Saltar navegação

Entrada

página de inicio ayuda (guía de consulta) buscar descargar (pdf) imprimir broken link

 

 

cita ENG Functionalism CAT Funcionalisme EUS Funtzionalismoa GLG Funcionalismo SPA Funcionalismo

 

conteúdo
Introdução | Um vislumbre histórico: a formação de tradutores/as na Alemanha nas décadas de 1950 e 1970 | A virada funcionalista e seus/as protagonistas | Princípios básicos do funcionalismo | O funcionalismo na pedagogia da tradução | Avanços recentes | Potencial de pesquisa

 

Introducción  Introdução

O que chamamos de funcionalismo abrange várias aplicações da teoria do escopo. Essa teoria foi apresentada pela primeira vez em uma série de palestras proferidas pelo tradutor-intérprete e teórico da área da tradução Hans J. Vermeer (1930-2010) na Faculdade de Linguística Aplicada e Estudos Culturais da Universidade de Mainz em 1977 e publicada um ano depois (Vermeer 1978). Logo, colegas e discípulos/as de Vermeer aplicaram a teoria ao fenômeno tradutório e, sobretudo, em suas aulas nos mais variados centros universitários de formação de tradutores/as na Alemanha. Depois de uma década na “incubação”, na qual quase todas as publicações eram em alemão (exceto um artigo de Vermeer, de 1989, publicado em inglês e um livro,também de Vermeer, escrito em português europeu, de 1986), a palavra “funcionalismo” foi disseminada por todo o mundo, desencadeando uma avalanche de publicações em muitas áreas dos Estudos da Tradução, da jurídica à literária ou até mesmo na tradução bíblica, mas predominantemente na pedagogia da tradução (cf. Nord [1997] 2018: 126-132).

A teoria do escopo tem seu próprio verbete nesta enciclopédia. Sendo assim, vamos  discorrer apenas brevemente sobre os princípios básicos que formam o referencial teórico do funcionalismo. Todo/a pesquisador/a se apoia no trabalho de seus predecessores, e o funcionalismo não é exceção. Não se pode entender o funcionalismo sem as contribuições e influências dos representantes da teoria do escopo. Além do próprio Hans J. Vermeer, o funcionalismo deve muito a Katharina Reiss (em alemão: Reiß), Heinz Göhring, Justa Holz-Mänttäri e alguns de seus/as primeiros/as seguidores/as. As informações fornecidas no verbete sobre a teoria do escopo serão, portanto, complementadas com um breve (porém pessoal) relato de suas influências e contribuições a fim de esclarecer os motivos e objetivos do funcionalismo.

Além disso, para compreender profundamente a mudança paradigmática provocada pelo funcionalismo, é necessário saber mais sobre o contexto em que ele surgiu, ou seja, sobre a formação de tradutores/as e intérpretes profissionais na Alemanha nas décadas de 1960 e 1970. Essa situação é descrita com base na experiência pessoal da autora, que se formou tradutora e iniciou suas atividades de ensino na Escola de Tradução e Interpretação da Universidade de Heidelberg (School of Translation and Interpreting of the University of Heidelberg) justamente naquele período, “vivenciando”, por assim dizer, o desenvolvimento dos Estudos da Tradução. 

voltar ao topo

[título del epígrafe]Um vislumbre da história: a formação de tradutores/as na Alemanha durante as décadas de 1950 e 1970

A formação universitária de tradutores/as tem uma longa tradição alemã. Fundado em 1929, o “Instituto de educação linguística e econômica para intérpretes" foi integrado à Escola de Línguas Modernas na Universidade Politécnica de Mannheim em 1932. Um ano depois, o instituto foi transferido para a Universidade de Heidelberg, onde se tornou, primeiramente, parte da Faculdade de Economia e depois parte da Faculdade de Filosofia. Com o nome de Escola de Tradução e Interpretação (Institut für Übersetzen und Dolmetschen, IÜD), atualmente faz parte da Faculdade de Línguas Modernas (Neuphilologische Fakultät).

Edificio principal del Institut für Übersetzen und Dolmetschen, en Heidelberg
Instituto de Tradução e Interpretação, Heidelberg.

Após a Segunda Guerra Mundial, a Alemanha foi dividida pela “cortina de ferro” em duas partes, o que dificultava a comunicação em termos de pesquisa e publicações acadêmicas: a República Federal da Alemanha (RFA), no ocidente, e a República Democrática Alemã (RDA), no oriente. Em ambas as partes, havia centros de formação de tradutores/as. Em uma primeira fase, a formação profissionalizante apresentou-se em nível técnico e, um pouco mais tarde, em nível universitário, já com a expectativa de que o ensino e a pesquisa andassem lado a lado. Em 1962, na Alemanha Oriental, a Universidade Humboldt de Berlim (HUB) e a Universidade Karl-Marx de Leipzig (KML) retomaram a formação de tradutores/as em suas instituições. Leipzig tornou-se conhecida pela sua teoria da tradução orientada para a linguística e a comunicação, com Otto Kade como o seu representante mais proeminente (the “Leipzig School”, cf. García Bernardo 2010: 49-83). Já a Universidade Humboldt de Berlim (HUB) tinha um enfoque especial na interpretação.

Na Alemanha Ocidental, três universidades desenvolveram uma grade curricular comum na década de 1950: a Universidade de Heidelberg, a Universidade de Mainz (com um campus separado para a Faculdade de Linguística Aplicada e Estudos Culturais na vizinha Germersheim) e a Universidade de Saarbrücken (ambas com início em 1948). Nesse sentido, não havia contato oficial com as instituições da RDA.

Quando eu era estudante na Escola Heidelberg para intérpretes (Dolmetscher-Institut) na década de 1960, o currículo consistia no aprimoramento de competências em duas línguas estrangeiras (a serem escolhidas entre inglês, francês, espanhol, italiano e russo), alguma linguística comparativa entre essas línguas estrangeiras e o alemão como língua nativa. Além disso, eram oferecidas disciplinas práticas de tradução diretas e inversas de textos gerais e textos especializados, geralmente do Direito ou da Economia. O currículo contava também com algumas disciplinas de interpretação consecutiva bilateral, bem como da tradução à vista. Os aspectos não linguísticos eram representados pelo que chamavam de Estudos de Área (Landeskunde), em que os/as estudantes deveriam se familiarizar com as condições geográficas, políticas, econômicas e culturais dos países onde suas línguas de trabalho fossem faladas.

As disciplinas tinham maior enfoque na competência linguística. Na Alemanha Ocidental, a teoria da tradução ainda não existia, e como as relações com as instituições da Alemanha Oriental eram escassas, principalmente no que diz respeito a contatos pessoais, quase ninguém sabia o que estava acontecendo do outro lado da Cortina de Ferro. A lista de leituras “teóricas” incluía alguns relatos anedóticos de intérpretes e tradutores/as em exercício, principalmente sobre as armadilhas da tradução literária e, claro, os clássicos como Schleiermacher (1813) ou Walter Benjamin (1923). O aspecto linguístico era representado por estudos comparativos na linha de Vinay & Darbelnet (1958), para citar uma publicação que ainda hoje seja bastante conhecida.

Essa situação refletia o modelo de formação de tradutores/as e intérpretes na Alemanha Ocidental na década de 1960. Durante esse período, a formação era predominantemente voltada para o desenvolvimento da competência linguística e baseada no “aprender fazendo”, e não havia registros de estudos ou teorização acerca da tradução ou dos estudos da tradução, nem mesmo no sentido mais amplo possível. Foi somente no segundo semestre de 1966/67, pouco antes de eu receber meu diploma, um seminário ministrado por Katharina Reiss proporcionou um primeiro vislumbre do que seriam os Estudos da Tradução (ET) algumas décadas depois. Nesse seminário, tivemos que produzir uma avaliação crítica de um texto literário traduzido, com base em critérios "objetivos". Para mim, foi uma experiência reveladora. 

voltar ao topo

[título del epígrafe] A virada funcionalista e seus protagonistas

O ponto de partida

É uma ironia do destino que os primeiros experimentos com inteligência artificial e tradução automática no começo da década de 1960, desenvolvidos para tornar supérflua a tradução feita por pessoas, fortaleceram o interesse pelo estudo do fenômeno tradutório e deram início ao que foi então chamado de “a ciência da tradução”. Como era de se esperar em tais circunstâncias, essa ciência tinha como base a comparação de sistemas linguísticos (cf. Catford 1965). O objetivo era encontrar “equivalentes” no nível de pares mínimos, principalmente no que diz respeito a itens lexicais. Por muitos anos (e para alguns/as teóricos/as, até os dias atuais), a equivalência tornou-se o conceito central no estudo da tradução. Quando eu era estudante, era exatamente a equivalência que tínhamos que encontrar em cada tarefa de tradução.

Contudo, ao final da década de 1960, a linguística textual e discursiva abriu nossos olhos para uma perspectiva mais ampla. Foi Katharina Reiss quem nos ensinou a usar sua tipologia textual, que era baseada em uma abordagem funcional da comunicação. A meu ver, seu livro sobre avaliação da qualidade em tradução (Reiss [1971] 2000) foi o ponto de partida do funcionalismo na Alemanha Ocidental, embora a própria autora nunca tenha abandonado o conceito de equivalência como padrão “normal” para a relação entre texto-fonte e texto-alvo. No entanto, antes de observar seu modelo em detalhes, farei uma breve consideração sobre os/as protagonistas do que viria a se estabelecer como o funcionalismo nos Estudos da Tradução. É interessante notar que todos/as eram formados em tradução e/ou interpretação, o que era bastante incomum para um/a teórico/a em tradução em uma época na qual costumava haver uma vasta lacuna entre teoria e prática em muitos campos disciplinares.

Traducción inglesa del libro fundacional (1971) de Katharina Reiss
A tradução para o inglês da obra seminal (1971) de Katharina Reiss.

[Crítica da Tradução – Potenciais e Limitações]

Katharina Reiss (1923-2018) se formou como tradutora de alemão, inglês e espanhol na Escola de Intérpretes (Dolmetscher-Institut) da Universidade Heidelberg entre 1941 e 1944. Enquanto ensinava língua espanhola e tradução espanhol-alemão na Escola de Intérpretes da Universidade Heidelberg, ela estudou línguas românicas (com especialização em espanhol), obtendo o título de doutora pela Faculdade de Línguas Modernas, com uma tese sobre o autor espanhol Leopoldo Alas “Clarín”, em 1954. Continuou suas atividades de docência na Universidade de Heidelberg até 1970, quando se mudou para Munique, passando a lecionar em seguida na Universidade de Würzburgo. Concluiu o pós-doutorado (Habilitation) na Faculdade de Estudos Linguísticos e Culturais da Universidade de Mainz em 1974, o que lhe deu a possibilidade de ensinar tradução e Estudos da Tradução em Germersheim até sua aposentadoria, em 1988. Ao longo de sua carreira docente, Reiss traduziu vários livros do espanhol para o alemão, a exemplo do romance de Pío Baroja, Las inquietudes de Shanti Andía (em alemão: Shanti Andía, der Ruhelose; em inglês: The Restlessness of Shanti Andía; em português: “As inquietudes de Shanti Andía”).

Com mais de 90 publicações sobre diversos aspectos da tradução e palestras em mais de 20 países, Katharina Reiss pode ser considerada uma pioneira nos Estudos da Tradução na Alemanha. Seu primeiro livro, publicado em 1971, Möglichkeiten und Grenzen der Übersetzungskritik (Análise Crítica em Tradução - Potenciais e Limitações), também traduzido para o inglês como Translation Criticism – The Potentials & Limitations (Reiss 2000), foi a primeira publicação acadêmica sobre tradução na Alemanha Ocidental. Trataremos disso mais detalhadamente em seguida.

Hans Josef Vermeer y su obra fundacional (1984, publicada junto a K. Reiss)

Hans Josef Vermeer e sua obra fundamental (1984, em coautoria com K. Reiss).

[Fundamentos para uma Teoria Geral da Tradução]

Hans J. Vermeer (1930-2010) também se formou como tradutor de alemão, inglês e espanhol na Escola de Interpretação de Heidelberg na década de 1950 (sendo aluno de Katharina Reiss, entre outros/as docentes), e para o português na Universidade de Lisboa, em Portugal. Lecionou língua portuguesa e tradução na Universidade de Heidelberg de 1954 a 1962, e defendeu seu doutorado em Linguística Geral com uma tese sobre termos para cor em línguas Indo-europeias em 1962. Depois disso, lecionou hindi e urdu na Escola de Estudos Sul-Asiáticos (Südasien-Institut) da Universidade Heidelberg. Em sua pesquisa de pós-doutorado (Habilitation) Vermeer abordou as línguas Sul-Asiáticas. Em seguida, trabalhou como professor assistente na Escola de Linguística Geral até 1970, quando foi nomeado professor catedrático de Linguística Geral e Aplicada na Faculdade de Germersheim da Universidade de Mainz. Em 1984, Vermeer se tornou professor catedrático de Estudos Gerais sobre Tradução e diretor do departamento de português da Escola de Tradução e Interpretação de Heidelberg. Se aposentou de seu cargo em 1992, mas continuou lecionando como professor convidado em diversas universidades na Áustria e Turquia. De 2008 até 2010, Vermeer lecionou em Germersheim novamente, onde recebeu um doutorado honoris causa da Universidade de Mainz em 2010, praticamente em seu leito de morte (cf. Kelletat 2011).

Em suas mais de 200 publicações, entre elas os sete volumes da coletânea “História da Tradução na Idade Média, Renascença e Humanismo”, Vermeer tratou de uma variedade de tópicos em linguística e Estudos da Tradução. De todo modo, ele é provavelmente mais conhecido pela sua teoria do escopo da ação tradutória.

Heinz Göhring y una recopilación de sus ensayos (2002)
Heinz Göhring e uma antologia de seus artigos (2002).

[Comunicação Intercultural]

Heinz Göhring (1935-2000) iniciou sua formação acadêmica na Universidade de Heidelberg, onde concluiu em 1959 a graduação como intérprete de conferência para alemão, inglês e espanhol na Escola de Tradução e Interpretação, estudando Etnologia, Sociologia, Economia e Ciências Políticas ao mesmo tempo. Em 1966, obteve o título de doutor por um estudo etnológico sobre o povo Luba (ou: baLuba) na África Central. Durante toda sua vida, trabalhou algumas vezes como intérprete como, por exemplo, acompanhando o presidente da República Federal da Alemanha em uma viagem de três semanas à América do Sul, como intérprete de conferência para o Clube de Roma ou o Conselho Mundial de Alimentação (Club of Rome, the World Food Council)

campo para seu projeto de pós-doutorado, uma experiência que formaria seu modo de pensar sobre cultura. Ele chegou à conclusão de que a pesquisa etnográfica baseada em observação participante seria também uma metodologia apropriada para a recém-inaugurada disciplina, a Comunicação Intercultural. Göhring escreveu:

Jede Kultur lehrt mich […], daß auch ich hätte so leben können. […] ‘So leben’, das heißt: sehen, riechen, schmecken, denken, wahrnehmen, sprechen, fühlen, mich bewegen, lieben, hassen, streiten und Frieden machen, als schön oder häßlich, gut oder böse bewerten, kurzum mich verhalten wie ein beliebiger Einheimischer. (Göhring 1980)

[Cada cultura me ensina [...] que eu poderia ter vivido daquele modo [...].  ‘Viver daquele modo’ significa: ver, cheirar, saborear, pensar, perceber, falar, sentir, se movimentar, amar, odiar, brigar e fazer as pazes, achar bonito ou feio, bom ou mau; em suma: se comportar como qualquer membro dessa cultura.] 

Em 1971, após a sua nomeação como professor titular da Faculdade de Linguística Aplicada e Estudos Culturais da Universidade de Mainz, em Germersheim, Göhring lecionou Comunicação Intercultural no programa para formação de tradutores/as e intérpretes até sua aposentadoria prematura em 1999 (cf. Kelletat 2002, 11-13). Göhring foi um dos co-fundadores do novo campo disciplinar da Comunicação Intercultural, com enfoque na aplicação de suas ideias à prática e ao ensino da interpretação. Consequentemente, suas publicações são escassas. Alguns de seus artigos e trabalhos mais importantes, todos escritos em alemão, foram editados por Andreas F. Kelletat e Holger Siever em publicação póstuma (Göhring 2002).

Justa Hölz-Mänttäri y su tesis pionera de 1984

Justa Hölz-Mänttäri e sua tese inovadora de 1984. Fonte: Anu Viljanmaa (2016).

[Ação Tradutória: Teoria e Método]

Justa Holz-Mänttäri nasceu em Hamburgo, Alemanha, em 1936. Ela cursou Estudos Fino-úgricos na Universidade de Hamburgo e foi para a Finlândia em 1961, onde trabalhou como tradutora de finlandês para alemão, ou como ela se apresentava, “text designer for clients who, as senders or receivers, ordered German texts on the basis of texts written in Finnish” (Holz-Mänttäri 2012: 78; tradução da autora) [“uma designer de textos para clientes que, como emissores/as ou receptores/as, encomendaram textos em alemão baseados em textos escritos em finlandês”]. Quando Holz-Mänttäri convenceu seu empregador de que a responsabilidade pelos variados tipos de texto que produzia deveria ser exclusivamente dela, na qualidade de especialista em design profissional de textos, ele deixou de entregar-lhe textos-fonte em finlandês, passando apenas a fornecer algumas notas explicando o que ele queria que ela comunicasse. Esse tipo de experiência definiu a base para sua tese de doutorado na Teoria da Ação Tradutória, que será descrita em mais detalhes abaixo e que, junto com a teoria do escopo, forma a base do funcionalismo.

Em 1972, Holz-Mänttäri defendeu o mestrado em Estudos em Literatura Geral e Estética na Universidade de Tampere, Finlândia. Como na instituição não havia docentes na área de Estudos da Tradução na época, ela foi nomeada professora assistente no Instituto de Tradução e Interpretação, sob a condição de que concluísse a segunda dissertação de mestrado, exigida para o doutorado, no prazo máximo de dois anos. Holz-Mänttäri decidiu, então, escrever sobre um tópico relacionado aos Estudos da Tradução. Por meio de seu trabalho para uma comissão em “Prática e Ensino de Tradução”, conheceu Hans J. Vermeer e se familiarizou com sua obra. Percebendo que eles pensavam de forma muito parecida, ela o convidou para participar da defesa de sua tese de doutorado, que foi publicada com o título Theorie des Translatorischen Handelns [Teoria da Ação Tradutória, Holz-Mänttäri 1984].

Com base na teoria da ação (cf. von Wright 1968, entre outros), a teoria de Holz-Mänttäri contempla todas as formas de mediação intercultural, inclusive aquelas que não envolvem qualquer texto fonte ou alvo. Para evitar confusão com teorias tradicionais, a autora criou uma nova terminologia: em vez de textos, ela fala de transmissores de mensagens (indicando que não são limitados a meios de comunicação verbais), e em vez de tradução, ela usa o termo ação translatória para enfatizar os aspectos acionais dos processos de mediação intercultural e as funções dos agentes (o/a iniciador/a, o/a tradutor/a, os/as usuários/as do texto-alvo ou receptores/as), bem como a situação na qual esses agentes interagem (tempo, local, meio etc.). Nas palavras de Holz-Mänttäri, tradutores/as são especialistas em produzir transmissores de mensagens adequados na comunicação intercultural ou transcultural.

Translatorisches Handeln wird […] als Produktionsprozess eines Handelnden dargestellt mit der Funktion, Botschaftsträger einer näher zu bestimmenden Art zu produzieren, die in übergeordneten Handlungsgefügen zur Steuerung von aktionalen und kommunikativen Kooperationen eingesetzt werden können. (Holz-Mänttäri 1984: 17).

[A ação translatória é o processo de produzir um transmissor de mensagem de um certo tipo, elaborado para ser empregado em sistemas superordenados de ação, com o objetivo de coordenar cooperação acional e comunicativa].

Uma das principais preocupações de Holz-Mänttäri sempre foi o status dos/as tradutores/as em um mundo globalizado e o treinamento desses/as especialistas. Parte de suas publicações, algumas em co-autoria com Vermeer, trata de novos programas de formação (por exemplo, Holz-Mänttäri & Vermeer 1985). Até sua aposentadoria, Holz-Mänttäri foi docente titular dos Estudos da Tradução na Universidade de Tampere.

 

A “segunda geração”

Por muito tempo, muitos/as professores/as de prática de tradução procuravam por um arcabouço teórico. Entre eles podemos citar: Hans G. Hönig, Paul Kussmaul e Sigrid Kupsch-Losereit. Após participar das palestras de Vermeer na Faculdade de Germersheim, Hans G. Hönig e Paul Kussmaul foram os primeiros a publicar sua aplicação da teoria do escopo no livro Strategie der Übersetzung ('Estratégia de tradução', Hönig & Kussmaul, 1982), um manual voltado à prática para estudantes de tradução Inglês - Alemão. Foi a partir de uma palestra de Hönig e Kussmaul, na qual eles apresentaram sua metodologia, que o funcionalismo chegou à escola de Heidelberg e foi avidamente adotado por vários/as professores/as de tradução (inclusive eu) desta antiga instituição. A nomeação de Vermeer como catedrático dos Estudos da Tradução no departamento de língua portuguesa, em 1983, inaugurou um grupo de discussão que se reunia nas tardes de sexta-feira para debater questões de interesse comum. Esse grupo era chamado de “o circo das sextas-feiras” por outros catedráticos da escola, que ainda seguiam uma abordagem linguística. Esse nome claramente ilustra a atitude crítica do grupo diante da teoria do escopo e do funcionalismo.

Ainda assim, os/as participantes do grupo eram engajados/as. Pela primeira vez em meus quinze anos de docência na Universidade de Heidelberg, os/as professores/as de tradução ligados a diferentes departamentos de línguas debateram suas preocupações acerca da seleção de material didático, avaliação das traduções dos/as estudantes, organização do trabalho em sala de aula e metodologia de ensino. Com o tempo, muitos de nós passamos a publicar nossas novas experiências de ensino, desenvolvendo uma pedagogia de tradução funcionalista, a exemplo de Kupsch-Losereit 1985, Kalina 1986, Nord 1986, 1987a, 1987b, 1988, [1988] 1991, Schmitt 1987, 1989, Ammann 1989, para mencionar algumas das primeiras publicações “funcionalistas”. O periódico TextconText, editado por Vermeer e Holz-Mänttäri entre 1986 e 2001, foi o meio mais apropriado para divulgar as novidades (ao menos na Alemanha e nos círculos de falantes de alemão). 

 

Recepção

Como vimos anteriormente, os/as colegas de Vermeer, que ainda acreditavam firmemente na equivalência como conceito essencial da tradução, não conseguiam aceitar o postulado de Vermeer de que não é o texto-fonte (nem qualquer um de seus elementos) que determina o método de tradução, mas sim o propósito para qual o texto-alvo se faz necessário na cultura de chegada, e que a língua não constitui o valor central a ser reproduzido na tradução. As críticas de seus opositores foram implacáveis: “a teoria do escopo violava as fronteiras da tradução propriamente dita”, “era uma teoria da adaptação”, “não era baseada em descobertas empíricas”, “não respeitava o original”, “não funcionava para tradução literária” (ver Nord [1997] 2018: 100-112). Alguns/mas críticos/as até questionavam a essência da teoria: não é verdade que todas as ações têm uma intenção, nem que todas as traduções têm um propósito, e o funcionalismo produz “especialistas mercenários”, que manipulam o texto-fonte apenas seguindo as exigências do/a iniciador/a etc.

Essas reações provavelmente se deviam ao uso da tradução com uma ferramenta nos estudos filológicos e no ensino de língua estrangeira na Alemanha, o que levava a um conceito de tradução com enfoque na língua e na equivalência linguística. Todo/a linguista se lembra das aulas de idiomas nas quais “uma tradução deveria ser tão fiel quanto possível e tão livre quanto necessária (considerando as incongruências entre os sistemas linguísticos)”. É evidente que esse conceito é incompatível com o funcionalismo.

Entretanto, a recepção crítica por parte dos/as teóricos/as da tradução foi contrabalanceada pelo entusiasmo de professores/as e estudantes de instituições de formação e de tradutores/as profissionais (ao menos na medida em que se interessavam pelos fundamentos teóricos e metodológicos de seu trabalho). Para eles/as, o funcionalismo apenas apelava ao senso comum, já que em geral as pessoas adaptam sua forma de se comunicar à situação e às pessoas com quem estão interagindo. Consequentemente, a tradução funcionalista logo se difundiu na formação de tradutores/as em regiões de falantes da língua alemã e, pouco depois, no mundo inteiro. 

voltar ao topo

[título del epígrafe] Princípios básicos do funcionalismo

O funcionalismo fundamenta-se nos seguintes princípios básicos:

  • Princípio de funcionalidade: o propósito da tradução determina a escolha do método tradutório.
  • Princípio de lealdade: a aceitabilidade do propósito da tradução é limitada pela responsabilidade do/a tradutor/a em relação às outras pessoas envolvidas na interação mediadora.
  • O propósito da tradução é definido por um encargo de tradução, que (implicitamente ou explicitamente) descreve as condições da situação comunicativa para a qual o texto-alvo é necessário.  
  • O fator mais importante desta situação-alvo definida pelo encargo da tradução é a função ou hierarquia de funções que se espera alcançar com os atos comunicativos que compõem o texto-alvo.
  • A função ou a funcionalidade não é uma característica inerente ao texto, mas é atribuída ao texto pelo/a receptor/a no momento da recepção. Dessa forma, é o/a receptor/a quem decide se (e como) um texto “funciona” (para eles/as, em seu contexto).
  • O/a produtor/a de um texto (e ou o/a tradutor/a enquanto produtor/a de texto) busca trabalhar de forma que os/as receptores/as reconheçam a(s) função(ões) pretendidas, aceitando o texto como funcional exatamente por essas funções. Para atingir esse objetivo, usam “marcadores de função” linguísticos e extralinguísticos, que apenas podem ser interpretados corretamente pelo/a receptor/a se eles/as pertencerem a um “código de marcadores” conhecido. 
  • A função (ou hierarquia de funções) pretendida e/ou alcançada pelas expressões que compõem o texto-alvo pode ser diferente daquela ou daquelas pretendidas e/ou alcançadas pelo texto-fonte, desde que não sejam incompatíveis com a(s) intenção(ões) comunicativa(s) do/a autor/a do texto-fonte (de acordo com as convenções de tradução das culturas envolvidas). 

voltar ao topo

[título del epígrafe]Funcionalismo na pedagogia da tradução

Após esta breve visão geral do contexto em que o funcionalismo surgiu e de alguns/mas de seus/as protagonistas e seguidores/as, passemos à análise dos detalhes. Não há necessidade de descrever a teoria do escopo, a qual já tem seu próprio verbete nesta enciclopédia, mas temos que considerar as contribuições dos/as protagonistas mencionados acima. Na primeira fase da nova disciplina dos estudos da tradução, na qual a equivalência era o único princípio da tradução e o debate sobre equivalentes nos níveis lexicais, sintáticos e estilísticos dominava o cenário, a sugestão de Katharina Reiss de considerar o texto em sua totalidade como a unidade apropriada da tradução surgiu como uma mudança de paradigma, sem dúvida inspirada pelas tendências vigentes da linguística. 

 

Da equivalência à adequação

Katharina Reiss já havia publicado um breve artigo no periódico Linguistica Antverpiensia (Reiss 1968), no qual apresentou, pela primeira vez, sua tipologia textual orientada à tradução. Porém, como mencionado anteriormente, foi apenas em 1971 que uma versão elaborada de seu modelo de avaliação de qualidade em tradução foi disponibilizada em formato de livro. O princípio básico do modelo de Reiss era a correlação entre o gênero textual ao qual o texto-fonte pertence e o método apropriado de tradução que resultaria em um texto-alvo pertencente ao mesmo gênero textual. Isso configuraria a equivalência no nível de tipologia textual. O conceito de equivalência era tão comum naquela época que a própria Reiss não o questionou, nem se preocupou em defini-lo em seu livro. Ao que se refere ao “conceito central” tradutológico (Kernbegriff), Reiss simplesmente afirmou em uma nota de rodapé que os textos fonte e alvo e suas diferentes unidades tradutórias deveriam ter “the same [communicative] value” [o mesmo valor comunicativo] (Reiss [1971] 2000: 2f.).

A tipologia textual de Katharina Reiss é baseada no “modelo orgânico” de funções da linguagem desenvolvido pelo psicólogo alemão Karl Bühler (1934) e consiste em três tipos de textos, que são classificados de acordo com a sua função de linguagem dominante:

  • textos com ênfase no conteúdo (inhaltsbetonte Texte, por exemplo, textos jornalísticos nos quais a função representacional da linguagem tem prioridade, isto é, a informação transmitida é o aspecto mais importante do texto; 
  • textos com ênfase na forma (formbetonte Texte, por exemplo, romances ou poesia), nos quais a função expressiva da linguagem tem prioridade, isto é, textos nos quais os elementos estilísticos individuais têm como objetivo expressar a atitude pessoal do autor em relação ao tema ou conteúdo;
  • textos com ênfase no apelo (appellbetonteTexte, por exemplo, anúncios publicitários ou discursos políticos), isto é, textos que têm a intenção de “apelar” para que o público (re)aja de alguma maneira específica.

 Na primeira versão de sua tipologia, Reiss incluiu um quarto tipo, os “textos audiomediais” (posteriormente: textos multimídias), que necessitam de recursos auditivos ou visuais para alcançar seu público (por exemplo, peças de teatro ou óperas). Esse tipo é “transversal” no sentido de que cada um dos outros três tipos pode utilizar formas não verbais de apresentação, o que deve ser levado em consideração no processo tradutório. Numa publicação posterior (Reiss 1976), na qual dedicou atenção especial ao terceiro tipo, Reiss alterou sua terminologia para “informativo”, “expressivo” e “operativo”. Isso representou uma aparente mudança teórica ou, pelo menos, foi entendido como tal. Enquanto a primeira tipologia se baseava nas funções de linguagem predominantes em um texto, a segunda parecia se basear na função dominante de um texto. Isso foi criticado por outros/as teóricos/as que argumentavam que textos podem ter mais do que essas três funções. Entretanto, Reiss não fez nenhuma mudança em seus fundamentos teóricos, somente na terminologia, conformando-se às normas e convenções da prosa acadêmica alemã, nas quais os latinismos são considerados mais apropriados do que os compostos alemães. 

De acordo com Reiss, o tipo de texto determina o método de tradução porque sempre haverá um método apropriado para produzir um texto-alvo que seja equivalente ao texto-fonte em termos de função e efeito. Isso significa

  • textos com ênfase no conteúdo ou informativos devem ser traduzidos de forma que o conteúdo seja transferido correta e integralmente, enquanto a forma é adaptada às convenções estilísticas da cultura-alvo (= invariância de conteúdo);
  • textos com ênfase na forma ou expressivos devem ser traduzidos de modo que não somente o conteúdo, mas também as características estilísticas específicas que expressam a atitude do/a autor/a sejam reproduzidas no texto-alvo (= analogia de forma);
  • textos com ênfase no apelo ou operativos devem ser traduzidos de modo que o texto-alvo seja capaz de produzir um efeito equivalente na cultura-alvo, mesmo que isso signifique mudar ou adaptar o conteúdo ou a forma ou ambos (= identidade de efeito).

Até então, o modelo baseava-se firmemente em um conceito de equivalência, ainda que no nível da tipologia textual, em vez de unidades lexicais ou sintáticas inferiores. Contudo, sendo ela própria uma tradutora experiente, Reiss sabia muito bem que, em alguns casos, a equivalência ao nível do tipo de texto não pode ser o padrão para uma avaliação justa de uma determinada tradução, visto que o texto-alvo destina-se a um público diferente do texto-fonte (por exemplo, traduzir “As Viagens de Gulliver” para crianças) ou cumpre finalidades diferentes (por exemplo, adaptar um romance para o teatro). Nesses casos, o padrão para a avaliação de qualidade da tradução não seria mais a equivalência, mas a adequação ao propósito designado. No modelo de Reiss, no entanto, a equivalência permaneceu sendo o padrão geral, tendo a adequação como um caso especial ou uma exceção no qual a equivalência não era possível ou desejada.

 

Traduzir como uma ação mediadora iniciada por um/a solicitante

Quando eu era estudante, os agentes envolvidos em uma interação tradutória não eram sequer mencionados. Para nós, traduzir era uma operação puramente linguística entre duas línguas e o mais importante era saber as regras e regularidades necessárias para mudança de códigos. Quanto menos intervenções do/a tradutor/a com suas preferências e idiossincrasias, melhor. Na realidade, foi Justa Holz-Mänttäri, partindo de sua própria experiência como tradutora profissional e da teoria da ação, quem elaborou todo um sistema de pessoas envolvidas nessa atividade: o iniciador da ação tradutória (na prática profissional, seria o/a cliente ou o/a solicitante), o/a tradutor/a ou intérprete, um/a designer responsável pelo layout, o/a usuário/a do texto-alvo etc. (Holz-Mänttäri 1984). A principal motivação de Holz-Mänttäri era melhorar o status social do/a tradutor/a como especialista em mediação intercultural. Na formação de tradutores/as, isso significa que as atividades profissionais devem ser “simuladas” em cada aula de tradução.

 

O encargo da tradução e o grau de precisão necessário

Tal simulação da prática profissional tem mais consequências para a pedagogia da tradução. Se a teoria do escopo define o texto como “oferta de informação”, o texto-fonte não pode mais ser o único padrão para avaliar a qualidade de uma tradução. O/A tradutor/a deve prever o contexto em que o texto-alvo será utilizado, e isso inclui não somente o tempo e o local de recepção, mas também o meio e, sobretudo, o público-alvo. Mas então a questão é: como o/a tradutor/a sabe para quem e para que propósito a tradução será necessária?

Para responder a esta pergunta, Hans G. Hönig e Paul Kussmaul (1982) elaboraram o conceito de encargo de tradução, que define o propósito do texto-alvo na situação em que ele será utilizado e, ao mesmo tempo, serve como um guia para a avaliação do produto. Na prática da tradução profissional, os encargos de tradução normalmente não são muito específicos e, nesses casos, o/a tradutor/a deve “interpretá-los” a fim de alcançar resultados satisfatórios. Nas aulas, os/as estudantes devem se acostumar com os encargos de tradução desde o início da formação — que podem ser específicos no início e mais “realistas” ao final do programa.  

Além disso, o encargo da tradução especifica o “grau de precisão necessário” (notwendiger Differenzierungsgrad, cf. Hönig & Kussmaul 1982: 58-64). Na maioria dos contextos, não é necessário especificar todas as nuances do significado de um conceito. Em conformidade com o encargo que também define o público do texto-alvo, pode ser adequado, por exemplo, traduzir Abitur como A-levels em um contexto determinado, enquanto em outro será mais apropriado usar final exam of secondary education university entrance qualification, ou até mesmo o empréstimo linguístico Abitur acompanhado de uma explicação detalhada como “diploma de ensino médio alemão que habilita ao ingresso na universidade, correspondente aos A levels na Grã-Bretanha”.

 

Cultura e especificidade cultural

O começo da “virada cultural” é frequentemente associado a Bassnett e Lefevere (1990). Entretanto, graças à contribuição de Heinz Göhring, Vermeer já havia integrado seu conceito de cultura e especificidade cultural à teoria do escopo:

[A culture is] the entire setting of norms and conventions an individual as a member of his society must know in order to be “like everybody” – or to be able to be different from everybody.

(Vermeer 1987: 28)

[Uma cultura é] todo o conjunto de normas e convenções que um indivíduo, como um membro de sua sociedade, deve conhecer para ser “como todo mundo” – ou para ser capaz de ser diferente de todo mundo.

Traduzir significa comparar culturas. No mundo globalizado de hoje, é difícil definir ao certo o que é “uma cultura”. Portanto, Nord ([1997] 2018: 23-24) sugeriu uma conceitualização mais dinâmica. Baseando-se em Michal Agar, um antropólogo estadunidense que trabalha como “profissional intercultural” na região ao longo da fronteira entre Estados Unidos e México, ela afirmou que a fronteira cultural entre dois grupos é formada por “pontos ricos” (rich points). Isto é, os encontros que são ricos em conflitos em potencial causados por diferentes convenções em relação a comportamentos verbais e não verbais em situações análogas (cf. Agar 1991: 168).

Hasta los medios de transporte pueden ser culturemas, diferentes en forma y parecidos en función
Até mesmo o uso de meios de transporte pode ser um “culturema”, diferente na forma, mas similar na função.

Fonte: Eurostat.

As formas específicas de comportamento que causam esses pontos ricos são chamadas de culturemas (Vermeer & Witte 1990: 135-143). Um culturema é um fenômeno cultural pertencente a uma cultura A, considerado relevante pelos membros dessa cultura e que, se comparado a um fenômeno social semelhante de uma cultura B, aparenta ser específico da cultura A. Tal fenômeno pode variar na forma, mas ser similar na função (por exemplo, trem vs. carro vs. bicicleta), ou vice-versa (por exemplo, [to have] coffee pela manhã no Reino Unido vs. [tomar un] café depois do jantar na Espanha vs. Kaffee [trinken] à tarde, com um pedaço de bolo, na Alemanha). A cultura é uma das questões mais importantes, não só no ensino da tradução, mas também na pesquisa nos Estudos da Tradução.

 

Funções nos textos e traduções: uma tipologia funcional

Desde os tempos mais remotos, tradutores/as enfrentam um dilema: reproduzir fielmente o texto-fonte ou produzir um texto de chegada voltado para o público-alvo (por exemplo, Cicero, Jerônimo, Martinho Lutero, Friedrich Schleiermacher, Eugene A. Nida, Lawrence Venuti, citando apenas alguns teóricos que elaboraram dicotomias semelhantes). De acordo com o contexto histórico e sua própria experiência tradutória, eles geralmente preferiam uma das duas estratégias opostas, que consideravam como tradução propriamente dita. Historicamente, observa-se um movimento pendular de um polo para o outro.

O funcionalismo torna essa decisão supérflua, pois permite que cada estratégia tomada para um texto-alvo esteja de acordo com as demandas do encargo da tradução. Para a pedagogia da tradução (e por que não para a prática de tradução?), Nord sugere uma tipologia funcional de traduções, com os dois tipos mais conhecidos e uma série de subtipos ou formas, baseada num modelo de comunicação de quatro funções (cf. Nord [1991] 2005: 47, para mais detalhes: Nord [1997] 2018: 45-50).

Diferentemente da tipologia de Reiss, como anteriormente apresentada, o modelo de Nord não se refere às funções do texto, mas sim às funções no texto, ou seja, funções de enunciados ou dos atos de fala, uma vez que a maioria dos textos visa atingir várias ou até mesmo todas as quatro funções básicas ou qualquer uma de suas subfunções:

  • A função fática abre e fecha o canal comunicativo entre as partes envolvidas e o mantém ativo pelo tempo que for necessário (por exemplo, através de fórmulas de saudação, desculpas, preenchimento de pausas, metacomunicação etc.). Ela simultaneamente define e molda a relação sociocomunicativa entre emissor/a e receptor/a (por exemplo, com o uso de formas específicas de tratamento ou honoríficos). Esta função atua com base em formas convencionais, verbais e não verbais, do comportamento fático utilizado na comunicação. 
  • A função referencial vincula o signo comunicativo a objetos e fenômenos do mundo, sejam reais ou fictícios. Por exemplo, ela provê informações, descrições, explicações, classificações ou instruções. Atua com base no conhecimento compartilhado e num equilíbrio adequado entre informações “dadas” e “novas” (tópico e comentário). Em outras palavras, são tanto as informações com as quais o/a destinatário/a está supostamente familiarizado/a, de modo que não necessitam ser verbalizadas, quanto as informações consideradas novas e interessantes para o/a receptor/a que, por isso, são verbalizadas explicitamente. 
  • A função expressiva verbaliza, explicitamente ou implicitamente, a atitude do/a emissor/a para com o referente, expressando valores, emoções, intenções etc. A expressividade implícita é baseada em um sistema de valores compartilhado entre emissor/a e receptor/a.
  • A função apelativa leva o público-alvo a reagir de uma maneira específica. Ela inclui, por exemplo, pedidos, ordens, comunicações persuasivas, e alusões ou citações que pretendem fazer com que os receptores lembrem de um texto conhecido ou de algo que já vivenciaram.

No processo tradutório, o/a tradutor/a deve verificar se os pré-requisitos de cada função estão presentes na cultura-alvo. Se, por exemplo, as convenções de comportamento fático forem as mesmas em ambas as culturas, o/a tradutor/a apenas transfere as formas utilizadas da língua-fonte para a língua-alvo. Caso contrário, existem duas maneiras opostas de resolver o problema: ou o comportamento da cultura-fonte é reproduzido ou “documentado” no texto-alvo — o que provavelmente demandará explicações em um paratexto, como uma nota de rodapé ou um glossário —, ou é adaptado às normas e convenções da cultura-alvo, de modo que o texto-alvo funcione como um “instrumento” de comunicação direta entre o emissor do texto-fonte e o receptor do texto-alvo. Isso significa que o/a tradutor/a deve decidir entre uma tradução documental ou uma tradução instrumental, conforme solicitado pelo encargo da tradução. As mesmas alternativas existem para cada uma das quatro funções básicas e suas respectivas subfunções.

Mudar o público pretendido significa uma mudança de funções.

Essa dicotomia funcional ainda não está suficientemente especificada para os/as estudantes que precisam interpretar um encargo de tradução. Portanto, cada tipo pode ser classificado em várias formas de tradução:

  • Distinguimos as seguintes formas de tradução documental: (1) traduções interlineares ou palavra-por-palavra, as quais reproduzem exatamente as características do sistema da língua-fonte e são usadas principalmente para fins de estudo; (2) traduções literais, que documentam o texto-fonte no nível do léxico, enquanto as estruturas gramaticais são adaptadas às normas da língua-alvo, como por exemplo, traduções gramaticais utilizadas em aulas de língua estrangeira; (3) traduções filológicas, com notas de rodapé ou outros paratextos, usadas para a tradução de clássicos gregos e romanos ou traduções de culturas muito distantes (por exemplo, tradução de um romance chinês para o inglês); e (4) traduções exotizantes, as quais apresentam a estranheza da cultura-fonte para o público-alvo em uma linguagem acessível.
  • As formas seguintes são utilizadas na tradução instrumental: (1) traduções equifuncionais destinadas a alcançar na cultura-alvo as funções que o texto-fonte cumpriu ou ainda cumpre na cultura-fonte; (2) traduções heterofuncionais, utilizadas nos casos em que os receptores da cultura-fonte e alvo, em suas respectivas situações, são tão diferentes que uma ou mais das funções originalmente pretendidas não podem ser alcançadas para o público-alvo como tal ou na mesma ordem hierárquica (por exemplo, a tradução de As Viagens de Gulliver para crianças); (3) traduções homólogas, que são utilizadas, por exemplo, na tradução de poesia para uma antologia na língua-alvo com a intenção de transmitir uma impressão das qualidades poéticas do original.

Essa tipologia já é utilizada no ensino de tradução em várias partes do mundo.

 

Avaliação funcional na formação de tradutores/as

Ao avaliar estudantes em programas de formação de tradutores/as, normalmente encontramos uma mistura de diferentes critérios: professores/as querem saber se o/a estudante entendeu o texto-fonte “corretamente”, se o seu significado foi transferido “adequadamente” para a língua-alvo, e se o léxico e a sintaxe utilizadas no texto-alvo estão em conformidade com as normas da língua-alvo. Um erro de tradução é frequentemente definido como um “desvio do sistema de regras e normas”, mas, uma vez que não existem regras na tradução, tal definição não faz sentido.

Em uma abordagem funcional, o conceito de erro de tradução deve ser definido de acordo com o propósito do texto-alvo, conforme estabelecido no encargo. A perspectiva funcional para a avaliação de traduções de estudantes foi inicialmente introduzida nos Estudos de Tradução por Sigrid Kupsch-Losereit (1985, 1986) e elaborada por Hans Hönig (1987), Paul Kussmaul (1995) e Nord (1994).

El concepto funcionalista de error en traducción se centra en la coherencia situacional
O conceito funcionalista de erro tem enfoque na coerência situacional.

Kupsch-Losereit define o erro de tradução como “uma ofensa contra 1. a função do texto-alvo, 2. a coerência do texto, 3. o tipo ou a forma do texto, 4. as convenções linguísticas, 5. as convenções e condições específicas da cultura e da língua, e 6. o sistema da língua-alvo” (Kupsch-Losereit 1985: 172). Isso significa que uma expressão não é inadequada por si só, mas apenas no que diz respeito à função comunicativa pretendida.  Podem haver até casos em que uma expressão gramaticalmente incorreta seja uma solução adequada em um texto cuja intenção é imitar o jeito “incorreto” de uma pessoa falar, enquanto a reprodução fiel de uma citação falsa pode resultar em uma tradução inadequada quando se espera um texto-alvo perfeito.

Nord (1994 e mais detalhadamente em Nord [1997] 2018: 70) relaciona os erros de tradução à sua classificação de problemas de tradução. Se um erro de tradução é considerado uma “falha no cumprimento de um requisito do encargo de tradução”, cada solução inadequada ou não solução para um problema de tradução constitui um erro. Os erros podem ser classificados em quatro categorias:

  • erros pragmáticos são causados por soluções inadequadas ou pela ausência de soluções para problemas pragmáticos de tradução, tais como referência a um culturema da cultura-fonte que exige uma explicação;
  • erros culturais são decorrentes de uma decisão inadequada em relação à reprodução ou adaptação de convenções culturais específicas, por exemplo, no que se refere às unidades de medida mencionadas no texto-fonte;
  • erros linguísticos são causados por uma tradução inadequada quando o enfoque é na estrutura da língua, por exemplo, no caso de um neologismo que ainda não tenha um equivalente na língua-alvo;
  • erros específicos são relacionados a um problema de tradução específico, como um trocadilho ou um elemento específico do estilo do/a autor/a.

De acordo com Nord, qualquer violação das normas da língua-alvo que não seja justificada pelo encargo, não é um erro de tradução em seu sentido estrito. Trata-se, na verdade, da proficiência insuficiente na língua-alvo e, portanto, não será incluída na avaliação da competência de tradução, embora devesse ser pontuada para ajudar os/as estudantes a melhorarem sua competência linguística.

 

Lealdade aliada à função 

No âmbito da teoria do escopo, “os fins justificam os meios” (Reiss & Vermeer [1984] 2013: 90). Isso significa que, baseado no encargo, um determinado texto-fonte permitiria qualquer tipo de estratégia que conduzisse a um fim justificável e uma margem de manipulação praticamente ilimitada. Na prática da tradução, no entanto, os/as tradutores/as interagem, como Holz-Mänttäri nos ensinou, com vários outros indivíduos, para com quem têm uma responsabilidade ética. Nord chama essa responsabilidade de lealdade (Nord [1997] 2018: 113-117). Lealdade é uma categoria interpessoal que regula as relações sociais entre pessoas envolvidas no processo de mediação intercultural. O conceito de lealdade não deve ser confundido com “fidelidade”, que é uma categoria intertextual que se refere à relação de semelhança linguística ou estilística entre o texto-fonte e o texto-alvo.   

Na interação intercultural mediada, o/a tradutor/a é o/a único/a participante familiarizado/a com as duas culturas envolvidas e com as expectativas e teorias subjetivas de ambas, mesmo que estas sejam contraditórias. Ser leal não significa sempre fazer o que o outro (por exemplo, solicitante ou receptor/a do texto-alvo) espera, mas sim ser capaz de justificar o que está sendo feito. Portanto, a lealdade é baseada na confiança mútua entre colaboradores/as de uma interação intercultural e pode fortalecer o prestígio social do/a tradutor/a como mediador/a responsável e digno/a de confiança.

 

Transcriação como tradução funcional de textos publicitários

Na prática profissional de tradução, o termo transcriação é um neologismo que se refere a um texto que não é “simplesmente traduzido” (ou seja, uma tradução baseada no princípio da equivalência linguística) e é usado principalmente entre tradutores/as das áreas de marketing e publicidade. A explicação a seguir, fornecida por uma agência de tradução, pode ser entendida como uma definição de uma tradução funcional de textos publicitários (Fonte: Balemans [1] 02/03/2021):

Transcreation basically means recreating a text for the target audience, in other words “translating” and “recreating” the text. Hence the term “transcreation”. Transcreation is used to make sure that the target text is the same as the source text in every aspect: the message it conveys, style, the images and emotions it evokes and its cultural background.

[Transcriação significa basicamente recriar um texto para o público-alvo, ou seja, “traduzir” e “recriar” o texto. Daí o termo “transcriação”. A transcriação é utilizada para garantir que o texto-alvo seja idêntico ao texto-fonte em todos os aspectos: mensagem veiculada, estilo, imagens e emoções que provoca, e seu contexto cultural.]

Obviamente, o conceito de equivalência ainda é muito presente nas conotações do termo tradução, o que motivou a criação de um novo termo que designa algo que tem sido o trabalho cotidiano de muitos profissionais da tradução (e não apenas aqueles/as que trabalham com marketing) há pelo menos meio século. Entretanto, é importante observar que o termo transcriação não é equivalente à tradução funcional em termos gerais, mas se limita à tradução funcional de textos comerciais. 

voltar ao topo

[título del epígrafe]Avanços recentes

Estudos da Adaptação

Os Estudos da Adaptação constituem outra disciplina com enfoque nos princípios do funcionalismo, pelo menos no que diz respeito à abordagem centrada no público-alvo. Esse campo surgiu nos estudos literários na década de 1950, inicialmente referindo-se à adaptação cinematográfica de romances. Como vimos acima, Katharina Reiss mencionou precisamente esse caso ao discutir as limitações do conceito de equivalência (Reiss [1971] 2000: 89ff.). Mais tarde, os Estudos da Adaptação passaram a incluir outras mídias e, a partir dos anos 2000, estabeleceram vínculos com os Estudos da Tradução (conferir, por exemplo, Krebs 2013). Além disso, existe uma relação estreita com a transcriação.

 

Estudos da Transferência

Uma das ramificações mais recentes do funcionalismo é a disciplina dos Estudos da Transferência, que teve origem na Alemanha e se concentra na transferência de conhecimento em seu sentido mais amplo (cf., por exemplo, Göpferich 2007: Susanne Göpferich foi uma pesquisadora funcionalista da área da tradução da “terceira geração”). Nos Estudos da Transferência, a orientação para o público e a finalidade da transferência são aspectos derivados do funcionalismo em tradução.

No entanto, é preciso enfatizar novamente que tanto os Estudos da Adaptação quanto os Estudos da Transferência diferem de forma clara do funcionalismo nos Estudos da Tradução em um aspecto importante. No funcionalismo, a adaptação às condições do contexto de chegada constitui apenas uma entre as duas estratégias possíveis. A outra pode ser a orientação para o texto-fonte e sua cultura, sempre que for solicitada pelo encargo de tradução. Caso seja exigido, até mesmo uma tradução interlinear pode ser considerada tão “funcional” quanto uma tradução exotizante ou equifuncional. 

voltar ao topo

 potencial para la investigación Potencial de pesquisa

Como vimos na seção anterior, o funcionalismo teve um impacto significativo na pedagogia da tradução, área para a qual foi originalmente desenvolvido. Contudo, ele também contribuiu de maneira relevante para a pesquisa tradutológica. Por questões de espaço, abordaremos apenas os campos em que o funcionalismo se mostrou mais prolífico. Para mais detalhes, ver Nord [1997] 2018: 126-132.

Textos paralelos como base para comparação cultural

A “direcionalidade” ou “abordagem centrada no público-alvo” tem sido, desde o início, um dos aspectos mais importantes do funcionalismo. Uma forma de investigar as expectativas ou o conhecimento prévio de um determinado público é por meio da análise de textos paralelos (definidos aqui como textos autênticos do mesmo gênero produzidos em duas culturas diferentes), cujas características moldam as expectativas de seus/as usuários/as. Já em 1978, Paul Kussmaul publicou um artigo sobre convenções comunicativas em textos acadêmicos, comparando textos paralelos em inglês e alemão (Kussmaul 1978). Desde então, esse método tem sido amplamente utilizado por estudiosos/as da tradução, incluindo tradutores/as em formação que precisavam escrever seus trabalhos de conclusão de curso, para analisar e comparar uma grande variedade de gêneros e atos comunicativos (cf., por exemplo, Göpferich 1995, 2007; Nord 2004a, 2004b).

 

O funcionalismo na tradução literária

Os/As críticos/as sempre enfatizaram que o funcionalismo se mostra eficaz na tradução de textos pragmáticos, como manuais de instruções, mas que não poderia ser aplicado à tradução literária. Geralmente alegam que os textos literários, por serem obras de arte, possuem um status diferenciado que não permitiria uma tradução funcional, entendida, nesse caso, como uma forma de adaptação às expectativas do público-alvo. Para além do fato de que tal concepção se trata de um equívoco, observa-se, na verdade, uma forte orientação para o público nas traduções literárias (por exemplo, em livros infantis, em determinados gêneros teatrais e até mesmo em traduções de Shakespeare!) (cf. também Kelletat 2011). De todo modo, há inúmeros problemas tradutórios que não apenas permitem, mas exigem que se leve em consideração as funções (possíveis ou pretendidas) do texto — tanto no nível macro, em que se deve decidir sobre o tipo ou a forma de texto adequada, quanto em níveis mais específicos de léxico e sintaxe, a exemplo do tratamento de nomes próprios, da transferência de referências culturais ou da reprodução de formas de tratamento entre personagens fictícios etc. (cf. Nord 2012).

 

O funcionalismo na tradução jurídica

Por bastante tempo, os/as críticos/as também defenderam que o funcionalismo não era aplicável à tradução jurídica, embora alguns teóricos/as já tivessem empregado a distinção entre tradução documental e instrumental nesse campo (por exemplo, Prieto 2002; Calvo 2002, entre outros/as). Inspirado no modelo circular do processo tradutório proposto por Nord (Nord [1991] 2005: 36-39), Prieto demonstrou como as escolhas terminológicas, especialmente na tradução juramentada, são orientadas pela busca do/a tradutor/a por uma adequação comunicativa em cada situação. O autor distinguiu cinco categorias de textos jurídicos (textos legislativos; textos judiciais; outros instrumentos públicos legais ou textos de aplicação jurídica; instrumentos jurídicos privados e textos jurídicos acadêmicos) com três funções principais: regular relações jurídicas públicas ou privadas, aplicar instrumentos legais em contextos específicos e transmitir conhecimento especializado sobre fontes do direito e relações jurídicas (Prieto 2014).

 

O funcionalismo na tradução de textos religiosos

Outro caso específico em que a aplicação do funcionalismo tem sido considerada inviável é o da tradução de textos religiosos em geral e, mais especificamente, de textos bíblicos. Ainda assim, esse tema tem sido abordado em diversos estudos, como os de Nord (2002, 2005), Downie (2009) e Cheung (2011), que tratam do funcionalismo na tradução da Bíblia, e o de Guimarães (2009), sobre a tradução do Bagavadeguitá. Assim como ocorre na tradução literária, as decisões funcionalistas devem ser tomadas tanto no nível global do texto quanto em relação às unidades de tradução em níveis inferiores.

 

O local de trabalho do/a tradutor/a

Um dos méritos da teoria do escopo foi despertar o interesse dos/as pesquisadores/as pelas condições de trabalho na área da tradução profissional. À medida que o mercado de trabalho para a mediação intercultural se torna cada vez mais globalizado, esse tema se tornou um campo promissor de pesquisa nos Estudos da Tradução. Diversos teóricos/as concentram as suas pesquisas no ambiente de trabalho do/a tradutor/a — entre eles, Nisbeth-Brøgger (2017), que estudou a prática da tradução médica, e Calvo, cujo enfoque recai sobre a empregabilidade de egressos/as de cursos de formação de tradutores/as e intérpretes (Calvo & Morón 2010).

voltar ao topo

Creado con eXeLearning (Ventana nueva)