| ENG Easy-to-read CAT Lectura fàcil EUS Ikakurketa erraz GLG Lectura fácil SPA Lectura fácil |
conteúdo
Leitura Fácil: um processo complexo | Potencial de pesquisa
Leitura fácil, un processo complexo
![]() |
| Logotipo europeu de leitura fácil |
A adaptação de textos para a Leitura Fácil (LF), recurso que garante o direito de acesso à informação escrita em igualdade de condições, vem alcançando enorme desenvolvimento social e conceitual na Europa ao longo dos últimos anos. Na Espanha, diretrizes e recomendações internacionais e suas traduções (IFLA 2010; Inclusion Europe 2013) foram a base para a criação de importantes textos, a exemplo das obras tanto a Lectura fácil: Métodos de redacción y evaluación [Leitura Fácil: métodos de redação e avaliação] (García Muñoz 2012) e Lectura fácil, en el marco de las Guías prácticas de orientaciones para la inclusión educativa [Leitura Fácil no âmbito dos guias práticos de orientação para a inclusão educacional] (García Muñoz 2014) e das normas UNE 153101 EX e sua versão em Leitura Fácil, e UNE 153102 EX, ambas de 2018. Essas diretrizes entendem a Leitura Fácil como uma ferramenta para adaptação (do texto-fonte [TF] ao texto-alvo [TA] em LF) ou para criação (um TF em LF) e subsequente validação de textos para a acessibilidade cognitiva.
Para o comitê técnico CTN153/GT1, a Leitura Fácil é um método que reúne um conjunto de diretrizes e recomendações para transformar conteúdo, design e layout (UNE 153102 2018: 7). Para ser considerada como tal, a tradução precisa ser validada por pelo menos uma pessoa com dificuldades de compreensão leitora em um “processo guiado de avaliação” (UNE 153102 2018: 6); após o qual geralmente é incluido no TA o logotipo europeu que o reconhece como um texto em LF (ver imagem 1). A LF é destinada a pessoas com dificuldades de compreensão leitora decorrentes de uma deficiência intelectual ou outras dificuldades cognitivas, embora os resultados possam beneficiar pessoas surdas ou surdocegas, bem como pessoas com diagnósticos como transtorno do espectro autista, transtornos mentais, transtorno do déficit de atenção, pessoas idosas ou com afasia, distúrbios de linguagem, paralisia cerebral, etc. Pessoas com baixos níveis de letramento devido a razões socioeconômicas ou falta de conhecimento da língua também podem ser beneficiadas (IFLA 2010: 5-9; UNE 153102 2018: 7-8).
Além das importantes modificações relativas ao formato do TF (tamanho, tipo e cor da fonte; alinhamento e espaçamento textual; posicionamento e estrutura de parágrafos; entre outros), García Muñoz (2012: 25) afirma que, quando a adaptação a uma linguagem mais fácil não é suficiente, pode-se recorrer à “transmisión oral, a través de imágenes y pictogramas, lengua de signos, comunicación alternativa y aumentativa o braille” [transmissão oral, através de imagens e pictogramas, língua de sinais, comunicação alternativa e aumentativa ou braille], o que confere a essas adaptações um forte componente intersemiótico. O uso de imagens apela à coerência imagem-texto, sendo a imagem entendida como uma estratégia de apoio ao modo verbal (García Muñoz 2014: 20). A UNE 153101, por sua vez, utiliza exclusivamente o termo imagens para se referir a todos os recursos não verbais que oferecem suporte ao texto escrito.
![]() |
| Resultados para obrigado (primeira linha); compreender (segunda linha) e direitos (terceira linha) em quatro sistemas pictográficos diferentes. Compilados pelas autoras. |
No campo da comunicação aumentativa e alternativa (CAA), há uma busca por substitutos da fala natural para pessoas sem linguagem oral, seja com mensagens baseadas em sistemas gráficos (captados através da visão e estruturados de forma planejada em uma prancha ou dispositivo de comunicação) ou sistemas corporais (sinais manuais que são recebidos no espaço e no tempo através da visão ou do tato). A ampla trajetória da CAA nos Estados Unidos e no norte da Europa contrasta fortemente com a escassez de pesquisas em países de língua hispânica (Coronas & Basil 2013: 134, Alcantud 2020). No entanto, a Espanha destaca-se pelo crescimento da ARASAAC, a biblioteca eletrônica de símbolos gráficos, promovida pelo Governo de Aragão. Outros sistemas pictográficos internacionais incluem o Pictographic Communication System, Widgit, SymbolStix e Minspeak. Essas coleções se propõem a simbolizar a linguagem representando objetos, ações, ideias, tempo, espaço, sentimentos, etc., e são comuns em textos em LF. Algumas dessas linguagens alternativas criaram símbolos para incluir palavras gramaticais ou não lexicais, enquanto outras as omitem, combinam símbolos pictográficos com palavras escritas ou simbolizam funções pragmáticas da linguagem (ver sistema PODD, Porter & Cafiero 2009). Existem alguns aplicativos de tradução de texto para pictograma, como Pictotraductor, Arasuit ou Dictapicto. Contudo, eles são limitados e não foram estudados a partir da perspectiva dos Estudos da Tradução e Interpretação (ETI), mas sim da linguística computacional (Sevens, Vandeghinste, Schuurman et al. 2018; Vandeghinste, Schuurman, Sevens et al. 2017; Vandeghinste & Bulté 2019). As pesquisas realizadas sobre as relações texto-imagem na área da CAA têm se centrado em mensurar os graus de iconicidade (semelhança com o que é representado), abstração (capacidade cognitiva de alcançar um significado socialmente construído e compartilhado) e ambiguidade, sempre usando a chamada hipótese da transparência (Musselwhite & Ruscello 1984; Mizuko 1987; Mizuko & Reichle 1989), o que significa que quanto maior a iconicidade, maior a transparência e, como consequência, mais fácil é para os pictogramas serem compreendidos por pessoas com deficiência (Miranda & Locke 1989; Huang & Chen 2011; Dada, Huguet & Bornman 2013; Bertola López 2017).
Portanto, para a LF, aquilo que a princípio poderia parecer um exercício intralinguístico de adaptação ou simplificação lexical, sintática e pragmática, é na verdade um sistema complexo de operações tradutórias, ou seja, operações cognitivas, que envolvem pelo menos dois modos semióticos: verbal e visual. Adaptação é uma modalidade de tradução intralinguística (de texto para texto na mesma língua) e intersemiótica (de texto para imagem). Diferentemente de outras modalidades, o tradutor deve analisar quais e quantas imagens seriam (mais) adequadas para facilitar a compreensão leitora do TF. Nesse sentido, pode ser útil examinar trabalhos sobre a tradução do código visual para o código verbal (o oposto do que ocorre na LF) em livros ilustrados (Oittinen, Ketola & Garavini 2018), histórias em quadrinhos (Zanettin nesse mesmo volume), estudos de representação de conhecimento especializado por meio de imagens (Prieto 2018) e em outras modalidades de acessibilidade fílmica e museológica.
![]() |
| Fragmento de um texto jurídico original e sua versão em LF. Estatuto de Autonomia da Andaluzia |
Por se tratar de uma operação transversal, aplicável a qualquer tipo de texto produzido em linguagem natural, as áreas de aplicação da LF são tantas quantas as diferentes áreas do conhecimento, como a educação (textos curriculares para estudantes), o lazer e a cultura (Carlucci & Seibel 2020), as ciências naturais (plataformas como DesGranando ciencia, museus de ciências), o campo da política e da jurisprudência (leis, sentenças, programas de partidos políticos), o biossanitário (López & Tercedor 2017, Prieto e Montalt 2018) ou o da mídia audiovisual (Bernabé & Oreo 2019; Bernabé 2020, EASIT). No campo literário, algumas associações possuem repositórios e estima-se que cerca de 300 obras literárias foram adaptadas na Espanha (ver Associació Lectura Fácil, Planeta Fácil ou La Mar de Fàcil), embora não haja produção científica conhecida nos Estudos da Tradução e Interpretação especificamente voltada para a tradução de literatura em LF. Nas imagens a seguir, é possível ver dois exemplos de traduções para LF.
![]() |
| Fragmentos de Dom Quixote em leitura fácil |
Apesar dos grandes esforços das instituições, ainda é preciso resolver muitas questões suscitadas por essa prática tradutória em termos acadêmicos. Ainda é preciso resolver muitas questões suscitadas por essa prática tradutória em termos acadêmicos. Além da noção geral de simplificação das estruturas linguísticas, existem poucos estudos científicos, especialmente se nos concentrarmos em países de língua hispânica, que validem o complexo processo de criação de um texto em LF, analisando e descrevendo as diferentes perspectivas a partir das quais ele deve ser abordado. Em primeiro lugar, a afirmação de que os textos em LF são, de fato, fáceis de ler e compreender ainda é controversa (Hurtado, Jones & Burniston 2014, Rivero & Saldaña 2020). Os estudos empíricos de León, Jastrzebska & Martínez-Huertas (2018a: 73-77) concluíram que, dentro do grupo de “deficiências intelectuais e de desenvolvimento”, há uma elevada variabilidade em relação ao desempenho e às estratégias empregadas, bem como que o fator tempo (de leitura), a motivação e outros apoios extrínsecos influenciam positivamente os resultados da compreensão.
Certos gêneros textuais, para alguns usuários, podem ser (um pouco) mais fáceis de ler e, em outros casos, a adaptação é insuficiente (Fajardo, Tavares, Ávila et al. 2014; Buell, Langdon, Pounds et al. 2020). A IFLA (García 2012: 23; León, Martínez-Huertas & Jastrzebska 2018b: 117) estabelece três níveis de adaptação para a LF, embora nos últimos anos tenha prevalecido a “leitura fácil universal”. Em outras palavras, trata-se de uma espécie de “mínimo comum” ou “design para todos” em um estilo neutro ou pan-hispânico, no caso da língua espanhola, sem praticamente nenhuma reflexão teórico-linguística sobre o que isso implica (com exceção dos estudos alemães sobre LF, ver Maaß 2019 e Maaß e Rink 2020). Os conceitos de fácil, universal e equivalente alternam-se contraditoriamente na escassa bibliografia: “[…] la lectura fácil no es una simplificación ni un resumen. […] El objetivo es ofrecer una información equivalente en la que se recrea tanto el sentido como el sentimiento del autor original” [A leitura fácil não é uma simplificação nem um resumo. […] O objetivo é oferecer informações equivalentes que recriem tanto o significado quanto o sentimento do autor original] (García 2015: 154; IFLA 2010: 20).
Por outro lado, a relação e a coerência entre textos escritos e imagens (fotografias, pictogramas e ilustrações) devem ser estudadas em maior profundidade. Pouca atenção tem sido dada à forma como as bibliotecas de símbolos pictográficos são culturalmente localizadas quando traduzidas para outras línguas (Huer 2000; Chompoobutr, Potibal, Boriboon et al. 2013; Kang, Kim & Yeon 2019). Seria necessário medir a acessibilidade de diferentes grupos de receptores aos diferentes tipos de imagens, desde as mais universais e simples até as mais culturais e metafóricas (Tercedor & Casado 2018). Na publicação Pautas de diseño de pictogramas, a compreensão de 60 recursos gráficos de ambientes urbanos foi avaliada de acordo com a ISO 9186 (Parte 1: Métodos para testes de compreensibilidade). Foi revelado que muitas imagens supostamente universais são interpretadas de formas muito diferentes e até mesmo errôneas por diferentes sujeitos. Essa conclusão é corroborada por estudos de diferentes autores (Poncelas e Murphy 2007; Sutherland & Isherwood 2016). Um segundo passo seria enfocar a relação semântica e pragmática entre imagem e texto, sem determinar previamente qual dos dois deveria fornecer mais contexto textual ou servir como suporte. Seria necessário teorizar sobre as funções das imagens nessa modalidade de tradução (interpretativa, atencional, compensatória, etc.), pois alguns estudos sugerem que a carga cognitiva aumenta com a presença de ilustrações, o que influencia negativamente a compreensão (Yaneva, Temnikova & Mitkov 2015). Esse é, portanto, um trabalho para uma equipe de pesquisa interdisciplinar composta por psicolinguistas, tradutores, psicólogos e pedagogos, bem como especialistas em diferentes áreas do conhecimento (artes, ciências jurídicas, medicina, etc.).
De uma perspectiva exclusivamente tradutológica, a pesquisa sobre esse processo de tradução está apenas começando. A análise do TF deve ser realizada a partir de uma perspectiva textual top-down (de cima para baixo), com o objetivo de ir além de uma simplificação intuitiva de estruturas lexicais ou sintáticas. É imperativo descrever desde as possibilidades de simplificação do esquema e do (sub)domínio cognitivo da área de conhecimento da qual o texto faz parte (por exemplo, domínio arqueologia; subdomínio escavações), passando pela expressão da função comunicativa e atos de fala ativados no texto (descrever, avaliar, etc.), até chegar à estrutura retórica do texto, para terminar na ordem lógica dos eventos com a estrutura das proposições (Faber 2015). Esse processo de representação do conhecimento macrotextual deveria ser o ponto de partida do processo de simplificação, uma vez que um texto é mais acessível quando os leitores-receptores são capazes de perceber os eventos que ele ativa de forma ordenada. Essa abordagem é complementada por uma análise bottom-up (de baixo para cima), na qual lexemas, sintagmas e estruturas sintáticas simplificadas contribuem para a ativação de uma representação mental do que o texto descreve.
No caso de textos especializados, os departamentos de comunicação da indústria globalizada vem liderando o caminho rumo à simplificação com a criação de linguagens controladas em seu domínio de especialidade (O’Brien 2010). Os TAs simplificados deveriam ser não apenas tipologias de linguagens controladas, mas também construções controladas dos textos de cada domínio.



