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conteúdo
Introdução | Aporte teórico | Ética para profissionais de tradução | Ética para organizações de tradução | Ética para tecnologias de tradução | Ética para pessoas que pesquisam tradução | Potencial de pesquisa

 

Introduction  Introdução 

A ética, ramo da filosofia que examina questões morais para avaliar se uma ação é certa ou errada, nos últimos anos se tornou um assunto cada vez mais popular e relevante para pessoas que pesquisam tradução e interpretação. Isso pode estar ocorrendo devido a muitas sociedades estarem se afastando das autoridades morais que costumavam orientar a tomada de decisões éticas, deixando-nos a tarefa de resolver tudo por conta própria, ou devido à influência de escritos e discussões éticas de outras áreas. Por exemplo, como a tradução — e a nossa vida, em geral — se tornou mais tecnológica, considerar o valor moral dos nossos usos da tecnologia passou a ser importante, o que resultou na publicação de muitos trabalhos relacionados à ética na tecnologia, refletindo a respeito da coleta e do uso de dados, bem como o uso desses dados para a tomada de decisões. Nos Estudos da Tradução, Koskinen and Pokorn (2020b: 3) definem ética como “the subfield that aims to understand what is good and bad, right and wrong in translatorial praxis [a subárea que visa entender o que é bom e ruim, certo e errado na práxis tradutória]”. 

Routledge Handbook Ethics

Muitas pessoas que pesquisam tradução já escreveram diretamente sobre ética aplicada a um ou mais agentes que atuam como profissionais na área de tradução, mas os escritos fundamentais, conforme resumido por Chesterman (2001), concentram-se na ética relacionada ao texto. A noção de fidelidade ao texto de partida tem sido fundamental e considerada particularmente importante para textos sagrados e, mais recentemente, para a tradução institucional, em que as traduções são vinculadas a aspectos jurídicos e se destinam a ter o mesmo valor que o texto de partida. Essa noção foi criticada por Chamberlain (1988) e por outros pesquisadores e pesquisadoras por ser uma metáfora  misógina e baseada em gênero. A ideia de serviço destaca o objetivo de um texto, trazendo à mente a questão de a quem a tradução deve servir: ao leitor, ao cliente ou a outra parte. De forma semelhante, o grau em que uma tradução adere às normas, expectativas e valores éticos do leitor ou cliente introduz uma dimensão ética aos estudos descritivos da tradução. “On Translator Ethics”, de Pym (2012)  — uma versão traduzida e atualizada do seu livro de 1997 em francês, que popularizou a ética na tradução — analisa os desafios éticos da comunicação e cooperação interculturais e é responsável por transferir o foco de pesquisa do texto para o tradutor. Entre seus “Escândalos da Tradução” que marginalizam o papel do tradutor, Venuti (1998) identifica a situação desfavorável em relação aos direitos autorais da tradução como  profundamente antiética. Koskinen (2000) vê similaridades nas posições de Pym e Venutti ao identificarem que há muitas pessoas envolvidas em relação às quais os tradutores podem ter responsabilidade. No entanto, ela acredita que aplicações da vida real trazem mais complicações inesperadas, para as quais as ideias da ética feminista, pós-estruturalista ou pós-colonial podem ser úteis. Já Tymoczko (2007) aborda as questões de poder e agência para profissionais da tradução. Chesterman (2001: 153), por sua vez, escreve sobre virtude ética e considera a necessidade de um juramento de Jerônimo para profissionais da tradução a fim de “‘promote genuinely ethical professional Behaviour” [“promover um comportamento profissional genuinamente ético”]. Mais recentemente, Koskinen and Pokorn (2021a) editaram o abrangente “Handbook of Translation and Ethics” que inclui considerações de metaética e ética normativa e aplicada (ver a próxima seção) relacionadas à tradução. Lambert (2023) também expande  seu trabalho sobre ética dos tradutores em seu livro “Translator’s Ethics”.

Nossas concepções atuais de ética, ao menos na Europa, derivam sobretudo dos filósofos gregos que viveram há mais de dois mil anos, ainda que discussões éticas apareçam em obras anteriores de muitas origens e culturas, como os Analetos, cuja compilação se supõe ter ocorrido na China na mesma época. Quando Sócrates foi condenado à morte, ele teria dito que “it is not living, but living well which we ought to consider most importante” [“não é viver, mas viver bem que deve ser considerado o mais importante”]. (Platão séc. IV A.C.: 48b). Isso nos leva a considerar a questão do que pode significar viver bem, ou como seria uma vida boa, justa e admirável. Na próxima seção, observo algumas teorias e métodos para guiar nosso julgamento em resposta à declaração de Sócrates.

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[heading title]  Aporte teórico

Os estudos sobre ética geralmente são agrupados em uma de três categorias. No nível mais alto, a metaética considera a natureza e o significado dos julgamentos morais. A ética teórica ou normativa desenvolve teorias sobre como se pode pensar e decidir sobre a maneira certa ou errada de agir. A ética aplicada, como o nome sugere, aplica a ética a situações e cenários da vida real. Já a ética da tecnologia, ética de engenharia, ética de dados e ética de negócios são todas consideradas ramificações da ética aplicada. É também nessa área que provavelmente se situa a maior parte dos trabalhos sobre ética nos estudos da tradução.

Way of Good & Evil
The Way of Good and Evil, [O caminho do bem e do mal] - imagem de "The Puritan ethics” [ética puritana]. [Fonte: Library of Congress]

Voltando à ética normativa, embora existam outras, costuma-se pensar em três subcategorias principais: o consequencialismo, a deontologia e a ética da virtude. O consequencialismo, como o próprio nome sugere, considera as consequências de uma ação. Talvez o exemplo mais usado seja o utilitarismo, a escolha de uma ação baseada no melhor resultado possível. A recente (e de alguma forma controversa) tendência do altruísmo eficaz começou como uma decisão para fins utilitáros sobre as instituições de caridade mais eficazes a apoiar, mas levou algumas pessoas a adotar uma perspectiva de longo prazo, priorizando as instituições que ainda irão nascer e se desenvolver, possivelmente às custas daquelas que já existem. A deontologia refere-se ao uso de um conjunto de regras ou deveres para orientar a tomada de decisões éticas, como é possível observar em uma política de ética profissional. A ética das virtudes surge a partir de Aristóteles, que propôs um conjunto de virtudes, algumas intelectuais, outras morais, que, cultivadas em uma pessoa, levariam ao enriquecimento humano. Até certo ponto, elas necessariamente envolvem ponderar deveres e consequências. A base, no entanto, é que pessoas boas e admiráveis fazem coisas boas, embora o conjunto de virtudes defendidas tenha variado de acordo com o tempo e as condições sociais (Chesterman 2021).

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[heading title] Ética para profissionais de tradução

Como tradutores em formação e participantes de associações de tradutoras e tradutores, é provável que profissionais de tradução aprendam sobre códigos de ética para orientar seu comportamento com base na abordagem da ética deontológica. Há uma grande demanda por literatura sobre ética e tradução para que a ética seja mais amplamente incorporada no ensino de tradução. The European Masters in Translation Competence Framework (EMT Board 2022: 11) exige que os estudantes aprendam a “critically assess and work within the ethical principles […] defined in codes of ethics and guides of good practice” [avaliar e trabalhar criticamente dentro de princípios éticos [...], definidos em códigos de ética e guias de boas práticas], indicando que o aprendizado deve ir além desses códigos e guias. Como escrevem Drugan e Megone (2011: 189) “the point of studying ethics for translators is not that they become philosophers but that they develop good judgement” [o objetivo de estudar ética para tradutores não é que se tornem filósofos, mas que desenvolvam bom julgamento]. De acordo com Lambert (2021: 170, 175),  “a key unanswered question is that of a professional translator’s overall responsibility” [uma questão-chave ainda sem resposta é a da responsabilidade global do tradutor profissional], e os trabalhos futuros devem procurar “embrace both professional and personal, subjective elements, and at least acknowledge the limitations of current codes and ethical provision” [abranger tanto os elementos profissionais quanto os pessoais e subjetivos, reconhecendo ao menos as limitações dos códigos e das disposições éticas atuais].

Os códigos podem ter alguma utilidade, no sentido que introduzem o conceito de ética e oferecem um critério básico para tomada de decisão. No entanto, na prática, a aplicação desses códigos pode ser difícil, já que os critérios “depict an ideal world, but the moral dilemmas are born of a messy and complex life” [retraram um mundo ideal, mas os dilemas morais nascem de uma vida confusa e complexa] (Koskinen & Pokorn 2021b: 4). Esse aspecto se torna evidente sobretudo no âmbito da tradução, visto que “translatorial activities are by definition located in an intersection, in transit areas between entities, and they involve more than one language, culture, readership and interlocutor, they are ripe with bigger and smaller ethical dilemmas” [as atividades tradutórias estão, por definição, localizadas em uma interseção, em áreas de trânsito entre diferentes entidades, e, por envolverem mais de uma língua, cultura, público leitor e interlocutor, encontram-se permeadas por dilemas éticos de maior e menor alcance] (Koskinen & Pokorn 2021b: 4). Em suas análises de códigos de ética, McDonough-Dolmaya (2011) e Lambert (2018) notam que eles são vagos e apresentam inconsistências de um código para outro em relação à imparcialidade e neutralidade de profissionais da tradução. Abdallah (2014) comenta que os códigos podem entrar em conflito com a necessidade utilitarista de obter pagamento e lucro. Drugan (2017) acredita que, na prática, códigos não ajudam profissionais de tradução e interpretação a entender sua ampla responsabilidade social. Em última análise, os códigos de ética não podem ter a expectativa de cobrir todas as situações possíveis em uma “messy and complex life” [vida confusa e complexa]. Lambert (2018: 271) considera problemática a supersimplificação desses códigos sobre tradução (“advising an inexperienced (or experienced) translator to go about their work “thoroughly and responsibly” will by no means guarantee satisfactory, or ethical, results” [que visam a aconselhar um tradutor inexperiente (ou experiente) a realizar seu trabalho “de maneira minuciosa e responsável” de forma alguma garantirá resultados satisfatórios ou éticos]), embora isso possa se encaixar no propósito secundário de “providing reassurance to the client” [transmitir confiança ao cliente].

A intenção de muitos códigos de ética é dar destaque à fidelidade, mas essa noção idealizada de fidelidade ignora questões como precisão e objetividade, já que tradução é sempre, inevitavelmente, uma interpretação, uma re-apresentação e não  uma mera reprodução. Fatores adicionais que estão em jogo são teorizados no modelo de funcionalismo-mais-lealdade de Nord, que descreve as lealdades interpessoais, que ocorrem entre autores e autoras dos originais, iniciantes na tradução e a audiência receptora, podem afetar uma tradução. Outro ponto a ser destacado é a tipologia de normas da tradução de Toury e Chesterman, que descreve fatores externos que podem influenciar a tradução. Pesquisadoras feministas também questionam a presumida fidelidade e objetividade de uma tradução supostamente imparcial, afirmando que muitas traduções tendem a tomar uma posição hegemônica. Em resposta a essa constatação, elas propuseram uma estratégia intervencionista de tradução para ressaltar a existência da pessoa que traduz e tornar evidente que há um posicionamento ideológico. As pesquisadoras feministas também criticam a visão de subordinação do texto de partida, colocado em uma posição “feminina”, enquanto o texto original ocupa uma posição “masculina”. Tal crítica dialoga com a discussão de Venuti (1998) sobre a desvalorização da tradução quando comparada com o texto de partida, conforme disposto na Convenção de Berna (Organização Mundial da Propriedade Intelectual  1886). O tema dos direitos autorais na tradução, central na Convenção de Berna, é frequentemente discutido por pessoas que pesquisam tradução (Cabanellas 2014; Troussel & Debussche 2014; Moorkens & Lewis 2019).

Map Berne Convention
Mapa dos países signatários da Convenção de Berna (em azul) [Fonte]

A Convenção de Berna entende as traduções como trabalhos  derivados que “shall be protected as original works without prejudice to the copyright in the original work” [devem ser protegidos como obras originais, sem prejuízo  dos direitos autorais sobre a obra original] (Artigo 2, WIPO 1886). Nesse sentido, Venuti (1998) argumenta que a Convenção contradiz um princípio fundamental ao conceder proteção jurídica às formas em vez das ideias. A Convenção não define o que constitui uma “obra original”, o que leva a interpretações divergentes em diferentes jurisdições, com base na originalidade presumida da obra. Troussel e Debussche (2014), autores de um relatório útil — e disponível gratuitamente — encomendado pela Comissão Europeia, argumentam que, com base no tipo de texto da obra original ou no skopos da tradução, a pessoa que traduz é levada a  adotar uma abordagem criativa em vez de literal, há embasamento para a elegibilidade por direitos autorais. Eles também afirmam que “the work’s merit or aesthetic do not matter when considering the question of copyright protection” [o mérito ou a estética da obra não importa quando se considera a questão da proteção dos direitos autorais] (Troussel & Debussche 2014: 101).

Cabanellas (2014: 63) identifica outros direitos aplicáveis, indicando que a tradução não pode ser ‘reproduced or further exploited’ [‘reproduzida ou explorada posteriormente’] sem autorização explícita de quem detém os direitos autorais da tradução. Portanto, a pessoa autora do original não pode usar, sem permissão, a tradução como base para traduções posteriores, e a pessoa proprietária dos direitos autorais de tradução detém esses direitos mesmo sobre a tradução de um texto que está fora dos direitos autorais. Isso coloca em questão a legalidade e moralidade do uso difundido de traduções indiretas sem permissão explícita, como é comum na indústria de tradução audiovisual, por exemplo. A Convenção de Berna, no artigo 6, também introduz o conceito de direitos morais, que estão ligados à personalidade e à reputação de um autor ou uma autora, ao lado de seus direitos econômicos ou de exploração (Venuti 1995). Isso permite que a pessoa tradutora se oponha a modificações de um texto que possam ferir sua honra ou reputação, e permite pedir reparação, caso ocorram alterações. Conforme observam Troussel e Debussche (2014), esses direitos morais não são aplicados igualmente em todas as jurisdições da União Europeia.

Troussel e Debussche (2014) também apontam que a Diretiva Europeia sobre Bancos de Dados (European Database Directive) pode permitir a reivindicação de direitos sui generis quando houver um “‘substantial investment in either the obtaining, verification or presentation of the contents” [investimento substancial na obtenção, verificação ou apresentação do conteúdo] (Parlamento Europeu 1996 Artigo 7), por 15 anos depois da edição final do banco  de dados, embora esse investimento deva ser independente dos recursos usados para criar as próprias traduções. Tal proteção daria ao titular o direito exclusivo de reutilizar "by the distribution of copies, by renting, by on-line or other forms of transmission" [por meio da distribuição de cópias, aluguel, transmissão on-line ou por outros meios] ou de extrair a totalidade ou parte substancial de uma base de dados (Parlamento Europeu, 1996). Contudo, na prática, as memórias e as bases de dados de tradução são entregues a empregadores ou clientes devido a precedentes.

Há também a questão da natureza dos direitos autorais de materiais produzidos com a assistência de tradução automática ou de modelos de linguagem em larga escala. Até o momento, não há margem para um processo automático de detenção de direitos autorais, e Troussel e Debussche (2014: 103) opinam que a produção da tradução automática “would not be protected under copyright given that it leaves no room for human creativity and would therefore be deprived of originality” [não seria protegida por direitos autorais, uma vez que não deixa espaço para a criatividade humana e, portanto, careceria de originalidade]. No entanto, a produção de softwares para geração e transformação de textos está mudando rapidamente e, no momento da redação deste artigo, os limites éticos não são claros.

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[heading title] Ética para organizações de tradução

Conforme observado na seção anterior, Drugan (2017) considera a responsabilidade social de profissionais da tradução e de intérpretes individuais, mas e quanto à responsabilidade social corporativa das organizações de tradução? Em nosso trabalho anterior (Moorkens & Rocchi 2021), concluímos que tal responsabilidade encontra-se pouco desenvolvida no setor comercial da indústria da tradução, embora a natureza multifacetada dessa indústria dificulte generalizações. Em outros setores, a teoria das partes interessadas tem sido empregada para avaliar os efeitos das decisões comerciais sobre quem está diretamente envolvido, quem é indiretamente impactado e a sociedade em geral.

A indústria da tradução tem sido um presságio de problemas que posteriormente são observados em outros setores, em termos de precarização, globalização e digitalização. Frey e Osborne (2017) constataram que 47% dos empregos nos Estados Unidos estavam em risco devido à “informatização”, mas o exemplo mais bem-sucedido e visível da (assim chamada) inteligência artificial (IA) até o momento tem sido a tradução automática, afetando a tradução mais do que outras indústrias. O efeito não foi a perda de empregos — não há dados totalmente confiáveis, porém, a julgar por inúmeras pesquisas e censos, parece haver mais pessoas trabalhando com tradução do que antes — embora a tecnologia esteja contribuindo para a redução da remuneração em muitas partes da indústria (do Carmo 2020).

Pirate publisher
The pirate publisher [O editor pirata] [Fonte]

Em nosso trabalho anterior, destacamos a posição central de fornecedores de serviços linguísticos (Moorkens & Rocchi 2021), considerando a relação assimétrica entre profissionais da tradução e tais empregadores, e como isso pode afetar o público final, além de observar como essa relação desigual é refletida na propriedade de recursos. Uma vez que profissionais da tradução são normalmente contratados de forma freelance, de contrato em contrato, pode ser difícil reivindicar melhores pagamentos, direitos autorais sobre a tradução ou condições de trabalho favoráveis, de forma a conseguir uma maior satisfação e trabalhos de alta qualidade. A ausência de tais condições afeta a capacidade de sustentar a tradução como uma opção de carreira atrativa tanto para profissionais quanto para a sociedade.

Como parte de nossa análise, refletimos sobre o trabalho de Melé (2009), que divide o propósito de uma empresa em três categorias. A primeira perspectiva é a de quem comanda a empresa, orientada para a satisfação dos interesses dessas pessoas. A segunda é a das partes interessadas na empresa, que leva em conta diferentes agentes com interesses nas atividades e decisões da empresa. Por fim, a visão do bem comum, como o nome diz, procura contribuir para o bem comum da sociedade. Aderir à perspectiva das partes interessadas ou à do bem comum não significa ignorar os interesses dessas partes, mas olhar além da crença do trabalho somente pelo lucro, e pode ajudar a organização a se tornar uma comunidade de pessoas trabalhando juntas por um objetivo em comum, em vez de uma gama de contratos a serem cumpridos. Adotando a perspectiva da ética da virtude, se a ética puder ser um guia para a excelência humana, a ética empresarial pode ser um guia para a excelência humana dentro de uma organização com tais fins (Melé 2009).

Uma preocupação de Cronin (2021: 281) é o extrativismo de dados (ver a seção seguinte) e uma era insurgente de ‘globotics’ (uma combinação de “globalização” e “robótica”), na qual a “convergence of globalisation and artificial intelligence will lead to radical restructuring of employment markets across the globe” [convergência entre globalização e inteligência artificial levará a uma reestruturação radical dos mercados de trabalho em escala global]. Trabalhos de Moorkens (2020) e mais recentemente de “Firat (inédito) consideram se a indústria está seguindo uma trajetória sustentável, indicando que mudanças são necessárias, a fim de considerar os fatores motivação e satisfação de quem traduz dentro de um sistema de trabalho sustentável, sem contar os problemas relacionados à posse de recursos de tradução. Ambos citam os elementos essenciais do Trabalho Decente da Organização Internacional do Trabalho e argumentam que esses não se refletem na colocação profissional de muitos freelancers. Firat (inédito) destaca o desenvolvimento do “capitalismo de plataforma” na indústria. O capitalismo de plataforma envolve infraestruturas intermediárias que permitem a comunicação digital e que se beneficiam dos efeitos de uma rede ampla e em expansão de contribuições de usuários. Os usuários são atraídos por ofertas subsidiadas ou gratuitas e são ativamente retidos para que colham o máximo volume de dados. Firat também enfatiza a emergência de modelos cooperativos criados em oposição às organizações de capitalismo de plataforma, com modelos de negócios explicitamente favoráveis para quem trabalha, baseados na propriedade conjunta do negócio, por vezes seguindo princípios feministas e anticapitalistas.

Também percebe-se o apelo para uma redução do foco no crescimento, ou mesmo para o decrescimento por parte de alguns acadêmicos da área em resposta às práticas da indústria da tradução. Pym (2012) considera que o argumento a favor de uma maior produção de traduções pode nem sempre ser justificado, por exemplo, quando um texto de partida não tem valor suficiente para justificar o esforço despendido para sua tradução. Cronin (2017) afirma que o trabalho de profissionais de tradução não é suficientemente valorizado ou remunerado e, portanto, seria melhor que defendessem as mudanças sociais em grande escala, necessárias para facilitar a sustentabilidade ambiental global.

Um grupo crescente de organizações comerciais de tradução  está buscando equilíbrio, incorporando um senso atualizado de responsabilidade social corporativa e utilizando tecnologias de maneira favorável a quem traduz, maximizando a produtividade ao distribuir textos por intermédio de diferentes níveis de automação.

Um exemplo disso é o de Kelly (2020), cuja organização desenvolveu um sistema estratificado para manter a qualidade da tradução, a depender da linha de produtos ou do tipo de texto, “whereby certain low-risk and low-value content is machine translated, possibly with the aid of automatic quality estimation, middle value but low-risk content is post-edited, and higher value content is translated by computer-aided specialist linguists” [em que determinados conteúdos de baixo risco e baixo valor são traduzidos por máquinas, possivelmente com o auxílio de uma estimativa automática da qualidade; conteúdos de valor intermediário, mas de baixo risco, são pós-editados; e conteúdos de maior valor são traduzidos por linguistas especializados assistidos por computadores] (Rothwell, Moorkens, Parra et al. 2023).

Ainda há riscos para o público final de uma tradução em caso de erros (que podem ocorrer mesmo sem automação), bem como os riscos decorrentes do uso da tecnologia. Passamos à discussão da ética na tecnologia de tradução na seção seguinte.

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[heading title] Ética para tecnologias de tradução

Como mencionado na introdução, muito tem sido escrito e publicado sobre ética em tecnologia nos últimos anos. Há uma certa polarização entre quem vê as novas tecnologias como um sinal positivo de progresso, acreditando que a tecnologia é eticamente neutra e que os vieses são somente introduzidos por nossas escolhas durante o uso dessa tecnologia; e há quem prefira manter cautela em relação ao uso inapropriado ou perigoso da tecnologia. Isso não nega necessariamente que a tecnologia pode beneficiar ou realizar feitos incríveis, mas considera que há circunstâncias certas e erradas para o uso de muitas tecnologias. Do ponto de vista de especialistas em ética e de filósofos da ciência, a tecnologia não é eticamente neutra, pois reflete os valores de quem a desenvolve. Podemos ver a influência desses valores em problemas solucionados pela tecnologia, na decisão de criá-la, no método de implementação, nos seus usuários pretendidos, nas referências ou nos dados de treinamento usados e assim por diante.  Além disso, podem surgir consequências ou usos indesejados da tecnologia. Quando Martin Kay, Peter Arthern e Alan Melby propuseram as ideias que levaram ao desenvolvimento de ferramentas de memória de tradução, provavelmente não previram seu uso em redes globais de produção de tradução capazes de trabalhar de forma conectada e simultânea em um mesmo texto.

A agilidade e escala do desenvolvimento tecnológico tornam inevitável que a regulamentação esteja sempre um ou dois passos para trás. Por exemplo, o projeto de lei da  IA da União Europeia (European Commission 2021: 26) propõe limitar o uso de gestão algorítmica para “task allocation, monitoring or evaluation of persons in work-related contractual relationship” [alocação de tarefas, monitoramento ou avaliação de pessoas em relações contratuais de trabalho]. Escrita em 2023, essa lei  ainda não foi promulgada, apesar de haver muitos exemplos de gestão algorítmica na área de tradução e em outras. Embora a tecnologia possa trazer benefícios, ela também pode expor o público a riscos. Como não podemos confiar que as empresas de tecnologias, seus engenheiros e desenvolvedores ajam em favor do interesse coletivo ou  de acordo com a nossa própria ética, é importante mantermos uma consciência crítica ao usarmos essas tecnologias — daí os conceitos recentemente cunhados de letramento de dados, letramento midiático e informacional e letramento em tradução automática (Bowker & Ciro 2019).

Machine Translation Literacy

A seção sobre ética para profissionais da tradução refletiu sobre direitos autorais de tradução, um assunto importante, pois os dados de tradução são valiosos, uma vez que  as traduções já existentes formam a base para muitas tecnologias contemporâneas de tradução. As memórias de tradução foram inicialmente usadas por profissionais de tradução de forma individual ou a partir de projetos. No entanto, agora são compartilhadas e reutilizadas, seja de forma simultânea ou assíncrona. Uma vez que os metadados (os dados que descrevem os dados, como detalhes de quem criou a pasta, horário da criação etc) são removidos, as memórias de tradução se tornam dados bilíngues, a base para tradução automática baseada em banco de dados, embora possam ser úteis para outras tecnologias de aprendizado de máquina (tecnologias em que padrões são encontrados em dados sem instrução explícita).

Como primeiro passo, um sistema de aprendizado de máquina como a tradução automática neural (Neural Machine Translation - NMT) converte dados em números, realizando um grande número de operações para prever o melhor resultado possível baseado em seus dados de treinamento. Por conta disso, tais sistemas são frequentemente descritos como sub-simbólicos: uma sequência impenetrável de valores numéricos e equações. A NMT pode oferecer um resultado razoavelmente preciso e altamente fluente, conhecido como “caixa preta”, pois é um sistema impossível de ser entendido, tornando difícil explicar as escolhas feitas no produto final —  ou alterá-las. Em relação a profissionais de tradução, fornecedores de dados para o treinamento de tradução automática, pode haver consciência ou concordância em fornecer material para retreinamento, mas também pode acontecer de não terem autorizado, de forma expressa, o reaproveitamento de suas traduções, principalmente quando o texto traduzido tiver sido publicado na internet e tiver sendo destinado ao uso no treinamento de sistemas.

A NMT mantém a intenção comunicativa utópica dos primeiros protagonistas da história da tradução automática, permitindo uma comunicação eficaz para muitas pessoas em diversos cenários de baixo risco. No entanto, ela não deve ser uma ferramenta para todas as situações. A ortodoxia para o uso de tradução automática, seguindo Way (2018) e Moorkens (2022), é que sua aplicação deve variar de acordo com a vida útil, o risco e o valor de um texto. No entanto, algumas alegações exageradas, amplamente divulgadas pelos desenvolvedores de tradução automática, tem contribuído para  o seu uso em contextos muito menos apropriados e, como Bowker defende, “using machine translation is easy; using it critically requires thought” (2023: 97) [“usar tradução de máquina é fácil: usar de forma crítica requer reflexão”]. Além disso, o público-alvo da tradução automática pode não estar ciente dos riscos em usar e confiar na tradução automática sem revisão ou checagem. Canfora & Ottmann (2020) criaram uma tipologia útil dos riscos de uso da NMT, que vão desde o risco de tradução inadequada até o risco de ferimentos ou morte.

No nível mais baixo de risco, pesquisadores encontraram um nível de neutralização no resultado de tradução automática, com discussão da normalização e redução da diversidade lexical (Vanmassenhove, Shterionov & Way 2019). Observam-se também problemas com vieses, já que, com base nos dados de treinamento, algumas profissões e adjetivos são associados a gêneros específicos, o que gera resultados que erram o gênero ou que mudam o gênero de uma frase para outra, ou até na mesma frase. Muito ocasionalmente, o resultado pode não ter relação com o texto de partida ou ser completamente agramatical, produzindo o que é conhecido como alucinação. No contexto de uma série de frases fluidas, esses erros pontuais provavelmente serão difíceis de detectar, mesmo para profissionais de tradução experientes.

Soccer sexism

Nesta imagem de Ciora, Iren, and Alikhani (2021), que trata do preconceito de gênero na tradução automática, o Google Tradutor traduz adequadamente do inglês para o turco a frase a “My sister is a soccer player” [Minha irmã é jogadora de futebol] como “My female sibling is a soccer player” [Minha irmã menina é jogadora de futebol] enquanto “My brother is a soccer player” [Meu irmão é jogador de futebol] é traduzido como  “My sibling is a soccer player” [Meu irmão é jogador de futebol]. O gênero é marcado de forma evidente somente quando o sujeito é feminino.

Por isso é importante usar um método de avaliação da qualidade da tradução adequado ao seu propósito de uso. Há uma vasta literatura sobre avaliação de tradução e uma  profusão de métodos. No entanto, a afirmação de 2018 de que a tradução automática da Microsoft teria alcançado paridade com a qualidade da tradução humana para determinadas tarefas baseava-se principalmente em um método de avaliação utilizado para comparar, por meio de crowdsourcing, sistemas de tradução automática que haviam sido construídos a partir dos mesmos dados. A análise de erros humanos apresentada ao final do artigo da Microsoft (Hassan, Aue, Chen et al. 2018) não sustentou a alegação de paridade humana, levando Läubli, Castilho, Neubig et al. (2020: 653) a concluir que “finding of human-machine parity was owed to weaknesses in the evaluation design” [“a descoberta da paridade homem-máquina deveu-se a deficiências no programa de avaliação”]. Ainda assim, a alegação inicial foi amplamente divulgada na mídia, somando-se ao hype da tradução automática, e foi acompanhada pelo uso do termo “superhumano” para o resultado da NMT em alguns artigos científicos. Há pouco que a comunidade acadêmica possa fazer sobre afirmações exageradas e o hype das grandes empresas de tecnologia em relação às suas ferramentas, mas é importante que quem pesquisa tenha cautela com o uso da própria língua, que use métodos de pesquisa adequados e divulgue resultados de forma responsável. Também é útil considerar uma visão mais ampla e holística da validade das pesquisas, levando em conta não só o significado e a usabilidade de uma forma de medir a sua validade, mas também as consequências de seu uso. Essa questão se insere entre outras considerações éticas mais amplas para profissionais da pesquisa acadêmica, conforme discutimos na seção a seguir.

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[heading title] Ética para pessoas que pesquisam tradução

A ética em pesquisa deve guiar os princípios, o projeto e os planos de divulgação que fundamentam as atividades de pesquisa. Como vimos, um código ou um conjunto de regras pode ser muito restrito para cobrir a multiplicidade de métodos e experiências da vida real. Por essa razão, dentro da universidade, um comitê ou conselho de ética geralmente terá a tarefa de aprovar ou solicitar alterações em projetos de pesquisa de forma a alinhá-los com as responsabilidades de quem está fazendo a pesquisa, evitando a má conduta científica. Assim, seu escopo também se estende a verificar a metodologia e a implementação da pesquisa. Como pesquisadoras e pesquisadores, deve haver prioridade em analisar os efeitos e riscos da pesquisa nos participantes, em nós mesmos, em nossa instituição e na sociedade de maneira geral. A ética da pesquisa passou do princípio de “não causar nenhum dano” para um posicionamento segundo o qual devemos buscar ajudar ou beneficiar os participantes de nossas pesquisas. 

Como enfatizam Mellinger & Baer (2020), até o momento há uma carência de trabalhos voltados à ética em pesquisas de tradução, embora publicações mais gerais sobre metodologias de pesquisa ofereçam uma base útil e proponham condutas éticas de pesquisa.

Uma vez aprovado um projeto de pesquisa, há outras decisões éticas sobre representação a serem consideradas, relacionadas à disparidade de poder entre pessoa pesquisadora e participante, como decidir quais dados incluir ou excluir e o que Mellinger & Baer (2021: 366) chama de “Western bias in the methodologies used in cross-cultural and cross-lingual research” [“viés ocidental nas metodologias empregadas em pesquisas interculturais e interlinguísticas”]. Caso haja incompatibilidades entre a ideologia da pessoa pesquisadora e da pessoa participante, é fundamental representar quem participa da pesquisa da forma mais objetiva possível, divulgando e explicando de forma transparente as decisões relativas aos dados. Outro problema apontado por Mellinger & Baer (2021) é a hegemonia do inglês como língua de pesquisa, de publicação e de trabalhos citados, que gera uma subsequente marginalização do conhecimento não hegemônico. Os autores recomendam a conscientização sobre a posição da pessoa pesquisadora: sua posição política e social, e a maneira como isso constrói sua identidade e permite diferentes níveis de acesso na sociedade. Como parte de uma prática de pesquisa reflexiva, pesquisadores podem optar por reconhecer sua posição em publicações. Acadêmicos também podem buscar aumentar a colaboração, envolvendo principalmente comunidades não hegemônicas.

Ao lidar com comunidades vulneráveis ou marginalizadas, observa-se uma tendência de usar abordagens participativas, empregando pesquisa de ação (pesquisa que mede os efeitos de uma ação ou levam a uma ação), pesquisa participativa e pesquisa participativa baseada na comunidade (na qual os participantes fazem parte da concepção e desenvolvimento do projeto desde o início) e pesquisa transformativa de métodos mistos (pesquisa de métodos mistos que envolve testar a eficácia de uma intervenção). Mellinger & Baer (202) discutem a ética envolvida em cada etapa de um projeto de pesquisa, apresentando uma contribuição importante a ser consultada nos estágios de desenvolvimento e implementação da pesquisa.

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 Research potential Potencial de pesquisa

A pesquisa em ética da tradução, ainda que seja incipiente, tem começado a abordar questões de sustentabilidade, revelando um campo promissor para investigações futuras. Cronin (2017) se centra na sustentabilidade ecológica e nos problemas relacionados ao excepcionalismo humano no Antropoceno, a era em que a ação humana tem impactado, geralmente de forma destrutiva, o clima e o ecossistema da Terra. A edição especial da Translation Spaces intitulada Fair MT: Towards ethical, sustainable Machine Translation (2020) trata da sustentabilidade social, incluindo a empregabilidade e a habilidade da indústria de tradução em atrair novos profissionais em meio a práticas de trabalho que não satisfazem ou motivam o trabalhador. A edição especial da revista Journal of Specialised Translation sobre Translation Automation and Sustainability pauta assuntos relacionados aos pontos discutidos anteriormente e aborda as dificuldades de línguas minoritarizadas no espaço digital. Os editores propõem um “tripé da sustentabilidade”, em que pessoas, planeta e desempenho são considerados na avaliação de tecnologias de automação na tradução (Moorkens, Castilho, Gaspari et al. 2024).

Teorias e abordagens da filosofia da tecnologia, como a teoria do ator-rede, são usadas em pesquisas de tradução. No entanto, a teoria crítica da tecnologia e a pós-fenomenologia ainda não são teorias mobilizadas (com exceção do trabalho recente de Vieira (2023) e de um artigo inédito de Moorkens), embora  possam promover reflexões úteis em relação aos nossos usos da tecnologia de tradução. Uma abordagem ética antecipatória também poderia ser proveitosa para o estudo de tecnologias em desenvolvimento. O propósito de empregar essas abordagens é ajudar a encontrar um caminho sustentável que oriente a interação entre humanos e máquinas. A tradução é, sem dúvida, um bom lugar para debater esses temas, apoiando-se em perspectivas e teorias das pesquisas em ética. Como afirma Cronin (2021: 291), é: “less likely that it is our technical singularity that will save us than the singularity of or ethical ability as translators to conceive of a world where connection is everything and difference is everywhere [“é menos provável que a nossa singularidade técnica irá nos salvar do que a singularidade de nossa responsabilidade ética, como tradutores, para idealizar um mundo em que a conexão esteja em toda parte e a diferença em todos os lugares”]. 

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