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Introdução. Humor: um conceito difícil de definir | Tipos de humor | A manifestação do humor. A piada | A dimensão cultural do humor - Referências culturais e intertextualidade | Humor como uma questão de intenção/efeito | O estudo do humor - Estudos sobre Humor | (In)traduzibilidade do humor | Prioridades e restrições na tradução do humor | Potencial de pesquisa
Introdução. Humor: um conceito difícil de definir
Consideremos os significados de humor fornecidos pelo Diccionario de la Lengua Española (2014). Vemos que eles aludem a certas qualidades do ser humano, especialmente gênio, jovialidade, sagacidade e um estado de espírito ou disposição. Em suma, desenha-se um cenário complexo que dificulta a sua definição e posterior análise. Da mesma forma, do ponto de vista antropológico, o humor pode ser entendido como uma condição do ser humano que lhe permite produzi-lo e recebê-lo, uma condição semelhante à capacidade, por exemplo, de sentir tristeza ou raiva (Martínez-Sierra 2008: 114). No entanto, a nuance parece ser necessária. Nash distingue entre humor e ato de humor. Para ele, o ato de humor tem três componentes principais:
- A ‘genus,’ or derivation, in culture, institutions, attitudes, beliefs, typical practices, characteristic artefacts, etc.
- [A] characteristic design, presentation, or verbal packaging, by virtue of which the humorous intention is indicated and recognized.
- [A] locus in language, some word or phrase that is indispensable to the joke.
Assim, o ato de humor corresponde à realização prática da condição de humor (Martínez-Sierra 2008: 114).
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| O humor pode ser intercultural e, ao mesmo tempo, uma experiência muito pessoal como esta compartilhada entre líderes mundiais (Fonte: Wikipedia). |
Autores como Zabalbeascoa (1993: 266) distinguem cinco tipos de acordo com sua direção (ou seja, de acordo com o tom e os objetivos finais subjacentes). Esses tipos são entretenimento leve (light entertainment), mórbido (morbid), cáustico (caustic), inofensivo (harmless) e pedagógico (pedagogical).
Fuentes (2001: 14-15) diferencia entre humor verbal e humor gestual, rótulos com os quais parece contemplar a linguagem verbal, paraverbal e não verbal. Fuentes (2001: 16-17) reúne outros tipos de humor com base na situação de onde surge, no objeto de zombaria, ou mesmo em virtude da área geográfica onde predomina. Assim, fala do humor do absurdo, do humor negro, ou do humor americano (que ele foca no humor de Nova York, baseado em grande parte, por sua vez, no humor judaico).
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| O humor pode ser étnico (Fonte: Seinfeld). |
Fuentes (2001: 17) também distingue entre humor verbal, visual, gráfico e audiovisual. Essa última distinção é de grande interesse por ser especialmente reveladora, uma vez que se conecta com uma questão que permite, por sua vez, uma clara distinção entre os modos gerais de tradução (usando a terminologia de Hurtado 2001): os modos escrito, oral e audiovisual. Assim, transitamos na dimensão dos tipos de textos de acordo com o meio pelo qual trafegam. Essa perspectiva permite identificar três tipos de tradução, cada uma destinada a um tipo de texto: tradução escrita, tradução oral (ou interpretação) e tradução audiovisual. Portanto, se distinguirmos, por um lado, textos escritos, orais e audiovisuais e, por outro, tradução escrita, oral e audiovisual, faz sentido falar de humor escrito, oral e audiovisual, cada um gerado pelos meios e, em última análise, pelas ferramentas fornecidas pelo tipo de texto em que ele ganha vida.
A manifestação do humor. A piada
Existem diferentes meios pelos quais o humor pode ser criado (ou realizado). As piadas são uma das formas de produzir ou receber humor (Martínez-Sierra 2008: 116). Se considerarmos as definições de diferentes dicionários, o dicionário Merriam-Webster define uma piada como “algo dito ou feito para provocar riso” (2020). A Real Academia Española oferece uma definição semelhante. De acordo com ela (2020, tradução nossa), e entre outros significados, uma piada é definida como um “dito ou ocorrência afiada e engraçada”, um “Evento engraçado e festivo” ou “Tolice, zombaria, piada”, definições em alguns casos próximas aos conceitos anglo-saxões de alegria (cheerfulness) e espirituosidade (witticism).
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| Uma piada pode ser silenciosa (Fonte: Mafalda, por Quino em El País). |
O termo anglo-saxão joke (‘piada’) pode incluir diferentes representações de humor, como “brincadeiras, charadas, slogans, epigramas, aforismos, coisas contadas em bares, ditas por crianças inteligentes, ou inscritas aqui e ali em muros e paredes”, como afirma Nash (1985: xii). No entanto, nem todas as piadas são necessariamente apenas linguísticas, pois algumas são, de fato, uma combinação de elementos (para)linguísticos, sonoros ou visuais, ou podem até carecer de qualquer traço linguístico, como seria o caso de piadas visuais, sem palavras (vinhetas silenciosas), por exemplo (Martínez-Sierra 2008: 117).
É possível, portanto, traçar um conceito amplo e flexível de piada, que se afaste do significado de piada como o par clássico de linhas que geralmente começa com o conhecido bordão “Você conhece aquela do…?” A Real Academia Española reconhece como piada não só o que é dito e que pode ser afiado e engraçado, mas também o evento engraçado e festivo, considerando que um evento não é necessariamente algo linguístico (pode ser, por exemplo, simplesmente visual, como dito acima).
O espertinho do meu amigo disse que o único alimento que faz você chorar é a cebola.Então eu joguei um coco na cara dele. |
O humor pode ser absurdo
Para fins práticos, pode ser conveniente designar como piada qualquer troca (para)linguística (incluindo trocadilhos), acústica ou visual com potencial cômico (Martínez-Sierra 2008: 117-118). Assim, é possível uma definição global de piada “que inclui praticamente tudo o que deliberadamente ou não, implícita ou explicitamente, produz humor ou tenta produzi-lo, seja verbalmente ou não verbalmente, transmitido acusticamente ou visualmente”, levando em consideração que “a maneira como esse humor se manifesta no receptor é outra questão”. Para ser mais preciso, dizemos “deliberadamente ou não” para considerar aqueles cenários em que determinada situação que não foi inicialmente concebida como uma piada, ou seja, não houve intenção, pode, dada a subjetividade do humor, desencadear uma reação humorística (imaginemos um golpe fortuito e infeliz contra o canto de uma mesa, um acontecimento que não pretende ser humorístico, mas que algumas das testemunhas podem entender como um motivo humorístico) (Martínez-Sierra 2008: 118, tradução nossa).
Finalmente, do ponto de vista quantitativo, não podemos ignorar que o humor pode ser alcançado não por um único efeito (talvez produzido pelo fato de alguém contar uma piada), mas por um acúmulo de pequenos clímaxes que geram uma sequência humorística (humor sustentado, nos termos de Fuentes 2001) (Martínez-Sierra 2008: 118-119).
A dimensão cultural do humor - Referências culturais e intertextualidade
Martínez-Tejerina revisita a ideia que Nash (1985) apresenta no início de seu trabalho quando afirma que nem todos acham as mesmas coisas engraçadas:
A convivência cultural nos mostra que todas as pessoas riem, mas não pelos mesmos motivos, nem nas mesmas situações, nem em relação às mesmas referências. Em outras palavras, o humor é um elemento aparentemente contraditório no sentido de que, sendo um fenômeno universal, encontra-se, ao mesmo tempo, cercado por fronteiras culturais e linguísticas definidas.
(Martínez-Tejerina 2016: 73)
Portanto, a suposição é de que o humor seja universal, mas, obviamente, ele tem uma clara perspectiva cultural; em outras palavras, enquanto o humor é universal, o ato de humor não o é. Dessa forma, sentimos que na nossa abordagem à tradução do humor, tema deste verbete, nosso foco deve ser a partir de uma perspectiva (inter)cultural.
Muitos autores aludem à ideia de um grupo de pessoas ou comunidade com um conhecimento compartilhado que facilita a transmissão e recepção de elementos humorísticos. Yule (1996) faz uso de schemas como uma espécie de padrão de conhecimento prévio; Zabalbeascoa (1993) apela a memes compartilhados, ou seja, a uma formação e experiência comuns; Rosas (2002) fala de comunidades interpretativas; Martínez-Sierra (2008) usa o termo comunidade e menciona a bagagem cultural compartilhada etc. A esse respeito, devemos deixar claro que, como sugere Sales (2003: 23), com base em Said (1993), as culturas hoje não são estruturas fechadas, unitárias ou monolíticas. Na verdade, são de natureza híbrida e inter-relacionadas. Além disso, esse fenômeno não se limita necessariamente apenas a determinada sociedade ou comunidade mas, dentro dessas, também encontraremos pequenos grupos e subcomunidades com conceptualizações distintas de humor. Trata-se de uma questão, como em qualquer processo comunicativo, de expectativas e conhecimentos compartilhados entre o falante e o receptor.
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| O humor pode ser culturalmente específico. [Uma paródia dos Três Reis Magos interpretados por três políticos espanhóis. Quem fala e procura Balthazar é o líder do partido de extrema-direita Vox, famoso por suas propostas controversas sobre imigração. (Fonte: El Jueves). |
Neste ponto, gostaríamos de rever alguns elementos no âmbito da cultura que podem produzir humor. Para tanto, referimo-nos a Marco (2002), que acredita que as referências culturais, a forma como os textos são agrupados, e a intertextualidade formam o contexto de cultura, que o autor entende como um complemento ao contexto da situação. Aqui nos interessa focar nas referências culturais e na intertextualidade como mecanismos usados para criar humor. Em relação às referências culturais, encontramos diferentes tipologias, bem como taxonomias de tradução. Devemos de novo enfatizar, como Agost (1999: 99) descreve, que são aqueles elementos tipicamente característicos de uma sociedade específica que permitem que as sociedades se diferenciem umas das outras, dotando-as de suas idiossincrasias. Dessa forma, a autora postula que vilas, cidades e lugares de um país, assim como a literatura, as canções, os conceitos estéticos, as personalidades famosas, a gastronomia, a moeda etc. podem ser considerados elementos culturais. Dessa forma, quando usados com função humorística, podem criar sérios problemas de falta de equivalência ou opacidade que os tradutores terão de superar. As opções para sua tradução consistirão então em estratégias de conservação ou estratégias de substituição, dependendo da situação e dos receptores. A esse respeito, Chiaro (1992: 5-10) acredita que as piadas não transitam bem de uma cultura para outra. A autora explica que, embora todos nós riamos, os estímulos são diferentes. Para ela, o que achamos engraçado depende de barreiras linguísticas, geográficas, diacrônicas, socioculturais e, claro, pessoais. Em relação à intertextualidade, como sugere a definição de Agost (1999: 103), entendemos que ela denota as referências que um texto faz a outro, normalmente a um texto anterior. Além disso, como apontam Hatim e Mason (1990: 120), relacionamos ideias textuais umas às outras por meio da intertextualidade e as reconhecemos como signos que evocam nossa experiência textual anterior. Assim, essas referências também podem estar intimamente ligadas a uma cultura específica, fenômeno que terá a capacidade de gerar os mesmos problemas que vimos no caso da conversão de referências culturais de uma língua para outra. Recorrer a referências de uma cultura específica pode dificultar o objetivo de arrancar o riso (interno ou externo) do receptor. Segundo Nash, a alusão pode ser um dos mecanismos fundamentais na estruturação dos textos humorísticos. De fato, o autor (1985: 80) nos diz que “onde quer que ocorram alusões, é possível alguma excursão à paródia”. Portanto, as funções intertextuais dependem de um conhecimento compartilhado ou de algum tipo de cumplicidade implícita ou explícita entre o falante e o receptor e, dentre essas, Lorenzo (2005: 136) destaca a função humorística como uma das mais comuns e especifica que, apesar de aparecer principalmente em gêneros de entretenimento e diatribe política, também pode ser encontrada numa grande variedade de gêneros e tipologias textuais.
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| O humor pode ser local e global ao mesmo tempo (Fonte: Gargalo). |
Por outro lado, é verdade que o contato frequente entre culturas, a globalização, o alcance da mídia e a acessibilidade aos produtos internacionais aproximam cada vez mais as sociedades. Díaz-Cintas (2001: 121) falava de colonização cultural, Chiaro (2003: 14) de Macdonaldização, Sales (2003: 26) via a cultura como uma esponja capaz de absorver tudo o que a cerca, e Martínez-Sierra (2008: 92) previu uma espécie de pensamento singular ou uniformidade cultural. O fato é que a proximidade entre as culturas e o conhecimento das referências culturais e intertextuais facilita muito a tradução do humor que contém uma clara marca cultural. No entanto, nem todas as culturas são igualmente acessíveis e, mesmo dentro de culturas que compartilham a mesma língua, ocorrem divergências dessa natureza. De qualquer forma, ambos são mecanismos utilizados para criar humor a partir de sua dimensão cultural, testando o conhecimento e a habilidade do tradutor e sempre priorizando o efeito humorístico que os receptores devem experimentar se for considerado parte importante do texto. Mais uma vez, fica evidente que os tradutores não devem apenas dominar as línguas com as quais trabalham, mas também devem ser especialistas interculturais.
O humor como uma questão de intenção/efeito
Sem negar seu fundo funcionalista, é possível propor uma definição de piada a partir de duas palavras-chave: qualquer coisa com a intenção de provocar um efeito humorístico (sem entrar em outros efeitos que o humor pode ter, do ponto de vista psicológico ou sociológico, como, por exemplo, seu uso para a criação e manutenção de vínculos entre os membros de um grupo). Em outras palavras, o humor é de fato uma questão de efeitos, mas talvez não seja correto reduzi-lo exclusivamente a uma questão de efeitos, pois também pode ser uma questão de intenção, porque quando um emissor pretende enviar uma mensagem com a intenção de tornaá-la humorística, o humor já está presente na codificação dessa mensagem. Da mesma forma, como observado acima, também pode ser produzida uma situação humorística não intencional (Martínez-Sierra 2008: 118).
No entanto, na já mencionada noção de piada, pode-se dar mais valor à intenção do que ao efeito, ainda que “nem sempre a melhor das intenções ande de mãos dadas com o efeito pretendido. Afinal, uma piada não terá graça se não a entendermos (porque nos falta o conhecimento prévio necessário) ou se simplesmente não gostarmos dela (mesmo que a entendamos) por causa de nosso gosto subjetivo” (Martínez-Sierra 2008: 118, nossa tradução).
Nash (1985: 2) afirma que o reconhecimento e a aceitação da intenção de fazer piada (o skopos do texto, nos termos de Vermeer 1989) é uma questão de peso. No campo da tradução, essa consideração pode levar a pensar que o tradutor, mesmo que de forma inconsciente, deve ser sensível a certos princípios pragmáticos (como o princípio da relevância de Sperber e Wilson (1986)), pois, “para apreender a relevância de determinado fragmento humorístico e produzir o mesmo efeito na língua-alvo, ele deve detectar a intenção mencionada” (Martínez-Sierra 2008: 117, tradução nossa). Além disso, conforme salienta Viaggio (1996: 195) em sua discussão sobre intérpretes, seria conveniente para o tradutor avaliar o conhecimento do público-alvo, bem como a relevância comunicativa global dos elementos textuais. No entanto, como Vandaele (2002a: 247) nos lembra, é aconselhável não descurar o fato de que nem sempre os humoristas conseguem prever por completo se seus esquemas e os do receptor são compatíveis, razão pela qual podem optar por forçar o humor por meio de pistas que podem provocar um convite ao humor de forma mais explícita (por exemplo, no caso de séries ou risos enlatados).
Para autores como Vandaele (2002a: 153-155), conceber o humor apenas como uma questão de efeitos, no sentido de que tudo que tem efeito humorístico será humor, pode ser minimalista, pois as causas do humor, assim como seus possíveis efeitos indesejados, também devem ser considerados. Devemos acrescentar outro elemento comum a essa equação na descrição do humor: a intenção de produzi-lo, que geralmente estará presente, embora nem sempre. É evidente que situações humorísticas geradas de forma espontânea e, portanto, não planejadas, existem e “basta alguém ficar sem palavras diante de um grupo de amigos ou tropeçar ao andar pelo escritório para que o riso, ou pelo menos um sorriso, apareça” (Martínez-Sierra 2008: 117, tradução nossa), sem entender, portanto, que não pode haver humor sem riso (a manifestação externa do humor, conforme apontado por Vandaele, 2002b), razão pela qual poderíamos falar de riso externo (fisicamente detectável) ou riso interno (uma sensação humorística não ligada a uma expressão física dele) (veja a diferença entre resposta de humor positiva e euforia coletada por Chiaro 2010).
O estudo do humor - Estudos do Humor
Entre as diferentes perspectivas a partir das quais podemos abordar o humor, centramo-nos agora naquelas denominadas Estudos do Humor, dentro das quais se destacam quatro teorias principais: a da incongruência, a da superioridade, a do alívio e a do humor como jogo. Essa visão acadêmica interdisciplinar surge no final da década de 1980 e ocorre entre pesquisadores de disciplinas que vão da teoria literária à medicina, linguística, psicologia e áreas como pedagogia e afins. Assim, é precisamente em 1989 que é criada a Sociedade Internacional de Estudos do Humor (ISHS, na sigla em inglês), que promove a investigação do humor e publica a revista Humor - International Journal of Humor Research.
Como explica Santana (2005: 840), dentro dos Estudos do Humor, existem três linhas principais de investigação: 1) a precisão semântica do termo humor, cada vez mais entendido como um efeito humorístico, 2) a incongruência e a superioridade como pilares básicos, complementares e não mutuamente exclusivos para que o efeito humorístico ocorra, e 3) a interação semiótica entre humor e a) mídia audiovisual, e b) gêneros literários convencionais (paródia, sátira etc.).
Entre as diferentes disciplinas que mencionamos, a linguística se destaca entre as que mais se interessaram tanto pelo estudo quanto pela tradução do humor. Portanto, talvez devêssemos examinar a pesquisa realizada por Attardo e Raskin. Sua Teoria Geral do Humor Verbal (em inglês, General Theory of Verbal Humor, GTVH), que se concentra no aspecto linguístico das piadas, foi apresentada pela primeira vez em 1991. Essa teoria foi baseada e é uma expansão da pesquisa anterior de Raskin, a Teoria do Roteiro Semântico do Humor (em inglês, Semantic Script Theory of Humor, SSTH), proposta em 1985. A teoria foi ampliada para incluir todos os níveis linguísticos de modo que todos os tipos de textos pudessem ser analisados, não apenas piadas, que Attardo (2008: 108) considerou como a tipologia de texto humorístico mais simples. Para tanto, a GTVH utiliza seis recursos de conhecimento que podem ser aplicados hierarquicamente para analisar um texto e avaliar se é humorístico ou não. Assim como a SSTH, baseia-se na oposição de roteiro, que cria a situação humorística a partir da incongruência ou ambiguidade de dois cenários distintos e opostos.
Ao pesquisar a tradução do humor, essas teorias não podem ser negligenciadas. Muitos autores as aplicaram em suas pesquisas, complementando-as com outras, ou propondo suas próprias teorias. Algo realmente importante na pesquisa de Attardo e Raskin (1991) sobre tradução é que consideraram tanto o contexto quanto o receptor, não se concentrando apenas nas palavras. Em sua monografia sobre a tradução do humor, Martínez-Sierra e Zabalbeascoa (2017) revisitam os autores que tiveram uma abordagem linguística ou discursiva da tradução do humor, bem como apresentam outros estudos sobre o humor verbalmente expresso e sobre a tradução literária ou tradução oral.
A (In)traduzibilidade do humor
| L’humour est souvent considéré comme intraduisible, et pourtant on le traduit. | |
| Anne-Marie Laurian (1989: 6) |
Nas primeiras abordagens à tradução do humor, sempre se contemplou a dicotomia entre sua traduzibilidade ou intraduzibilidade. De fato, os artigos que apareceram no número 34/1 da revista Meta, intitulado Humour et traduction: Humor and Translation, uma das primeiras publicações sobre tradução de humor que encontramos, focava principalmente na questão de ser possível ou não, como a citação no início desta seção ilustra. Se tomarmos essas abordagens na Meta (1989) como ponto de partida, assim como fez Santana (2005: 838), encontramos posturas pessimistas que sustentam um conceito de equivalência rígida, e outras, mais otimistas, que ao menos mostram exemplos concretos de humor traduzível. Além desse número especial, encontramos também posições radicalmente opostas, como o caso de Newmark (1982), que acredita na traduzibilidade de todas as piadas, ao contrário de Santoyo (1994), que é de opinião totalmente oposta.
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| O humor linguístico pode ser difícil de traduzir (Fonte: Definiciones-de.com). |
O que parece claro é que após a virada cultural nos estudos de tradução (Lefevere e Bassnett 1990), e uma vez que as abordagens estritamente baseadas na equivalência entre sentenças ou palavras se tornaram ultrapassadas, devemos aceitar que, como afirma Delabastita (1996: 133), não existe equivalência exata entre as línguas. Por outro lado, a proposta de Vandaele (2002b: 151) de entender o humor como efeito humorístico ajuda a defender sua traduzibilidade nesses termos: “o humor pode de fato ser prontamente reformulado como um efeito humorístico e, portanto, traduzir humor se resume a alcançar o ‘mesmo efeito humorístico’”. Seria então uma tradução funcional com o mesmo skopos (Vermeer 1989) no texto original e no texto traduzido, que, no caso de passagens humorísticas, poderia ser para entreter o receptor. Basicamente, resultaria em certo grau de equivalência humorística, ou seja, como aponta Leibold (1989: 109), “uma resposta prazerosa e lúdica equivalente”.
Se tomarmos essa premissa como ponto de partida, podemos ver que o objetivo do tradutor seria tentar fazer com que o texto traduzido produza o mesmo efeito humorístico no texto de chegada, embora, na realidade, veremos que a tradução de humor é uma questão de prioridades e restrições.
Prioridades e restrições na tradução de humor
Martínez-Tejerina (2016: 106) analisa os obstáculos que o tradutor enfrentará ao traduzir o humor, começando com Chiaro (1992: 5-10). A primeira questão surge da dificuldade em reconhecer o humor. No entanto, é verdade que em algumas ocasiões, como já salientamos, surgirão sinais que indicam as circunstâncias cômicas encontradas na interação social normal e, assim, ajudam a identificá-la. O segundo obstáculo será compreender a passagem humorística, estar atento às conotações, conectar a intertextualidade, conhecer a cultura do texto original etc. Em terceiro lugar, entra em jogo a mudança de receptores, de modo que o tradutor deve assumir o papel de mediador entre o autor/falante na língua original e o receptor na língua-alvo. Além dessas dificuldades, devemos acrescentar a concepção e a apreciação do humor por parte do tradutor. Na introdução da monografia Translating Humor (2002b), Vandaele menciona que, embora os tradutores possam reconhecer um elemento humorístico, talvez não o achem divertido, enfrentando o dilema de traduzi-lo como uma piada de mau gosto ou procurando um efeito que seja realmente engraçado. Também devemos observar que, como no caso dos tradutores, os receptores de uma passagem humorística (seja ela escrita, oral ou audiovisual) podem se encontrar em situação semelhante ao decidir se acham algo divertido ou não. Ou seja, a apreciação do humor é muito subjetiva.
Justamente por todas essas dificuldades, Zabalbeascoa (2005) ressalta a importância de estudar a tradução do humor a partir de uma perspectiva interdisciplinar. Acredita que humor e tradução devem se sobrepor nesse ponto e, ao abordar a tradução do humor, o processo começa com a identificação e localização dos fragmentos humorísticos , classificando-os, em seguida, de acordo com as tipologias humorísticas. O próximo passo seria priorizar, ou seja, estabelecer o que é mais importante em cada caso e determinar a importância de cada elemento para poder eventualmente tomar decisões de tradução. Nesse sentido, Zabalbeascoa (2001: 256-257) estabelece um leque de prioridades que podem definir a importância dada ao humor no texto geral: a) alta, por exemplo em seriados, filmes humorísticos como The Life of Brian (Terry Jones 1979 ) e stand-up comedy; b) médio, em ficção de aventura ou ficção romântica com final feliz; c) baixo, como em um discurso parlamentar salpicado de uma piada ou comentário espirituoso (também observa o exemplo de humor nas tragédias shakespearianas explicando que, embora o humor possa ser importante nesse caso, ele tende a ser menos importante do que outras prioridades; não seria uma prioridade global, mas local); e d) nula ou deve ser evitada, quando a prioridade consiste em garantir que nada possa ser interpretado como humor, a exemplo de uma história de terror, como Drácula (Bram Stoker), e em situações que exijam solenidade e seriedade. Muñoz-Basols e Muñoz-Calvo (2015: 163-164), por sua vez, propõem três aspectos que o tradutor pode levar em conta como ponto de partida ao tratar da tradução de um texto humorístico: 1) os tipos e componentes multimodais do próprio texto humorístico; 2) os temas e estilos associados ao humor; e 3) os mecanismos linguísticos, retóricos e de comportamento conversacional utilizados para criar ou reforçar a mensagem humorística, que podem ser combinados e que podem funcionar como técnicas ou processos técnicos. Dessa forma, pode-se determinar o grau de equivalência humorística que será recriada no texto de chegada, mensurando a adequação da equivalência, considerando os novos receptores do texto e aderindo aos padrões e restrições do tipo textual básico que está sendo traduzido.
Seguindo as prioridades e restrições na tradução do humor, recorremos novamente a Zabalbeascoa (1997: 336) para tentar descrever a situação em que os tradutores se encontram ao lidar com uma passagem humorística. Primeiro, devem certificar-se de que o texto traduzido é engraçado, se isso for uma prioridade da passagem. Normalmente, se é engraçado no texto original, o texto traduzido também deve obter uma resposta, que pode ser na forma de entretenimento ou riso (interno ou externo).
Quanto às restrições, podemos encontrar associações e alusões intertextuais, diferenças na compreensão compartilhada das duas culturas, possíveis diferenças de valores culturais e morais, de costumes e tradições, de assuntos sobre os quais tradicionalmente se fazem piadas, em casos em que o humor depende das características da língua original (humor linguístico), da conceituação de metáforas e outros aspectos. Além disso, outras restrições podem entrar em jogo, como restrições de tempo, o contexto profissional do tradutor e o meio de tradução (sincronização labial, na dublagem; limitação de espaço, por exemplo, na legendagem; sujeição à imagem etc.).
Martínez-Sierra e Zabalbeascoa (2017: 38-43) revisam algumas possíveis áreas e tópicos de interesse para pesquisa e métodos e referenciais teóricos para investigar o humor em traduções. Entre os primeiros, destacam-se o estudo do humor em determinados modos de tradução audiovisual e alguns formatos televisivos relativamente inexplorados, como o voice-over de docu-realidades ou o comentário livre, sem falar nos modos voltados à acessibilidade. Partindo da ideia de que “novos avanços tecnológicos trouxeram novos cenários e problemas”, propõem outros cenários possíveis de pesquisa, como respeaking, intertextualidade humorística no campo dos videogames, linguagem emoji, webséries, legendas de acessibilidade para ópera buffa, tradução teatral, tradução de quadrinhos, cinema multilíngue, humor tabu, ideologia, (auto)censura ou tradução de fãs.
Martínez-Sierra e Zabalbeascoa (2017: 40) tentam “alertar os novos pesquisadores sobre as possíveis armadilhas de confundir as questões em seu empenho de contribuir para a pesquisa em tradução de humor” quanto a métodos e referenciais teóricos. Assim, atentam para a busca de (novos) modelos teóricos e conceitos para o humor; estudos descritivos; estudos de caso; estudos de corpus; crítica e avaliação da tradução; humor como foco central do estudo; humor não como foco central do estudo; áreas como linguística, teorias linguísticas da tradução ou teorias linguísticas do humor verbalmente expresso, bem como outras áreas como estudos audiovisuais (ou cinema) e multimodais, estudos culturais, semiótica, teoria da comunicação, estudos literários, estudos do discurso, estudos interdisciplinares de ideologia, psicologia social, ciência política e pragmática; humor como problema de tradução; o humor como exceção à regra ou como teste para afirmações gerais e modelos de tradução; ou estudos experimentais de tradução de humor.
Vale ressaltar que é aconselhável “não misturar ou confundir métodos e interesses de pesquisa […] com referenciais teóricos”. Os autores evidenciam que “existem teorias linguísticas [e] teorias específicas dos estudos de tradução, [assim como] teorias que emergem dos estudos de humor, que podem então ser aplicadas à tradução” (Martínez-Sierra & Zabalbeascoa 2017: 43).





