies different techniques to correct the words that transport that error. He does this with spot-on, surgical interventions, based on detailed keyboard and mouse selection actions over the words selected (do Carmo 2017: 288).

[Após resolver esse conflito e identificar erros, ele/a decide como serão então corrigidos nos lugares em que aparecem. Ele/a clica em palavras dispersas no texto e aplica técnicas diferentes para corrigir as palavras que transportam um erro, fazendo isso através de intervenções precisas e cirúrgicas baseadas em uma seleção cuidadosa de ações com o teclado e mouse sobre as palavras selecionadas].

Naturalmente, esse processo afeta diretamente a interação dos/as pós-editores/as com as ferramentas usadas. Essas e outras ferramentas vêm sendo estudadas por Forcada e Sánchez-Martínez (2015) e Moorkens e O'Brien (2017). Nesse sentido, podemos mencionar as seguintes iniciativas cujo o objetivo é melhorar o processo da PE:

  • CasMaCat (Cognitive Analysis and Statistical Methods for Advanced Computer Aided Translation). Dentre outros objetivos, esse projeto propõe uma série de experimentos que avaliam a eficácia de diferentes métodos de auxílio interativo para o trabalho do/a tradutor/a. O relatório final do projeto traz informações detalhadas com recomendações sobre vários elementos da interface.
  • ACCEPT (Automated Community Content Editing PorTal). Esse projeto concentrou-se nas seguintes áreas:
    • Novos paradigmas para um material de pré-edição “minimamente intrusivo”.
    • O desenvolvimento de estratégias para o material de pós-edição que, ao invés de depender exclusivamente de tradutores/as formados/as, também conta com habilidades monolíngues de voluntários/as especialistas.
    • O uso de conhecimentos adquiridos no processo de edição e a utilização de análises de texto inovadoras para melhorar as estatísticas das próprias ferramentas de TA.
  • CATaLog (A New Machine Translation and Translation Memory Post-editing Tool). Essa ferramenta de pós-edição foi desenvolvida no âmbito do projeto EXPERT (EXPloiting Empirical appRoaches to Translation) e contém diversas funções de edição e registro no processo de pós-edição. A informação registrada pode ser utilizada tanto para administrar o projeto quanto para o estudo do processo de tradução e o estudo da produtividade do/a tradutor/a.

Percebe-se que a produtividade do/a tradutor/a é um dos principais problemas da PE. Nesse contexto, a produtividade está diretamente relacionada com a qualidade da produção da TA. Quando a qualidade da produção da TA é alta, o/a pós-editor/a irá utilizar menos energia para completar a tarefa e os ganhos produtivos serão altos. Em contrapartida, quando a qualidade da produção da TA é baixa, o esforço para a PE será maior, e como consequência, a produtividade será baixa. Existe um grande corpus que estuda a viabilidade da incorporação da TA como parte da tradução humana e prioriza comparar tradução com ou sem o uso de PE a partir do esforço empenhado e produtividade. Por exemplo, Depraetere, De Sutter e Tezcan (2014) medem o esforço da pós-edição no que diz respeito a quão similar é a produção da TA quando comparada a tradução final, e mostrar que a TA melhora a produtividade do/a tradutor/a, mesmo que ele/ela esteja no início de sua carreira. O estudo também mostra que a TA não apresenta impactos negativos na qualidade da tradução final. Outros estudos que se mostraram pertinentes na relação entre qualidade, esforço e produtividade na tradução automática podem ser encontrados em Guerberof Arenas (2014) e em Koponen (2015) que levam em consideração em que medida o/a tradutor/a humano/a está sendo deixado/a de escanteio no processo de tradução pela TA.

A prática da PE está se tornando cada vez mais comum e embora pareça aumentar a produtividade no quesito velocidade de tradução, a edição de traduções automáticas fracas também pode ser uma tarefa improdutiva. O tópico da produtividade é particularmente relevante quando observamos a PE a partir de uma perspectiva comercial, pois é onde a TA tem uma aplicação mais prática em um ambiente real combinada com outras ferramentas de tradução assistida por computador, como a memória de tradução ou um software de gestão de terminologia. Para Bundgaard e Christensen (2019), essas ferramentas não devem ser vistas como “artefatos isolados”, mas como parte de uma rede complexa. Assim, a combinação desses recursos apresenta um papel mais importante no processo de tradução do que as pesquisas de tradução reconhecem. Em sua pesquisa, os/as autores/as exploram que tipo de recursos da tradução os/as tradutores/as usam em seus trabalhos regulares quando fazem a PE e qual a função preferida dentre as diferentes ferramentas disponíveis. Os resultados mostram que a concordance research (concordanciadores) é o recurso preferido dos/as tradutores/as e que, em alguns casos, essas buscas interrompem o processo cognitivo. Os/as autores/as concluem que as buscas por concordâncias mostram um impacto negativo na produtividade dos/as tradutores/as, embora o impacto na qualidade da tradução seja positivo. 

A partir de um ponto de vista prático, Silva (2014) apresenta uma experiência real de como a incorporação da PE em uma agência de tradução afeta todos os processos. Sua intenção principal é mostrar as dificuldades, as estratégias adotadas e os principais pontos para melhorar o fluxo de tradução. O estudo aponta que a incorporação da TA e da PE podem beneficiar todos os envolvidos no processo de tradução, do/a cliente ao tradutor/a, incluindo a agência de tradução.

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[título del epígrafe] Percepções e atitudes sobre a pós-edição

Um dos assuntos mais debatidos na PE está relacionado às diferentes opiniões e atitudes dos tradutores/as em relação a essa tarefa. Essa questão vem sendo amplamente discutida tanto pela perspectiva acadêmica quanto pela perspectiva profissional. No nível teórico, Sakamoto (2019) propõe um enquadramento que conceitua a relação entre o/a pós-editor/a e o/a tradutor/a, seguindo a tríade conceitual definida pelo sociólogo Bourdieu: habitus, campo e capital. Habitus refere-se à geração de práticas limitadas pelas condições sociais que as sustentam, isto é, um sistema de disposições de agir, pensar e sentir de uma certa maneira. Campo é um espaço social de ação e influência no qual relações sociais específicas convergem, ou seja, uma rede de relações objetivas entre posições. Capital é entendido não só como capital econômico, mas também como capital cultural (que inclui educação e formação acadêmica), capital social (por exemplo, conexões pessoais com pessoas de certas classes sociais) e capital simbólico (que dá ao indivíduo prestígio e legitimidade na forma de, por exemplo, títulos profissionais). Dentro dessa tríade conceitual, a habilidade do indivíduo de ser ativo em um determinado campo é definida pelo seu/sua habitus e capital.

Baseada nessas premissas, Sakamoto (2019) propõe um enquadramento teórico que aborda as questões sociais da pós-edição e as descreve em relação às dos/das tradutores/as (os principais candidatos a tornarem-se futuros pós-editores/as). Em sua conceitualização, percebe-se os/as pós-editores/as como uma nova categoria de trabalhadores/as cuja posição no sistema social da tradução ainda não foi determinada. O ponto de partida é a resistência  dos/as tradutores/as em relação à PE, já que sentem que a incorporação da PE é prejudicial para suas habilidades e identidades profissionais. Essa mudança nas expectativas do que é a responsabilidade dos/as tradutores/as tem gerado medo, desconforto, preocupação e resistência por muitos/as tradutores/as. Ao analisar a percepção de gestores/as de projetos de tradução, websites de agências de tradução e informações contidas em diferentes manuais de tradução, Sakamoto (2019) reinterpreta a proposta de Bourdieu para adaptá-la para a relação entre tradutores/as e pós-editores/as.

Tras analizar las percepciones de un conjunto de gestores de proyectos de traducción, los sitios web de una serie de empresas de traducción y la información contenida en diferentes manuales de traducción, Sakamoto (2019) propone una reinterpretación del diagrama de Bordieu para adaptarlo a la relación que se da entre los traductores y los poseditores.

No modelo de Sakamoto, tradutores/as mais experientes que trabalham em um ambiente tradicional (tradução-edição-revisão) estão em um eixo mais elevado de capital cultural, embora, comparativamente, o peso de seu capital econômico seja menor. Em contraste, a configuração do capital de pós-editores/as é descrita como alta em capital econômica e baixa em capital cultural:

In contrast, post-editors' capital composition is understood as high in economic capital and low in cultural capital, for the [following] reasons: agents around post-editors, i.e. end clients who request a PE service and LSPs which are keen to train post-editors, highly value the cost-saving property of post-editing rather than the intellectual property of the work. Therefore, post-editors are placed near the right pole of the axis (Sakamoto 2019: 210).

[Em contrapartida, a composição do capital para pós-edição é vista como um alto capital econômico e baixo capital cultural por conta do agenciamento sobre a pós edição -- clientes que solicitam serviços de PE e de fornecimento de serviços linguísticos interessados em treinar pós-editores/as-- e pela alta valorização da propriedade da economia de custos da pós-edição em detrimento da propriedade intelectual do trabalho. Portanto, pós-editores/as são posicionados/as no polo direito do eixo]

Para Sakamoto o volume total do capital é determinado pela remuneração. Embora valores concretos não sejam utilizados, os dados coletados indicam que, em geral, a pós-edição é um trabalho menos lucrativo que o trabalho tradicional de tradução. Como resultado, os/as tradutores/as parecem ocupar posições mais elevadas no eixo vertical se comparados aos/às pós-editores/as. Contudo, essas posições não são estáticas e podem mudar com o tempo como resultado de fatores tais como desenvolvimentos tecnológicos e a evolução do ambiente de trabalho tradicional rumo a um modelo baseado em TA. Nessas circunstâncias, existe uma mudança entre as categorias associadas com o “fenômeno de histerese”, que envolve “a disjuncture between the capital possessed by the agent and its new position in the field causes unsettled, anxious and sometimes resentful feelings that operate below the level of consciousness” (Sakamoto 2019: 211). [uma disjunção sobre o capital possuído pelo agente e a nova posição no campo causa sentimentos de inquietação, ansiedade e às vezes ressentimento que operam abaixo do nível da consciência]. É precisamente esse efeito que pode explicar a disjunção entre o capital (cultural e econômico) que o/a agente possui e a nova posição no campo, que, por sua vez, causa sensações de ansiedade, desconforto e ressentimento. De acordo com Sakamoto, é isso que acontece quando é solicitado pós-edição aos/às tradutores/as, já que realizar essa tarefa implica uma mudança de posição no campo, isto é, no espaço de ação e influência social em que eles se relacionam.

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 potencial para la investigación Potencial de pesquisa

A PE proporciona diversas possibilidades de pesquisa dentro do campo dos estudos de tradução.  As diferentes seções abaixo apresentam possíveis linhas de pesquisa:

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