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Introdução | O papel da tradução na divulgação do conhecimento científico | O discurso científico | Desafios da tradução científica | A tradução científica como profissão | Formação em tradução científica | Potencial de pesquisa
A tradução científica refere-se à tradução de textos cujo conteúdo se enquadra no âmbito da ciência. É complicado delimitar os campos da ciência. Provavelmente é por isso que a tradução técnica tende a ser combinada com a tradução científica, como se fossem a mesma coisa. A este respeito, existem mais manuais que abordam a tradução “técnico-científica” como um todo (Jumpelt 1961; Maillot 1968; Finch 1969; Montalt 2005; Byrne 2012; Olohan 2015, para citar apenas alguns) do que manuais dedicados exclusivamente à tradução científica (Gonzalo 2008 e 2017; Riera 2014).
A definição de ciência no dicionário Collins baseia-se no estudo da natureza e do comportamento dos fenômenos naturais e do conhecimento que obtemos sobre eles. Ainda, a ciência é o estudo de algum aspecto do comportamento humano, como a Sociologia ou Antropologia. Esta definição refere-se, portanto, a áreas como a Química, a Física, a Matemática, a Medicina, a Biologia, a Psicologia e, portanto, não apenas ao mundo natural, com sua parte abstrata, mas também ao mundo social. A separação tradicional no campo da tradução considera que as disciplinas técnicas são uma aplicação da ciência (por exemplo, princípios matemáticos, físicos e outros são aplicados na Arquitetura), mas, na verdade, as ciências aplicadas e as tecnologias estão muitas vezes tão próximas da ciência pura que é muito difícil estabelecer os limites. Por exemplo, ninguém negaria que a Medicina é uma ciência, quando na realidade é uma ciência aplicada e também uma tecnologia.
Para compreender a separação entre tradução científica e técnica, vale, portanto, examinar outros parâmetros, como o objetivo almejado pelos textos que são objeto de tradução. A função usual dos textos científicos é difundir conhecimentos, transmitir resultados de pesquisas, resultados ou propostas relacionadas a fenômenos específicos e, portanto, alguns dos gêneros textuais mais comuns são artigos científicos, ensaios, tratados, livros didáticos, relatórios, etc. Textos técnicos, por outro lado, tendem a se enquadrar na área industrial e visam ajudar a realizar uma tarefa, descrever um objeto ou processo com detalhe e precisão (artefatos, máquinas, processos de fabricação, edifícios), ou seja, eles geralmente desempenham um papel instrutivo ou operacional e os gêneros textuais mais traduzidos são patentes, instruções técnicas, manuais de usuário, etc. A formação de tradutores tende a combinar conteúdos de ambos os tipos, sendo por isso comum que os currículos incluam disciplinas como “tradução técnico-científica”, ao passo que a profissão tende a se tornar cada vez mais especializada e os tradutores não se dedicam apenas a uma delas, mas a um domínio específico, como Biomedicina ou Arquitetura. Pode haver ainda subdomínios temáticos, como é o caso do câncer infantil ou diabetes, ou gêneros textuais específicos, como manuais de impressão ou bulas de medicamentos. Não se trata, portanto, de uma especialidade única, mas, sim, de muitas subespecialidades.
Na tradução científica, geralmente não há diferença entre a função do texto fonte e a do texto alvo, mas existe uma grande variedade de clientes ou autores, desde indivíduos (por exemplo, pesquisadores que desejam traduzir suas apresentações ou contribuições escritas para conferências e revistas especializadas) até organizações nacionais e internacionais que traduzem sistematicamente muitos dos documentos com os quais trabalham, como a OMS (ver Tradução institucional).
Por fim, quando se fala em tradução científica, costuma-se considerar apenas a tradução interlingual, ao passo que existe também a tradução intralingual, geralmente por razões de divulgação, para um público-alvo menos especializado do que o do texto de origem, por exemplo. Em relação ao espanhol, e isso não acontece apenas no campo científico, documentos escritos em registro formal, como artigos em revistas especializadas, geralmente não apresentam grandes variações entre o espanhol do México e o da Espanha, por exemplo. Logo, não costumam ser traduzidos, ao passo que aqueles que incluem registro coloquial, ou que se referem a aspectos culturais específicos, como consentimento informado para participação em estudo, resumos de artigos científicos, folhetos de prevenção ou testes psicológicos, por exemplo, costumam passar pela tradução intralingual (Ezpeleta 2012:168; Muñoz 2012:187-188; García-Izquierdo e Montalt 2014:47).
O papel da tradução na divulgação do conhecimento científico
A tradução científica não é apenas um meio de divulgação de conhecimento entre pessoas de diferentes línguas e culturas. Muitos autores (como Salama-Carr 1995; Vickery 2000; Wright 2000; Chabás, Gaser e Rey 2002; Montgomery 2002 e 2009; Montalt 2005; Saliba 2007; Burnett 2009) indicam que a história da tradução científica serviu para compilar, comunicar pontos de vista e descobertas e incentivar a reflexão e o diálogo entre cientistas de diferentes culturas, o que tem sido essencial para o progresso da ciência. Em mais de uma ocasião, isto implicou a remodelação de conceitos e paradigmas científicos. Isso ocorreu, por exemplo, na Grécia antiga, quando, entre os séculos VII e V a.C., chegaram da Mesopotâmia, Pérsia, Fenícia e Egito conhecimentos sobre Astronomia, Matemática, Alquimia (Química) e Medicina, entre outras ciências. Seguindo o progresso e as contribuições da Grécia clássica, esse conhecimento foi traduzido para o árabe nos séculos VIII-XI d.C., para o latim na Europa medieval (séculos XI-XV d.C.) e para o chinês durante o reinado da dinastia Song (séculos X-XIII d.C). Nesse sentido, existiu na Espanha do século XIII a famosa Escola de Tradutores de Toledo que traduziu uma enorme quantidade de tratados e documentos científicos do árabe e do grego para o latim e o espanhol.
A cada nova onda de traduções, os conhecimentos anteriores eram combinados com os avanços da época, possibilitando ciências como Botânica, Zoologia e Psicologia, ajudando, assim, a desenvolver a ciência, não só acrescentando ideias ou conceitos, mas também, de uma forma heurística e criativa, dando origem a descobertas que foram aplicadas à tecnologia da época e que levaram a um grande progresso para a humanidade na Arquitetura, Agricultura, navegação, transportes e em muitos outros campos.
Em grande medida, as traduções para o latim contribuíram para a fundação das primeiras universidades europeias e, mais tarde, as traduções para as línguas de cada território favoreceram a revolução científica da Europa entre os séculos XVI e XVIII, lançando as bases para a versão moderna de numerosas ciências, bem como o método científico que ainda hoje é válido.
O século XX representou uma mudança fundamental na medida em que, pela primeira vez, graças à tradução, houve uma visão panorâmica atualizada de toda a ciência no mundo, um contexto global que permitiu a expansão científica de hoje. Sem dúvida, este processo foi impulsionado pela adoção de uma nova língua franca para a qual são traduzidos todos os textos importantes no campo científico e pelo avanço das tecnologias de informação e comunicação.
Como observa Montalt (2005:23), os tradutores têm sido não apenas o elo essencial para a divulgação do conhecimento científico ao longo da história, mas também os compiladores, adaptadores, disseminadores, estudiosos, educadores e autores que atuam como protagonistas no avanço da ciência.
Línguas francas na tradução científica
A partir da década de 1950, o inglês ganhou espaço e acabou se tornando indiscutivelmente a língua franca mundial da comunicação científica, a tal ponto que, atualmente, um artigo não publicado em inglês pode passar completamente despercebido pela comunidade científica internacional e, ocasionalmente, até pela comunidade do próprio país do autor (Meneghini e Packer 2007; Montgomery 2009 e 2013).
As razões do atual inquestionável reinado do inglês sobre outras línguas residem, por um lado, no aumento exponencial da mobilidade de pesquisadores e estudantes entre países e centros acadêmicos ou de investigação, na contratação de cientistas de todo o mundo pelas empresas, e a consequente necessidade de comunicação numa linguagem “comum”. Por outro lado, também envolve a adoção progressiva do inglês como língua oficial ou de referência e, por vezes, única língua em congressos internacionais, revistas e publicações especializadas (Science, Science Advances, Nature, Annalen der Physik), tratados internacionais, patentes e normas, associações, centros e instituições de investigação nacionais e internacionais (por exemplo, embora os acordos sejam traduzidos para todas as línguas, documentos utilizados em organizações como as Nações Unidas, a AIEA ou a OMS tendem a ser apenas em inglês).
Na Espanha, há um exemplo do domínio incontestável do inglês na declaração de 1994 do então diretor do Museu Nacional de Ciências Naturais de Madrid, Pere Alberch (citado por Gonzalo 2008:145), durante o congresso Sciences et Languages en Europe: “English is THE language of communication and it never occurred to me that anybody who knows anything about the dynamics of science today would even question the issue.” Segundo o mesmo autor (Gonzalo 2017), atualmente, apenas 0,6% das ciências naturais e tecnológicas são publicadas em espanhol
Para cada gênero textual específico, cada idioma possui um estilo próprio ou característico, que ocasionalmente muda entre os textos escritos diretamente e os traduzidos ou escritos para serem traduzidos. A este respeito, as convenções da maioria dos gêneros de inglês científico favorecem a precisão e a concisão, um estilo impessoal (muitas vezes utilizando a voz passiva) e o registo padrão, por vezes contrastando com os estilos característicos do discurso científico em outras línguas.
Apesar do seu claro domínio atual na comunicação científica, o inglês tornou-se uma língua franca há muito pouco tempo (há apenas algumas décadas), enquanto, no passado, outras línguas mantiveram esta posição durante séculos, deixando marcas claras.
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| Alfabeto grego. |
Um dos mais renomados estudiosos da língua franca na tradução é sem dúvida Montgomery (2002, 2009, 2013), que afirma que na Ásia Menor a língua franca era o aramaico durante o Império Persa (pelo menos do século VI ao III a.C.) e, a partir do séc. III a.C., predominou o grego, que já era a língua franca em toda a região do Mediterrâneo desde o século VI. a.C., continuando assim até o séc. III a.C. Mesmo depois desta data e até o séc. XV, o grego continuou a ser a língua da ciência no Império Bizantino, apesar do uso do latim para fins administrativos, diplomáticos e oficiais. Os traços do grego clássico na ciência, em qualquer língua, continuam patentes, por exemplo, no uso das letras do alfabeto grego como símbolos na Matemática, Física e Química.
Após a hegemonia do grego, surgiram diferentes correntes de tradução para o latim e o árabe e ambas acabaram se tornando línguas francas. O latim espalhou-se pela Europa e, entre os séculos VI e XVII, muitas obras científicas foram traduzidas do grego para o latim e outras foram escritas e publicadas nessa mesma língua, que também se tornou a língua universitária e acadêmica por excelência. Grande parte da terminologia especializada atualmente utilizada em qualquer língua na maioria das ciências, como a Medicina, provém deste período, tal como as taxonomias em Botânica ou Zoologia, por exemplo.
Uma proporção significativa da ciência grega foi traduzida para o árabe entre os séculos VIII-XI e a Europa, por exemplo, descobriu as obras de Galeno e Hipócrates por meio destas traduções. O islã, no entanto, fez importantes contribuições, em parte originais e em parte com base no sânscrito e em outras línguas asiáticas. Um dos melhores exemplos é o Cânone da Medicina, escrito no início do século XI pelo persa Avicena. Também foram escritos tratados sobre Metafísica, Teologia, Psicologia, Física, Astronomia, Astrologia, Ciências Naturais e Química (muitos dos quais foram posteriormente traduzidos para o latim). No que diz respeito à Medicina, as obras de Avicena fizeram parte do currículo universitário até o século XVII. Sinais de que o árabe foi uma língua franca na ciência podem ser encontrados sobretudo no vocabulário que entrou em muitas línguas e que ainda é usado nos campos da Farmacologia, Química, Medicina, Matemática e da Astronomia (por exemplo, álcool, xarope, alambique, zênite, alcalino, álgebra ou cifra).
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| Cópia de 1597 do Cânone da Medicina de Ibn Sina ou Avicena, nome latinizado pelo qual é conhecido na Europa |
Por fim, o chinês sempre foi a língua franca da ciência no Leste Asiático, reunindo e difundindo o conhecimento dos países e línguas por toda esta região, e tendo sua época de esplendor durante o reinado da dinastia Song, entre os séculos X e XIII d.C. As obras, que chegaram principalmente através da Pérsia, também foram traduzidas do grego e do árabe para o chinês. O chinês teve influência significativa nas línguas da região, enquanto na ciência ocidental isso pode ser visto sobretudo nas aplicações técnicas da ciência desenvolvida na China, com invenções de fundamental importância, como a bússola, o papel, a impressão, a pólvora ou a construção de canais.
Entre os séculos XVII e XX (1680-1980), não existia uma língua franca generalizada nas publicações científicas, embora o francês gozasse, sem dúvida, de grande prestígio, mas a maioria dos autores de cada país utilizava a sua própria língua para comunicar as suas descobertas e teorias, e a tradução tornou-se mais necessária e multilíngue do que nunca. Embora houvesse publicações em vários idiomas, algumas se destacavam em relação às demais pela quantidade e importância das instituições ou cientistas que falavam e escreviam nessas línguas; foi o caso de Darwin em inglês, Pasteur em francês e Einstein em alemão. Ainda podemos ver resquícios dessa época, como a importância do francês no Bureau International des Poids et Mesures (Escritório Internacional de Pesos e Medidas), criado em 1875 com a Convenção do Metro, que deu origem ao Sistema Internacional de Unidades (SI, uma vez que ainda é conhecido pela sua abreviatura em francês, Système international d'unités). A Convenção do Metro foi assinada por 62 estados, 40 países e entidades associadas sendo utilizada em todo o mundo. Esta organização continua a ser muito importante. Por exemplo, em 2018 ela revisou e alterou as definições de unidades como o quilograma, o ampere, o kelvin e o mol, de grande importância no mundo científico.
O discurso científico (Riera 1994; Gutiérrez 1998; Martin e Veel 1998) possui características específicas que o tornam único. Primeiro, combina três tipos de linguagem: a natural, os símbolos e as nomenclaturas.
A linguagem natural na ciência tem certas características comuns a todas as línguas: é especializada, ou seja, os autores e os destinatários dos textos são sempre especialistas na área sobre a qual escrevem e, portanto, utilizam jargões, fórmulas e termos especializados próprios, assim como qualquer outra linguagem especializada, com exceção das publicações de divulgação, destinadas ao público em geral, as quais evitam linguagem técnica e jargões. A linguagem científica é clara, concisa e busca objetividade, precisão e rigor. Tenta-se, portanto, embora nem sempre com êxito, evitar sinônimos e palavras polissêmicas que o contexto não explica claramente, para evitar ambiguidades. Adjetivos, advérbios ou expressões de qualquer espécie que demonstrem afetividade ou subjetividade também são evitados. Porém, cada língua tem sua forma e mecanismos particulares para mostrar essas características comuns.
O espanhol científico é muito diferente da linguagem cotidiana. O registro é sempre formal, tende a ser impessoal para evitar subjetividade, contém uma grande quantidade de dados e utiliza muitas palavras, fórmulas e fraseologias bem estabelecidas que, combinadas com a terminologia especializada, a complexidade dos assuntos e das nomenclaturas, podem se tornar incompreensíveis para não especialistas.
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| Símbolos internacionais, um componente central da comunicação científica |
A linguagem simbólica da ciência é universal e baseada em elementos gráficos e suas combinações, o que permite sua manipulação formal com base em certas regras (Gonzalo 2017). Isto acontece, por exemplo, nas operações matemáticas ou nas fórmulas usuais da Física e da Química. Este tipo de linguagem não causa problemas de tradução, pois não muda entre os idiomas. É, no entanto, necessário acompanhar as mudanças e adaptações da linguagem simbólica das diferentes áreas científicas para compreender a linguagem natural que a acompanha e que, muitas vezes, ilustra ou é baseada no significado daquilo que é expresso simbolicamente.
Por fim, as nomenclaturas também são universais e combinam linguagem natural com convenções e símbolos. Por exemplo, as taxonomias da Botânica e da Zoologia usam termos em latim e os compostos químicos trazem certos símbolos à linguagem natural. Por exemplo, NaCl é “cloreto de sódio” (sal de cozinha) e K2O é “óxido de potássio”. Os tradutores devem estar familiarizados com as nomenclaturas da área em que traduzem e saber onde pesquisar. Caso contrário, não conseguirão compreender os textos o suficiente para oferecer uma tradução adequada.
Desafios da tradução científica
A terminologia especializada tende a ser mencionada como uma das principais dificuldades e características da tradução científica, por outro lado, o conhecimento relacionado ao domínio, à função do texto (que não precisa ser necessariamente informativo ou de referência), às diferenças culturais ou mesmo de estilo não são normalmente citados.
O fato de o discurso científico buscar ser caracterizado pela precisão, clareza e objetividade pode criar a ilusão de que, como a sintaxe é simples e não há ambiguidade, é fácil encontrar equivalentes adequados para a terminologia especializada, a fim de produzir uma tradução adequada. Isso quer dizer que o principal ou único obstáculo à tradução científica seria a terminologia. Na verdade, como observa Franco (2013:40), a suposta natureza artificial da linguagem científica e técnica cria a fantasia de que a tradução poderia consistir na mera substituição de cada termo pelo seu equivalente exato. Embora seja verdade que é difícil traduzir terminologia científica especializada, uma vez que ainda não dispomos de recursos terminográficos e lexicográficos criados para os tradutores - que poderiam esclarecer os usos das diferentes equivalências potenciais, contextualizá-las, etc. - com algumas honrosas exceções, ela está longe de ser a única ou principal dificuldade deste tipo de tradução.
Se organizações internacionais, agências de tradução e clientes privados continuam a contratar os serviços de tradutores e não cedem à tradução automática, é porque uma boa tradução leva em conta muitos outros elementos e tem de ultrapassar muitas outras dificuldades que não são resolvidas por glossários bilíngues.
Para começar, o conhecimento amplo da área do texto de origem é um dos principais obstáculos para tradutores inexperientes e, em muitos casos, essa é a razão para se preferir, em vez de um tradutor profissional, contratar especialistas para traduzir, mesmo que não sejam especialistas em comunicação ou na combinação linguística específica, e mesmo sem formação ou experiência. A estranha ideia de que um texto que não é compreendido em profundidade pode ser traduzido adequadamente, com todas as suas nuances e implicações, resultou muitas vezes em algo desastroso e causou danos consideráveis à imagem e ao prestígio da tradução profissional. Um tradutor não pode e não precisa saber tudo, mas precisa ter uma base sólida na área do texto. Somada a uma documentação adequada, essa base proporciona-lhe uma compreensão abrangente do texto que um especialista possui naturalmente, em função de sua formação específica na área durante anos.
Além do conhecimento e da capacidade para obter documentação conceitual no domínio do texto, outro problema significativo da tradução científica para o espanhol é a falta de atenção à sua idiomaticidade e a negligência com as interferências lexicais, sintáticas, semânticas, morfológicas, estilísticas, ortográficas, de registro e até tipográficas. Essas interferências são diferentes para cada par de idiomas e, portanto, cada tradutor precisa ter domínio da combinação de idiomas em questão. A título de exemplo, analisamos a seguir as mais comuns no par linguístico inglês-espanhol, um dos mais frequentes no mercado de trabalho.
Franco (2009 e 2013:52-53) cita a repetição de verbos comuns como ser ou ter, que em espanhol exigem sinônimos, a extensão das frases (mais longa em espanhol), a frequência de subordinação (maior em espanhol), a diferença de registro (mais formal em muitos gêneros no espanhol), o uso de siglas e abreviaturas (maior em inglês) ou aspectos ideológicos (por exemplo, a palavra subject não tem as mesmas conotações que sujeto ou paciente), entre outras.
Gonzalo (2017) dá exemplos de empréstimo indesejáveis em traduções que tornam o espanhol menos natural e que são comuns em traduções científicas para o espanhol, como temperatura ambiente em vez de temperatura ambiental, no específico em vez de inespecífico, linfoquina no lugar de linfocina, ketoconazol em vez de cetoconazol, hibridización em vez de hibridación, humidificar em vez de humedecer, evidencia em vez de prueba ou comúnmente no lugar de con frecuencia. Também vale a pena mencionar os significados incorretos causados por empréstimos, como poner en evidencia para traduzir “make evident” (em vez de poner de manifiesto) ou “substituir KCl por NaCl” para traduzir “substitute KCl for NaCl” (em vez de “substituir NaCl por KCl”, que é exatamente o oposto).
Além disso, em textos científicos traduzidos do inglês para o espanhol é comum encontrar um uso excessivo da voz passiva, possessivos, pronomes pessoais, sintagmas nominais e gerúndios. O grande número de todos os tipos de erros na redação (em vez de tradução) de textos científicos em espanhol deu origem a publicações específicas sobre este assunto (por exemplo, Gutiérrez 1998; Pérez 2005; Gutiérrez e Navarro 2014) e há um conflito evidente entre os defensores do uso purista ou tradicional da linguagem, que por vezes são acusados de serem demasiado teóricos, e os que defendem o uso em detrimento das regras.
Para concluir, as diferenças culturais nos textos científicos podem por vezes ser um grande obstáculo, uma vez que a função do texto é claramente determinada por elas. Como resume Olohan (2019:510-511), as diferenças decorrem da forma como o conhecimento científico é concebido nos diferentes paradigmas (positivismo, realismo, relativismo, instrumentalismo - cf. Vázquez, Acevedo, Manassero et al. 2001) e dos movimentos que criticam esses paradigmas, como o construtivismo ou o pós-positivismo.
A tradução científica como profissão
A tradução científica começou a ser considerada uma oportunidade profissional após a Segunda Guerra Mundial, ao mesmo tempo que surgiram os cursos universitários de tradução geral e especializada, como explica o verbete dedicado à didática da tradução (ver Didactics of translation).
A profissão de tradutor de textos científicos goza atualmente de muito boa saúde. Por um lado, os especialistas são constantemente obrigados a traduzir de e para o inglês em conferências e revistas especializadas, dada a exigência habitual de que tudo seja publicado nessa língua, para facilitar a sua divulgação, mas, ao mesmo tempo, eles comunicam-se na sua própria língua com a comunidade científica local ou nacional e, sobretudo, com o público não especializado, que muitas vezes não domina o inglês.
Por outro lado, organizações internacionais e transnacionais, mesmo aquelas não relacionadas com a ciência em si, incluem cada vez mais assuntos científicos, como ecologia ou o uso de antibióticos em tratados, regulamentos e publicações que precisam então ser traduzidos do inglês para outras línguas, para os países membros destas organizações, a fim de chegar à população e, por vezes, de ser transposto para a legislação nacional.
Estes exemplos ilustram os dois possíveis trabalhos de tradução nesta área, que estabelecem a utilização do método de tradução mais adequado à situação de comunicação ao nível macrotextual e a utilização das técnicas de tradução mais adequadas ao nível microtextual. Tanto nos artigos ou contribuições para revistas especializadas, como nos relatórios ou documentos internos com conteúdo científico de organizações internacionais ou transnacionais, a função do texto-alvo é documental ou informativa e, portanto, o método deve ser comunicativo. Em contrapartida, quando se trata de regulamentos para serem traduzidos para a legislação nacional, como ocorre, por exemplo, com as diretivas da União Europeia, a função do texto-alvo é instrumental, uma vez que deve ser adaptado à legislação do próprio país, com as consequentes alterações na informação e, portanto, o método de tradução deve permitir a adaptação dos elementos necessários. A escolha do método, em consonância com a tarefa recebida e a função do texto-alvo, irá obviamente respeitar sua relação de tradução com o texto-fonte.
É difícil de caracterizar os gêneros e tipos de textos científicos passíveis de tradução, dada a grande variedade de temas e de tipologia, motivo pelo qual não é possível oferecer uma lista exaustiva deles. A título de exemplo, alguns dos mais comuns ou conhecidos são o artigo científico de divulgação, o artigo científico especializado, o relatório científico, a tese de doutoramento, o guia clínico, a bula de medicamento, o consentimento informado, o teste psicológico, o relatório de pesquisa, a comunicação em congresso especializado, o ensaio, a resenha, o manual, o dicionário, a enciclopédia especializada, entre outros.
Mudanças recentes na profissão
A profissão de tradutor científico sempre esteve ligada aos avanços tecnológicos nos suportes e formatos de escrita, que experimentaram a sua primeira revolução com a chegada da impressão e, a partir da segunda metade do século XX, especialmente na última parte, com o surgimento das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC), hoje essenciais (por exemplo, as macros LaTeX) e que estão se desenvolvendo em ritmo acelerado.
Os recursos para a tradução científica vão desde documentação digital on-line (bases de dados terminológicos, bancos de conhecimento, dicionários de todos os tipos, corpora monolíngues, multilíngues, paralelos, comparáveis, consultas à especialistas, sites de todos os tipos, fóruns especializados, etc.), passando por tradução assistida por computador, com programas específicos, como os de memórias de tradução, até a tradução automática. Além destes recursos, existem cada vez mais programas específicos para realizar tarefas de elevada complexidade, que cumprem funções muito específicas e só são úteis em alguns casos (como, por exemplo, wxMaxima para traduções relacionadas com Matemática ou o grande número de programas específicos no campo da Bioinformática).
A tecnologia abriu caminho para novos fluxos de trabalho e, às vezes, o tradutor é chamado de prestador de serviços linguísticos, precisamente porque pode se dedicar apenas a algumas das etapas incluídas na tradução, como, por exemplo, a preparação, alimentação ou limpeza de bases de dados terminológicas ou de memórias de tradução, o alinhamento de textos, a pós-edição de textos traduzidos por tradução automática ou a realização de controle de qualidade das traduções.
Outra mudança nos últimos anos tem sido o elevado grau de especialização dos tradutores, devido ao aumento exponencial da comunicação multilíngue global da comunidade científica permitida pelas TIC, e aos recursos agora oferecidos ao tradutor. Na verdade, se no ano 2000 ou mesmo em 2010 existiam tradutores científicos que aceitavam trabalhos em todos os tipos de ciências, a prática atual (Montalt 2005; Byrne 2012; Riera 2014; Olohan 2015) é que um tradutor se especialize numa área específica, por exemplo, Biomedicina ou Física Nuclear, pois só assim é possível conhecer a fundo o assunto dos textos, e também acompanhar os desenvolvimentos que ocorrem constantemente.
Formação em tradução científica
A formação em tradução científica começou paralelamente ao reconhecimento da profissão, após a Segunda Guerra Mundial e com os primeiros cursos de ensino superior em Tradução e Interpretação. Desde então, vem progredindo continuamente, embora tenha havido uma mudança especialmente importante nos últimos 30 anos, a partir do crescimento das TIC no campo do ensino e da profissão.
Segundo Olohan (2019:511), a grande maioria das publicações dedicadas à tradução científica antes de 2000 eram guias para tradutores científicos ou manuais, que tinham um claro objetivo de formação. Os guias iniciais, da década de 1960, em alemão, francês e inglês (Jumpelt 1961; Maillot 1968; Finch 1969) foram utilizados principalmente em universidades europeias e, desde então, novos guias e manuais têm sido continuamente publicados, em várias línguas, com mais combinações linguísticas e abrangência científica.
Os constantes progressos e mudanças na profissão, provocados pelos novos desenvolvimentos nas TIC e pelas condições e hábitos do mercado de trabalho, juntamente com a especialização em áreas específicas, conduziram, por um lado, a outros métodos de ensino e a novos manuais que evidenciam tais mudanças (Montalt 2005; Byrne 2012; Riera 2014; Olohan 2015); e, por outro lado, a trabalhos cada vez mais especializados sobre a tradução de domínios específicos, incluindo certos gêneros textuais em uma combinação de idiomas, que podem ser usados para autoaprendizagem — como, por exemplo, os textos de Gallego (2015) e Mugüerza (2019).
A formação de alta qualidade em tradução científica é especialmente importante porque existe uma concorrência considerável com cientistas que traduzem e que são especialistas nas suas áreas de estudo e trabalho. O diferencial que pode fazer pender a balança a favor do tradutor profissional é um trabalho bem-feito: além de utilizar o jargão especializado, a terminologia e a fraseologia típicas (graças ao uso estratégico de recursos lexicográficos e terminográficos) e de interpretar de forma adequada e acurada o conteúdo (ou seja, compreendê-lo em profundidade, graças a um bom domínio da documentação), o texto precisa ser idiomático na língua-alvo e respeitar as suas regras tipográficas, sintáticas, gramaticais, entre outras, algo que os cientistas que traduzem raramente consideram.
Nas palavras de Franco (2013:39), a investigação em tradução científica tem sido “a Cinderela da investigação tradicional tanto em Linguística como em Tradução”, ou seja, marginalizada e desprezada, fato também confirmado por Olohan (2019:511). Contudo, o interesse parece estar aumentando e, ao longo da última década, surgiram mais publicações.
As áreas de investigação que suscitam maior interesse incluem a história da tradução científica (Salama-Carr 1995; Montgomery 2002, 2009, 2013; Dodson 2005; Saliba 2007; Meade 2011), o que por vezes conduz a uma reflexão sobre o conceito de tradução e sobre seu papel e suas mudanças ao longo da história. São principalmente estudos de caso dedicados a áreas científicas, períodos ou domínios específicos (por exemplo, Burnett 2009 pesquisou a tradução de textos matemáticos do árabe para o latim na Idade Média). Há também estudos de caso sobre movimentos de tradução, como a Escola de Tradutores de Toledo (Foz 1988; Hernando de Larramendi e Fernández 1997) ou sobre tradutores específicos (Jardine e Segons 1999; Brisset 2002).
Há também uma linha de estudos de corpus sobre como características do discurso científico são traduzidas, assim como metáforas ou outros elementos textuais (Brown 2003; Liao 2011; Shuttleworth 2014).
Outro ramo de pesquisa dentro da tradução científica diz respeito às línguas francas e, recentemente, à importância e aos efeitos do uso do inglês como língua franca na ciência atual, cuja tradução para outras línguas tende a causar alterações nas línguas-alvo (Montgomery 2009; House 2013; Gordin 2015; projeto de pesquisa CLINT, liderado por Albl-Mikasa).
Finalmente, a contribuição das mulheres para a ciência e a sua visão como autoras e tradutoras (Sánchez 2011; Martin 2016) começou a atrair a atenção dos investigadores. Esta área enquadra-se claramente no âmbito dos Estudos de Gênero.
Como possibilidades futuras de investigação, alguns autores indicam as práticas e políticas de tradução passadas ou atuais, em relação com os sistemas de conhecimento, e o poder epistemológico. Outros temas de interesse incluem o estudo da natureza transcultural da ciência, a questão da sinonímia entre a esfera terminológica e a da linguagem geral e as causas e gestão de interferências, bem como a possível melhoria do texto de origem.


