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Introdução | As origens da discussão | Os critérios de qualidade | A qualidade do produto | A qualidade do processo | Potencial de pesquisa

 

Introducción  Introdução

O estudo da qualidade incita debates fervorosos, talvez por conta de seu caráter subjetivo, relativo, vago e volúvel. O exercício da tradução tem sido sempre acompanhado da reflexão sobre o que é traduzir bem. Com o passar dos anos, o interesse pela qualidade não perdeu força, pelo contrário. Desde a segunda metade do século XX, tem sido notada uma eclosão inquestionável tanto na reflexão teórica quanto na publicação de normas profissionais, o que é explicado, em parte, pelo aumento de traduções (Xueting, Espín-García e Presas 2018: 236) e, sobretudo, pela expansão definitiva dos estudos de tradução e interpretação (ETI).

O peso desse conceito nos ETI pode ser apreciado no espaço que ocupa na bibliografia especializada: entre os anos 2000 e 2017, cerca de 6% dos artigos publicados em algumas das revistas mais renomadas da área discutiam sobre qualidade (Akbari 2018: 553). Em buscas pelo termo qualidade durante 2018 e 2019, a Bibliografía de Interpretación y Traducción (BITRA, Franco Aixelá, 2001-2020) apresenta números similares. Enquanto o interesse por esse conceito se mantém, também permanece a sensação de que a qualidade é um tópico espinhoso (Jiménez-Crespo, 2017: 478). Isso acontece por diversas razões: desde pela própria complexidade teórica e filosófica entranhada no conceito, até pela enorme variedade de entornos em que está presente, passando pelo fato de que a qualidade, na tradução, afeta tarefas diversas (Koby e Lacruz, 2017: 11). É preciso acrescentar que não existe uma tradução perfeita predeterminada e que, pelo contrário, várias traduções do mesmo texto de partida (TP) podem ser consideradas igualmente boas.

Outro obstáculo para definir a qualidade é sua mutabilidade: traduções que, em determinada época, eram consideradas boas, com o tempo passam a ser desprezadas; da mesma forma, traduções criticadas passam a ser aplaudidas. Cabe citar como exemplo desse primeiro caso as traduções de Milan Kundera ao francês, que foram corrigidas pelo próprio autor; do segundo, temos a clássica coleção poética Rubaiyat, de Omar Jayam, cuja tradução ao inglês assinada por Edward Fitzgerald foi, inicialmente, incompreendida. Por último, há conceitos que ocasionalmente coincidem com o de qualidade. Isso ocorre com o de ética, que trata de questões como as lealdades do tradutor com o autor original, com o cliente, com o leitor e consigo mesmo (Nord, 2016: 571). O caminho da ética se cruza com o da qualidade porque esta é percebida como obrigação ética, e o comportamento ético constitui um rótulo de qualidade. Além disso, as normas profissionais surgem em nome dos respectivos conceitos.

O caso mais evidente é o da “avaliação” acadêmica, já que o que se costuma avaliar é precisamente a qualidade das traduções. Para abordar o estudo desses conceitos, pode ser útil delimitar as questões que correspondem de maneira essencial a cada um deles. Assim, pertencem ao âmbito de estudo da avaliação as ferramentas para avaliar traduções e tradutores, assim como as particularidades que se apresentam nessa atividade em seus diversos entornos. Por outro lado, o estudo da qualidade na tradução se ocupa mais dos critérios que a definem.

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[título del epígrafe] As origens da discussão

O principal debate histórico sobre como traduzir bem esteve ligado ao conceito de tradução a partir da noção de equivalência, que se apresentava a partir da dualidade livre/literal, de modo os autores podiam defender somente uma das duas posturas como a única válida. Até o século I a.C., Cícero (Conde, 2009: 63) e Horácio (Melby, Manning e Klemetz, 2005: 407-408) criticavam uma tradução literal demais, e essa postura marcava o começo de um movimento pendular em torno da relação entre os conceitos de qualidade e literariedade.

San Jerónimo como erudito, de El Greco
São Jerônimo como erudito, de El Greco. [Fonte]

São Jerônimo também assumiu que a literariedade absoluta não funcionava em alguns casos; em sua Carta a Pamaquio (ano 395), mencionou pela primeira vez a tradução do sentido. Na Idade Média, a tradução livre continuou sendo a ortodoxa, mas a tendência contrária não desapareceu por completo. Essa coexistência de posturas continuou até a Idade Moderna. De fato, o pêndulo oscilou mais rápido que nunca: desde figuras como a de Étienne Dolet, que fomentaram a distância da língua original como uma característica própria de uma boa tradução (Hurtado, 2001: 108-109), até a tendência batizada por Gilles Ménage como les belles infidèles, próxima à de adaptação, no sentido de estratégia para reconstruir livremente o impacto ou o propósito de um texto original (ver Bastin, 2009: 5). Também encontramos aqueles como John Dryden e sua aposta na paráfrase ou tradução sentido por sentido (Melby, Manning e Klemetz, 2005: 407-408), que defendiam um meio-termo entre a tradução “palavra por palavra” e a adaptação completamente livre; passando por correntes críticas que, no fervor da Contrarreforma, exigiam maior exatidão e fidelidade (Hermans, 1997: s. p.).

Nos princípios da Idade Contemporânea, destaca-se, com suas três leis, Alexander Fraser Tytler, que parecia contestar a corrente romântica da época (Pegenaute, 1996: 23), a partir da qual se preferiam – por razões políticas e identitárias – as traduções que mantivessem o exotismo dos originais – exemplos dessa corrente são Friedrich Daniel Ernst Schleiermacher e Wilhelm von Humboldt. De todos os modos, os séculos XVIII e XIX também foram diversos em relação à reflexão teórica; de fato, podemos entender a própria postura de Tytler como um dos pontos de encontro entre os dois extremos que haviam prevalecido até então (Pegenaute, 1996: 26). A discussão entre literalidade e naturalidade persiste e evolui no século XX: até a metade do século, a maioria dos autores concordam que há somente uma forma de fazer uma boa tradução, isto é, que a qualidade é uma noção absoluta (Melby, Manning e Klemetz, 2005: 408). Essa visão, influenciada por correntes como a do neopositivismo de Viena, muda quando a teoria começa a se fixar, também, em outros tipos de tradução além da literária, que havia sido o tópico central da discussão até esse momento.

Em um contexto marcado pelo auge do comércio internacional, pela revolução tecnológica e pelo notável aumento da população alfabetizada (e coincidindo principalmente com o fracasso da linguística como marco dos emergentes estudos de tradução), surge o funcionalismo tradutológico alemão e, posteriormente, sua teoria do escopo. Como se sabe, essa teoria, com Vermeer, Reiß, Holz-Mänttäri, coloca o destinatário e o propósito da tradução no centro do debate.

A principal consequência de abraçar os postulados funcionalistas é o fim da noção estática da qualidade, substituída por um enfoque dinâmico, sensível a iniciadores e propósitos, a destinatários e especificações (Melby, Manning e Klemetz, 2005: 416). Definitivamente, a partir desse momento, entende-se que não existe uma tradução ideal (ora literal, ora livre) para todos os contextos e situações, mas, sim, que uma tradução é boa se respeita o propósito – a função – solicitado para o texto de chegada. Contemporâneo à escola alemã, surge o descritivismo (com autores como Toury, Hermans e Lambert), que negava a herança prescritiva. De acordo com essa teoria, uma tradução não tem que cumprir nenhuma característica prévia – como a presença ou a ausência de literalidade – para ser considerada uma (boa) tradução, mas é fundamental que o grupo que a receba a veja como tal (Pym 1995: 170). Consequentemente, o máximo que um pesquisador pode aspirar descobrir é o que cada sociedade entende por uma tradução de qualidade, ou seja, abordar seus estudos a partir de uma postura sócio-histórica. Essa escola, para além de seu relativismo, incide na variabilidade temporal do conceito de qualidade.

Em síntese, o vai e vem do conceito de qualidade aponta para seu caráter relativo, suscetível a mudanças no tempo e dependente de contextos, restrições e situações.

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[título del epígrafe] Os critérios de qualidade

Critérios são regras que nos permitem emitir juízos de valor. Na tradução, assim como em outras disciplinas, esses juízos devem ser claros, explícitos e fundamentados (House, 2001: 156). O dilema da literalidade não é o único critério abordado nos estudos sobre a qualidade da tradução. Para definir os critérios de qualidade na tradução, devemos considerar, ao menos, três fatores: o objeto sobre o qual se mede a qualidade; a definição do conceito de tradução; e, por último, três perspectivas ou eixos fundamentais do fenômeno tradutório.

Para começar, temos que definir o objeto cuja qualidade é avaliada. Em certas ocasiões, o próprio tradutor foi o objeto de análise; no entanto, é impossível estimar a qualidade do tradutor de forma direta, ou seja, se não é a partir do que é feito (o produto) ou de como é feito (o processo). Por essa razão, costuma-se propor critérios de qualidade dos produtos ou dos processos implicados no traduzir. Processo e produto estão interconectados: o produto é a consequência de um processo, e o processo, por sua vez, é a maneira como se resolve a vontade de criar um produto. A linha tênue que separa um elemento de outro (Vandepitte, 2017: 17) causa certa confusão na proposta de critérios de qualidade, pois, em certas ocasiões, não se sabe com exatidão a qual dos dois se refere.

Para seguirmos, há, ao menos, duas definições relevantes do conceito de tradução, o que explica por que surgem de forma constante novos critérios e mal-entendidos no estudo de sua qualidade. A descrição clássica corresponde à tarefa prototípica, segundo a qual um tradutor trabalha com um texto escrito em um idioma para recriar o mesmo texto em outro idioma, com conteúdo e extensão equivalentes (Melby, Fields, Hague et al., 2014: 397). Essa imagem é, na verdade, acadêmica, estática e estrita. Tem um alcance limitado, pois exclui muitas tarefas associadas ou integradas na própria atividade e fenômenos menos prototípicos, como os projetos coletivos e colaborativos, a localização, a transcriação, a tradução sintética, a tradução audiovisual e até a interpretação em todas suas modalidades. Diante da descrição clássica, Melby, Fields, Hague et al. (2014, p. 395) propõem outra mais ampla e dinâmica, segundo a qual traduzir é criar conteúdos a partir de especificações determinadas previamente e que guardam uma correspondência com outros conteúdos prévios. Uma definição assim – talvez também mais ligada à prática profissional – inclui todos os fenômenos citados e acarreta uma concepção diferente da qualidade, na qual cabem critérios múltiplos e adaptados aos projetos distantes do modelo clássico.

Para finalizar, a qualidade da tradução pode ser abordada a partir de três eixos dos quais derivam os critérios de qualidade específicos. Primeiro, podemos colocar a lupa sobre as convenções relativas ao entorno, sistema ou contexto ao qual o produto é integrado ou em que o processo é realizado. De acordo com esse eixo normativo, para que um produto ou um processo seja bom, deve ajustar-se:

Translating is an interpersonal—as opposed to interlinguistic or intercultural—cooperative text-production activity where production is constrained by social and cultural factors and guided by a principle of creative imitation.

(Muñoz 2017: 564)

Segundo, a ênfase pode recair no uso do produto ou do processo, motivada por uma intenção (normalmente a imitação criativa de um produto comunicativo prévio), assim como pela aplicação do texto a uma situação determinada (sobre as especificações ou requisitos implícitos e explícitos, ver Koby, Fields, Hague et al., 2014: 414). Segundo esse eixo funcional, para que uma tradução seja boa, ela deve funcionar.

Para finalizar, podemos acrescentar o rendimento que os participantes no ato comunicativo extraem do produto e do processo e a percepção conectada com a relação de custo-benefício. De acordo com esse núcleo econômico, para que um produto ou processo de tradução seja bom, ele tem de compensar. As próximas seções desta entrada explicam e ilustram que os critérios de qualidade dependem dos três fatores apresentados aqui: o objeto, as duas definições de tradução e os três eixos principais.

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[título del epígrafe] A qualidade do produto

O debate sobre a qualidade na tradução tem sido historicamente canalizado para o resultado da atividade, ou seja, para as traduções. No entanto, nos estudos de tradução ocorreu a mesma coisa que nos setores industriais: primeiro foi a estimação do produto e, só com o tempo, foi incluída a avaliação dos processos, como, por exemplo, o paradigma da “qualidade total”. Do ponto de vista do produto, e levando em conta os eixos expostos, podemos falar de três critérios principais da qualidade: a propriedade, a precisão e a satisfação.

A propriedade

O primeiro critério – que também é pertinente na avaliação de produtos monolíngues – é a propriedade. Às vezes esse termo é relacionado com o de fluidez, embora não sejam exatamente sinônimos. Quando uma tradução é apropriada, está adaptada às convenções da língua em que é criada; assim, esse critério engloba desde a correção gramatical até a legibilidade, passando pelo estilo e pela naturalidade.

Métricas de qualidade para a tradução automática da SDL Community.

O problema é que não existe uma única maneira de expressar-se com propriedade. Em uma visão ampla ou dinâmica da tradução, os aspectos vinculados ao critério de propriedade se multiplicam: determinados tipos de literatura, as comunidades profissionais mais especializadas, os âmbitos temáticos ou as modalidades mais ou menos híbridas trazem consigo concepções particulares sobre o que se considera um produto comunicativo apropriado em determinado contexto.

Assim, uma decisão tradutológica que se considere boa para um texto simples pode acabar não sendo adequada para uma dublagem, que coloca em jogo restrições e convenções próprias. Da mesma forma, uma expressão pobre ou rebuscada demais para um texto literário padrão pode não ser elegível para obras experimentais. Definitivamente, o critério de propriedade acarreta uma interpretação diferente e indícios de qualidade específicos.

Alguns exemplos dessa especificidade de critérios foram documentados na interpretação simultânea (ver, p. ex., a agradabilidade da voz, em Collados, 1998: 155), na interpretação telefônica (a qualidade do som, em Wang, 2018: 101), na dublagem (a isocronia, em Chaume, 2016: 20), na legendagem em tempo real (a facilidade para identificar os personagens ou a velocidade das legendas, em Romero e Pöchhacker, 2017: 150), etc.

A qualidade na tradução automática merece uma menção aparte, porque a análise do produto não é realizada para avaliar o sujeito (tradutor), e sim a máquina. Nesse âmbito – mais pragmático que teórico –, uma pessoa ou um sistema automático pode determinar a qualidade; entre eles se destacam GTM, TER e, principalmente, BLEU (Doherty, 2017: 133-135). Esses últimos, cada vez mais habituais, partem de traduções que servem como modelo e apresentam métricas que refletem o grau de similaridade da tradução pela ferramenta com relação aos modelos escolhidos, ou o número de passos necessários para transformar a tradução produzida pela máquina no modelo de tradução humana. Em outras palavras, a tradução produzida é mais apropriada na medida em que mais se assemelhe ao modelo de referência.

A precisão

O segundo critério, derivado do eixo funcional, é a precisão, que se relaciona com a informatividade proposta por Muñoz (2007: 259) e com a fidelidade. Uma tradução é precisa quando cumpre com a intenção com que foi criada; a pergunta é, então, para que se traduz. De acordo com a definição estrita do conceito, um texto é traduzido para criar outro que o represente em outro idioma em relação de similaridade variável. Esse objetivo de imitação criativa é dado como certo quando não há outras especificidades, de modo que, em geral, se entenderia que, quanto mais se pareça com o texto de partida, mais precisa será uma tradução.

No entanto, uma tradução pode se parecer ao texto de partida de diversas maneiras, todas a priori justificáveis se forem coerentes. Um exemplo é a tradução poética (ver as “formas” de traduzir poesia de Holmes, 1970: 94-99), na qual se pode dar prioridade ao conteúdo ou aos aspectos formais. Esses últimos, por sua vez, podem ser dirigidos a uma aparência filológica (como a tradução rimada) ou a uma semelhança funcional (verso livre a partir de um clássico rimado, em busca de uma nova modernidade do texto de partida no contexto de chegada). Há outros exemplos válidos, como o jargão, os períodos oracionais, a repetição léxica, etc.

Além disso, a precisão absoluta não é sempre desejável, como ocorre quando a tradução corrige erros presentes no original; quando a informação de partida é cortada – como a tradução sintética – ou, simplesmente, quando a teoria se encontra com a prática profissional (ver, por exemplo, a crítica de Lambert, 2018: 284, aos códigos de boas práticas em interpretação), frequentemente porque no mundo real as intenções são sempre múltiplas e nunca inequívocas.

Para essas situações, é aconselhável tomar o critério de precisão de uma forma mais relativa ou flexível. Por isso, seu critério tem mais a ver com a eficácia do que com a fidelidade (Muñoz, 2007: 261), a usabilidade ou até as expectativas do destinatário final, que, em última medida, pode comprovar se a tradução funciona.

O rendimento

O terceiro critério é o rendimento, que tem a ver com a relação de custo e benefício na criação de um produto. Uma tradução rende quando se percebe que o resultado compensa o preço. O relevante desse critério de qualidade, que responde ao eixo econômico, é que a mesma tradução pode ser avaliada como aceitável ou não em função de seu custo. Um caso paradigmático é o das traduções piratas de videogames e outros produtos audiovisuais realizadas pelos consumidores dos originais: os produtos são consumidos de forma gratuita nesse âmbito, mas não seriam avaliados positivamente pelos mesmos destinatários se esses as acessassem pelo circuito comercial.

No mundo empresarial, o rendimento não está relacionado somente com o preço dos produtos, mas também com a repercussão econômica. Assim, o grau de publicidade da tradução – ou seja, seu uso público ou privado – pode ser determinante, de maneira que textos medíocres podem ser considerados válidos se não prejudicarem diretamente a reputação da empresa; por exemplo, no caso de rascunhos de relatórios ou comunicações internas.

Para finalizar, os modelos de negócio em que os próprios clientes decidem quanto querem pagar em função da qualidade que aceitam (práticas interativas cada vez mais comuns na indústria) são um desafio para quem considera a tradução apenas a partir de sua definição mais estrita:

The initial globalization and outsourcing of translation services has been expanded exponentially through new crowdsourcing workflows with different specifications, crowds, technology support etc. This has allowed opening up the provision of quality with different quality tiers related to different production mechanisms rather than internal features of the final translated product, shifting the ultimate responsibility of the quality of the translation to customers who select the level of quality through a wide range of considerations, such as the available budget, permanence of the translation, potential risks involved, receiving audience, etc.

(Jiménez‑Crespo 2017: 489)

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[título del epígrafe] A qualidade do processo

O interesse por descrever o processo de tradução surgiu pouco depois que, nos entornos empresariais, assentou-se a ideia de que, para controlar a qualidade do produto, era preciso dar conta de todo o ciclo de criação. Nos estudos de tradução, o caráter de novidade desse enfoque faz com que a terminologia ainda não esteja assentada; assim, às vezes se diferencia processo de serviço (por exemplo, Kockaert e Segers, 2017: 148), embora, no fim, ambos os termos se refiram a como se traduz. O primeiro termo está mais ligado à definição clássica (o processo que é realizado por uma única pessoa, com um texto padrão), enquanto o segundo abarca uma quantidade maior de fases e de pessoas. O estudo da qualidade no processo de tradução não deveria ignorar nenhuma destas esferas: a individual e a social. Podem ser propostos, para ambas, dois critérios principais de qualidade, que dependem dos três respectivos eixos: a conformidade, a efetividade e a rentabilidade.

A conformidade

O eixo normativo no processo de tradução se concretiza no critério de conformidade no que diz respeito às normas profissionais em um entorno com convenções concretas. De acordo com esse critério, um processo de tradução é bom na medida em que se ajusta às normas e convenções mais ampliadas em vigor.

Como em muitos outros serviços profissionais, a importância crescente do processo nos estudos de tradução incentivou o surgimento de normas de qualidade. As normas, ou padrões, são pautas propostas por comitês de especialistas que se dirigem à harmonização (Heard, 2017: 747), isto é, à concordância de produtos e processos. Na prática, também são implementadas para dignificar a profissão e como publicidade, além de terem certa similaridade com os códigos deontológicos e de boas práticas (outro tipo de normas mais relacionadas com a prática profissional do que com a qualidade).

Portada de la norma UNE-EN ISO 17100:2015/A1:2017, facilitada por la UNE
Capa da norma UNE-EN ISO 17100:2015/A1:2017, disponibilizada pela UNE.

No campo da tradução, foram propostas diversas normas de qualidade, desde a UNE-EN-15038, 2006 (CEN 2006) até as mais modernas, como a SAE J2450_201608 ou a ISO 17100:2015 (ISO 2015). A maioria cobre os textos de partida e as traduções; a cooperação entre clientes, trabalhadores e provedores; seus direitos e deveres; a seleção de tradutores; a organização do processo (preparação, gestão de projetos, revisão, correção de provas, etc.), assim como uma seção terminológica em que são definidos os conceitos mais comentados.

Like many other industries, translation is increasingly bound by internationally agreed standards for service provision, through bodies like the CEN (European Committee for Standardization) and ISO (International Organization for Standardization). Establishing objective quality criteria has traditionally been seen as contentious, if not impossible, in translation studies; but in the real world, such criteria have indeed been defined and are increasingly applied to LSPs’ work.

(Drugan 2013: 1)

Por um lado, o exercício individual inclui as pautas que afetam a leitura, a redação, a revisão e as operações mentais que são desenvolvidas para cada tarefa. Por outro, no exercício coletivo, cabem questões relacionadas à prestação do serviço (desde contratar tradutores até implantar controles internos de qualidade), assim como normas e ferramentas para fases específicas, como usar memórias de tradução ou sistemas de tradução automática, o trabalho documental ou a gestão terminológica (ver, por exemplo, Chiocchetti e Lušicky, 2017: 171).

A efectividade

O eixo funcional aplicado ao processo de tradução corresponde ao critério de efetividade. Para além das convenções e normas vigentes, o próprio tradutor ou a empresa de tradução podem agir de acordo com convicções próprias. A conformidade com os padrões de qualidade não tem por que aclarar resultados aceitáveis em todos os casos possíveis. Essa falta de eficácia é, de fato, uma das críticas mais comuns às normas de qualidade, e também no campo da tradução (Heard, 2017: 747-748).

Não existe uma maneira única de fazer bem as coisas: enquanto o critério de conformidade é imposto de cima para baixo, o de efetividade emerge de baixo para cima. Tem a ver com o caráter dos participantes concretos, com suas preferências e vícios, os quais podem conduzir ao sucesso mesmo sem se ajustar ao padrão. Um tradutor pode render melhor em condições distantes da norma, como em situações de estresse (De Rooze, 2003: 65) ou trabalhando de madrugada. Da mesma forma, uma empresa pode adaptar um padrão a sua própria idiossincrasia e, fiel a ela, alcançar um sistema que funcione em cada elo da cadeia graças à participação dos trabalhadores. Outras vezes, a prática se adapta ao próprio cliente, que pode formular exigências, às vezes para baratear custos – embora não somente com esse objetivo –, como designar uma tarefa a estagiários, usar glossários defeituosos ou anglicismos evitáveis, não pós-editar um produto de uma tradução automática, etc.

Outra diferença entre os critérios de conformidade e efetividade é que o segundo é sempre concreto e depende das metas de cada projeto, cujo procedimento se considera bom quando funciona. Para medir a efetividade, devem ser efetuadas verificações em cada fase, controles frequentemente fixados de antemão entre o cliente e a empresa e entre a empresa e seus trabalhadores. O diálogo é importante na implantação de sistemas de qualidade flexíveis, personalizáveis e modificáveis ao longo do tempo, que aproveitem o melhor da norma e o melhor da inovação, como as experiências mistas que Drugan (2013, p. 180-181) recomenda: iniciativas que combinem enfoques de cima para baixo (mais hierárquicos e tradicionais) com enfoques de baixo para cima (de caráter mais aberto e colaborativo). Os primeiros contribuem, por exemplo, com uma maior capacidade de investimento ou de implementação de boas práticas, enquanto os segundos tendem a ser mais dinâmicos e a contar mais com a opinião dos usuários finais (Drugan, 2014: 115-116).

A rentabilidade

O núcleo econômico no processo de tradução está intimamente relacionado com o critério de rentabilidade. Um processo é bom se o tradutor ou a empresa percebem que sua implementação compensa. Toda organização tem alguns custos, não só monetários, mas também de esforço e tempo investidos (“tempo é dinheiro”). Um plano pode incorporar revisões sucessivas de uma tradução por sujeitos diferentes, o que pode gerar um produto de alta qualidade. No entanto, se o processo for custoso demais (seja em termos de dinheiro ou de recursos), o próprio tradutor ou a empresa podem descartá-lo. Por outro lado, um plano pode ser complexo, mas produtivo para o tradutor, que, apesar do esforço, pode extrair um ensinamento que o ajude a melhorar no futuro, a automatizar processos, etc. De acordo com o critério de rentabilidade, a experiência é relevante: o processo é bom se implica uma melhora em relação ao anterior, e é ruim se supõe um retrocesso.

Esse critério tem certa relação com os de produtividade (Sánchez-Gijón, 2014: 438) e eficiência (Muñoz, 2007: 261). Pressupõe atender toda ação que tem como objetivo melhorar os mecanismos internos ou o sucesso empresarial em seu conjunto, como, por exemplo, as campanhas de marketing, a repercussão e a marca, os valores promovidos, a contratação de trabalhadores mais eficazes ou a aposta na formação contínua. Finalmente, do ponto de vista coletivo, a rentabilidade também compreende questões relacionadas com o potencial do trabalhador, sua saúde ou a responsabilidade social corporativa, pois um processo rentável compensa toda a rede que participa da criação dos produtos, especialmente os tradutores.

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 potencial para la investigación Potencial de pesquisa

Do ponto de vista do produto, a transformação constante da atividade (com novas modalidades e tarefas incrustadas na prática da tradução) torna inevitável a ampliação do critério de propriedade para definir, com maior precisão, como são os produtos aceitáveis em cada âmbito e em cada momento. A respeito do critério de precisão, cabe seguir apostando em estudos empíricos e experimentais (aproveitando tecnologias cada vez mais habituais, como o rastreamento ocular, o registro de tecla, o tempo de reação e a frequência cardíaca) para comprovar, por exemplo, de que maneira se flexibiliza a reprodução das informações prévias em situações em que o esperável é precisamente uma redução ou uma amplificação do que o texto de partida sugere. A discriminação consciente ou inconsciente de determinados elementos poderia apontar para uma hierarquia na importância que os tradutores dispensam às informações que extraem dos textos que traduzem.

No que se refere ao critério de rendimento, pode-se apostar nos estudos baseados na resposta do destinatário – levando em conta os diferentes tipos de qualidade, como os do modelo de Kano – e indagar sobre os níveis de aceitabilidade que surgem nos diferentes entornos dos quais os tradutores participam (Muñoz, 2010: 151-152). Um exemplo disso é a evolução na aceitação de ferramentas e metodologias inovadoras, como na tradução automática ou nas traduções colaborativas não profissionais. Por outro lado, existem ainda mais possibilidades do ponto de vista do processo, dado que esse conceito leva menos tempo em primeira linha de pesquisa e, consequentemente, ainda existem diversas áreas que não foram exploradas. O critério de conformidade será frutífero à medida que a indústria seguir evoluindo de modo que surjam novas normas, cada vez mais específicas, ao mesmo tempo que refinem e substituam as já existentes.

Para um aprofundamento do critério de efetividade, é preciso conhecer as similaridades entre os processos que, embora diferentes, funcionam igualmente. Para isso, é útil tomar como referência estudos relacionados com perfis de tradutores ou estilos de traduzir (como é o caso de Dragsted e Carl, 2013) e com os processos seguidos nos centros de trabalho (ver Risky, Rogl e Milošević, 2017: p. 3). Para finalizar o critério de rentabilidade, teríamos que perguntar, a partir de enfoques cognitivos, como os aspectos que podem supor um valor adicionado ou tácito para o próprio tradutor ou para a própria empresa afetam o processo de tradução: em particular, pode-se analisar o papel que a remuneração ou a repercussão obtida com respeito à reputação e às possibilidades de negócio desempenha no processo.

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